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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, agosto 31, 2004

Em caso de perigo etc etc etc

Em caso de perigo e grande risco, o meio-termo leva à morte
Alexander Kluge e ?, Alemanha, 1974
**

Tinha até me esquecido que eu tinha visto esse filme do Kluge no MAM dom 18hs. É o terceiro longa que vejo do Kluge, e acho que dessa vez eu desisti de vez. Não é que não seja bom, eu até acho bem bom, mas já entendi qual é o lance do alemão, e não é a minha onda, e alem disso, o Kluge pode se orgulhar de ter feito os filmes mais chatos da história do cinema (não é exagero). Mas como eu não quero que os meus milhões de leitores pensem que sou um crítico do O GLOBO, vamos ao filme.

O Kluge tem um estilo multifacetado que contraponta doc e ficção para tentar compor um painel político da Alemanha, dentro da renova~ção estética do chamado novo cinema alemão, tentando promover um acerto de contas com a história da Alemanha, e a repercussão do nazismo no cotidiano das pessoas. é portanto cinema ambicioso e absolutamente rigoroso. É entre esse naco da História da nação e das pessoas que o cinema de Kluge trilha uma fronteira ambígua que vai questionar o que é realidade/representação e esp o papel da montagem no cinema . Essa é o grande legado de linguagem dos seus filmes, pq vai deixar um caminho em aberto para que o espectador possa fazer as síntesees dos argumentos dados pelo filme. O conflito nação-indivíduo; passado-presente; narrativa-discurso é (são) problematizado em Kluge como uma questão de linguagem, como epistemologia. Cinema materialista, de alto nível intelectual, mas totalmente sem ritmo, sem jeito, sem poesia, sem espírito. Eu tô fora, embora bate palmas pro Kluge, pq ele tem realmente uma linguegem própria/particular, e seus filmes são de gente que sabe o que pensa e o que quer, abrindo novos caminhos de investigação no cinema.

O Retorno

O RETORNO
de Andrei Zvyagintsev, Rússia, 2003 (tive que pegar o jornal pra escrever o nome desse cara...)
*

Às vezes fico com vontade de tirar férias só pra poder ir num cinema bom como o Espaço Unibanco numa terça 13:20 da tarde (ai como a vida pode ser boa). Melhor seria se o filme fosse bom. O tema me interessa em muito: criancinhas traumatizadas com a infância; tempo. Só que a dramaturgia de O Retorno é meio tosquinha. Os diálogos entre pai e filho me incomodaram; a atuação do garoto menor oscila muito entre o contido e o explosivo; o pai também. Ou seja, o filme não tem uma coerência sobre o olhar que se articula entre esse filho e o pai (o outro garoto não tem nenhuma essência, é mero orelha), e daí o filme perde muito da sua força. e o filme vai caindo, caindo, até despencar (o termo não foi usado à toa...rs) completamente no final, levando tudo consigo.

E daí que no final, mais que frsutração, fica uma irritação mesmo, pq o diretor perdeu boa oportunidade de fazer um filme realmente bom, e ele o faria se fizesse MENOS ao invés de mais. Isso pq em muitas horas o diretor quer reforçar, ratificar o que já foi mostrado, seja num diálogo, seja num plano, seja num recurso de linguagem (música, som, participação da natureza - i.e precisa chover tanto? etc), ao invés de preferir a contenção, o silêncio. exemplo máximo disso é no momento da ponto que o garoto fica sozinho na chuva e o pai chega de carro. A cena do castigo poderia virar a de Fanny & Alexander, magistral, mas se torna "lavagem de roupa suja" pq o garoto do nada, ao invés de ficar calado chorando começa a questionar o pai "pq vc voltou apos todos esses anos? para nos humilhar?" que na verdade é recurso de novela disfarçado. a gente SUSSURA no cinema: "não, não,.... não precisava!"....

É filme de estreante, e tecnicamente é impecável. As locações deslumbrantes são incorporadas de forma criativa: o ambiente é personagem direto do filme, a natureza é protagonista do filme. Gruas em lugares muito difíceis, fotografia e especialmente ^CÂMERA impecáveis. Muito bom como artesanato, só faltou a dramaturgia..rs
Ah, e como estreante o Zvyaww-sei-lá até que mostra talento com o tratamento do tempo, o corte, etc, mas não chega a tornar o filme bom. ao contrário.

segunda-feira, agosto 30, 2004

canção de amor

uhuuuuuuuu!!!!
mais um curtinha esquisito pronto!!!!!!
CANÇÃO DE AMOR (miniDv, 14´)
obviamente um filme mudo

Canção de Amor é quase um filme desabafo.
de todos os meus curtinhas esquisitos, este talvez seja o que eu fale de mim de forma mais direta e objetiva.
é sobre a estética do desajeitamento.
é como os objetos concretos são absolutamente pessoais e íntimos.
é sobre a impossibilidade da expressão, a crise da linguagem.
é uma auto-biografia, é sobre coisa que acontece agora em minha vida, em meu momento particular.

é dedicado a, a....., a....., ADIVINHA????????????????????

domingo, agosto 29, 2004

Ver-te-ei no inferno

VER-TE-EI NO INFERNO
The Molly Maguires, 1969
de Martin Ritt
***

Em DVD mais um filme de Martin Ritt, que me lembrou o Como era verde meu vale, sobre a questão dos trabalhadores das minas. Num cinemascope espetacular, um filme "A" de Hollywood como já não existe mais: produção gigantesca e perfeita aliada a uma dramaturgia de primeira e um diretor com visão de cinema.

É curioso como Martin Ritt coloca suas questões pessoais mais uma vez nesse trabalho, de forma que se torna mais uma peça coerente na construção de sua filmografia. Impressionantes são os primeiros minutos do filme. O filme começa com um impressionante plano-sequência do sol no horizonte até que a grua termina mergulhando no interior escuro e opressor das minas. Os próiximos dez minutos descrevem o dia-a-dia do trabalho fatigante nas minas sem nenhuma palavra: descritivo, silencioso, é o típico trabalho experimental possível dentro do cinema americano. A câmera sai do interior das minas e apresenta um grupo (o grupo rebelde que irá se desenvolver ao longo do filme) caminhando tranquilamente, numa enorme e trabalhada grua. O ritmo lento e íntimo da vida dos pobres trabalhadores será uma vertente do filme. Até que de repente uma grande explosão e os créditos: ou seja, por trás da aparente tranquilidade, a tensão reprimida.

Molly Maguires é mais um filme político de Martin Ritt que supostamente denuncia a exploração dos trabalhadores das minas. Mas (obviamente) não espere neo-realismo italiano ou La Terra Trema: existe um trabalho de produção enorme mas que não oprime o filme, devido à maestria de Ritt em impor um ritmo particular ao filme que confere todo um trabalho de intimidade e sutileza que irão despontar para o primeiro plano. O filme tbem não tem aquele clima paranóico e opressor de um Rosi ou dos cineastas tipicamente políticos. Claro, é cinema americano.

e acima de tudo o que vai interessar Ritt é o conflito ético, do tira que entra como espião inflitrado no grupo rebelde mas que no fundo tem uma simpatia pelo grupo. Ao contrário da balela de Sindicato de ladrões, Ritt, o cineasta de Hollywood que tem profunda simpatia pelos excluídos, vai obviamente dar contornos humanos ao delator. Em 1969 (momento significativo), Ritt é um grande pessimista em relação a possibilidade de os homens mudarem seu destino ou a História, Fatalista, desiludido, Ritt vai expressar essa ambiguidade de seu personagem principal (entre a polícia e os rebeldes) através de um cinema que usa todos os artifícios do cinemão e os de um cinema de caráter mais autoral. Mas o surpreendente é que Ritt não vacila, seu filme não sofre de uma indefinição, mas ao contrário, é muito consciente tanto de suas limitações como dessa própria ambiguidade, o que se revela o principal e mais importante trunfo do filme. Como seu personagem, Ritt sabe de que lado está: está do lado do cinemão, o que não o impede de ter mais simpatia pelo outro lado e de formular um profundo significado ético. Decerto que Ritt pode ser considerado um covarde, mas se assim o for, sua covardia está mais na consciência de seu fracasso do que pela incapacidade de resistir.

Em temros de linguagem, uma aula. O ritmo lento que Ritt imprime ao filme muitas vezes deixa os conflitos em segundo plano para valorizar um lado sensorial, como nos primeiros antológicos quinze minutos do filme, completamente sem diálogos (a primeira palavra falada no filme é quando o espião entra no bar e fala "a beer" ). O tempo beem dilatado, as enormes gruas, a incorporação do espaço físico, a presença do estrangeiro como revelador de uma consciência, a dificuldade de expressar os sentimentos, o valor da amizade-confiança e o que representa a traição, o decadentismo intrínseco do homem e da sociedade, tudo isso é expresso nuam linguagem absolutamente pessoal e típica da filmografia de Ritt. Belo filme.

Sweet Movie

Sweet Movie
de Dusan Makaveyev, Iugoslávia, 1974
****

A crítica é pequena, as palavras são vãs para tentar fazer jus a um filme como Sweet Movie, que se baseia no inexprimível, na poesia da paixão e da vida. Há bastante tempo um filme não me pegava de forma tão desprevenida, e é impossível resistir à paixão furiosa e desesperadora que Makaveyev emprega em cada plano do filme. Trágico, cômico, assustadoramente lírico, nada interessa a Makaveyev a não ser inpregnar o espectador de um espírito libertário, que não tarda a romper a tela, a escancarar as entranhas da realização. Cinema da vida, altamente revolucionário e contagiante, ao contar duas histórias com seus paralelismos e inúmeros pontos em comum (a história de duas moças: uma virgem buscando seu homem e uma marinheira que assassina seus homens), Makaveyev não hesita em deixar a narrativa de lado para tornar Sweet Movie um filme sensorial sobre o desejo, sobre a paixão pela vida, sobre a humanidade. Hilariante, ultra-bem-humorado e tecnicamente impecável, Sweet Movie nos faz lembrar em diversos instantes o nosso cinema marginal, mas para Makaveyev cinema não é avacalhação: seu projeto de cinema parte de uma construção íntima de um sentimento de viver incontrolável, delirante, fantástico, realista. Sedutor, hipnótico e tantos outros adjetivos redutores para tentar explicar o impacto desse filme de Makaveyev, experiência cinematográfica única que, mesmo caindo um pouco nos 20 minutos finais, faz justiça ao título de obra-prima, porque é um filme que desafia os limites do cinema e traz novas luzes para o fazer e para a expressão cinematográficos.

sábado, agosto 28, 2004

a vida tbem pode ser boa

é claro que eu me lembro da frase do dia do post de 11/ago, mas sem medo de errar digo que essa semana foi uma das melhores em muito tempo na minha vida: longe do trabalho, avançando na missão de extirpar meu karma cinematográfico de três anos, correndo diariamente, resolvendo abacaxis, filmando curtinhas esquisitos, próximo das pessoas que bem me querem, resgatando minha auto-estima (especialmente!), decidindo, diminuindo meu rancor com a picuinhas de sempre... pensando, sentindo, refletindo, crescendo. São nesses momentos que tenho a certeza de que Deus existe e só peço humildemente para que Ele me dê forças para aceitar o que me foi reservado. (estou rosselliniano hoje...)

Para que tudo seja perfeito, falta um telefonema.
É claro, ele não virá.

O mistério de Picasso

O mistério de Picasso
de Henri-Georges Clouzot, 1956
***

DVD imperdível, que peguei na continuidade das minhas pesquisas sobre o sol do marmeleiro. Clouzot entendia das coisas, até o Truffaut teve que ocncordar: tem uma crítica bem interessante dele como extra do filme.

Há pouco a se dito: trata-se de um filme simples que deve ser visto mais do que comentado. É um filme sobre um artista em processo de criação. A "arte" de Clouzot se faz à medida que a arte de Picasso se desenha na tela. Os dois andam juntos; tornam-se uma coisa só, o filme e a tela, é muito comovente. Como diria Erice tempos depois, o cinema é muito limitado, ainda mais que a pintura. O rolo do filme acaba: é preciso que o quadro fique pronto, ainda que não esteja.

O filme de Clouzot é sobre o artista: então une a técnica ao conceitual. Precisa de uma técnica refinada para que o quadro de Picasso se funda à janela do cinema: é uma solução aciima de tudo técnica. a partir dessa solução técnica, Clouzot faz metalinguagem do espírito.

Metalinguagem: Clouzot mostra (às vezes) o fotógrafo Claude Renoir atrás das câmeras enquanto mostra (às vezes) o pintor Pablo Picasso atrás das telas. Mas só às vezes pq acima de tudo o filme é sobre o processo criativo em si. Deixe que o fazer em si nos ensine mais que qualquer coisa que possa ser elaborado a partir desse fazer. Essa é a psicologia máxima do artista!

Sem psicologia, sem didatismo, sem "filme de arte": o mistério de Picasso é grande cinema. É o documentário em expressão pura.

apesar

apesar desse blog ser um monólogo sem respostas e sem comments, não é que hoje umas cinco pessoas vieram me falar que leram meu blog.
waal.. nunca pensei que fosse tão lido! rs

post extracinematográfico

terça à noite estava bem mal
quinta à noite estava bem bem

mas em termos concretos tudo estava exatamente o mesmo
nada se resolveu
a diferença é que na quinta de manhã agi
agi com decisão
o que me surpreendeu

a diferença é que pela primeira vez em tempos
passei a ter o poder de decidir
ou o poder de desistir sem fracassar

mas em termos concretos tudo estava exatamente o mesmo

às vezes sinto-me num filme de Rohmer

quinta-feira, agosto 26, 2004

Fahrenheit 9/11

Fahrenheit 9/11
de Michael Moore, EUA, 2004
*

Finalmente vi o raios do Fahrenheit depois da poeira mais baixa e - pasmem! - achei ainda pior do que eu esperava. Até admiro a paixão de Moore pelo tema, sua urgência, o vigor político, o desejo insano de que um filme ainda pode mudar o mundo, mas meus caros, eu estou muito mais para O sol do marmeleiro que para Fahrenheit. Ou seja, eu já desisti há algum tempo de mudar o mundo. E daí que achei tudo uma ingeunidade, coisa de criança mimada mesmo. A primeira parte é basicamente argumentativa, mas é uma maçaroca de informação que parece um filme noir e as pistas esfarrapadas dadas pelos detetives para solucionar os crimes, e é impossível de acompanhar com alguma verossimilhança. Daí para frente o filme cai de ritmo e fica cada vez mais irregular e manipulador: passa a focar na vitimização das pessoas que são mandadas para a guerra, desde jovens despreparados até as suas famílias. Aí piora, porque vira apelativo e sem qualquer substância e a parte argumentativa é completamente abandonada. Moore acaba sendo tão paranóico quanto Bush, querendo convertêw-lo as vezes como um monstro as vezes como um imbecil completamente alienado (mas seria marionete de quem?). Nada me convenceu, até porque nem uma única pessoa que gosta de Bush é entrevistada, nenhum argumento a favor é possível. Como documentário, trash!. Destaque: a cena que mostra o instante de 11/09, o ataque às torres gêmeas com a tela em negro: sobre a ética, sobre a exploração das imagens e sobre a mídia. No resto, absolutamente dispensável.

Ah - e como eu pude me esquecer - a sessão foi agradável,mas de fato eu esperava que fosse BEM MAIS agradável... pelo menos me deu uma profunda sensação de ALÍVIO... ou ainda (pra quem não está entendendo nada): o que aconteceu (ou aconteceria) depois da sessão tinha para mim muito mais importância que os argumentos falastrões sobre o fim do mundo e o império árabe nos eua do mr. moore... ué, não é a globalização??rsrs ou seja, resumindo, para a sorte dos meus preciosos miolos, eu não guardo nenhuma 38 dentro do armário...

pergunta Não Amarás...

Dadas as dificuldades e os problemas que estou enfrentando neese momento (oh...), um fantasma novamente me rodeou a cabeça, uma pergunta que eu tinha fingido esquecer. Claro, é sobre Não Amarás, que mesmo eu vendo umas 30 vezes, eu ainda tenho várias perguntas, guardadas para uma nova revisão (quando é que vai ter o DVD?...). Pois bem, a pergunta é: POR QUE RAIOS AQUELA MULHER PASSA A GOSTAR DE VERDADE DAQUELE POBRE GAROTO ?

Será que é porque ele tentou se matar? E se for por isso, será que é pela proximidade da morte (um novo Morangos Silvestres, preparação para A Dupla Vida, etc, etc)?

Ou será mera trapaça de roteiro, recurso para vitimizar o menino, para que sintamos pena dele (e aí o filme cai muuito...)??

Ou será que é pq aquela mulher percebe que ela alguns anos atras era pura como o menino, ate q foi sacaneada por alguem tao escroto qto ela estava sendo ate agora (as diferenças entre a versão para o Decálogo e a versão longa, as declarações do diretor, etc )??

O que pode ter levado aquela mulher a mudar de ideia e gostar do menino?

Provavelmente ela passou a ver que o menino REALMENTE a amava, e não era aquelas paixões platônicas de adolescentes, fixação, puro tesão, etc etc.

Até que ponto o menino insistiu em seu amor, foi coerente, foi até o final na sua paixão? Ou ele desistiu desse amor tentando se matar? I.e tentar se matar é ir até o fundo do amor ou desistir dele?

Por que a mulher iria gostar de um garoto tão fraco, a ponto de querer se matar por causa dela?

Querer se matar é sinal de força ou de fraqueza?

Será que a mulher não vai querer nada com o garoto, mas apenas está se sentindo culpada por ele ter tentado se matar por sua causa? I.e ela só vai visitar o garoto para remediar sua culpa?

Não quero dar uma de Kierkegaard com a história do Abraão, mas ah! isso dá pano pra manga.... Mestre KK!!! ABENÇOAI-NOS!!!!

. . .

Tomei uma decisão! Cumpri-la-ei!

segunda-feira, agosto 23, 2004

querem ver?

querem ver uma coisa engraçada?
"dossiê ancinav" pelo pessoal do Contra... oh!
como políticos da economia do audiovisual, eles são bons (?...)críticos de filmes

sexta-feira, agosto 20, 2004

Como ganhar na loteria sem perder a esportiva

Como ganhar na loteria sem perder a esportiva
de J.B. Tanko
0

Mais um do Tanko da HB, esse talvez seja o mais fraco dos filmes do Tanko. O filme tenta pegar uma coisa do momento que é o fascínio do brasileiro pela loteria esportiva, e o interessante é que o Tanko, até para facilitar a produção, bastante precária, faz com um estilo documental, quase todo em câmera na mão. Vários setores da sociedade séria e não-séria (das igrejas aos puteiros) se envolvem no jogo, mas o filme não consegue ser uma crônica de costumes da época. Acaba não sendo nem crítica ao hedonismo e à obsessão paranóica nem incentivo ao modo de viver despropositado e anti-conservador; fica num meio-termo que não se acha.

O modelo de roteiro é de várias histórias paralelas, de pessoas que se envolvem no jogo, mas as histórias não tem originalidade e o filme se repete muito nas situações, pendendo em ritmo. O filme tem vários problemas de produção e até de decupagem, com uma cena horrorosa passada na casa da família num almoço familiar com diversas quebras de eixo bizonhas, etc.

No final a opção é de que todas aquelas pessoas ganham, e apesar de ganhadoras, foi tanta gente que o dinheiro não vale nada, e eles não conseguem mudar a sua vida como pensavam. Mas muito ingênuo no que poderia ser de potencial de avaliação da importância do dinheiro e da posição na vida das pessoas. Dispensável na carreira de Tanko. Cor. Não sei se deu grana.

segunda-feira, agosto 16, 2004

Anything Else

Igual a Tudo na Vida
Anything Else, de Woody Allen
**


1) A única forma de recomeçar é sendo fiel a si mesmo.
Essa frase me veio à cabeça no meio da projeção de Anything Else, o novo Woody Allen. Como eu fui ver o filme com a questão dos outros filmes do diretor na cabeça, toda essa idéia do recomeço assumiu um outro significado. E o mais curioso (e nisso que Anything Else foi contra a minha expectativa): não é que se trate do diretor frustrado e amargurado que quer se tornar popular, mas aqui é a necessidade de recomeçar exatamente para ser VERDADEIRAMENTE fiel a si mesmo. Olhar-se no espelho é sinal de enfrentamento, de fim do caminho de fuga ou de inércia. Por isso, o final, quando Jason Biggs finalmente consegue recomeçar, é um final corajoso que abre novas perspectivas para a filmografia de Allen. Ou seja, o impacto deste filme só poderá ser visto no próximo. Mais que resposta rancorosa ou sinal de fracasso, Anything Else aponta para a possibilidade de encontro no recomeço, ou seja, sendo fiel a si mesmo.

2) Anything Else, assim como os últimos filmes de Allen, é profundamente triste, espelho partido da crise por trás do menino bem-sucedido, do caminho que se oferece.

3) Woody Allen faz um personagem que a princípio seria um mero “orelha” do de Jason Biggs, mas na verdade se revela mais que isso, até se revelar uma das pontas mais criativas do filme. Allen é uma espécie de conselheiro que foge do universo da diegese, está além do nível da narrativa. Com isso, é uma espécie de “anjo”, como os anjos de Asas do Desejo, ou ainda como o professor de Morangos Silvestres. Mas sua posição é ambígua: primeiro pq ele toma atitudes reais (i.e no mundo concreto) e nem sempre de bom senso (esp a “vingança” quando lhe tomam o ligar do estacionamento). Segundo, porque explora os limites do personagem versus o próprio Woody Allen. Allen dá conselhos para Jason Biggs que, claramente, assume uma espécie de alter-ego dos antigos personagens representados por Allen que, na verdade, sempre foram espelho dele mesmo. Portanto, em última instância é como se Allen estivesse dando conselhos para ele mesmo, com um forte viés psicanalítico que é ironizado/problematizado o tempo todo no filme.

4) O personagem de Jason Biggs em Anything Else caminha o tempo todo no filme, seguido por longos carrinhos. Enquanto caminha, ele pensa, ou melhor, ele existe enquanto caminha. Nesse sentido, se assemelha com os personagens de um filme de Rohmer: ele caminha mais do que propriamente age, mas é no exercício de seu caminhar que ele propriamente existe.

5) Há um sentido político, atual, que se escancara no filme, de uma forma um tanto atípica dos demais filmes de Allen: é a questão da violência, da trincheira, da intolerância, ou mais propriamente do discurso anti-armas. Isso é feito de forma sarcástica, ambígua, estranha – e que por isso mesmo incomoda.

6) A vida muitas vezes nos parece difícil: difícil de ser entendida, difícil de ser assimilada. “Anything Else”, título ambíguo que o Português não consegue traduzir, mostra essa fissura. Sua virtude está em ver as armadilhas da vida do lado mais simples possível, de tornar leve, ou mesmo de tornar suportável. Aqui não há propriamente um pessimismo, ao contrário: apesar de triste, é um dos filmes mais calorosos de Allen, pelo menos recentemente.

7) Mas tudo isso não significa de que se trate de um filme bom: irregular, com pouco desejo pelo cinema, altamente verborrágico, com problemas de ritmo, Anything Else é mais um filme de Allen que promete ser um filme de transição. Pelo menos, mostra coisas novas, ainda que a novidade seja a convicção em seguir pelo mesmo caminho de sempre.

8) Pelo menos, algo: de Anything Else espero que eu tenha levado algo rápido para a minha vida..........................

sexta-feira, agosto 13, 2004

olga

O comentario mais genial sobre olga veio (adivinha......) do lugar de onde trabalho:

Olga eh tao bom que nem parece filme brasileiro

quinta-feira, agosto 12, 2004

é...

depois de todo o blablabla furado e emocionado que eu fiz sobre o Didi, o filme fez só água nessa semana (caiu mais de 50%) pelo simples motivo que as férias acabaram, e o filme deve ficar abaixo de 1 milhão. é f.... não conseguiu ser programado logo no início de junho é sifu sem remédio. a vida é dura, caros.... ainda sim acho que no final vai fazer mais que a vaca tussa.

Balzac e a picaretinha chinesa

Balzac e a costureirinha chinesa
de Sijie Dai
Estação Paissandu, 12/08/2004 19:30
0

Alguém pensou que esse filme era oriental???? Enganou-se, é francês. Até aí, tudo bem, mas é pior, muito pior que isso: é um filme na linha dos de Zhang Yimou. Isto é, picaretagem das grossas, simplificação de um processo cultural e essência de vida. O objetivo do filme é mostrar que o comunismo é uma merda, e o capitalismo é o manjar dos deuses. Pior, é ultra-reacionário. Dois caras que foram para o Ocidente aprenderam o que é cultura e retornaram para a China e têm a função de tirar aquela vila de medíocres camponeses do atraso. Oh.... e não é só isso: tem o papel da arte (xiiii....): os caras vão tirar o povo do atraso lendo madame bovary (é sério, gente, vces precisam ver isso....). Ao escutar as palavras do romance clássico de Flaubert, a costureirinha finalmente saiu das trevas, e passa a ser uma pessoa melhor, mais culta, mais instruída (aspas, aspas, aspas....). Ou seja, a arte tem função meramente didática, de iluminar as pessoas, de fazer as pessoas seres melhores - e ainda é o cânon, a arte clássica (que obviamente vem do Ocidente, i.e na China, no Oriente nao tem arte que preste, etc, etc, etc). Chega! Picaretagem das grossas! Ah, e a estética: adivinha, acadêmica, acadêmica, triângulo amoroso picareta para atrair a atenção do público para não perceber a mensagem implícita, etc, etc, gruas para valorizar o espaço físico, romances impossíveis e proibidos, etc. Socooooooorrrooooo!

por outro lado, o filme foi simplesmente um detalhe, um pretexto (e olha que há muito, muito tempo um filme - qualquer que seja - se tornava um detalhe pra mim...)... ai, ai, la vie...

quarta-feira, agosto 11, 2004

Frase do dia

Frase do dia, aplicada ao cinema, e à vida, é claro:

“quando vc pensa que nada mais pode dar errado, é porque algo terrí­vel está prestes a acontecer.”

terça-feira, agosto 03, 2004

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças
de Michal Gondry
***

Apesar de tétrica projeção no tétrico São Luiz 4, Brilho Eterno (que eu fui doido pra odiar...) foi uma grata surpresa. Cinema de sensação, de descoberta (ai Jonas Mekas...), Brilho Eterno transcende os cacoetes espertinhos do Charlie Kaufman (alguém se lembrou de Adaptação?) para compor um trabalho lúcido que tenta quase ingenuamente (ai que bom...) transfigurar os limites da narrativa clássica, recompor um espírito de vitalidade e energia no cinema mainstream americano. Jim Carrey, numa atuação muito expressiva, tem um personagem pirandelliano: é um personagem à procura de um autor. Essa busca (dessa vez...) não é mero jogo de roteiro e de formas, mas símbolo de busca e identidade, sinal de angústia e reflexo de um tempo: é como se o filme fosse uma mistura de Paris qui dort com Total Recall. Sim, o surrealismo preenche o filme o tempo todo, mas ainda me encantou a doçura dos personagens (o que é o início com o Carrey acordando?... que intimidade...), e ainda a liberdade do trabalho de linguagem do Gondry. Sim, essa é uma questão: acho meio injusto as pessoas dizerem que é um filme de Kaufman; é sim um filme de Michal Gondry - a direção firme ajuda em muito o filme. A questão da memória - boa ou má - como símbolo de uma certa liberdade trz ao filme uma questão contemporânea que merece ser melhor refletida (temos além dos Amnésias da vida, mais formalistas, um O Homem Sem Passado, etc), além (certamente) dessas linhas. É claro que tudo vai se fechar no final, mas quem interpreta isso como sinal de enfraquecimento, tá "do contra" pq o filme se assume acima de tudo como produto americano, e é essa mesma despretensão que assegura ao filme sua coerência e seu olhar.

segunda-feira, agosto 02, 2004

FILMES DE JULHO

Filmes de Julho


Recentes:
O pântano, de Lucrecia Martel ***
Histórias mínimas, de Carlos Sorin **
Lugares comuns, de Adolfo Aristarain **
De Passagem, de Ricardo Elias *
Matadores de velhinhas, de Irmãos Coen *

Recentes “não-circuito”:
Tão de Repente, de Diego Lerman **
Silêncio, de Michal Rosa 0

Cinema Argentino:
O pântano, de Lucrecia Martel ***
Tão de Repente, de Diego Lerman **
Histórias mínimas, de Carlos Sorin **
Lugares comuns, de Adolfo Aristarain **
O Filho da Noiva, de Juan Jose Campanella *

Antigos:
Willie Boy, de Abraham Polonsky ***
Em busca de um homem, de Frank Tashlin ***
É melhor ser rico e saudável do que pobre e doente, de Juraj Jakubisko ***
Verdes Anos, de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil ***
Hombre, de Martin Ritt **
Depois eu conto, de José Carlos Burle **
Quem roubou meu samba?, de José Carlos Burle *
Cio, uma verdadeira história de amor, de Fauzi Mansur *
O Filho da Noiva, de Juan Jose Campanella *
A Orquídia Negra, de Martin Ritt *
Quem Matou Anabela?, de David Hamza *
Garota de Ipanema, de Leon Hirsman 0


“Mostra Tanko”:
Mulheres à vista, de J. B. Tanko ***
Marido de mulher boa, de J. B. Tanko **
Rua descalça, de J. B. Tanko **
E o bicho não deu, de J. B. Tanko *
O dono da bola, de J. B. Tanko *
Garota Enxuta, de J. B. Tanko *
Vai que é mole, de J. B. Tanko 0


Filmes do mês:
O PÂNTANO
MULHERES À VISTA

Verdes Anos

Verdes Anos
de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil
***

Eu não sou nada fã de Tolerância (embora uma das minhas grandes culpas é o texto infantil que escrevi sobre o filme...), mas talvez até por isso o impacto deste Verdes Anos foi grande... belo filme. Primeiro, por ser um projeto íntimo das propostas da Casa de Cinema: o cinema adolescente, as referências a um cinema americano, o humor fácil, os personagens que se descobrem, as referências, etc. Mas Verdes Anos tem um quê de American Graffitti por centrar na tal transformação para o mundo adulto, no ano de conclusão da escola. Tem um fundo (ainda que discreto) desse período de reabertura política, e de um passado que não se pode falar muito (o professor de esquerda e sua repercussões no filho, a professora refugiada, etc.). As referências a Era uma vez um verão tornam-se ainda melhores vistas de hoje, pós filme do Jorge Furtado. Os atores estão bem, o filme não envelheceu tanto quanto o Me Beija. A decupagem é simples, mas a dramaturgia funciona redonda, o roteiro bem amarrado, montagem segura. Tem uma coisa a mais que a política, o lance do conservadorismo dos costumes do interior, o machismo, etc. Um mosaico de personagens, mas cada qual bastante desenvolvido, com questões próprias (não tem o mero orelha, etc). Certamente o final (W. Schunemann preso com a garota, o lance da prisão, etc.) reforça esse fundo um tanto político, e coloca um final reticente muito adequado, como um tímido apelo a reconstrução de um país e de uma nova geração. Muito bonito, muito coerente o filme.

domingo, agosto 01, 2004

Garota de Ipanema

Garota de Ipanema
de Leon Hirzman, Brasil, 1968
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Extraordinária oportunidade de ver esse esquecido filme do Leon, uma tentativa de o cinema novo tentar fazer um produto mais popular, em cores, com as "belezas e delícias" de Ipanema, etc. A sessão no MAM foi com um DVD bizonho, em que se torna impossível avaliar a suposta fantástica fotografia do Aronovich (uúúúú pro pessoal da sessão que não avisou nada...).

Márcia Rodrgiues, a atriz principal, estava presente na sessão, e ela deu a chave de entendimento desse trabalho. O momento era péssimo, pouco antes do AI-5, a galera do cinema novo não tinha clima pra fazer as belezas de Ipanema, o Leon não acreditava no filme. Talvez por isso o filme tenha uma transformação incrível lá pelo meio, em que se torna triste, triste, acaba o roteiro, e a linda Garota de Ipanema entra numa fossa sinistra. O filme tem um clima, portanto, quase documental (esp as cenas dos bailes do Carnaval). Ainda assim, não há desculpa, nada funciona no filme: não tem ritmo, a música usada como na chanchada (e olha que o cinema novo malhava à beça...), Márcia com caras e bocas, uns zooms cafonésimos, diálogos quase risíveis, etc. Realmente agora a gente entende pq não tem cópia desse filme disponível: é um filme que o pessoalzinho do cinema novo (e afins) deve estar louco para esquecer...

O Filho da Noiva

O Filho da Noiva
de Juan Jose Campanella
Argentina/Espanha, 2002
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Depois de uma boa semana de cinema argentino recente, peguei em DVD O Filho da Noiva, e ... era exatamente o que eu esperava: o falso filmne-lágrima, o lacrimejante de laboratório. Campanella fez "estágio" na Tv dos Estados Unidos, então é competente no básico de seu ofício, ou seja, segue tudo ao pé da letra: música chorosa o tempo todo, "orelhas" engraçadinhos, humor e emoção na "medida certa", diálogos "profundos", etc, etc, etc. Ou seja, o filme não tem um único plano verdadeiro.

Pra comparar, digo que é como se o Campanella fosse o filho do professor de Lugares comuns, o que desistiu de ser argentino e foi viver na Espanha, ganhar a vida como analista de sistema. O filho da noiva só não é americano pelo pequeno detalhe de ser falado em espanhol.

A crise do personagem principal pode até ser comparada com uma crise da Argentina, mas o fato é que se há transformação e luz na transformação do ator (o extraordinário Ricardo Darin), em O Filho da Noiva, há o filme-fórmula, há o espectro sydfieldiano. Falta silêncio, falta vontade de cinema, falta desejo: O Filho da Noiva é o cinema argentino globalizado, asséptico, insípido, ou seja, um filme que faz as pessoas chorarem e se sentirem melhores ao saírem do cinema. Socooooorro!!!!!