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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quinta-feira, setembro 30, 2004

pra quem não sabe

ah... pra quem não sabe, pode não ser a melhor mas a cobertura pela internet do festival do rio que pelo menos tem mais afinidade com este blog é a do site http:///www.planoaplano.kit.net - clica em suplemento e depois em Festival do rio 2004....

(FestRio) O abraço partido

O ABRAÇO PARTIDO
de Daniel Burman
Argentina, 2003
**

Vou falar rapidamente sobre esse filme argentino que ganhou vários prêmios em Berlim. No começo não gostei nada de O Abraço Partido: pelo humor de judeu gasto e ralo, pelos trejeitos da câmera na mão que, se dão um look meio de documentário e mais descontraído ao filme, não acrescentam em nada à dramaturgia e com o tempo viram um pé-no-saco. Pelo roteiro que bamboleava (?) entre a chanchada e a crônica de costumes.

Mas aos pouquinhos o filme foi se revelando, e qdo vi já estava de cabeça no filme. O filho censura o pai mas está seguindo exatamente pelo mesmo caminho (querendo ir para a Polônia, desistindo não sabendo o porque da mulher que ama, "pegando" sua vizinha de galeria...). O filho tem uma profunda relação de amor e ódio com o pai: quer saber muito sobre ele, mas ao mesmo tempo quer distância. Isso é trabalhado indiretamente no filme como uma relação entre gerações na Argentina: o sentimento do filho para com o pai é de diversas medidas o mesmo que os jovens argentinos têm para uma velha argentina. O problema é que essa argentina está morrendo ou pelo menos "se aposentando" (seu osvaldo) e a jovem argentina está repetindo os mesmo erros da antiga e fazendo as mesmas cobranças. O abraço literalmente no final entre pai e filho mostra então numa aposta do diretor numa argentina não-partida, e o filmes e revela profundamente honesto, e com uma visão social que foge do estereótipo. essa jovem argentina é retratada através do filho com um olhar muito particular, sua falta de perspectivas e desesperança. Como cinema não é grande coisa, mas nos 30 minutos finais, o filme tem os seus momentos, esp de roteiro.

(FestRio) Encenando na companhia de homens

Encenando "na companhia de homens"
de Arnauld Depleschin
** ( ou *?)

Ainda tenho dúvidas se gostei ou não desse filme. A cinematografia tem o seu rigor, mas em geral é careta, optando por um estilo de cinema quase teatral, centrado quase totalmente num estilo descritivo e na atuação, e todo em interiores. O lance dos ensaios, que se confundem com o filme, acaba não funcionando totalmente e, se oferece um distanciamento meio brechtiano, acaba soando repetitivo e um deja-vu. Como cinema, não achei muito inspirado.

O roteiro já é mais estranho, e oferece seus insights, sobre a questão do filho adotivo que tem uma relação de amor e ódio do pai , que quer provar ao pai seu valor e acaba causando mil encrencas. em alguns momentos, chega-se a pensar numa tal parábola do filho pródigo, mas o filme não pretende a reconciliação redentora, e vai fazer um final amargo, com um patético suicídio. Alguns flashbacks tem seu interesse, esp a cena em que a mãe dá um banho de sangue no bebê recém-nascido. Coisas assim meio estranhas, mas que não asseguram uma proposta coesa ao filme, que meio que fica no meio caminho de várias intenções, inclusive a da narrativa psicológica. Os personagens acabam não sendo muito bem desenvolvidos, com alguns clichês. A cilada que o filho cai é meio enrolada, e não muito verossímil. Acho que se bobear, é só * mesmo.

(FestRio) Mal dos Trópicos

Mal dos Trópicos
de.... (do tailandês que é impossível escrever ou falar o nome)
***

Api-chatong (essa foi boa), depois do Eternamente Sua, faz mais um trabalho estranhíssimo, um cinema de ponta. é o chamado "cinema-chuta-o-balde" porque tudo se torna possível. De qualquer forma, o filme tem duas partes: na primeira, um grupo de pára-militares que cuidam de uma floresta + início de idílio amoroso entre dois caras; na segunda, uma transformação incrível: um deles passa a viver na floresta, convivendo com os animais e mitos da floersta.

a primeira parte parece com algo do cinema taiwanês que a gente consegue ver por aqui (de tsai a prazeres desconhecidos), com um jeito light e um homor inocente ou melancolia, mas em diversas vezes o registro atinge um grau de sinceridade incrível, com cenas longas p ex quando um garoto deita no colo do outro e chega uma mulher que os leva para uma caverna estranha (belo momento do filme...)

Mas o filme terá uma abrupta descontinuidade que o levará para outra direção: do início de romance gay, o filme vira um tratado místico, um mergulho profundo e radical nas entranhas da floresta e na alma do indivíduo, sendo (mal comparando) uma espécie de "Cobra Norato" tailandês, com uma luz incrível. Aí tem de tudo, de vagalumes a almas saindo de animais, cartelas com pinturas "primitivas", macacos dialogando com o espírito da selva, o filme vira uma mistura de Paradjanov com Dovzhenko estranhíssima. Os diálogos acabam, e vira um filme de atmosfera bastante rigoroso e absolutamente místico, o que é coroado até o final.

é um filme difícil, e Mal dos Trópicos ainda faz parte de um processo de construção, mas A.W. está longe de querer fazer o filme perfeito: a desconstrução, a surpresa e a arritmia fazem parte de seu cinema. Sinceramente não chegaria a dizer que é uma obra-prima, pq é irregular, cansativo, e cai em alguns cacoetes, mas sem dúvida alguma é cinema de ponta, obra altamente estimulante na busca de novos caminhos para a linguagem e a expressão cinematográfica. Por isso, obrigatório. Mas fã, não sou não... Os exageros são dos cus dos francófilos.

quarta-feira, setembro 29, 2004

(FestRio) Nina

NINA
de Heitor Dahlia
Brasil, 2004
Odeon qua 12hs
0

O tão aguardado Nina, do estreante Heitor Dahlia, começa com uma cartela do tipo: "Existem dois tipos de seres humanos: o primeiro é de ordinários, ou seja, pessoas que nasceram para serem mandadas, que fazem com que as coisas continuem exatamente como são; o segundo é de passoas extraordinárias, que são pessoas que desafiam os limites, pessoas criativas, que transformam o rumo das coisas.... mesmo que para isso precisem cometer um crime". Dado isso, então EU diria: "PELAMORDIDEUS, ME GARANTA UMA VAGA NO GRUPO DOS ORDINÁRIOS!!!!!!". E é exatamente isso que ressoou na minha cabeça e se confirmou em toda a projeção de Nina: eu quero desesperamente uma proposta de cinema ordinária, estou farto dos supostos extraordinários.

Nina é uma adaptação de Crime e Castigo de Dostoievsky. Ou pelo menos pretende ser. Tudo bem que nenhuma daptação precisa ser fiel, mas é triste o pleno desconhecimento da direção do que está em jogo para D: em especial o postulado ético, a preparação, o trabalho físico-corporal do assassinato em si, o conflito psicológico. Nina é amadorístico, e o mais triste é que o diretor teve todas as melhoers condições para realizar o trabalho que quis: se fez um filme muito ruim, foi por suas próprias insuficiências. Triste, e difícil até comentar as várias escolhas catastróficas: o cinemascope totalmente injustificado, já que o filme é quase todo em interiores; a dierção de atores impostada, em que até Miriam Pires está careteira; a terrível dificuldade do roteiro em conferir uma dramaturgia ao filme, em dizer algo do que seja aquela personagem (ainda que ela não seja nem boa nem má, o que é até louvável, é perciso ter dramaturgia, motivação, preparação, etc). Esse desconhecimento básico da dramaturgia se reflete em situações absolutamente precárias e mal desenvolvidas. Ainda, é um filme jovem, e faltou uma leveza, uma câmera na mão, sei lá, que refletisse isso: a produção nível "A" oprimiu o filme, e lhe causou um grande mal. O assassinato é catastrófico; a solução final em que a menina talvez não tenha matado a velha, que morreu de ataque cardíaco, e que a menina ficou louca é deprimente. Fraquíssimo. Guta Strasser está muito mal, careteira, careteira, sem dar nenhum dimensão humana ou ambígua ao personagem. Por aí vai... chega...

segunda-feira, setembro 27, 2004

ainda denis

entrei numa viagem sobre o filme da denis que é como se todo o filme fosse contado ou em elipse ou fora-de-quadro (em off) nos tempos fortes, e valorizando os tempos fracos. Com isso, o espectador está "sempre atrasado" em relação ao filme, só podendo se localizar a posteriori.

Claro que é um filme sensorial, pouco preocupado com o entrecho como tal definido na narrativa clássica, e que trata a captação da "realidade" no cinema como claramente parcial e incompleta, mas acho meio forçado falar totalmente que é um cinema dos sentidos, etc, (como o povo do Contra...) pq não há improviso no filme da denis, tudo é fruto de intensa marcação e decupagem. Até como alternativa por isso mesmo é interessante, mas por isso mesmo creio que falte um respiro, uma "auto-surpresa" dentro do filme. é racionalista demais pra falar sobre os sentidos.

(FestRio) Lost Zweig

Lost Zweig
de Sylvio Back
Brasil, 2004
Odeon, seg 12:00
*

Depois de Nobody Knows e Agente Triplo, a triste realidade: um filme brasileiro. Mas até que não foi tão trash não, apesar de não ser um bom filme. O maior mérito de Lost Zweig é ser uma homenagem ao Morte em Veneza, e o diretor buscou isso numa concepção de mise-en-scene, no clima da arte, no tempo da narrativa, etc (só faltou os zooms toscos do extrapordinário filme de Visconti). Daí que Lost Zweig é pesado, parece ser um filme antigo, mas o filme comete um erro capital. Ele estava até indo bem até os primeiros 40 minutos, mas aí tem um flashforward incrível que mostra o final do filme. É um recurso ousado, e Back merece até ser elogiado por isso, mas o problema é que só ser ousdado não adianta, tem que ousar e a coisa funcionar. E no caso não funcionou, e ele perdeu o filme. O tal final – e mais uma declaração de amor ao Morte em Veneza – é o protagonista morrendo, e todo o resto do filme acaba sendo absolutamente redundante, porque apenas ratifica o que já foi mostrado antes, sendo absolutamente cansativo e redundante. Já sabemos enbtão que ele vai morrer e que Vargas não vai dar o visto. O filme perde então todo o interesse e a possibilidade de dramaturgia. A verdade também é que o filme tem um bom gancho (o escritor que não quer escrever nada encomendado para manter sua integridade pessoal, mas se ele o fizer ele deixa de salvar vidas, então vale a pena?), mas não sabe como desenvolver: tudo fica primário, e os personagens perdem em substância, não tendo conflito e não se tornando interessantes. Syilvio Back ficou quase 10 anos para realizar esse filme, e isso ressoa, dado retumbante na nossa cabeça... ainda assim, lamentavelmente não é um bom filme, embora tenha coisas bem interessantes, a principal delas ao meu ver é a buzina que se confunde com sirene no início do filme, que dá um tom bem estranho. O filme é até bem realizado e as referências ao Morte em Veneza dão um certo tom. Enfim, um filme válido, mas que ficou faltando um pouco para ser bom.

(FestRio) Agente Triplo

Agente Triplo
de Eric Rohmer
***

Depois da grande porrada que foi NOBODY KNOWS, um descanso: caguei pro novo Raul Ruiz e fui para casa, preparar meu espírito para uma nova empreitada, o novo Rohmer. Agente Triplo é mais um filme como todos os outros do Rohmer, sobre a impossibilidade da linguagem, sobre como a vida é um jogo de espelhos, sobre como a verdade é absolutamente fugidia. Mas tem um corolário ético (claro), típico do cinema de Rohmer: ainda assim é preciso escolher um lado, não se pode ficar o tempo todo em cima do muro. Por isso, pra mim, o personagem principal do filme é aquela mulher, que merecidamente se fudeu, ela é culpada mesmo sem saber porque o foi e qual seu crime. Seu crime é a cumplicidade sim, mas mais que isso, a omissão (claro, Rohmer é absolutamente católico...). Não adianta alienar-se, fingir-se de morta: a mulher tinha o dever sim de saber o que o marido fazia, e não o fez por ser mais confortável pra ela, mesmo com toda a culpa e a choradeira da cena final quando o marido praticamente confessa o crime, ela no fundo no fundo assumiu que o defenderia (ela disse que o marido estava com ela quando os caras retornam ao aprtamento). Por isso, ela morreu, mereceu morrer mesmo. Daí que Agente Triplo é um filme-piada: no final, pergunta-se: e qual o destino daquela doce mulher: MORREU!, um coro responde, com efeito cômico. Pareceque o filme todo foi feito pra contar essa piada, que se justifica plenamente.

Tem uma coisa engraçada no filme que é quando o marido diz que está contando a verdade o tempo todo mas as pessoas não acreditam nele. Sim, mas será que essa própria frase é verdade? Agente Triplo é um jogo de modulações, em como a linguagem é completamente ardilosa em revelar algo verdadeiro. E o próprio Agente Triplo se fudeu, morreu também (o filme brinca com isso, será que morreu mesmo? mas provavelmente sim). Como sempre mais um corolário ético de Rohmer: a esposa fiel pintava aqueles quadros bizonhos, diferentemente de Picasso que fez Guernica. Não adianta ser “simpatizante”, tolerante com o outro, pois o que conta é o que se fez de concreto para mudar a coisa. Com sua alienação, com o seu “lavar as mãos”, a mulher é culpada sim, e por isso Agente Triplo é o mais político e o mais religioso filme de Rohmer. Agora, é grande cinema porque também é sobre a linguagem, e porque é o mesmo filme de sempre do Rohmer e absolutamente diferente. Rohmer é dos grandes, e mesmo que Agente Triplo não seja um de seus melhores filmes, é grande, grande cinema.

p.s.: antes do Rohmer passou um curta em vídeo bizonho da RBS gaúcha, sobre um cego que grava coisas no táxi, um daqueles curtas que não poderiam ter sido filmados, absolutamente imbecis, e nada ver com o Rohmer, que deu vontade de vaiar, dizer que o cinema nacional é uma bosta e que os curta-metragistas tem que morrer de fome. é mole... ói como é rúim...

domingo, setembro 26, 2004

(FestRio) O intruso

O Intruso
de Claire Denis
**

Gostei de O intruso. gosto bastante da clire denis. gostei do filme embora não dê pra entender nada. é engraçado, pq é caro pra caramba, tem locação na suíça, frança, taiti e coréia (?!), em cinemascope, e é superexperimental. o filme tem todos aqueles planos proximos tipicos do claire denis, e aqueles cacoetes de cinema psicologico tipicos franceses. mas pe bom, entrei numa viagem que é um remake do passageiro do antonioni: o tranplante de coração como referncia de uma mudança de identidade, e a ideia da herança como um desjeo de carencia afetiva (tipo morangos silvestres, no final da vida o cara procura o filho, e qdo acha morre). é uma investigação dos limites e das possibilidades da narrativa, só tem tempos fracos, os tempos de virada da açaõ sao quase negligenciadios. quase nao tem dialogo, mas é um saco, não chega a ser recompensador. é bom, interessante, mas nao te deixa bolado. acaba sendo tao experimental, instigante que fica distanciado, e fica menos humano. tem o toque de cinema da denis, que é uma pessoa q faz cinema, mas nao é o cinema humano que eu busco. foda-se diria a denis, q ela nao é obrigada a fazer o q eu quero, mas dái nao falo q é do caralho. pronto.

(FestRio) Ninguém Pode Saber

Ninguém Pode Saber
de Hirozaku Kore-Eda, Japão, 2004
****

Cacildis! Mais uma grande porrada cinéfila dessa semana: Nobody knows – Ninguém pode saber, o novo filme do Kore-Eda. É um tipo de filme que só os orientais, e mais só os japoneses poderiam fazer. É um filme que fala sobre a família, sobre a rotina e sobre a dificuldade de expressar os sentimentos com uma intimidade que nos faz ficar loucos. Os primeiros quarenta minutos de filme são antológicos. O filme todo é praticamente passado dentro de casa, com a relação da mãe com os filhos. A mãe no fundo está cagando pros filhos, viaja, deixa-os sozinhos, e com isso os filhos têm que se virar, especialmente o mais velho, que tem que tomar conta dos outros, comprar comida, etc. os filhos ficam presos dentro de casa. Mas se nobody knows fosse francês seria sobre o dilema psicológico, martírio, traumas, etc dos meninos; se fosse iraniano, seria sobre a culpa, seia uma metáfora da repressão social (a maçã), só que a gente está falando do melhor cinema do mundo, do cinema oriental, e o filme acaba sendo um grande, um enorme abraço afetuoso na dificuldade de se estar longe da pessoa que mais se ama, sobre uma carência afetiva que não tem tamanho, e de como ainda assim a vida pode oferecer alternativas espetaculares, se nos apegarmos a uma intimidade. A câmera de kore-eda filma as crianças com uma intimidade, com uma segurança indescritível. A intimidade desse filme, que se passa quase todo dentro de casa, rende alguns dos momentos mais contundentes do cinema contemporâneo. O filme é feito de cinema, só isso, nada mais. Quem falar que o filme é inverossímil porque ninguém percebeu que as crianças estavam sozinhas, etc, VAI TOMAR NO CU e ver Anaconda 2 ao mesmo tempo (espero que goste e não torre o meu saco...). Ah, e quem falar que o filme é longo e poderia ter meia hora a menos, está correto, mas por outro lado, não entende nada de cinema, não entende o que seja um projeto de cinema que transcende tudo isso em busca de uma expressão pessoal e em busca de uma coerência. Todos os planos do filme estão lá: o tempo é essencial para passar uma intimidade, e não é aqueles planos longos de 20 minutos com câmera parada não, é cinema, dramaturgia.

O menino que faz o papel do irmão mais velho tem uma das atuações mais espetaculares que eu já presenciei no cinema. Com um domínio completo do tempo e do espaço, com uma economia no gestual impensável, e ainda com transformação corporal ao longo do filme, o menino criatliza o desejo de um cinema que passa pelo humano. Seria possível listar dezenas de vezes que isso ocorre: como se pinta uma unha, a cena do enterro, etc etc mas tudo isso seria em vão. Nobody Knows poderia ser neo-realista se fosse italiano, mas é cinema porque é japonês: sobre o destino, sobre a família, sobre a miserabilidade da condição humana. Quem espera mais um filme de “criancinhas fofas”, pode até gostar, mas ta longe de entender o que está em jogo nesse filme: o cinema e a vida andam de mãos juntas para kore-eda e ainda que as coisas não aconteçam como a gente espera sempre vale a pena, e a forma como kore-eda filma isso é impressionante. Acho que preciso de mais umas 18 encarnações para chegar a esse nível de existência.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Quase Dois Irmãos
De Lúcia Murat
Odeon, sex, 12hs
**

Primeira exibição do filme no Brasil. Não é o tipo de filme que me encanta, me absorve, que busca novas propostas para o cinema, mas é um trabalho honesto, bem realizado, acima da média do que está sendo feito no Brasil. O filme tem uma urgência de falar sobre o Brasil, e seu discurso até que não é tão didático quanto se esperaria. O lance da “cidade partida” é trabalhado no filme com uma relação presente-passado, através de um flashback bem resolvido, que dá uma dinâmica interessante à narrativa do filme, até porque o objetivo é mostrar exatamente a exacerbação dos conflitos do passado no presente. Sem querer tirar conclusões

A vila (II)

Deixei de passar pelo estresse dessa merda de estréia do Festival do Rio e suas peruas ambulantes, para ir ao Flu e rever A VILA, a salinha 1 do São Luiz quase vazia: definitivamente não é um filme de público.

Uma revisão do A VILA confirma várias de suas qualidades, sua coragem, mas reduziu o impacto do tom místico do filme. Deu é pra reforçar o uso de Shyamalan da linguagem, no corte, na câmera (esp) na articulação entre os flashbacks, nos momentos de intimidade entre os personagens. bELO FILME.

quarta-feira, setembro 22, 2004

que merda

que merda, tem mais filmes bom no fest rio:

- traficante - um húngaro que parece q é lento e deprê
- a ultima vida no universo - um tailandês esquisito bom
- onde o rio termina - um iraniano cheio de voz off que parece ser bom
- a mulher de breakwater - um filipino do mario o´hara, um diretor veterano, que faz coisa meio neo-realista mas parece que é bem bom

pelo menos tem uns que devem cair, tipo:
- uma espada na lua - filme de kung fu de época coreano
- hari om - cinema indiano para exportação

tem uns meia bomba que talvez eu veja, tipo:
- 20; 30; 40 - sylvia chang
- o guerreiro muai thai - tailandês de luta mas parece que é estranho e tem linguagem
- a face oculta da lua - o do laplage, parece que é singelo meia-bomba, mas talvez eu veja, pq é sobre sua mãe que ta morrendo e seu irmão que ele tem problema.

só... que merda!

Terminal

TERMINAL
De Steven Spielberg, EUA, 2004
São Luiz 3, ter 21:30
***

Assistir a três filmes tão intensos em seqüência tem me deixado quase louco. E o mais curioso é que são três filmes americanos: A Vila, Kill Bill v 2 e este Terminal. Terminal é sem dúvida o mais fraco dos três, um filme menor, um filme irregular, mas não menos fascinante, exatamente por ser um filme menor vindo do diretor mais consagrado dos três. Depois de dois filmes absolutamente intensos e místicos quanto A.I. e Minority Report e de uma extraordinária declaração de princípios, de um filme-síntese como é Catch if you can, Steven Spielberg, no auge de sua expressão como cineasta, se dá ao luxo de fazer um filme tão simples quanto Terminal. Enquanto Shyamalan quer largar tudo para se deixar guiar por um cinema místico dos sentidos e Tarantino quer fazer seu filme-testamento, sua obra definitiva, Spielberg quer um resgate do cinema-padrão, do cinema cívico, do bom e velho cinema americano. O referencial para Terminal – e é impossível falar desse filme sem ter isso em mente – é o cinema de Frank Capra. Para Spielberg também está em jogo a possibilidade das instituições americanas garantirem um mundo mais justo, e de o cinema retratar esses ideais com ética e virtude. O cinema de Capra está todo lá na neve sobre o rosto de Victor Navorski (Tom Hanks) quando ele finalmente consegue sair do aeroporto, através de uma enorme grua em que se vêem refletidas, sobre as janelas envidraçadas do aeroporto, as fachadas dos prédios de Nova York. Mas enquanto o cinema de Capra vai usar a crise de 29, o cinema de Spielberg em Terminal tem como base o 11 de setembro. Ainda que seja o mais irregular dos últimos filmes de Spielberg, seja no desenvolvimento dos personagens e nas situações oferecidas pelo roteiro, Terminal não deixa de ser absolutamente apaixonante, por ser uma mistura de Náufrago com Prenda-me se for Capaz. Isolado numa ilha, num lugar-nenhum, o imigrante interpretado por Tom Hanks é um espelho de seu tempo, vagando num mundo de ilusões e fantasias perdidas. Terminal começa de forma bem estranha, onde Spielberg, numa decupagem criativa, consegue enquadrar o aeroporto como se fosse um supermercado, com um enquadramento opressor, claustrofóbico, com uma limpeza robótica e asfixiante, com gruas esquisitas entrecortadas por steadicams frenéticas que intensificam o clima paranóico e obsessivo do entreposto, como se fosse uma espécie de 1,99 (o filme do Masagão) do primeiro mundo. A seguir, mesmo no meio de alguns pulos narrativos e algumas inconsistências, Spielberg vai humanizando seu personagem, acomodando sua decupagem, deixando o espectador mais confortável e se identificando com seu personagem. Além de postulado político, Spielberg faz uma radiografia do “tempo de espera” como sinal de amadurecimento: a “cidadania” de Mazorski se dá ao meio de uma conquista do dia-a-dia, de um processo de humanização, de sociabilidade e de inserção. Uma parte crítica é quando Hanks serve de tradutor para o comissário encarregado do local (Stanley Tucci): ao sugerir que os remédios são para uma cabra e não para o pai do imigrante, Hanks agora passava a “saber as regras”, a dar legitimidade às instituições, e converter as mesmas regras segundo uma idéia de humanização. A questão da “tradução” passa a fazer toda a diferença. Essa generosidade em relação ao imigrante, às boas intenções do imigrante que quer chegar numa nova América, em relação ao cidadão comum e aos desprestigiados são mais um elemento do cinema de Capra. Embora conservador (o imigrante ao final de sua jornada deve retornar à sua terra natal, para “o seu lugar”), Terminal não deixa de ser crítico a uma sociedade americana obsessiva ante a vigilância e à assepsia da proximidade com o estrangeiro (cena síntese: uma dezena de policiais apontando armas quando o faxineiro indiano sozinho consegue parar um avião). Mas tudo isso é secundário, a crítica sucumbe: Terminal é a visão de maturidade de um artista - consagrado e realizado - no auge de sua expressão artística, que se permite uma obra de entressafra. Nela vemos algumas das principais virtudes e alguns dos principais defeitos do cinema de Spielberg. Respiro respeitoso, absolutamente honesto e complacente consigo mesmo, Terminal é generoso em relação às suas próprias ambições. Quem o vê como sinal de acomodação, engana-se profundamente: é um espelho de uma profunda satisfação consigo mesmo, de uma auto-estima que o macambúzio Minority Report estava longe, longe de ter. A vida muda: Terminal tem um humor ausente dos últimos filmes de Spielberg, além de um desejo pelo cinema e um postulado ético decisivo. Cinema ingênuo, Terminal poderia ser um filme como qualquer outro. Só não o é porque é um trabalho de continuidade e, acima de tudo, porque é feito com alma. Quem nisso acredita – o que é o meu caso – se emociona: torce, chora, ri, se encanta. Ora, Terminal é um filme antigo, como os velhos e bons filmes de Frank Capra.

Filmes imperdíveis do Fest Rio

Filmes que segundo minha viagem pessoal, minhas expectativas, minha visão de undo, etc. são imperdíveis:

1 – Mal dos trópicos – do tailandês do Eternamente Sua, impossível de escrever o nome
2 – Água Viva – Kioshi Kurosawa – do Charisma
3 – 29 palms – Bruno Dumont
4 – O intruso – Claire Denis
5 – Todos os orientais, sem ser anime e os tailandeses meio duvidosos

Os orientais que eu acabo vendo:

20; 30; 40
as 48 cachoeiras de akame
house of flying daggers
uma espada na lua
dia e noite
sem rumo

Os imperdíveis que eu acho que vão acabar estreando e que eu talvez veja

Zatoichi – não devo ver
Agente Triplo – não sei
Undertow – vou ver
La nina santa– vou ver
Ninguém pode saber– vou ver
Má educação– não devo ver
Ouro carmin– não sei
Notre musique– não devo ver

Os que por curiosidade eu devo ver:

tradição de matar amante, ou algum(s) outro(s)do irã
exílios
historia de marie e julien - rivette
a face oculta da lua
encenando na companhia de homens - desplechin
jogador de cartas - argento
anatomia do inferno - breillat
um ou dois de bollywood

Os que vou ver pro obrigação:

alguns brasileiros




e chega dessa merda psicótica de lista
pro caraaaaaaaaaio.....

terça-feira, setembro 21, 2004

(FestRio 3): Kill Bill, v. 2

KILL BILL VOL. 2
De Quentin Tarantino
EUA, 2004
Cabines Odeon seg 19hs
****

Bom, até que não foi tão estressante para conseguir entrar na tão aguardada cabine de Kill Bill 2. Mas valeu a pena: Kill Bill é uma experiência extraordinária, um tipo de filme que não existe mais no atual cinema americano. Ao mesmo tempo em que é um trabalho absolutamente pop, voltado para o público, é um filme intensamente pessoal, intensamente envolvido com a necessidade de buscar novos recursos expressivos para o cinema, apaixonado pelo cinema em cada um dos seus inúmeros planos e efeitos. E mais: absolutamente, absolutamente humano, e talvez isso é que seja o mais surpreendente em Kill Bill (voltaremos a isso). Ao contrário dos Tróias da vida, a ultra-produção de Kill Bill nunca oprime o filme, nunca é sinal de covardia: por isso Kill Bill é a quintessência do cinema americano no que ele tem de melhor, no seu fascínio pelo envolvimento do espectador e desenvolver um subconsciente coletivo, no delírio da produção e da narrativa aliada a um desejo expressivo.

Mas como dizíamos, Kill Bill é profundamente humano, e isso desvela se forma tão clara no final do vol 2 que é impossível não vê-lo como uma das experiências mais emocionantes do cinema dos últimos tempos. A fantástica e tresloucada saga de Beatrix Kiddo (The Bride) em busca de sua vingança acaba se tornando um grande melodrama. Kill Bill ao seu final, e não é nos últimos 2 minutos, é na sua meia hora final, se revela um filme almodovariano, belíssimo, vira um Tudo Sobre Minha Mãe, vira um olhar sobre a impossibilidade da vingança, sobre a humanidade de seus personagens. A criança, a filha brincando de bang-bang, retoma a inocência da criação de Tarantino: tudo, todo o filme, é uma grande brincadeira, o cinema volta a ser o maior parque de diversões que uma criança poderia ter, na expressão de Orson Welles. Toda a saga sanguinária, todo o épico sanguinolento acaba sendo pura brincadeira ingênua de dois adultos bobalhões que se amam, espelho de ciúme, carência, inocência. Espelho do cinema, do cinema de travessuras, da possibilidade de transfiguração do real, do desejo pelo outro, de humanidade. A lição de Kill Bill é a maior lição do mundo, prova de um cineasta em sua absoluta maioridade: as travessuras e os cacoetes do cinema de Tarantino viram espelho de uma ética, de uma busca que a única vida possível é a vida do cinema, do desejo tolo, insano que o cinema possa ser maior do que a vida, etc etc.

Kill Bill é tbem acima de tudo uma declaração de amor a uma atriz. Uma Thurmann, fantástica, tem um trabalho indizível, que oscila de um extraordinário envolvimento pessoal (ela passou meses treinando aikidô sei-la-o-que) além do fato de o próprio Tarantino ter adiado o filme em um ano para esperar por ela (Como Sternberg poderia filmar sem Marlene Dietrich? – replicaria Tarantino). Uma tem um trabalho de enorme dificuldade, pois oscila momentos de enorme atividade física com outroa de intensa contenção e capacidade expressiva: ela oscila da força física a momentos de intenso drama em alguns microsegundos.

Kill Bill é uma declaração de amor ao cinema. Trabalho ambicioso sem ser pretensioso, Kill Bill une o cinema americano clássico, passando por Sergio Leone e os westerns de Corbucci, até o cinema oriental (referência básica) e os melodramas latinos, fazendo uma ponte entre diferentes visões de mundo absolutamente diferentes, com respeito, carinho, intimidade e profundo conhecimento de causa, fazendo um trabalho multicultural ambicioso que merece ser melhor pensado. Tresloucado quanto ao uso da linguagem (flashbacks e flashforwards, gruas, seqüências de ação, cinemascope, o enterro de Uma quanto a tela fica totalmente preta por vários segundos só com som, combinação de cores, etc etc).

Há muito para ser dito sobre Kill Bill. Um deles é sobre uma idéia de preparação. Em Kill Bill há preparação o tempo todo e ao mesmo tempo ele joga toda a idéia de preparação no ralo. Isso porque Tarantino é muito mais esperto que se pode imaginar, do que se pode rotular, e ele busca instintivamente novos recursos experssivos. Exemplo clássico: a cena da cobra que morde o cowboy mandado pela D. Hannah. O tempo todo há preparação, há suspense no ar em cenas bobas: um drink preparado no liquidificador, uma mala vermelha, o cômodo apertado em que os personagens ficam de costas um para o outro, etc, etc. Algo vai acontecer, mas não se sabe quando. Vai acontecer agora, não acontece, vai ser agora, e ainda não, etcetc. Até que de repente acontece mesmo, sem preparação. A preparação não é contínua: é um exercício de sadismo, é dar um pouco e tirar, dar mais um pouco e tirar, até que de repente vai tudo mesmo. É a conta-gotas, até que quando se menos espera, vira-se o vidro todo. Kill Bill todo é assim.
Kill Bill é um trabalho de divisa no cinema americano de hoje, um trabalho marcante, para ser visto e revisto, daqueles que marcam uma geração de cinéfilos. Um trabalho ambicioso que dá certo. Um trabalho para um público de massa que marca uma época. Senti isso antes, durante, depois da projeção de Kill Bill. Um trabalho que marca a maturidade de um cineasta. Um trabalho de cinema na sua plenitude. É um trabalho distante de mim, do que busco no cinema, mas é absolutamente admirável: eu que sempre gostei dos menores filmes (Não Amarás, O sol do marmeleiro, ...) não posso deixar de me extasiar com o grande, com o ambicioso e delirante Kill Bill. Trabalho de gênio, trabalho de um menino que vive para o cinema, filme apaixonado, um trabalho que pronto dá a impressão de que vale a pena viver se for para realizar algo do tipo. Viva o cinema.

(FestRio 2): Um Vazio no meu coração

UM VAZIO NO MEU CORAÇÃO
De Lukas Moodysson
Suécia, 2004
Cabines Odeon dom 19:30
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Lukas Moodysson já fez algumas coisas boas (pelo menos dizem que sim, embora eu não tenha visto nada) mas esse filme é inacreditável, uma das piores coisas que já vi na minha vida, uma bomba que fez as minhas duas horas na sala de cinema serem um desaprendizado, além de um total desperdício do meu tempo, e já nos três primeiros minutos isso já tava claro. Filme pretensioso, em digital com uma câmera na mão amadora irritante, com aqueles cacoetes moderninhos, falando do vazio do homem, mostrando como a existência é uma merda, com cenas escatológicas, todo passado num apartamento, etc, etc, etc. O pai e um amigo filmam um filme pornô (tema interessante....rs) com uma mulher, e o filho é um garoto que se veste de preto, não sai do quarto, meio maluco, mórbido, etc. Feito para adolescentes, e parece ter sido filmado por um, dado o total desconhecimento mais básico do “pra que serve um filme” e de sua absoutamente irritante pretensão. Nada de interessante. Tosco.

(FestRio 1) : Whisky

WHISKY
de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
Uruguai, 2003
Cabines, Odeon, dom 17:30 (atrasou pacas começou lá pras 18:15...)
***

Exemplo para os novos realizadores latino-americanos e de todo o mundo, Whisky é um filme super simples de produção: embora tenha um certo número de viagens e locações, é baseado estritamente em três atores, uma fábrica, uma casa e um hotel, e uma ou outra cena externa. O filme é isso, mas é absolutamente comovente, e altamente inspirado no desenvolvimento de sua dramaturgia. O filme é sobre a emulação de uma realidade, mas especialmente sobre a solidão de uma pessoa que não avançou com o tempo, parou ali, confortavelmente. Mas nada cabeça ou ultra ultra. É um filme simples, sobre a condição humana.

O que mais encanta no filme é sua coerência, é o rigor do uso da linguagem. A repetição sistemática da rotina na fábrica, com os mesmos enquadramentos, silêncios, tempos mortos, props e diálogos. No final, quando tudo será o mesmo mas absolutamente diferente, a repetição da rotina sem um dos elementos (a presença da obstinada funcionária) trará em cheque toda a perspectiva da continuidade, a questão do tempo e reforçará a participação do espaço físico como propulsor de uma afetividade, coisa que os jovens diretores conhecem muito bem e resolvem sem nenhuma dificuldade. Já sabemos que eles conhecem cinema pela sequencia da casa quando a mulher chega e no dia seguinte, com os planos vazios da casa bagunçada e da casa arrumada no dia seguinte, recurso de cinema oriental, com toque ligeiramente cômico, mas repleto de uma análise ultra-observadora sobre a intimidade, sobre a solidão, sobre o cinema: aquelas naturezas mortas falam de uma dramaturgia da mudança. Um plano como o de uma furadeira sobre a mesa de jantar, ou de um bule quante no fundo da pia são a prova de como os diretores trabalham a dramaturgia, longe de serem pretensiosos, mas absolutamente inventivos.

Um filme humano, em cima de três atores, de uma decupagem, de um sentimento de cinema, de um diálogo (sem ser imbecil) com o público: filme simples que atinge em cheio quem deseja o cinema. Belo filme.

Começou..............

Bom, praticamente já começou o Festival do Rio, e claro aquele caos de sempre, justamente num período que eu queria um mínimo de descanso: para finalizar meu Karma, para finalizar o sol do marmeleiro, para ver com calma alguns títulos do circuito - rever a vila, ver o terminal, ver irmãos de fé (sim, irmãos de fé...) etc

Mas tudo tem que parar, porque vai começar o diabos do Festival do Rio, essa bendita maldição, essa adorável perdição que todo ano pára minha vida por duas semanas, pelo menos, na verdade quase quatro, contanto com as cabines dessa semana e da repescagem na semana seguinte.

A programação está cada ano pior: Sergio Leone em hoarios impraticaveis; filmes orientais meia-bomba e escassos, etc etc etc.

Vamos ver se esse ano eu consigo a tal credencial e qual credencial, porque se eu não conseguir estou pensando seriamente em ver meia duzia de filmes e olha lá. Será que eu vou conseguir? Sinceramente, talvez sim.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Redentor

Redentor
De Cláudio Torres, Brasil, 2004
Estação Paissandu, quinta 16/09/2004, 19:20
***

Redentor é bem estranho. Bom, mas desde Cronicamente inviável eu não ficava tão impressionado com um filme que quer falar sobre o Brasil de hoje. Redentor é um filme que pega a máxima de Aristófanes (Ridendo castigat mores: Rindo criticam-se os costumes) para dar uma grande porrada na classe média. Pedro Cardoso é um jornalistazinho classe média sufocado entre a sua inveja dos ricos (o empresário imobiliário Miguel Falabella) e os milhões de miseráveis – o povo – fudidos. Todos querem a mesma coisa: dinheiro. A classe média tem nojo e usa o povo, mas não percebe que é uma marionete na mão dos poderosos, e acaba reforçando o status quo. A mídia entra no meio (Pedro Cardoso é um jornalista), a corrupção, obviamente, os setores industriais, o ramo imobiliário, além do sistema penitenciário, a religião/fé (Deus), e até os puteiros. Mas voltando, o protagonista é da classe média, mas o espectador não exatamente é convencido a se identificar com Pedro Cardoso, até pq ele tbem é trumbiqueiro e oportunista. Ou seja, o filme tem uma puta autocrítica em relação à classe média.

Outra, o filme fala de gerações. Tanto Pedro Cardoso qquanto Falabella são FILHOS de pessoas que tinham um sonho (o pai de PC em ter um apartamento; o de MF em construir um grande negócio): os dois filhos são muquiranas trumbiqueiros. Herdam o desejo dos pais de forma ambígua e no fundo só querem se dar bem. São o retrato de uma falência de um projeto da antiga geração e sua degeneração num mundo materialista, corrupto e fudido.

O filme tem uma narrativa estranha. Começa como um filme noir, com um começo que obviamente remete a Sunset Boulevard (a narração do morto), e o flashback em PB e com contra-plongées tipo Cidadão Kane (até pq fala sobre o poder). O filme tem várias reviravoltas de gênero que o levam de um lado a outro, tornando a narrativa muito flexível, e meio no final o associando a uma espécie de realismo fantástico.

Muito há a ser dito: o começo genial, com uma tomada de helicóptero mostrando o edifício paraíso em torno da favela é uma porrada no cinema brasileiro atual, uma contra-visão do início de um Ônibus 174 p ex da “descrição didática de uma geografia”. Redentor pega todo o cinema plástico da Conspiração como parte de seu discurso de auto-ironia, combinando à perfeição. Com isso, é uma porrada no atual cinema brasileiro, na tal “cosmética da fome” se é que isso existe.

Mais: a cena em que PC e MF conversam à beira do precipício do prédio é uma espécie de síntese do filme, da necessidade de os dois fudidos à beira do abismo se aliarem, do fundo falso em croma-key ser o abismo...

No final o dinheiro não dá pra todo mundo: é um filme que toca sobre a questão da distribuição de renda. Ele se perde pelo ar: um final cáustico, anti-moralista, amoral.

Redentor deve ser um filme maldito, para ser visto e revisto. Bem realizado pacas, com um roteiro impressionante, é um retrato cruel e exato sobre o Brasil e o cinema brasileiro de hoje. Bem bom.

quarta-feira, setembro 15, 2004

Engraçadinha Depois dos Trinta

Engraçadinha Depois dos Trinta
De J. B. Tanko, 1966
***
Mostra Nelson Rodrigues, CCBB, qua 15 13hs

Tanko sabia das coisas. Quase uma continuação de Asfalto Selvagem (que a Mostra não conseguiu trazer...), Engraçadinha depois dos 30 é um dos melhores filmes do Tanko, simplesmente pq dessa vez ele conseguiu pegar um argumento/roteiro que não fosse tão carne-de-pescoço quanto a maioria dos seus filmes (sim, eu sei que o Tanko roteirizou TODOS os seus filmes, mas convenhamos...). Engraçadinha é puro Nelson Rodrigues, sem nenhum cacoete, uma adaptação simples, POPULAR, mas até por isso mesmo desvela a visão de cinema de Tanko, o apelo pelo cinema de cunho clássico, que se desvela nas entrelinhas. Engraçadinha, sinceramente, não deixa muito a desejar em relação a Um bonde chamado desejo, ou coisas do tipo de cinema americano clássico.

Tanko foi fiel a Nelson Rodrigues, mas deu seu toque particular, conseguiu transformar o filme num estudo sobre a natureza do pecado e do desejo. Os personagens são ingênuos pecadores, ou às vezes, sórdidas crianças. É nesse limite esguio entre a inocência e o pecado (Fernando Torres ligando de seu gabinete simplesmente por ter recebido um beijo na testa; a filha de Engraçadinha dizendo no táxi que não sabe quem lhe tirou a virgindade; o personagem de Cláudio Cavancanti matando o cara que quer lhe atrapalhar a vida, etc.) que o cinema de Tanko extrai uma simplicidade que une a poesia do dia-a-dia com o desleixo do cinema mais comercial. Tudo isso tem uma expressão síntese, na ótima cena em que Engraçadinha faz amor no capô de um carro no meio de um matagal no meio da chuva. A mise-en-scene de Tanko é simplicíssima: não há exageros nem mesmo música, mas tudo converge a poesia e a um desejo reprimido de libertação, apenas pela dramaturgia, como só os mais sábios diretores sabem fazer. Engraçadinha tbem tem cenas de incrível intimidade, como quando Cláudio Cavalcanti leva a filha de Engraçadinha para o quarto de motel na Barra da Tijuca, ou quando ele conversa com o garçom do bar do motel sobre que comprimido ele deve tomar, receoso de ficar impotente na hora H. Ou ainda na sublime (sublime mesmo), na impressionante seqüência em que Cláudio Cavancanti pega um ônibus fugindo do crime, e que Tanko corta (mais de uma vez) para a janela do ônibus vazia: um requinte de linguagem raro a um cineasta que sempre teve carne de terceira às mãos. Tanko sabia das coisas: nunca foi gênio, era artesão, e esse foi seu lugar dentro da história do cinema brasileiro. Vendo um filme tão bem sucedido quanto Engraçadinha depois dos Trinta nos dá a certeza de que Tanko nasceu para ser cineasta, e o seria em qualquer parte do mundo, até mesmo no Brasil. Acho que Tanko só não o seria se morresse antes de 1895...

sábado, setembro 11, 2004

caraio

caraio, hojeé 11 de setembro, dia pra se ver A VILA... o filme mais politico sobre os eua pos-11 set. quero falar mais sobre a vila. o filme está só crescendo ocm o tempo. acho que é o melhor shyamalan, e ta chegando perto das ****(obra-prima).

esse ano até q ta bom. antes do fest rio ja teve encontros e desencontros, intervenção divina, a vila, filme de amor, kill bill 1...

ja o cinema brazuca depois do filme de amor o melhor foi, foi.... xiiiiiiiiii

ah

ah, e foi bem bom ver o filme no Palácio 1 por vários motivos. O cinema, que eu não ia desde o senhor dos anéis 1 ta reformado e ta bem decente. a sessaõ nao ficou lotada, o q foi otimo, deu pra ver bem confortavel, sem ninguem gritando e nenhum mala na minha frente. so o som q tava sinistro. e ainda paguei só R$ 3,50. com certeza muito melhor do q se eu fosse na pre-estreia na barra mesmo sendo de gratis.

ainda olgargh

é claro que não há espaço para a dramaturgia em olgargh, e realmente me impressionou a incapacidade de Monjardim de fugir do superclose. Mesmo em termos de produção, o filme me pareceu meio canhestro: Prestes parece que nunca saiu do apartamento dele, como iria comandar uma revolução? como iria ter o apoio da marinha, exército, do povo (???!) etc, se nunca falava com ninguém, se nunca saía do seu casulo?? Se pensarmos bem, Olga é cheio de interiores, o que facilita a produção. Pensei que iria ter cenas de confronto, de batalha, mas nada, meio caozinho.

Outra coisa que achei estranhíssima: Olga é retratada como um ser andrógino. As cenas em que aparecem Camila Morgado nua são deprimentes: é impossível ter tesão naquela mulher, naquele robô falante. Se o filme quis pasar um processo de humanização, ele ainda ficou muito a meio do caminho. E isso é o que foi estranho: Olga é um filme muito mais feminino que masculino, e as tentativas de atrair o público masculino foram todas canhestras no filme. A atuação de Camila Morgado sofre dessa dificuldade expressa na direção e no roteiro, da impossibilidade de encontrar um equilíbrio entre a contenção e a expressão, ou ainda entre seu lado robótico e o apaixonado. Assim as cenas de quando os dois são presos e ainda tentam se agarram um ao outro são toscas, assim como a já histórica cena do "assassinos! assassinos" etc.

Dentro da linha de cinema-blergh do "Manjadinho", a única possibilidade para Olga é se fosse um filme sobre a humanização de uma pessoa atraves do amor, e o filme iria bem até nas lições ideológicas que poderia ter (o social se rompe em função do indivíduo, que é no fundo o lema do filme). Nisso uma frase sintese do filme seria aquela que a pessoa fala que o calor dos tropicos ja fazia efeito em olga logo após uma bela equencia em q ela nada no mar. Mas nem isso.

Por fim, a única coisa de interesse em olga é a questão do olhar, ou melhor, dos olhos. Os olhos são a única coisa que fala neste filme. Os olhos de Olga são obstinados, fixos; os olhos de Prestes são miúdos, tímidos, esguios. Nos campo-contracampo de supercloses típicos de Monjardim, os olhos falam. Ali é o único resquício de cinema em Olga.

Agora, vamos combinar: não dá pra pensar ingenuamente que é só fazer bigclose pra se criar uma tensão, e isso por si só leva a cena. Muito pouco para um diretor da kilometragem de JM.

sexta-feira, setembro 10, 2004

Olga

Olga
de Jayme Monjardim, Brasil, 2004
Palácio 1, sexta, 10/09 17:30
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Amigos,
É preciso confessar: eu chorei vendo Olga. Sim, não foram poucas as lágrimas que derramei durante a projeção do filme. Mas não foram lágrimas de pranto em relação ao destino sombrio da protagonista que se prenunciava. As lágrimas foram de lamento em relação ao que se tornou o nosso tão querido e capenga cinema brasileiro. Chorei porque (paradoxalmente) não há espaço para a emoção em Olga, e tudo exala uma assepsia deprimente. Chorei porque quando todos os recursos são disponíveis para um realizador, para o “grande projeto da Globo Filmes”, esse mesmo realizador declara que seu grande sonho é que Olga vire uma minissérie, um produto para Tv em vários episódios, porque assim sua audiência seria no mínimo dez vezes maior que a mais otimista das projeções de público para a obra nos cinemas. Chorei porque no “maior projeto do cinema brasileiro dos últimos tempos” não há espaço para o sonho nem para o desejo, porque não há espaço para o Brasil, não há espaço para o risco. Enclausurado em sua covardia, Olga é uma espécie de um muro das lamentações, de enterro de tudo o que sempre representou o cinema brasileiro, uma lição tétrica, cruel, violenta e desumana. Chorei porque pela primeira vez tive vergonha em sonhar que quero participar dessa história, desse cinema brasileiro. Chorei porque as pessoas ao meu lado também choravam, mas por outros motivos. Chorei porque me lembrei de que trabalhava diariamente em prol de uma coisa que eu já não sabia mais o que era. Chorei porque tenho um sonho que dificilmente poderá se realizar.

A sessão acabou, as luzes se acenderam, as pessoas se levantaram das poltronas, e eu continuei lá, estático, paralisado, sem saber como poderia reagir. O segurança me cutucou: era preciso que eu saísse para que começasse a próxima sessão. O show deve continuar.

quinta-feira, setembro 09, 2004

A Vila

A Vila
de M. Night Shyamalan, EUA, 2004
***

Uma das conquistas do cinema é a possibilidade de nos fazer viajar, voltar no tempo, se encantar. A Vila é um filme infantil, no bom sentido do termo, porque é cheio de um desejo por um cinema que parece impossível, por uma vida que parece impossível. Shyamalan quer resgatar a possibilidade de o cinema ainda poder ser verdadeiro, e cada imagem de seu filme tem o desejo ufano de buscar o êxtase e o divino. Desejo repleto de inocência e de impossibilidade, desejo infantil de que o cinema se misture com a vida, Shyamalan filma com o deslumbramento de uma criança que desconhece os limites do seu brinquedo e de sua própria vida. Com isso, assistir a cada um dos filmes de Shyamalan torna-se uma experiência não só única mas absolutamente comovente, porque são absorvidos com essa responsabilidade moral e ética do artista que sem exagero nos faz associá-lo a cineastas do nível de um Tarkovsky ou Dreyer. Mas enquanto para cada um desses a experiência divinamente humana do cinema está relacionada com um trabalho de linguagem particular, o cinema de Shyamalan está condenado a ser um cinema das massas, a ser visto para ser comentado entre as mordidas de um Big Mac. É por entre as próprias contradições do cinema americano e – ainda mais – da narrativa clássica hollywoodiana, que Shyamalan busca a essência de seu cinema: um cinema de impacto, um cinema que busca ser visto, um cinema que não deixa de ser um produto de uma indústria de consumo rápido, em que o lucro está em primeiro lugar.

A Vila é um trabalho complexo, obra de um artista, e diante de um primeiro impacto fica difícil escolher as palavras para melhor defini-lo. De um lado, é um exame cruel e exato das contradições da sociedade americana pós-11 de setembro. De outro, é um exame metafísico da impossibilidade e da necessidade de Deus no mundo contemporâneo. Por um outro, é um olhar particular sobre a miserabilidade da condição humana. Num quarto, sobre a construção de um artifício como forma de suprir o abismo (a farsa como um “pacto social”, ou a representação e o cinema).

Ainda há um tema que é central em A Vila e no cinema de Shyamalan, e se torna impossível não começar por ele. A Vila é um filme sobre o medo do desconhecido, sobre em como não existe vida sem a dúvida. O medo do desconhecido é natural do ser humano, mas em muitas circunstâncias é uma fabricação social. O medo como inato ou como produto de uma sociedade faz Shyamalan se inserir num debate antigo, de Hobbes a Rousseau, mas Shyamalan o faz de um ponto de vista místico ou metafísico, e ainda insere novos elementos como o papel da mídia (Sinais) nesse contexto.

A Vila é obviamente um filme sobre a cegueira, o que nos remete imediatamente a Maeterlinck (Os cegos). Mas aqui se trata de problematizar a questão, mais que simplesmente afirmar a miserabilidade da condição humana (o que o diretor, claro, também aproveita para fazer). Se o desconhecido é uma fabricação, ele por outro lado também existe. A impossibilidade e a necessidade caminham juntas, e Shyamalan busca um cinema no meio da névoa e do pó. Por isso todos os seus filmes tem uma angústia profunda, um sentido de missão.

Para ver um filme de Shyamalan, é preciso ter fé. Quem o tem, sai do cinema transfigurado. Seu cinema é uma experiência mística dentro de um cinema americano cada vez mais “embalado para viagem”. É impossível ver os filmes de Shyamalan em DVD ou VHS.

É preciso ter fé para encarar o desconhecido. Ver A Vila me fez entender melhor o conturbado final de Sinais. Para o projeto de Syamalan, é fundamental que os personagens estejam frente a frente com o desconhecido, e tenham a força para superá-los. O inimigo parece um fantoche, ou um clóvis de carnaval, mas é isso mesmo. O tão poderoso inimigo é desritualizado, dessacralizado, desfigurado pela proximidade. O desconhecido somos nós.

Quem não tem fé, viaja pelas superfícies do cinema de Syamalan: em seus artifícios de roteiro, nas programações dos sustos, no “cinema de suspense”, no trabalho de produção. Mas quem o tem, vira uma criança durante a projeção e, após, sai do cinema transfigurado: para viver talvez seja preciso fabricar e desmistificar uma fé, tão importante e tão abjeta quanto o próprio cinema, quanto a própria vida. Para Syamalan é preciso ter coragem para viver, e essa sua inocência juvenil é acima de tudo absolutamente comovente, e um olhar de um artista completamente absorvido e perturbado em destrinchar os desígnios do mundo e de seu ofício em particular.

sábado, setembro 04, 2004

poema da madruga

hoje estou triste
triste mesmo

espero que passe

quinta-feira, setembro 02, 2004

Nunca Fui Beijada

Nunca fui Beijada
de Raja Gosnell, EUA, 1999
**

a cada dia que passa tenho cada vez mais convicção que o grande desafio da vida é ser uma pessoa como qualquer outra. O cinema americano vai utilizar esse conceito com uma contrapartida ideológica (o cinema de massa, o consumismo), mas num mundo regido pelo individualismo, pelas pressões de ter que se destacar e ser bem sucedido, não deixa de ser um interessante paradoxo.

Nunca fui beijada é um desses filmes americanos (só pra ter uma idéia eu o vi na sessão da tarde...) que pegam uma idéia de crise para transfigurar a crise como parte natural do rumo das coisas, para acentuar a capacidade de reformulação. Até aí nada demais. Mas Nunca Fui Beijada seduz porque sua ingenuidade conseguiu ser traduzida para uma visão de cinema. Drew Barrymore é uma tímida e fracassada operadora de xerox até que recebe a chance de ser uma repórter e fazer uma matéria sobre o dia-a-dia de uma high school americana. Os filmes de high school americanos são os melhores do cinema americano porque o mundo dos adolescentes é cruel, e todas as pressões da sociedade americana podem ser refletidas num cinema sarcástico e irônico. Mas aqui não é o caso. Josie Geller, a personagem de Drew Barrymore, volta à high school para um acerto de contas. Na sua época, era tímida e fracassada; agora, é um sucesso. Toda a comparação entre um e outro momento é o que faz a diferença.

Raja Gosnell traduziu esse retorno com uma simplicidade desconcertante: o high school é uma espécie de conto de fadas filmado de forma realista, e toda uma idéia de redescoberta e rejuvenescimento assumem o primeiro plano do filme. O envolvimento de Drew B com os homens de sua classe é uma aula de dramaturgia e extremamente bem resolvida. A necessidade do sexo pela primeira vez e as pressões dos amigos de classe são visíveis, mas a delicadeza e o envolvimento dos personagens masculinos são absolutamente comoventes, como há muito não se vê no cinema americano.

Tudo se torna extremamente pessoal quando a matéria que Drew Barrymore precisa fazer para o seu jornal se torna a própria história da sua vida. A possibilidade de expressão pessoal dentro do universo da mídia de sensacionalismo e exploração dos sentimentos é diretamente problematizada no filme, porque afinal nunca Fui Beijada é um filme americano. Como se pode então ser pessoal dentro do cinema americano, dentro de um universo midiático de consumo de massa?

A feliz escolha de Drew Barrymore para o papel cristaliza várias das intenções do filme. Tímida e decidida, sua personagem permite uma distância (ela é acima de tudo um elemento estrangeiro, ou ainda a distância no tempo) e um envolvimento (ela passa a viver o mundo do colégio, esquecendo-se da matéria) notáveis, valorizados por uma expressão corporal de um comedimento e um “desajeitamento” que passam a se tornar característica de personalidade, sem nenhum tique ou caricatura. Humana, sua personagem evoca uma fragilidade que acentua toda a difícil problemática que envolve o filme: a irreversibilidade do passado, a dificuldade de envolvimento amoroso ou de entrega pessoal, a pressão para ser bem aceita. O filme coroa exatamente a lição do cinema americano: a matéria será um sucesso quanto mais as pessoas se identificarem com ela, quanto mais acreditarem que vem de uma “pessoa como qualquer outra”. A superexposição do universo midiático assume um ponto-limite: no centro do estádio, Drew Barrymore se oferece inteira a seu homem, na presença física dos milhares e ávidos leitores do jornal, como única possibilidade de redenção, desesperada e desesperadora. Assim estamos nós, os espectadores, rompendo essa privacidade – muito íntima, muito particular – de forma completamente invasora. Para ela não importa: seu grito, sua “única declaração de amor possível” vem através de seu ofício de repórter, vem através da escrita, sendo ela desajeitada demais para falar, para explicar tudo. A matéria é a única forma que ela dispõe de se expressar. Esse seu grito passa a ser “arte de massa”, passa a ser expressão pessoal dentro do universo midiático, mas acima de tudo é uma expressão interessada na vida, num problema concreto da vida: o texto por si só nada vale para ela se não conseguir o efeito desejado. Nessa superexposição absurda, Raja Gosnell filma de forma triste: as pessoas torcendo, o contador chegando ao zero, e a incrível seqüência do microfone caindo no chão (síntese do filme: o fracasso, a desistência de ser o centro da mídia, a atuação em torno dos objetos físicos etc etc). Depois ainda, um plano comovente, num close, Barrymore dá de ombros de uma forma muito humana, em que se desmascara toda a sua frustração quando ela tenta dizer (em vão) um ‘deixa pra lá”. Depois, é claro, o final possível do cinema hollywoodiano.

Chega!
Esse filmezinho mexeu mesmo comigo.

quarta-feira, setembro 01, 2004

FILMES DE AGOSTO

FILMES DE AGOSTO

Recentes:
Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Michal Gondry, seg 2 SL1 ***
Igual a Tudo na Vida, Woody Allen, sab 14 EU2 **
Garotas do ABC, Carlos Reichenbach, qui 26 OD **
O Retorno, Andrei Zvyagintsev, ter 31 EU1 *
Fahrenheit 9/11, Michael Moore, ter 24 EB3 *
Balzac e a costureirinha chinesa, Sijie Dai, qua 11 EP 0


OUTROS:
Sweet Movie, Dusan Makavejev, sab 28 DVD ****
Ver-te-ei no inferno, Martin Ritt, sab 28 DVD ***
O mistério de Picasso, Henri-Georges Clouzot, qui 26 DVD ***
Gangues de Nova York, Martin Scorsese, dom 1 DVD **
Em caso de perigo e grande risco, o meio-termo leva à morte, Alexander Kluge e Edgar Reitz, dom 29 MAM **
Como ganhar na loteria sem perder a esportiva, J.B. Tanko, sex 20 BRA 0

Filme do mês:
SWEET MOVIE, de Dusan Makaveyev ****