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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

segunda-feira, dezembro 27, 2004

ah

ah, uma coisa que eu queria muito dizer sobre esse filme, e que quase esqueci: tenho a impressão de que para o personagem do Darlan Cunha tão ou mais importante do que efetivamente beijar, ficar com a garota era ter a coragem de se expor, se de declarar, de expressar seus sentimentos. Poder afinal dizer o que se sente. Fazer com que o outro entenda com uma certa clareza o que se sente. Comunicação e expressão. Isso é o que mais me emociona no filme.

Meu Tio Matou um Cara

Meu Tio Matou Um Cara
De Jorge Furtado
UCI 3, qui 16 21:30
***

É muito difícil falar sobre Meu Tio Matou um Cara, porque é um filme complexo que pode ser avaliado por diversas perspectivas. Por causa das minhas férias sem internet, estou escrevendo sobre o filme bem depois de tê-lo visto, algo que detesto. Mas pensando um pouco melhor, o que mais me impressionou em Meu Tio Matou um cara é como o Jorge Furtado trabalha uma questão básica da adolescência (todo o filme é um rito de passagem): a dificuldade de expressar os sentimentos para a pessoa que mais se ama. Essa distância amorosa, ver a pessoa que mais se ama se entregando em sua própria frente sem que se possa efetivamente fazer algo, é um tema profundo, tratado com delicadeza e sutileza pelo roteiro. “Parente não se escolhe. Um grande amor tbem não”. Com essa frase promocional, Jorge Furtado já apresenta seu filme como um conflito entre acaso e destino, entre até que ponto podemos efetivamente ter controle sobre nossas vidas, podemos escolher, decidir. Por isso mesmo, é um filme profundamente kieslowskiano, como o homem que copiava já o era. Mas pois bem, essa dificuldade de expressar os sentimentos se concentra na extraordinária atuação de Darlan Cunha. E não porque ele seja um bom ator (nem o é, acredito) mas simplesmente porque Furtado explorou as próprias insuficiências do ator como adubo para seu processo de criação. Ao invés de pontuações expressivas, teatrais, marcadas, o gestual, a articulação e o desenvolvimento corporal e até de fala de Darlan Cunha espelham um jogo de meios-termos, de meias-formas de expressão, de “tempos mortos” e “soluções vazias” que valorizam seu percurso. Em sua dificuldade de atuar, ele faz de sua representação espírito. Isto porque seu próprio personagem tenta mostrar que está no controle da situação, mas no fundo não está. Por fora, ele está seguro, mas por dentro há todo o espelho de uma crise, de uma fissura que não pode ser desvelada para os outros. Ele não quer que ela perceba seu sofrimento, sua dor. Por isso, por trás do jeito largado, despojado do personagem, há uma atuação com os músculos do corpo todos contraídos, especialmente os da face, o que é incrível! Numa cena frontal, vemos o menino tranqüilo deitado no sofá, mas quando ele vira o pescoço, vemos uma tensão enorme no músculo do seu pescoço, todo contraído! É nesse tipo de reação instintiva que o filme de Jorge Furtado demonstra sua paixão pelos sentimentos humanos, pelo trabalho do ator.

Jorge Furtado soube extrair a melhor lição do cinema americano: Meu Tio Matou um Cara é um filme de high-school na linha de um American Graffiti, etc, que desconstrói o aspecto linear, narrativo, comercial do roteiro para revelar-se tanto um trabalho em continuidade com seus temas de sempre quanto um olhar íntimo sobre as ambigüidades/fraquezas do ser humano. Meu Tio Matou um Cara é tbem quase um filme de Rohmer, em como o falar é pequeno em relação aos sentimentos, como a linguagem é insuficiente em relação às intenções, sobre o discurso ético (veja o final), sobre como tudo é uma representação (o papel da montagem na seqüência de fotos), na suposta linearidade da narrativa e no discurso amoroso. Mas principalmente sobre a ética. Darlan Cunha queria ficar com sua melhor amiga, mas não queria 1) ferir os sentimentos dela; 2) não trapacear seu melhor amigo. O menino negro é então assustadoramente consciente da tragicidade de sua posição: sua profunda auto-consciência estimula a auto-reflexividade do filme. Ele é tão passivo quanto o espectador, e sua vida se preenche de acasos e de caminhos não esperados, para que “casualmente” ele seja premiado por “tanto sentir” e por tanto perseguir a seu modo seu objetivo.

Há muito mais a se falar sobre o filme, como i) o próprio percurso do diretor (um filme como um meio-termo, ou a busca de um equilíbrio entre Houve uma vez dois verões e o homem que copiava, mas nitidamente mais próximo do segundo), ii) uma proposta de cinema que trilha os caminhos da Casa de Cinema nos anos 80 (é só comparar com Verdes Anos); iii) como a questão racial é tratada de forma consciente no filme (seguindo o homem que copiava, inclusive); iv) como a parte masculina (a trama policialesca, os atributos da deborah secco) é mesclada com a parte feminina (a love story) numa proposta de cinema comercial; v) como um filme com um título como “meu tio matou um cara” se revela uma história de amor; vi) como num cinema brasileiro de estetização ou exploração da violência, uma “morte” é motivo de revalorização da amizade, ou do reencontro; vii) sobre o papel da montagem na ordenação das fotografias pelo detetive para provar se o d secco estava traindo ou não; viii) a tensão social, a violência no ônibus e nos arredores da penitenciária; ix) o fato de ter duas produtoras (natasha e casa de cinema) fez com que o filme tenha um orçamento o dobro do que realmente era preciso para fazê-lo; x) a valorização da voz em off como sinal de desvelamento e intimidade; xi) como o filme usa referências com um cinema de gênero, em especial com o noir: o assassinato, o detetive, Deborah Secco como femme fatale, etc. E muito mais. Um filme memorável.

Nota: fato tosco - o UCI, atendimento péssimo, cortaram o filme antes dos créditos finais, pipoca fria....uma merda esse UCI!!!

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Saudade

Você estava linda vestida de preto
Seus cabelos amarfanhavam seus ombros finos

Queria muito poder te dizer o que sinto

Não sei o que sinto
Apenas sei que sinto
Sinto muito

Dói
mas não faz mal

Tenho medo de não ser compreendido
Por isso me calo

Calar
É minha forma de se expressar

Não sei falar
Não sei tocar
Não sei olhar
Não sei dançar

Sei sentir
E talvez escrever, desenhar, filmar

Sei desejar

O céu está mais cinza que ontem
Tudo bem

Tenho saudades de você

quarta-feira, dezembro 15, 2004

ah

ah, já tem uns 10 dias que começou a correria da seleção dos filmes da mostra em que eu sou curador (ou UM DOS curadores, pelamordideus...). O nível como sempre é péssimo, mas a gente sempre acha filmes que a gente leva conosco, e no final, é isso o que importa.

Duas Vezes Marco Dutra

Ver em conjunto os dois recentes curtas de Marco Dutra (O Lençol Branco, co-dirigido por Juliana Rojas, e Concerto Número 3) nos dá a chance de perceber um trabalho em continuidade, e cada filme ganha um novo significado em particular. O principal tema desses trabalhos é a proximidade da morte, ou ainda, o impacto da certeza da morte no dia-a-dia das pessoas mais próximas. Ainda, um corolário desse tema principal é o relacionamento entre os membros da família, sua proximidade e sua distância. Mas o que encanta na visão de cinema de Marco Dutra é como ele trabalha dois pontos: o primeiro é o clima de tensão que emerge da própria mise-en-scene (tempos largos, silêncios, movimentos lentos dos personagens, o rigor do enquadramento) naturalmente, sem nenhum esforço, mas arquitetado de maneira muito cuidadosa; o segundo é a atenção minuciosa aos pequenos detalhes da rotina dessa família. A partir desses dois elementos, seus filmes revelam uma “crise”, sempre fruto da presença da morte, e se questionam até que ponto é possível “voltar à normalidade”, recuperar um antigo equilíbrio. Com seu cinema observador aos pequenos detalhes, dedicado ao relacionamento humano, e bastante rigoroso à sua estética, Marco Dutra acaba sutilmente promovendo um pequeno inventário das limitações da natureza humana, da dificuldade da busca de um sentido para a vida, e da importância da família e do calor humano para superá-las. Mais rigoroso e austero, o claustrofóbico O Lençol Branco torna a convivência com uma família que acaba de perder um filho recém-nascido quase insuportável. Assumidamente mórbido mas ao mesmo tempo profundamente afetuoso, extrai essa ambigüidade de um cinema que busca um distanciamento rigoroso e uma proximidade quase como um consolo para a pobre família vítima do destino. Já Concerto Número 3 é mais esperançoso, com uma narrativa inventiva que vê a mesma situação por diferentes pontos de vista (o da mãe, o do pai e do filho). A presença dos exteriores (ainda que poucos), a câmera na mão e a trilha sonora dão ao filme uma ternura e um lirismo que o austero O Lençol Branco não pode ter. Mais radical, a tensão de O Lençol Branco tem sido menos aceita que a compaixão de Concerto Número 3. Mas ambos fazem parte de um mesmo projeto de cinema: um cinema humano talentoso, que evita o sentimentalismo simplório para, através de uma profunda consciência de uma mise-en-scene, compor um painel das sutilezas e dos pequenos dramas da existência humana.

sexta-feira, dezembro 10, 2004

Toda a crise é um sinal para as oprotunidades
Que assim o seja

O Branco em Filme

Dias em Branco
de Irmãos Pretti
DVD, 9/12

Há um filme do Arthur Omar chamado Congo, que ele próprio denominou como “um filme em branco”. Em branco, pois o que podemos saber sobre os congos, o que um documentário pode nos fornecer de informação sobre uma manifestação cultural de nós tão distante, quase perdida?

“Dias em Branco” parte mais ou menos da mesma premissa: é um filme em branco. Mas há uma pequena diferença, sutil, mas que faz toda a diferença: um dia “em branco” é muito diferente de um “não-dia”. O “em branco” é sinal de construção. “Não sei o que fazer. Fico o dia todo olhando para a parede branca de meu quarto. Eu poderia filmar essa parece, já que a conheço bem.”. Ou seja, i) a parede em branco significa que existe uma parede; ii) a parede não é motivo simplesmente de paralisia, mas motiva a ação de filmar essa parede.

A partir desse dado simples, os i. pretti desenvolveram um trabalho em continuidade com todos os seus temas (a solidão, o rigor da estrutura, os tempos mortos, a duração) mas absolutamente transformador. Através de uma narrativa paralela mas que não necessariamente se cruza, Dias em Branco é um retrato íntimo de um deslocamento mas sem esbarrar na psicologia ou nas motivações de personagens. Acima de tudo, as pessoas são (isto é, antes de ser branca, a parede existe). Por isso, por trás de um cinema de inércia, da imobilidade e do desconsolo, existe um desejo que pulsa abaixo da superfície, um cinema que busca um caminho de construção por trás do cansaço. Existe uma comunhão implícita entre os personagens, mesmo que eles não se encontrem. Uma proposta de cinema moderna, que tangencia os instigantes trabalhos de problematização da dramaturgia como os de Claire Denis e os filmes de reavaliação das potencialidades do cinema (e das pessoas) poder em expressar seus sentimentos, como os filmes orientais. Na liberdade da câmera, na sutileza dos contornos narrativos, pela liberdade da dramaturgia, pela força de estrutura, não seria exagero dizer que se Dias em Branco não é o melhor filme dos meninos (o que talvez até seja), é o que mais aponta para novas perspectivas e potenciais na filmografia dos diretores.

O cinema do rancor e um pequeno antídoto

Acabei de voltar de Sampa. Fiquei por lá só um dia e meio, mas já deu pra sentir um fiapo do clima da cidade, andando de metrô e caminhando pelas ruas. E rapidamente deu pra entender porque só São Paulo poderia fazer três filmes (e ainda de estreantes) como Cama de Gato, Contra Todos e Nina, que são filmes absolutamente sinistros e perturbadores sobre a natureza humana, três filmes que dão uma reposta completamente negativa em relação ao papel da arte/do cinema, e mais sobre o papel do indivíduo no mundo de hoje.

Eu tenho uma tese de que o cinema paulista vem desenvolvendo uma linhagem que eu chamo do “cinema do rancor”: a não-inserção, a desigualdade social, o caos urbano têm estimulado nos cineastas um desejo pela aversão, um impulso do nojo, especialmente quanto às relações humanas, vistas como destrutivas, perversas, mesquinhas, negativas.

E – no fundo é isso que eu quero falar – isso me deixou ainda mais impressionado em relação a um pequeno curta paulista que vai na contramão desse cinema. É o Noite de Sol, da Marcela Arantes. É um trabalho bastante simples, mas que tem uma grande virtude: uma observação do relacionamento humano baseado num trabalho de economia de expressão.

O tema de Noite de Sol é a família. Mas a contribuição do curta em contraposição a um cinema paulista é inserir a possibilidade da generosidade e do afeto, ou ainda, o que é mais essencial, a possibilidade do reencontro, de uma reaproximação. De gerações diferentes, de temperamentos diferentes, de gostos diferentes, pai e filha não se falam, mal se olham. As coisas mudam exatamente a partir de uma distância física – a filha viaja para o Nordeste, mesmo sem a aprovação do pai. Quando pai e filha estão distantes, talvez pela primeira vez entre ambos exista espaço para uma proximidade. Dessa forma, dentro das possibilidades de um primeiro curta, de um trabalho universitário, a diretora expõe algumas das suas potencialidades, faz um pequeno inventário do que se busca no cinema, e qual sua possível contribuição dentro do cenário específico em que está inserida. E por isso mesmo esse simples trabalho se revela comovente, sensível, honesto, e bem mais observador e contundente sobre sua realidade e sobre um cinema brasileiro do que inicialmente poderia se imaginar.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

vida vida

é impressionante a capacidade de pequenas coisas nos magoarem de uma forma quase insuportável... realmente, tá fooooda!!!!!