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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quinta-feira, julho 29, 2004

Tan de Repente

Estou muito triste com tudo (o trabalho, a vida, o curta), mas vou tentar escrever algo sobre Tan de Repente, aproveitando esta "onda de cinema argentino" que me assolou recentemente...

Tan de Repente
de Diego Lerman, Argentina, 2002
**

Tan de Repente poderia ser várias coisas, entre elas o road movie libertário, ou ainda um filme sobre o desejo e os preconceitos. Mas o filme é muito mais sobre as aparências, e como elas revelam uma parte de nós extremamente "resistente" e difícil de superar. O filme é bem livre em termos de linguagem, com planos longos que se cruzam com sequências curtas e sensoriais. As três meninas que se encontram nas ruas de buenos aires acabam passando por uma experiência transformadora, mas sem que se busque uma redenção, ou um discurso didático. A estrada não é caminho, nem ao certo caminho de fuga, mas de uma certa forma espelho de um desejo esguio de ser. Claro, aqui há mais psicologia que em O Pântano, busca-se uma identificação, mas o que convence em Tão de Repente é como essa "anatomia da incerteza" se converte no próprio discurso cinematográfico, em como esse tecido epidérmico das relações humanas se revela necessário e ao mesmo tempo insuficiente, e como as personagens trafegam ora inseguras ora indefesas. Cúmplices, solitárias, amigas e exorcistas, esse trio, entre o amor, a amizade e o desprezo, divide com o espectador seu desafio do acolhimento e do repúdio, suas pequenas vinganças e suas impossibilidades, com uma visão de dramaturgia que supera as meras relações de causa-e-efeito. A se notar: mais uma fuga do centro urbano para a periferia, mais um encontro com a antiga geração como sinal de fracasso ou de impossibilidade, mais uma vez a Argentina.

Ah, O Pântano e Tan de Repente, dois primeiros filmes. Alguém ainda se lembra do post sobre De Passagem?????

Matadores de Velhinhas

Matadores de Velhinhas
dos Irmãos Coen
*

Muito difícil falar sobre esse Matadores de Velhinhas. Eu já tinha desistido do cinema dos Irmãos Coen desde E aí meu irmão, mas esse eu resolvi conferir, até pq gosto muito do original do Mackendrick. Mas é difícil exprimir meu sentimento diante desse filme, e o que posso dizer é que há muito tempo eu não ficava tão triste (deprimido mesmo, desanimado) depois de ver um filme. Que a vida é ruim, tudo bem, isso a gente sabe, mas pelo menos o cinema a gente espera que tenha algum fôlego, algum desejo, algum sentimento verdadeiro.

E essas linhas poderiam focar o tal “formalismo” dos Irmãos Coen recentes, etc. Mas nem é isso: é um CINISMO que domina todo o filme, no tom afetado dos personagens, na abordagem ambígua do cinema de gênero, do filme de época, e do remake. E, claro, o humor negro é ideal pra isso.

O personagem de Tom Hanks é um espelho dos irmãos diretores. Por trás de seu ranço intelectual, está a picaretagem, está o roubo da fortuna do navio-cassino, mesmo que essa grana nada represente (alguém lembrou de Hollywood?).

Tudo no filme me pareceu falso, forçado e extremamente doloroso.
Uma estrelinha pq é bem filmado, embora isso não represente nada.
Os personagens patetas dos Irmãos Coen não tem mais doçura: eles passeiam na tela com um profundo esforço e um pesar.

O gato jogando o dedo do cara na carga do navio é uma das mais dolorosas cenas já vistas recentemente no cinema sobre o destino, sobre a impossibilidade do cinema, e sobre a crueldade do cinismo.

É só, tenho que ir almoçar.

trailler

Parece brincadeira, mas ontem um trailler me levou às lágrimas... Foi o de Anything Else, e engraçado que eu já o tinha visto, mas tinha gente ao redor, era diferente. Ontem no Paissandu qdo fui ver Matadores de Velhinhas às 21:50 (que beleza um cinemão daqueles sozinho....) passou o trailler, e foi irresistível. Pra quem acompanha com carinho os irregulares últimos filmes do Woody Allen, tudo é extremamente comovente. Allen, na maturidade, um cineasta extremamente conhecido, quer se reformular, parece profundamente infeliz. Infeliz por um “simples” fato: seus filmes não são vistos, o artista está longe de seu público. E nesses últimos filmes ele tenta meio atabalhoadamente esse “retorno”, esse contato. Mas nada que chegasse ao ponto de Anything Else: uma comédia romântica adolescente com Cristina Ricci e Jason Biggs (sim, de American Pie). O resultado, não sabemos, mas pelo trailler já dá pra ficar claro tudo o que está em jogo neste filme. E o que está em jogo está profundamente associado à natureza do cinema (indústria? Arte?) e na (im)possibilidade de o cinema conseguir traduzir para a tela alguma experiência minimamente humana e pessoal.

terça-feira, julho 27, 2004

O Pântano

O Pântano
La ciénaga, Lucrecia Martel, Argentina, 2002
***

Finalmente tirei o raios da minha carteirinha e vi O Pântano. É incrível, primeiro pq não é aquele filme de arte estiloso e parado (ou seja, o estereótipo burro do filme cabeça). Mas mesmo o uso da linguagem é impressionante, pq o filme não tem aquela obsessão pelo quadro (ele brinca com uma linguagem documental) mas qdo quer é absolutamente rigoroso, inclusive na criação de climas.

O filme é uma comédia, quase alegórica (me lembrou que se a Ana Carolina realmente fizesse cinema faria um filme parecido com esse), ao mesmo tempo é um filme de terror (me lembrou às vezes até de Elefante). Isso porque é um dos filmes mais violentos que vi ultimamente. Tudo cheira a sangue, é como se estivéssemos na trincheira. E mesmo quando não há sangue, há uma puta tensão (uma lâmpada estourando, um menino apontando a arma se querer quase na cabeça do outro), quando esperamos que vai haver uma tragédia que nunca acontece (até quando?). O sangue aparece o tempo todo no filme, e ele é combinado seja com o vinho (o início deixa isso claro) e tem um contraponto com a água. A água está no filme o tempo todo (chuva, banhos...) como se houvesse uma necessidade de os personagens se lavarem e não conseguirem (as toalhas....) – (e o que é aquela piscine? E aquele dique?)...

O filme tbem trabalha a questão de sexualidade no sentido de uma tensão. O tempo todo a gente acha que um irmão vai agarrar o outro, ewtc, etc.

A parte mais sinistra do filme é quando os garotos checam o cu do cachorro pra vere se os índios comeram ou não – política, documentário, violência e sexualidade – talvez a síntese desse trabalho provocador e perturbador.

Ah, teve grana da Riofilme??? EU TBEM QUERO................

guerreiro

Por incrível que pareça eu chego a ficar emocionado com a força do cinema brasileiro, do empreendedor. Depois do furioso sprint de Maria, que começou bem mal na primeira semana, morno na segunda, e bombou a partir das demais, agora é a vez do Didi quer ser criança. Tinha tudo para dar errado: tinha Turma da Mônica, tinha Garfield, tinham os blockbusters (HA2 e cia), tinha o lançamento no Rio que teve que ficar adiado, o filme praticamente boicotado nas salas da Zona Sul, e mesmo assim o Diler é valente, e o Didi (mesmo com bonequinho saindo do cinema dado por quem? quem? quem?) na terceira semana teve aumento em relação a semana anterior, chegou ao meio milhão. Se bobear, vai passar o Nem que a vaca tussa. Deve chegar a um milhão, talvez um pouquinho mais (1,2mi), o que para as circunstâncias, mostra a força do produto.

Por outro lado, Turma da Mônica não chegou a 150mil, lançado por quem? quem? quem? ... a UIP, que mais uma vez comprova que: 1) ou não sabe lançar filmes (tenho as minhas dúvidas), 2) não quer lançar os filmes brasileiros (mais provável), 3) ou que dá uma colheradazinha nos números (xiiii....)

domingo, julho 25, 2004

céus

Gente, honestamente, não aguento mais resolver os problemas do meu primeiro curta. Tudo bem que na minha vida tudo tem que ser sofrido, mas - céus! - pera lá...
Vai ter que ficar pronto pra Brasília de qqer jeito...
Deus, dai-me forças, pq quero fazer outras coisas da minha vida...

saudade

ver os filmes do tanko me deu uma saudade do querido Pedro Camargo, de quem sou muito devedor.
um dia (quem sabe..) ainda passe Massacre no supermercado...
tem mais dois tankos pra esse ano, na mostra nelson rodrigues: asfalto selvagem e engraçadinha depois dos 30. Curioso esp pelo primeiro.

sábado, julho 24, 2004

Dois argentinos

Histórias Mínimas
de Carlos Sorin, 2003
**

Lugares Comuns
de Adolfo Aristarain, 2002
**

Finalmente vi os dois argentinos apoiados pela ANCINE (ainda falta el bonaerense), e ambos foram acima e abaixo de minhas expectativas, e são dois filmes bem próximos e bem distantes.

Por um lado, HM é um retrato intimista de uma Argentina interior, na simplicidade da poesia de seus pequenos elementos, na generosidade do diretor em promover um diálogo honesto entre gente simples. Por outro, é um cartão-postal da Patagônia, ou o filme de arte para festival tão verdadeiro em seu percurso quanto Central do Brasil.

Por um lado, LC é uma narrativa acadêmica com um discurso político didático. Por outro, é um retrato angustiante sobre a derrota de uma geração, ou sobre a lucidez do fim da utopia, ou sobre a inevitabilidade do envelhecimento.

De um lado, HM = A História Real; de outro, LC = As invasões bárbaras.

De um lado, um conflito entre uma Argentina interior e a cidade de San Julien em HM; de outro, entre Buenos Aires e Madrid, em LC.

Dos dois lados, sonhos partidos: pequenos em HM, grandes em LC.
Nos dois, a questão rural, como caminho de resgate à inocência.
Nos dois, dois cineastas de 60 anos (não são filmes da nova geração).

Em ambos, a Argentina: grande, pequena, partida, querida.

sexta-feira, julho 23, 2004

Quem É Jakubisko?

Juraj Jakubisko: Introduction 

 

For over 30 years Juraj Jakubisko has plundered Slovak folklore, song and dance to conjure a series of baroque, often absurd fables of love and death. Originally trained in the graphic arts, Jakubisko enrolled at FAMU, the Prague Film Academy. He graduated in 1966 at the height of the Czech New Wave, and the following year completed his debut feature, The Crucial Years. Ironically for a director often dubbed the 'Fellini of the East', Jakubisko cites Antonioni as his first love during these formative years. Nonetheless, it was for his second feature, The Deserter and the Nomads, that Jakubisko first drew upon rich childhood memories of life in Kojsov, a remote village on the slopes of the Carpathian Mountains, to inform his own distinctive vision.

 

The events of 1968, both at home and abroad, had a profound impact on Jakubisko. Much of the director's work is governed by the thought that to be free you have to be a fool, and to be a fool you have to be free. Whilst being championed abroad by Federico Fellini, at home, in wake of the Prague Spring, Jakubisko was placed firmly on the hit list of President Husak, whose job it was to curb the relative freedoms that accumulated under the regime of Alexander Dubcek. The Deserter and the Nomads and its follow-up, Birds, Orphans and Fools were both banned, and shooting was halted on See You in Hell, Friends! For much of the next decade Jakubisko was prevented from working. However, rather than move abroad, he chose to stay in Czechoslovakia during this bleak time. Occasionally, Jakubisko would be assigned an innocuous documentary project to test whether or not his 'mistaken art attitude' had been rectified.

 

Nine years later he was perceived as sufficiently safely rehabilitated to man a camera, but only with a realist script about a positive socialist hero, Build a House, Plant a Tree. Unable to compromise, Jakubisko rewrote the script in accordance with a phrase well-worn in socialist countries: 'He who is not stealing from the government is stealing from his own family'. Despite a successful premiere abroad, the film was banned in Czechoslovakia. No such conditions were imposed in 1983 upon The Millennial Bee, an epic Czechoslovak-German co-production, and with this film Jakubisko affirmed his status as one of the pioneers of magic-realist cinema. Two years later, Giulietta Masina, after a break of 18 years, returned to the screen in Jakubisko's Brothers Grimm adaptation, The Feather Fairy.

 

But by the end of the 80s Jakubisko sensed change, and put fairytales aside in favour of a taboo subject: the communist takeover in the wake of World War Two. When shooting was completed on I'm Sitting on a Branch, Enjoying Myself, many of Jakubisko's colleagues predicted the end of his film-making career. However, the authorities now lacked the power to suppress Jakubisko's film, and three months after its premiere the Berlin Wall fell. Perhaps Jakubisko's most resonant film was his next, It's Better to be Healthy and Wealthy than Poor and Ill, which toyed with the notion of a separated Czechoslovakia a matter of months before the actual split occurred, and starred Dagmar Veskrnova, the future first lady of the Czech Republic.

 

Jakubisko, widely regarded as the greatest Slovak film-maker, braved accusations of defection when he moved his production operation to Prague during the mid-90s. However, any notion that the director had sold out was spectacularly quashed in 1996 when Jakubisko unveiled his most ambitious and most expensive project to date, An Ambiguous Report About the End of the World. Whereas most of the New Wave's brightest talents buckled under the 'freedom' of the commercial market place, Jakubisko's vision remains as focused as it was under the old regime.

 

Daniel Bird

 


É melhor ser rico e saudável do que pobre e doente


É melhor ser rico e saudável do que pobre e doente
Juraj Jakubisko, Eslováquia, 1992
** (talvez ***)

Jakubisko (ah, esses vces não conhecem...) começou a fazer filmes na nouvelle vague tcheca (estudou na FAMU), ficou mais de uma década sem filmar, e voltou nos anos 90. Passou na Mostra Européia um filme de título bem interessante (Um relatório ambíguo sobre o final do mundo), que parece que é o filme mais caro da história do cinema tcheco.

Há filmes que se aventuram pelo mundo dos sonhos; outros, que preferem o mundo real, mas o que fazer se a nossa vida do dia-a-dia está sempre tão cheia de sonhos?? O que encanta nesse irregular filme de Jakubisko é essa corda-bamba, o despojamento e a liberdade de sua visão de cinema, esse seu “imiscuir-se” (o termo é esse...) de suas personagens marginais com ternura e encanto, é descortinar o cinema como uma janela dos sonhos e como abismo da crua realidade. Puramente cinematográfico, Jakubisko passeia por um cinema dos anos noventa completamente estilhaçado, em que a grande quimera é sobreviver.

A história é de duas mulheres abandonadas por seus homens, uma delas que desiste de um famoso político eslovaco, e tentam ganhar a vida na Eslováquia pós-fim do comunismo, início do capitalismo. Elas fazem trapaças, negócios escusam, roubam, prostituem-se (ou quase isso), mas o filme é leve e de ótimo bom humor.

A história é o de menos, apesar de o filme ser narrativo. O que encanta é a capacidade de Jakubisko de se metamorfosear através de mil histórias, são os pulos narrativos, é o filme em espiral, num ritmo alucinante, no domínio do corte seco pulando para outro espaço, outro tempo. Mal comparando, pode até lembrar de Guel Arraes, mas aqui é menos esquemático, mais livre, e tbem beeem mais político. A política, a necessidade e o descontentamento com o fim do comunismo e o início do capitalismo estão o tempo todo presentes no filme, mas o filme é quase um avesso do “filme político”, já que nada é didático ou simbólico )o que seria ainda pior). O “passeio” das duas mulheres entre a Rep Checa e a Eslováquia é muito mais contundente que a viagem carola de um Central do Brasil ou a descoberta de um Che no Diários da Motocicleta. Aqui, por trás do humor de Jakubisko, o “espelho partido” de um país e de um regime são vistos de forma muito mais visceral e orgânica.

A profusão do corte, o tom de delírio, às vezes chegando a cair praticamente num realismo fantástico, a brincadeira ambígua com a própria estética televisiva (a tela vira uma Tv, a trilha melosa...), o despojamento da vida das personagens que vivem de seus momentos, tudo isso descortina um desejo insano de Jakubisko pelo básico do cinema: que ele desperte nossas paixões, que ele nos conte histórias  e histórias de vidas, que ele nos entretenha, que ele tenha um pé na realidade... que ele mostre um olhar do realizador. Este pequeno filme eslovaco me surpreendeu nesse viço, nesse desejo de estar filmando, me trouxe, pelo menos durante uns 100 minutos, um prazer muito improvável para minha vida pessoal (ou seja, que inveja!!!), e no resto desse meu dia fiquei pensando como a vida poderia ser boa se eu tivesse um pouco da coragem e da generosidade dessas pobres mulheres enganadas pela vida e pelos homens, e que são felizes (mesmo) assim.

O título vira uma declaração de princípios do cinema enérgico de Jakubisko.


quinta-feira, julho 22, 2004

Blog do Bonequinho

Bom, eu nunca fui de ver o tal blog do bonequinho, mas primeira vez que o fiz quase caí da cadeira. Caramba, o Jaime Biaggio abriu um post para colocar momentos que as pessoas discordaram do bonequinho. Ta na chuva, é pra se molhar, então um tal de João das Couves (????!!!!) lembrou o eterno caso do Gente da Sicília. Bom, normal. Normal? O Biaggio começou a rasgar impropérios com um rancor que há muito tempo eu não via. Sinal de que devem ter batido fundo as tais críticas à crítica (já histórica) do Gente da Sicília.
 
Até aí tudo bem, mas ainda tem mais, o que é o mais esquisito. Alguns dias depois, saiu crítica do Biaggio no Globo sobre O Pântano. A crítica era super elogiosa (bonequinho batendo palma de pé) só que o tempo todo o Biaggio reagiu que não é que ele estivesse dando o braço a torcer para a “turminha” (quem será??? ohhhhhhhhhhhhhh!), etc, etc.
 
Dou um doce pra quem falar o nome da turminha .................................


Silêncio

Silêncio
De Michal Rosa, Polônia, 2001
*  (talvez até 0 mesmo)
 
Acabou sendo imperdível este segundo longa do polonês Michal Rosa não pelo diretor ou pela recepção do filme nos festivais internacionais, mas pelo simples fato de seu roteiro ter sido feito por ninguém menos que K. Piesewicz. Pra quem não conhece (oh!!!!), é o roteirista dos filmes do Kieslowski. O roteiro de Silêncio é praticamente chupado dos outros filmes do KK, mas aqui não há aquele frescor de novidade, algum espírito de (re)vitalização ou mesmo de revisitação. Tudo fica esparso e solto, o que só nos faz lembrar do imprescindível fato que os filmes de KK tinham roteiro de Kieslowski e Piesewicz, enquanto este tem roteiro de Piesewicz.
 
Dito isto, se o pessoal do contra já reclama que a dupla vida de veronique e a trilogia são “muito bonitinhas”, são o cinema de arte no sentido pejorativo, imagine este Silêncio!!!!! Numa Europa globalizada (a Polônia só fez parte da União Européia depois desse filmes, mas é como se fosse...), Silêncio é absolutamente acadêmico, com um esmero técnico digno de nota mas fútil em relação a trazer isso para a dramaturgia, para a construção do filme.
 
Poderia aqui listar as n referências aos outros filmes de KK, mas sinceramente isso á absolutamente vão. Me impressionou em se tratando de Piesewicz em como os personagens são mal desenvolvidos em suas motivações. O diretor não segue a cartilha de Kieslowski, mas o filme não tem estilo, e de vez em quando um corte abrupto ou um flashback/flashforward tenta dar à estrutura do filme alguma dinâmica.
 
De qqer forma, muito desapontador.

quarta-feira, julho 21, 2004

De Passagem

De Passagem
Ricardo Elias
* (talvez **, acho que não...)
 
Parece papo pra boi dormir mas cada vez mais se torna mais e mais difícil ver um primeiro filme, ver uma estréia de longa-metragem. Em De Passagem há muito para se falar sobre isso, sobre o que é um primeiro filme, sobre todo um cuidado que se deve ter com um trabalho que está apenas começando e por outro lado até que ponto este trabalho deve ser uma espécie de “declaração de princípios” do realizador. Ou seja, como é importante e como é vão um primeiro filme.
 
Em De Passagem há tudo isso. Porque de um lado parece claro o que atrai o diretor para o filme, e dessa proposta surgem os méritos do filme: a honestidade da encenação, o olhar para a periferia sem os clichês de sempre (alguém pensou em Cid....?), o cinema humano, a amizade e o papel do reencontro, etc.
 
Mas de outro lado não dá pra negar que De Passagem em alguns pontos desaponta, e para mim isto está relacionado a dois pontos: o roteiro e a decupagem. Porque ainda que seja um primeiro filme, ainda que seja BO (as condições de produção bem simples, etc.): são estes dois fundamentos que não dependem da grana, que dependem de um trabalho de planejamento prévio do diretor, que apresentam como o diretor CONSTRÓI este olhar, em como se apresenta a sua habilidade em transformar sua “declaração de princípios” na construção de uma obra de cinema.
 
E quando falamos nisso, (especialmente a bendita decupagem) De Passagem é muito tímido, ainda desvela uma falta de intimidade do realizador com seu ofício. Na dificuldade em determinar um ritmo, na falta de criatividade dos elementos de transição ou de passagem de tempo (e nem falo nos flashbacks, que acho qté bem resolvidos em termos da transição...), no corte do plano geral para o plano próximo, em determinar uma geografia (ou uma cartografia) do plano que contribua para a dramaturgia (esp no interior dos trens e ônibus), etc etc etc, De Passagem é um filme que poderia ser muito mais se houvesse um trabalho de base, uma maior consciência dos elementos de linguagem, num trabalho de direção mais consistente.
 
Mas não deixa de ser comovente e honesto, e não podem ser desprezadas as virtudes deste filme. Há um plano quando o Sílvio Guindane espera a resposta de Kennedy (Fábio Nepo) se ele reconheceu o corpo do irmão que é o grande plano do filme: um plano-seqeuência em close da expressão de Sílvio, segurando uma lágrima que acaba não caindo.
 
Ah, tem a trilha sonora, muito, muito ruim mesmo, chega a prejudicar o filme.
 
Fiquei também com a impressão – parcial e ultra-calhorda – que em várias medidas De Passagem pode ser (ou poderia ser) um exemplo para o atual cinema brasileiro, seja no modo de produção, seja no tema (o específico brasileiro e o cinema para exportação).

quinta-feira, julho 15, 2004

Tanko (VI) - Garota Enxuta

Garota Enxuta
De J.B. Tanko, 1959
*
 
Mais um Tanko, mais um da “didática do correto”, com Ankito, Agnaldo Rayol e Nelly Martins. A filha do presidente de uma fábrica de automóveis quer, contra a vontade do pai, cantar num programa de TV. O dono da emissora a confunde com a filha do Presidente da República, e disso saem mil confusões (ora querem que ela cante, ora não...). Pouco a comentar. A distribuidora não é a Cinedistri, e sim uma tal de Sino. A abertura é criativa (esp a luz que pontua o palco), o início é com um show bem mais escuro que a médias dos filmes da HR, bem interessante. O sempre competente Renato Restier está muito careteiro, o filme cai de ritmo, nunca chega a empolgar. É um dos mais fracos.
 
Acabaram meus Tankos da Herbert Richers.


terça-feira, julho 13, 2004

Tanko (V) - Marido de Mulher Boa

Marido de Mulher Boa

De J. B. Tanko, 1960

**

 

Voltando aos Tankos, uma boa surpresa, este Marido de Mulher Boa, coincidentemente (ou não...) do mesmo Zé Trindade, do ótimo Mulheres à vista. A “didática do correto” de Tanko mais uma vez se aplica, com a economia e a simplicidade (às vezes sábia) de sempre, embora às vezes com um certo arroubo de artesão (esp o início, sobre os créditos, em que a câmera passeia, embora ainda discreta pelo salão e descreve o ambiente das atendentes). As trapalhadas com o resgate do tal bilhete premiado se mesclam com uma visão da sensualidade, muito presente no filme, nitidamente expressa na polaridade dúbia (e meio cafajeste...) do título do filme. As mulheres são decididas e lutam contra os homens pelo que querem, aspecto muito positivo, que eu já tinha ressaltado no depois eu conto do burle. O filme tem um timing muito acertado, diálogos em cheio, e fora do estilo careteiro que às vezes irrita na chanchada (nisso, Zé Trindade é excelente...). Ao final, me impressionou muito a cena em que a funcionária finalmente se veste de noiva, olha com desconfiança enquanto sobe a escada até chegar seu noivo. Há um entrecho, e o filme acaba com um típico final desse artesão que é o Tanko: um carro que leva o casal é seguido por um monte de crianças, correndo pelas ruas. Esse final libertário (em termos de classe social, em termos de fuga, em termos da redescoberta do espaço aberto, da externa...) me parece bem “tankiano”.

segunda-feira, julho 12, 2004

Quem Roubou Meu Samba?

Quem Roubou Meu Samba?

De José Carlos Burle, 1959

*

 

Este já não é tão bem-sucedido quanto Depois Eu Conto pelo simples (e mais que suficiente) motivo que Rio, Zona Norte já tinha sido feito antes (é de 1957). Os dois são sobre os direitos autorais e o compositor popular, mas Rio, ZN é muito mais contundente, muito mais poético, muito mais cinema. É certo que mais uma vez Burle afirma sua visão em favor de um cinema popular, de uma exame implícito das relações das classes sociais, mas nada acrescenta em relação ao já visto em Depois eu conto.

Depois eu Conto

Depois Eu Conto

De José Carlos Burle, 1956

**

 

Esse primeiro filme do Burle que eu vi me pareceu em muitas medidas uma síntese de sua filmografia: um olhar para um cinema popular (o que quer que essa palavra signifique), um certo rigor mesmo numa estética de cinema clássico, a questão social. Na história do Zé da Bomba (Anselmo Duarte, muito bem) que quer casar com uma mulher rica e largar a pobre da Eliana, o que impressiona é o certo sarcasmo do personagem. Há um diálogo dele com um colunista social que quase desmascara a estratégia do filme: o filme é em muitos sentidos uma tentativa de acerto de contas com a hipocrisia da sociedade. É também nesse dasabafo uma espécie de manifesto ligeiramente rancoroso, que tbem mostra a impossibilidade do próprio Burle fazer os filmes que gostaria, e voltar para as chanchadas. Depois eu conto é também – dessa forma como eu vi – uma pequena homenagem ao cinema de Frank Capra, nessa generosidade do cotidiano, no discurso ético, na aposta franca (embora Burle seja um tanto mais sarcástico que Capra). Mais: Eliana luta pelo seu amado, vai à festa procurá-lo, não se faz de vítima nem rogada, atira objetos nele quando não gosta de uma resposta, tem atitude. De qqer forma, esse “desmascaramento da hipocrisia” é que dá ao filme um tom muito menos ingênuo e tolo (sim, tenho que admitir agora...) do que as outras chanchadas do Tanko (exceção de Mulheres à vista) que eu tinha visto anteriormente.

sexta-feira, julho 09, 2004

mais sobre mekas

A coisa do Mekas é que ele pega as menores coisas: para ele nem mais o plano tem um sentido unificador; é uma coisa da linguagem, da sensação, do minúsculo como fonte única de sentido. Mas todo o seu filme tem um desejo pelo mundo, pelas coisas, pelo cinema, absurdo--- e talvez disso fique o resultado grande.

 

Sei lá, eu achei a coisa mais bonita do mundo ele dedicar o Walden aos Irmãos Lumière. O Wenders também fez seus curtas esquisitos pensando nos Irmãos Lumière (inclusive o espectacular Silver City, que é o melhor curta do mundo). É isso.............

crise tankiana

Ainda tem mais dois tankos pra eu ver, mas o primeiro burle foi uma ducha de água fria: o burle sim tinha uma consciência (de linguagem, do “sentido do filme”) bem maior: ou seja, tinha uma proposta bem mais interessnte que só “a didática do correto” do Tanko... bom, vejamos os outros. Depois eu conto sobre o depois eu conto... o chopp da sexta me espera....

Andy Warhol por Jonas Mekas

Award Presentation to Andy Warhol

De Jonas Mekas, 12´, 1964

**

 

Scenes from the life of Andy Warhol: Friendships and intersections

De Jonas Mekas, 35´, 1963-90

***

 

O Estação Paço está mostrando toda quinta 19hs uns filmes experimentais esquisitos, de vanguarda, bem interessantes. Mas nada se compara a esse programa imperdível. Entre outras coisas, dois filmes do Jonas Mekas, um cineasta que eu tenho a mais profunda admiração por filmes como Walden e Reminiscences of a Journey to Lithuania, duas obras-primas.

 

Pois bem, esses dois Mekas são sobre Warhol. O primeiro brinca com a coisa do plano-sequencia, a duração, a realizada e a pose para a câmera, com musica do Supremes que dá bem o clima da época, etc.

 

Mas o que eu quero falar mesmo é sobre o Scenes from the life. Olha, eu odeeeeio falar isso, mas um dia eu espero poder fazer um filme no espírito desse. Esse filme é quase idêntico ao Walden, no sentido da homenagem aos Lumiere, na importância do primeiro olhar, no frescor da novidade, etc. Mas é muito difícil falar de Mekas, desse ultra-teorico (a Film Culture) que filmava da forma mais intuitiva do mundo; as palavras faltam... Muito, muito a ser dito, sentido. Eu simplesmente fiquei deslumbrado mesmo sendo um filme que eu já tinha visto. Durante quase 30 anos, Mekas acompanhou Warhol e o filme retrata toda a sua intimidade de forma bruta e absolutamente livre e poética. Não há espaço para ação, para a voz, para os tempos fortes: não há tempo para isso, é preciso ir à essência das coisas. E por trás de toda essa velocidade louca que são os filmes do Mekas, da uma melancolia (trecho viagem...) porque toda essa sensação de fugacidade, toda essa liberdade é absolutamente fugidia.... E só o Mekas pra filmar um cachorro do lado de um menino, filmar outro menino com um camundongo de brinquedo fingindo de morto,,, e é isso toda uma visão de mundo que se espelha numa estética... enfim, não da pra falar.... é fundamental.... eu acho que se o cinema pode ser alguma coisa, ele é isso: esse “diário de filmagem” de Mekas, partindo no sentido completamente oposto da mitificação ou da glamourização, é o retrato da intimidade e da precariedade do olhar... ingênuo, triste, superficial, comovente, lírico, desconexo...c´est l avie......................................

quarta-feira, julho 07, 2004

Quem Matou Anabela?

QUEM MATOU ANABELA?

De D.A. Hamza, 1956

**

 

Vi também esse filme da Maristela. Pensava que a Maristela tinha filmes leves e baratos, mas esse aqui tem um clima de cinema inglês (claro, As Oito Vítimas que não nos deve deixar negar....): embora quase todo em interior, mas com um cenário opulento e cheio de detalhes quase barrocos. O filme de espionagem: um assassinato – todos suspeitos – quem de fato matou Anabela?. Em cima disso, o roteiro se desenvolve sem nada nada demais. Mas de qualquer forma, é uma produção que até que passa leve (não tem aquele clima chato dos Caiçaras ou tico-ticos da vida: este claramente é um filme menor), e o que surpreende sem dúvida é o esmero técnico da sua realização. Em especial, a fotografia extraordinária de Rudolf Icsey, com matizes sutílimas de cinza e uma fotografia quase noir. O que mais a ser dito? (i.e apesar de duas estrelas é muito menos interessante que um Cio da vida, com certeza...) (i.e leia-se: EU QUERO OS FILMES ESQUISITOS!...)

Tanko (IV) - Mulheres à vista

MULHERES À VISTA

De J.B. Tanko, 1959

***

 

Pasmem, a metalinguagem chegou à chanchada!! Depois de três filmes até interessantes mas bem acadêmicos, agora sim um filme: este Mulheres à vista... As palavras são pequenas, fica difícil descrever, definir o que seja este trabalho. Hoje, apenas digo que se eu pudesse passar apenas um filme para falar sobre o cinema brasileiro, eu escolheria este. Sim, porque tenho a impressão de que o cinema brasileiro é exatamente isso: a “aventura pessoal” por trás do subdesenvolvimento, o sonho do empreendedor e o misto mambembe da malandragem, da arquitetura e da “lábia”.

 

Vamos ao filme: Zé Trindade (com uma atuação extraordinária) resolve, do nada, montar uma apresentação num teatro da cidade que está quase fechando. Sem dinheiro, finge ser o famoso empresário João Flores e arma alguns “golpes” para consegui-lo: finge estar hospedado no Copacabana Palace, consegue capital de giro comprando a prazo e vendendo a vista, troca as promissórias por um caminhão, da uma cantada na viúva dona do teatro, etc, etc. Mas aos poucos vai sendo desmascarado, e o filme é uma espiral angustiante: no dia da estréia existe uma penca de pessoas doidas pra comer o fígado de João Flores. E tem mais, tem os egos: tem um tal de Galileu (Renato Restier) que, invejoso do possível sucesso que o João das Flores pode eventualmente ter, quer derrubar o cara, até porque o Galileu desistiu de fazer projetos no teatro porque não conseguiu ter retorno financeiro.

 

O malandro meio vigarista João Flores é o empreendedor do cinema brasileiro, é o retrato típico do subdesenvolvimento (como diria Paulo Emílio), do amadorismo do setor. Mas não deixa de ser comovente sua ingenuidade, não deixamos de ter simpatia com ele, apesar dos seus golpes. (Essa é a grande contribuição da estética da chanchada nesse filme em particular.). O Galileu também: é o cara que torce contra, o rancoroso, o que trabalha para sacanear os outros.

 

No final, João Flores tem que fazer uma porrada de coisas sozinho, ele mesmo (i.e a experiência solitária, o cinema autoral), ou seja, o espetáculo vira uma caricatura de si mesmo, vira o que é possível fazer dadas as circunstâncias. Isto é, só é possível rir de si mesmo, rir das suas impossibilidades: e aí o filme se assume como metalinguagem sobre a própria chanchada. Tem uma cena em que o João precisa reger a orquestra e tocar tuba e trompete ao mesmo tempo, pq os músicos fugiram pq não tinha grana, e todo o público ri descaradamente dele (ele tropeça nas coisas, não tem afinação, etc.). É uma das cenas mais tristes e mais pessoais que já foram filmadas sobre o cinema brasileiro.

 

Pra mim, trabalhando onde eu trabalho, em que a gente fica pensando constantemente sobre isso, o filme bateu muito fundo, ainda estou em fase de assimilação. Tem ainda a utilização quase genial das cenas musicais, fazendo um contraponto e uma rima com toda a estrutura do filme (i.e combinando com ela e ao mesmo tempo problematizando sua construção). As palavras falam pouco... ah, e o argumento é do próprio zé trindade. Disparado, o melhor tanko até agora.

 

terça-feira, julho 06, 2004

Cio

CIO, UMA VERDADEIRA HISTÓRIA DE AMOR
de Fauzi Mansur
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Primeiro filme que eu vejo do Fauzi Mansur (preciso gravar A Noite do Desejo, que parece que é interessante...). Bem interessante esse aqui (nao liguem nao, eu dou uma estrelinha prum monte de filmes que eu acho interessantes, pq sao curiosos mas nao chegam a ser bons...). A primeira reação que me veio na cabeça ao final do filme é que se esse filme fosse feito nos dias de hoje (primeiro que nunca iria ser feito, pq não iria captar um centavo...) não iria passar em nenhuma sala de cinema, não teria distribuidora nunca. Mas por que? Por varios motivos, o principal deles é que o cinema hoje se elitizou, um filme como esses "não cabe" hoje em dia, seria considerado uma ofensa. Naquela época tinha espaço pra filmes tão despretensiosos (e por isso mesmo deliciosos em algumas partes) como esse.

E talvez por isso bateu uma certa nostalgia de um tempo que eu não vivi e achei o filme comovente (embora tenda a achar que deve ser bem ruim...). Já no começo com jump cuts do carro na estrada, e do cara tirando fotos (Acossado??), etc, etc.

E todo o filme fica parecendo um draminha melacueca dos bem ruins (a música siniiiiistra é mais que prova disso), mas a gente se esquece que a pornochanchada (não sei se o termo se encaixa aqui...) é absolutamente ingênua mas que tem uma auto-ironia, uma consciência de suas impossibilidades... e por isso que o filme é estranho, pq apesar de ser exatamente isso (o draminha melacueca) ele não convence: tem sempre algo estranho, que não se deixa resolver, que não se encaixa perfeitamente no discurso do filme.

O terço final do filme fica ainda mais estranho, até que chega o final revelador, onde o filme se revela LITERALMENTE como um filme-piada (vces ja viram um longa que seja um filme-piada???). É quando o filme se desvela como uma paródia de si mesmo, quando ele desconstrói todo o seu discurso de maneira absolutamente simples e ingênua. E, por isso, vale a conferida, apesar de não ser nada demais. Fico imaginando qual a recepção da crítica e público a este trem...

Tanko (III) – Vai que é mole e E o bicho não deu

Vai que é mole
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E o bicho não deu
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Mais dois Tankos da Herbert Richers no Canal Brasil: E o bicho não deu (58) e Vai que é mole (60), ambos com Ankito e Grande Otelo. A HR precisa ser mais estudada: deu muito mais certo que as Vera Cruz da vida, ate pq era muito mais barato.

Os dois filmes têm uma coisa de deboche muito clara, e uma certa ambiguidade da associação das camadas populares com a contravenção. No primeiro, o jogo do bicho; no segundo, a dupla de cômicos é de ladrões mesmo. Mas tudo é visto de forma ingênua: os mocinhos são contraventores. Mas ingênua médio, pq será que as camadas populares são sempre ladrões, é isso? (Ou seja, nem uma coisa nem outra...)

E o bicho não deu é o outro lado de Amei um bicheiro. Mas há uma questao de classe: há os bicheiros oportunistas (o seu Madruga) e o povo, na outra ponta, que só preenche os talõezinhos.

Na estética, a simplicidade de sempre de Tanko. A observar tbem a otima fotografia de A. Daissé. "E o bicho não deu" tem uma coisa quase de slapstick qdo a dupla fica pendurada numa escada do lado de fora de um prédio. "Vai que é mole" tem uma coisa dos números musicais, pq no final "a dupla de honestos" (eles devolvem a bolsa de uma madame e ficam ironicamente com essa pecha...) vai para a Tv (é claro...)

"E o bicho não deu" achei um pouco melhor. O roteiro abre margem para mais possibilidades, na questão do jogo de bicho, e na relação da polícia com os contraventores, com mais reviravoltas e ação. "Vai que é mole" é mais básico, e se passa muito na casa do Grande Otelo, onde, apesar da precariedade, Tanko segura a direção, sem se prender aos mesmos três ou quatro planos (i.e recusando a estrutura plano próximo - plano de cobertura, etc, etc).

acredite se quiser

acreditem se quiser: depois de ENTREMEIO, vem ENTRE ATOS...
num cinema perto de vc... (isso se o Dirceu deixar...)

segunda-feira, julho 05, 2004

os mais do semestre

Por enquanto, lisitnha dos QUATRO mais dos filmes recentes:

INTERVENÇÃO DIVINA, de Elia Suleiman (chega dos palestinos coitadinhos, chega do filme politico didatico...)
ENCONTROS E DESENCONTROS, de Sofia Coppola (a intimidade e a invenção tbem sao possiveis em hly...)
FILME DE AMOR, de Julio Bressane (o filme brazuca tbem pode ser cinema...)
KILL BILL - VOL.1, de Quentin Tarantino (eu ate concordo que é imaturo, mas como diria Welles, o cinema é o melhor trenzinho que uma criança pode granhar de presente...)

e ??????
(por enquanto é só...)

EM BUSCA DE UM HOMEM

EM BUSCA DE UM HOMEM
Will sucess spoil Rock Hunter?, de Frank Tashlin, 1957 (?)
***

Por incrível que pareça, é o primeiro filme de Tashlin que eu vejo, e realmente é impressionante. Seguindo todas as previsões possíveis de um cinema americano, Tashlin faz uma obra absolutamente crítica ao american way of life, e profundamente atual - visto as Darlenes e Jac Joys de Celebridade, p ex. Um publicitario precisa fazer a campanha certa para um comercial de batom, e acaba se envolvendo com uma gostosona (Jayne Mansfield, divina...). Acaba se anunciando que os dois estão juntos, embora ele seja um bobalhão por pura estratégia de marketing. Os dois se dão bem: ela, pq está de volta aos noticiários; ele, pq consegue que ela assine o contrato. Ele mais ou menos, pq sua noiva fica com ciumes, e desiste dele. Mas ele consegue afinal realizar seu grande sonho: ter seu cargo de vice-presidente e a chave do banheiro privativo (ah gente, como isso me lembrou do lugar onde eu trabalho...).

Puro cinema americano, "have fun", com ritmo ágil, claramentre influenciado pelas screwballs da vida (a grana, a necessidade de subir na vida, as reviravoltas malucas...) só q é muito melhor que Billy Wilder pq tem uma visao acida q fez me lembrar de Preston Sturges. E ainda é absolutamente inventivo na decupagem e uso de linguagem. Com um colorido deslumbrante, tem ainda um uso incrivel do cinemascope. Qdo se fala em cinemascope, pensa-se nos grandes planos gerais dos westerns, etc. Mas esse aqui é quase todo em interior, mas mesmo assim tem uma visão do espaço extremamente rigorosa (os deslocamentos dos corpos, a dinâmica entre o primeiro plano e o fundo, etc.). Jayne Masfield, cínica (a loira burra é esperta pacas...), quase uma paródia de Marilyn.

Com um prólogo inventivo (e outra chamada lá pro meio do filme) que funciona quase como um distanciamento brechtiano, com uma visão crítica do universo da publicidade, passando por Freud e a psicanálise, e a manipulação da mídia e da opinião pública, Em busca de um homem vai problematizar a necessidade do sucesso a qualquer custo com um humor corrosivo e com um agudo desejo de linguagem. Imprescindível!

Tem ainda uma cena espetacular que a tela do cinema vira uma TV, e ouvimos como a TV é "formidavel, nos faz ver coisas sem precisar sair de casa, etc, etc, etc"...

No final o discurso ferino não é levado às ultimas consequencias, com a crise do sucesso e o desmascaramento... tem um "fim light" que funciona como um amortecimento, mas nada que tire o brilho desse filme de Tashlin.

Tanko (II) - RUA DESCALÇA

RUA DESCALÇA
de J. B. Tanko, 1971
**

O último filme de Tanko para a Herbert Richers é um filme estranho, atípico, um pseudo-filme infantil, um filme de aparências, bem estranho mesmo. Aqui, Tanko se esforça para dar ao filme uma decupagem mais criativa, especialmente na primeira meia hora do filme. O filme é repleto de zooms, às vezes para dar ao filme uma forma ambígua que remete ao documental, outras vezes para alongar a duração do planoo (evitando o campo-contracampo, ou o corte para o detalhe, p ex). Ou ainda trabalhando com a oscilação do foco. Com isso, acaba tendo um vigor de linguagem muitas vezes ausente do cinema de Tanko.

O início do filme após os letrieiros, com uma série de zooms-in em Igrejas da cidade até culminar com os sinos já mostra que Tanko conhece a linguagem cinematográfica, e não é tipo Tv.

O filme tem uma história muito estranha, falando de dois santos (o principal, Joel Barcelos, num dos maiores "miscasting", que prejudica o filme, ainda com uma barba horrorosa...) que convivem com os preconceitos conservadores de uma cidadezinha do interior. Essa história é contrabalançada com o dia-a-dia de uma criança, que vive indecisa entre o modo de vida simples dos "santos" ou a obsessão pelo dinheiro e pelo trabalho de um comerciante da região. O garoto (não sei seu nome e paradeiro...) domina o filme de forma incrível, com um trabalho de entrega emocional e especialmente física impressionante. Há um momento do filme em que soltam o passarinho mais querido dele, e ele parte para bater nas pessoas com uma violência, uma raiva, que está entre as coisas mais impressionantes que vi recentemente. Todo o elenco tem uma entrega corporal notável (o garoto sobe em árvores, as vizinhas atiram abóboras nas outras, etc.).

Todo esse confronto entre o materialismo e o espiritual é a base do filme, e Tanko claramente opta pelo segundo, martirizando os santos, e com isso o filme cai. Mas a crítica aos costumes da cidadezinha vai aumentando, aumentando, até uma parte em que o próprio Tanko vai problematizar toda a construção do filme de forma aguda perto do final. "Você está isolado do mundo... não percebe que tem uma guerra estourando lá fora?" - e aí o filme vira uma parábola política (seriam os santos comunistas?) muito nítida, o que faz com que o filme seja mais estranho. E no final Tanko sugere que o tal santo talvez tenha ficado louco mesmo...

Mas o final fecha com o espiritual ao invés do materialismo. num final cíclico, que remete ao primeiro plano do filme, no interior da casinha dos santos, o menino prefere a vela à caixa de música. Um final bonito, que encerra um dos poucos trabalhos mais pessoais do esquecido Tanko, nesse pseudo-filme infantil que vira uma metáfora política, com um trabalho de decupagem inventivo, mas que tbem comprova que Tanko não é genio, mas artesão, como ele mesmo sempre fez questao de ser conhecido.

Ah, tem as cores, bem bem usadas.

Tanko (I) - O DONO DA BOLA

Aos poucos vou pegando os filmes do Tanko feitos para a Herbert Richers. São os filmes do diretor que estão disponíveis no Canal Brasil, já que o acervo da HR está quase todo no Canal.

Tanko é um diretor injustiçado, muitas vezes esquecido. Esse croata aparentemente mal-humorado foi um grande artesão que se dedicou a fazer filmes de todos os tipos, com uma paixão simples e dedicada ao seu ofício de "fazedor de filmes": fez policiais, dramas, filmes infantis, chanchadas, e o que pintasse... Foi roteirista de todos os filmes que dirigiu.

Tanko é mais um desses tantos diretores que se dedicou a fazer cinema no Brasil...

* * *


O DONO DA BOLA
de J.B. Tanko, 1961
*

O Dono da Bola, com Golias, é diversão barata, chanchada sem grandes pretensões. Envelheceu numa visão da cenografia, das atuações, das falas posadas, mas era o modelo da época.

Na direção, surpreende como Tanko resolve as cenas com a maior simplicidade possível. É nítido seu domínio do quadro, do ritmo, e do corte. Essa geografia elementar da cena, que é o mais difícil, que é a base para qualquer diretor de cinema, o Tanko dominava sem dificuldades.

O filme segue sem sustos; o Golias passa a irritar muitas vezes com seus trejeitos careteiros, mas no final ha o toque do Tanko. No apice do filme, ha dois cachorros malhados identicos, e só um deles determinará quem será o vencedor do jogo. Toca uma musica, e o cachorro que obeceder é o verdadeiro. Ha um instante de suspense. É o unico momento em que ha espaço para o diretor. Ha um conjunto de planos (a plateia, os envolvidos, os cachorros, o maestro) que não chega a ser grande exagero se compararmos com o climax de O homem que sabia demais (será uma referencia?). Tanko, em sua simplicidade, sabia das coisas: isso fica claro qdo um dos planinhos é de uma das cameras do estudio de TV se direcionando para os cachorros...

O roteiro é um concurso de TV onde o ganhador irá faturar um bolão. Muito discretamente o filme faz uma critica do "sucesso a qualquer preço", mas não tão contundente como hoje gostariamos. No fundo, acaba virando meio apologia à Tv... (talvez...) Tem destaque a cena em que Grande Otelo canta no programa imitando provavelmente Louis Armstrong (a critica ao estrangeiro sempre foi clara nas chanchadas...)

sábado, julho 03, 2004

A Orquídia Negra

A ORQUÍDIA NEGRA
The black orchid, MArtin Ritt, 1959
*

É, acho que dei sorte em ver os dois melhores Ritts em sequencia (Hud e Paris Blues), porque a coisa cada vez mais está indo pro brejo... Bom, tbem não da pra fazer mnilagre, e este é claramente um filme de encomenda, acadêmico, que não dá nenhum espaço pro cinema.

Sophia Loren faz o papel de uma viúva da máfia italiana que reconstrói sua vida (oh...) com a ajuda do Anthony Quinn. Os dois têm filhos malas. Ela, um garoto que só foge do orfanato. Ele, uma das filhas mais malas da história do cinema.

A filha do Quinn é interessante: levava uma vida tranquila, iria se casar, mas tudo muda repentinamente com a notícia que seu pai irá se casar com a tal viúva. Aí vira um filme de Ozu às avessas: se no filme do Ozu, a filha quase não quer se casar para ficar com o pai, para não deixr ele só; aqui, a filha não quer que o pai se case de jeito nenhum, por puro egoísmo. No fundo dá na mesma, mas é o contrário: afirmação do egoísmo, do materialismo da sociedade americana, pura chantagem e mimo. Tudo vira um caco na vida da menina, e, claro, ela agora quer que o pai se sinta culpado... é incrível... aí, tudo passa a dar errado MESMO por causa da menininha mala... mas no final, há aquelas reviravoltas toscas e tudo acaba bem, tipo novela da globo...

A decupagem é boa; Ritt sabe enquadrar. É curioso pq o filme se passa muito em interiores, e muito em casas, mas Ritt encheu o filme de carrinhos, mostrando várias vezes o deslocamento dos personagens entre os cômodos. A fotografia tbem tem destaque, geralmente com profundidade de campo que valoriza o fundo como elemento de dramaturgia. As longas gruas do início do filme desaparecem, mesmo nas visitas ao tal orfanato. Mas a inserção do espaço físico é com Ritt mesmo (em O mercador de almas quase que ele desaprendeeu, mas aqui volta), e a externa do orfanato quando o Quinn vai conversar com o garoto (filho da Loren) é de uma dramaturgia seca mas comovente. A decupagem no interior das casas trz elementos que nos fazem aprender, mas não dá... o filme é muito primário no roteiro e na dramaturgia, e não convence mesmo... pelo menos não tem aquele clima solene de meia tigela de O Mercador de almas... esse aqui pelo menos é menor...

se eu nao achar o a grande esperança branca no video, acho que acabaram os ritts. acho que desisti de escrever o texto. como ja tenho tres prontos, talvez um meia-tigela... ainda descobri que o ritt fez um remake de rashomon (ME POUPE!!!!!!)


sexta-feira, julho 02, 2004

mudanças...

Primavera, verão, outono **
Vai e vem ****

Pascal e Mel Gibson

Estou lendo Pascal... a miséria e a grandeza do Homem.

A miséria, a miséria, a miséria do Homem....
reconhecer isso é sua grandeza.

Será que Mel Gibson é pascalino???



agradecimento

Claro, quase todos desses filmes apenas puderam ser vistos graças ao "patrocínio" de Erik Deslandes, i.e sua enorme boa vontade e paciência. De onde eu trabalho (de vez em quando) tbem surgem coisas boas. Valeu Erik de coração! ...

Hombre

HOMBRE
Hombre, Martin Ritt
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Foi uma boa coincidência ver este Hombre logo depois de ter visto Willie Boy. Há muito em comum (o western, o lado índio, o "defensor da reserva indígena") e há muito em contrário.

É um Martin Ritt acadêmico (aos poucos estou me desencantando), embora, como sempre, haja uma conciência de linguagem, um ritmo, uma noção de enquadramento invulgares.

Parece tbem um No tempo das diligências, ate pq a diligencia acaba sendo um microcosmo de uma sociedade conservadora que o filme vai criticar. E nisso o filme funciona e Ritt parece estar bem, apontando os diálogos etc etc

Mas o que é sinistro no filme, o que dá medo, são os diálogos que surgem lá na casinha no final do filme, em que os personagens estão cercados. Aí o filme vira quase um tratado metafísico ,sobre a angústia de viver, ou (ainda) quase uma peça de Pirandello (forçando a barra...). No diálogo do Paul Newman com a antiga dona da pensão, vemos todo o rancor do Newman que não consegue ser superado, mas por outro lado entendemos perfeitamente todos os seus motivos, chegamos a estar do lado dele. Entendemos sua dificuldade de ajudar "os brancos", mas a partir da conversa da mulher pensamos que isso tbem é reflexo de seu egoismo, de seu niilismo, e que sua reação negativa tbem nao o levara a lugar algum. Mas aí no final tem um sacrificio redentor falso que prejudica todo o filme. E vemos q é o unico final possivel prum filme que no fundo é puro mainstream, e q Ritt dirige com todo o esmero academico.

quinta-feira, julho 01, 2004

Mais Polonky

Polonsky ao receber um prêmio no fim da carreira, puto com o prêmio dado para o Kazan...

"I'm glad to see that you don't think it's enough to be a great artist, but that you should also be a person of honor."

Willie Boy

WILLIE BOY
Tell them Willie Boy is here, Abraham Polonsky
***

Acho que se eu visse o filme sem saber a história de Abraham Polonsky eu teria visto outro filme. (Aliás, será que alguém conhece o Polonsky?) Mas dado que eu sabia (acho que eu só quis ver o filme por isso), tudo teve outra conotação, tudo virou absolutamente comovente. Aí só naquele plano inicial do índio saltando do trem eu já estava no segundo lenço. E isso pq é um western seco (claro...). Porque embora seja o típico cinema americano (a ação, a dramaturgia), tudo exala a própria trajetória pessoal do Polonsky: a repressão à diferença, a marginalidade, os mais de 20 anos sem PODER filmar. E aí que mesmo sendo um projeto mais comercial, é nítido o tesão, a demanda reprimida, e o olhar de Polonsky: íntimo, crítico, distante, próximo.

E daí que o filme me pareceu absolutamente cinematográfico, e absolutamente pessoal, e absolutamente comovente, e me apaixonei por essa “tragédia grega”, por esse “melodrama seco” sobre essa eterna história dos índios tentando fugir dos brancos e viver em paz, e obviamente não conseguindo.

E muito poderia ser falado mas as palavras são pequenas (e nem é que o filme seja obra-prima, mas é que, como eu falava, eu vi o filme com a vida do Polonsky na cabeça...). O casal de índios é o mesmo que o branco (Redford e a dondoca), e o filme tem várias tensões que são problematizadas por Pol: a tensão étnica, a tensão entre gerações (nos tempos do seu pai não era assim... fala o velho pro xerife), a tensão entre gênero (o homem e a mulher), entre classes sociais (o que é a reunião para o presidente?...), entre razão e o instinto, entre as aparências e a essência, entre o livre-arbítrio e o destino.

Depois de tudo que passou Polonsky, não há rancor, não há desespero: há uma profunda consciência trágica, um sentido ambíguo do herói que vai dialogar é claro com Rastros de ódio (o final queimando o índio não deixa dúvidas...). Por isso, é um filme da maturidade.

E olha que li que o próprio Polonsky nem gostava muito do filme, dizia que era meio encomendado. Espero que eu consiga ver os outros. Ah, tem tbem a ótima montagem, com cortes secos estranhos e elipses, e etc etc etc