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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sexta-feira, janeiro 28, 2005

poema de carnaval

já estou em clima de carnaval, praticamente.
Pra mim, hoje, o carnaval é isso:


Unidos do Cabuçu 1974 - Grupo I
Devaneios de um Poeta
(Walmir e Wivaldo Antunes)

Todo poeta sonha
E eu sonhei um dia
Fui em devaneios
Levado ao país da fantasia
Onde um belo astro-flor
Governava com amor e grande sabedoria
Naquele mundo feito de amores
Fui convidado ao baile das flores
E dancei com a rosa bela e cintilante
Que parecendo uma porta-bandeira
Foi girando, girando, encantando a noite inteira

Gira, gira, girassol (girou, girou)
Todo mundo a girar (girar, girar)
Nesta festa de alegria, no mundo da fantasia
Vi todo povo a cantar

O cravo beijou a rosa
Num belo final
Eu vi com alegria
Que aquele sonho daria
Um tema de carnaval

Feminices

Feminices
De Domingos de Oliveira
Odeon, seg 21:30
**

Já escrevo este texto vendo o assassinato do filme pelo bonequinho do o globo. Mas enfim Feminices, assim como quase toda a filmografia de Domingos de Oliveira, não é o tipo de filme que me encanta ou que seja próximo das coisas que busco no cinema. Domingos é muito displicente, desleixado mesmo com a mise-en-scene, com o narrar, com os artifícios do cinema. Para ele, para fazer cinema basta colocar-se em frente à tela, colocar as atrizes e compor o roteiro, e é claro cinema não é só isso.

Mas por outro lado Feminices é comovente, e traz muitas lições para nós que queremos começar no cinema. É comovente esse desejo jovial desse cineasta de mais de trinta anos no cinema, de trabalhar com o vídeo, de fazer um filme na raça com as condições que têm, de não querer simplesmente reclamar. E ainda é comovente esse trabalho de enorme generosidade com as atrizes, uma pequena declaração de amor ao cinema e à vida. Metadocumentário, ensaio ficcional, teatro filmado: o cinema possível num Brasil possível. Carioca como sempre, um trabalho de continuidade com seus temas no cinema, Feminices esbanja desejo: pelo universo feminino, em fazer cinema, em ter um diálogo com um público. Metafilme no Brasil de hoje: um filme sobre um filme sendo feito, as dificuldades de se fazer um filme, a vida pessoal que se mistura no roteiro de ficção, a descontração dos ensaios, fazer um filme de e com amigos, os segredos que devem e não podem ser ditos, a questão do revelar-se. O belo encontro na piscina, a sedução e a repulsa às novelas (minisséries) da globo, a neurose, o medo de envelhecer e ser traído, o sorteio das personalidades, a câmera e a luz de Dib Lutfi. Simples, simplório, apaixonado, limitado, o filme possível: por trás de todas as suas precariedades, Feminices nos dá lições e mesmo no espectador mais carrancudo e ensimesmado (como este que escreve) ora ou outra passa uma vontade danada de que a vida da gente também fosse um pouco assim.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Piada do dia:

Extra! Extra!
A Paixão de Cristo foi indicado para o Oscar de Melhor Maquiagem....

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Ikeda por Rosemberg

O cineasta Luiz Rosemberg Filho acabou escrevendo um texto sobre os meus vídeos. Fiquei muito contente com sua generosidade. Eu, que estou sempre acostumado a escrever textos sobre os filmes dos outros, agora pela primeira vez me defronto com um texto sobre os meus filmes. Um texto que desde já vou levar comigo. Segue aí o texto.


“Fomos dilacerados desde o nascimento. Somos apenas corpos descansando nas sombras da vida” T. Hijikata

O Aprendizado do Tempo

No espaço das imagens, ruas desertas, carros em movimento, edifícios fúnebres ao longe... E dentro de casa pedaços de janela, mesa, relógio, cadeira e móveis desarrumados em planos longuíssimos. A fixação das imagens edifica um processo de insatisfação criativa. E ao enfatizar o mundo dos objetos aprofunda uma fissura no tempo real do nosso ser. Ser-Espectador do vazio que ao não nos dar nenhuma significação imediata, nos fecha no nosso próprio desequilíbrio frente à vida. E então o caos interno e externo acompanhado de Beethoven, Satie ou mesmo do silêncio.

O tempo, os objetos e o espaço atuam como personagens de uma tragédia anunciada. A encenação de Marcelo Ikeda é um conflito entre o desconhecimento do fim, e a compreensão do humano na arquitetura da cidade grande. Faz do seu olhar a câmera que pouco ou nada se movimenta. O chamado herói trágico das suas histórias é ele mesmo, e o tempo indefinido de onde tudo parte. E no lugar de uma multiplicidade de ações idiotas como no cinemão, um leque aberto de idéias e contradições que ao reverenciar o lado sagrado do olhar, afirma um tempo diferente da TV. Profundamente pessoal é uma espécie de anti-Woody Allen, pois não vê graça em nada na triste existência humana.

Sua arte poética beira a uma certa pretensão religiosa com o cinema. Ikeda dá sacralidade ao olhar. Se perde e se transcende se expondo de maneira catártica. Estrangeiro diante de si mesmo, torna o outro um cúmplice dos seus muitos silêncios. A arquitetura da cidade entra aí como um espaço trágico de dores e perdas. Se está na cidade, mas não se está na vida-vivida. E o que seria a vida-vivida? Cada um que encontre ou não a sua resposta. Partindo dessa premissa, o eu-cineasta Ikeda amplia seus domínios na percepção física do tempo e do espaço.

Não se trata aqui de elogiar o cinema hipócrita do capital e os seus tantos pontos de estrangulamento da experimentação não-cabotina. O cinema de Marcelo Ikeda julga, faz pensar e agir. A casa, os objetos, os espaços, o tempo, o olhar... são estímulos contínuos que substanciam o nosso olhar, triturando a nossa excitação vazia como gênese da representação política maior, que é a do espetáculo pelo espetáculo. Deste ângulo o olhar passa a ser cúmplice da possível criação de uma idéia em imagens. E aí então o trabalho interior e exterior da criação profunda seja de um curta, de um longa ou de uma imagem pensada em profundidade como queria Walter Benjamin.

“Casulo”, “Entremeio”, “Alvorecer”, “Canção de Amor” e “Cinediário” dão legitimidade a um outro tempo para o olhar. Poderia se falar de influências indiretas, mas isso pouco ou nada somaria ao repúdio do jovem realizador ao processo simplificador do mercado. Claro que não são filmes para o Oscar. Mas o que seria um “filme” para o Oscar? “Central do Brasil”? “Cidade de Deus”? Ou a monumental bosta que dizem ter sido o “Olga” da TV Globo? Profundamente inventivo, Marcelo Ikeda busca outras referências não-televisivas. A prostituição do mercado no falseamento espetacular da história, opta por ser o seu próprio personagem trágico. E com imagens muito suas diz: “Eis-me como sou”.

E se não consegue ultrapassar o olhar não-sagrado do Outro, insere-se na purificação da sua catarse espiritual. E pouco ocultando seus sacrifícios, desdobra-se como economista e animador cultural sem deixar de ser um sagaz porta-voz da experimentação. Seus muitos trabalhos são tiros frontais na publicidade e na TV. Não pede compreensão e sim uma espécie de força-clínica abstrata. Ora, se uma imagem é a latente subjetividade de quem a cria, que importância essa imagem pode ter para outras pessoas? A resposta fica sendo a própria pergunta. Ou seja, ao se atribuir intencionalidade à subjetividade fundem-se as tantas expressões físicas a múltiplas sensações particulares. E no jogo da não-identificação (muito comum nos maus filmes), fixam-se intervenções lingüísticas, novas.

Marcelo Ikeda não está fazendo novelões baratos, e sim expondo as suas fragilidades aliada a um tempo dilatado que acaba por fundamentar o seu papel de criador moderno ao lapidar a construção de uma idéia com a necessidade de experimentar um alongamento do tempo simbólico. Ou seja, é o cinema experimental o seu meio de transcender as questões menores da vida. Questões menores que deslizam por toda a nossa existência. É a liberdade que imediatamente cria o seu oposto. Então é mais uma vez a casa, os objetos, o trabalho, as perdas amorosas... Como Picasso gostava de dizer: “Cada ato de criação é precedido por um ato de destruição”. Talvez esse seja o começo de alguma coisa nova no cinema de Marcelo Ikeda.

Luiz Rosemberg Filho – jan/2005

Os Sonhadores

Os Sonhadores
De Bernardo Bertolucci
Est Paissandu, dom 21:20
*

Por que não gostei de Os Sonhadores?

Não posso negar que Os Sonhadores têm coisas com as quais me identifico muito, muito mesmo, mas o Bertolucci filma essas coisas de tal forma que me dá uma certa sensação de asco. Porque o cinema dele não está mais preocupado em criar nada que seja realmente verdadeiro, apenas fazer joguinhos entre os personagens e joguinho de luz e câmera. Posso estar errado, mas o filme me passou uma sensação tão falsa, tipo o falso-escândalo, e as “tiradas cinéfilas” para semi-entendidos. Ou seja, filme retrô tipo “galerinha do Estação”. Acho que o filme começou a me fazer mal, e também nada aconteceu nesse dia pra mim, então aí é que o filme só me piorou de vez. Detestei aquela cena em que os dois transam (comentando “essa vez foi melhor, a de ontem foi melhor”, etc), aí tem uma elegantérrima grua, e aparece lá em terceiro plano o Theo olhando pela janela. É esse tipo de coisa que me irrita. Sei lá, não estava bem. Quero esquecer que vi esse filme.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Não posso dizer que te amo
se não tenho coragem pra te dizer
Hoje não chove
nem faz sol
Fico sentado à espera de um ruído que me desperte
mas os carros não buzinam mais
Quereria poder te tocar
mas meus braços são curtos demais

Hoje nada está no lugar
Estou cansado de tanto fazer, de tanto fazer
e de nada dizer

Preciso te encontrar
mas tu foges, tu foges, tu foges
lépida e ligeira
para longe, bem longe
encrustada nas florestas de espírito

e apenas te observo com meu gosto de camaleão
e minhas pintas de cereja

domingo, janeiro 09, 2005

comentário

O Gustavo fez um simples comentário que muito me envaideceu. Disse que meus filmes eram fruto de um paradoxo: enquanto na vida pessoal eu me mantinha com um jeito reservado, contido, nos meus trabalhos era surpreendente a minha capacidade de me expor nos filmes, com um jeito inclusive de autocrítica, patético, desajeitado, indefeso. Esse comentário é na verdade uma observação direta, mas muito atenta e íntima do “que está em jogo” nos meus curtas, porque evidencia essa “distância respeitosa” ou que coloca na corda-bamba (às vezes) as potencialidades de expressar os sentimentos, de fazer um trabalho pessoal. Em menos de 24 horas, além do Gustavo, o Guilherme e o Rosemberg falaram quase o mesmo: o primeiro na questão de como o filme expressa um estilo pessoal; o segundo na importância de eu ser o ator em alguns dos meus trabalhos, de me colocar também em frente à lente mesmo eu não sendo certamente um ator. Expor, nesse caso, torna-se sinônimo de revelar, e mais que revelar, colocar-se à prova.

Penso em como seria fácil “expor-me” utilizando os clichês de um cinema confessional, como a narração em off (desde os filmes de Truffaut ao monólogo de desabafo dos curtas do Adriano Lírio, por exemplo) ou a música melosa, mas todo o meu trabalho se debruça sobre como essa expressão pessoal pode partir através de uma visão de cinema, que envolve o tempo, o espaço, uma visão particular, íntima de dramaturgia.

AUTO-RETRATO DO ARTISTA DURANTE A GESTAÇÃO

AUTO-RETRATO DO ARTISTA DURANTE A GESTAÇÃO
De Marcelo Ikeda
(MiniDV, 2005, 16´)
Em casa


Estreou mais um videozinho esquisito meu: AUTO-RETRATO DO ARTISTA DURANTE A GESTAÇÃO. Fiz uma pequena festinha aqui em casa, com os amigos mais próximos para desfrutar desse momento. E foi uma das melhores coisas desse ano, uma experiência muito positiva, muito íntima. Me senti cercado dos amigos, numa energia afetuosa e sincera. Achei a recepção bem calorosa, na verdade mais que o trabalho merecia. Assumir-se como uma “comédia de erros” para mim tem enorme importância, seja por avançar um pouco mais na capacidade de meus trabalhos expressarem como sou (acho que um senso de humor um tanto peculiar e uma forte autocrítica sempre fizeram parte de mim), seja por admitir outra forma de me expressar. A “comédia” faz com que as pessoas reajam de uma forma mais positiva, mais “para cima” do que meus outros trabalhos. Ainda assim, é um trabalho de enorme continuidade com o que venho desenvolvendo: sobre a “distância respeitosa” que revela uma intimidade, a rotina, a circularidade, o vazio e a solidão do processo artístico e a angústia de viver, sobre as impossibilidades e uma certa sordidez do ser humano e do cinema, como sempre “há muito a se fazer” e pouco tempo para executar, sobre a importância dos tempos mortos e do espaço físico como reveladores de uma visão de cinema e de mundo. As pessoas queridas estavam próximas: todas as pessoas que eu queria que assistissem este trabalho ali estavam. A festa foi ótima; o clima do filme favoreceu o clima da festa, descontraído, as pessoas riram e zoaram e isso fazia parte da proposta do filme: então fiquei mais relaxado quanto ao próprio estado das coisas para exibir esse projeto. Enfim, tudo deu certo, fiquei feliz de verdade. Poder exibir esse trabalho me faz colocar uma série de coisas novas, e queria na verdade recuperar um certo clima de Casulo mas pós-Cinediário: a câmera na parte I que percorre os ambientes, totalmente inspirada em Casulo é a mesma mas completamente diferente, pois vem de Dias em Branco dos Irmãos Pretti (enquanto a câmera móvel no Casulo queria revelar um ambiente, mostrar uma condição de abandono – isto é, queria passar conhecimento, era uma epistemologia -, a câmera em Auto-Retrato queria desvelar uma intimidade, tinha uma relação afetuosa e terna com esses objetos, isto é, queria transmitir um sentimento, um espírito, era uma ontologia). A música japonesa brega versus o samba-enredo (e o movimento circular na parte III que explicita essa relação, o “por um lado” e o “por outro lado”); a necessidade de arrumação como espelho da condição de criação do artista; a possibilidade de o trabalho traduzir com mais liberdade e com menos embaraço a questão do corpo do ator.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Quero Ser Jack White

Quando se faz um filme sobre um casal de adolescentes perdendo a virgindade, em geral o que se escolhe é o clichê de ser na casa do menino quando a mãe não está. O que encanta em Quero Ser Jack White é assumir-se como antípoda dessa situação: eles têm sua primeira transa na casa da menina enquanto sua mãe está. O filme se revela muito além de seus simples propósitos: o casal tem um perfil completamente diferente um do outro, retratado de diversas formas, desde a forma como se vestem, sua postura corporal, etc. Mas tem coisas em comum: a inexperiência, o “piercing”, o gosto musical. Através dessas diferenças e semelhanças, o filme traça com grande espontaneidade e generosidade essa interseção de caminhos, a importância do afeto, de dividir os receios, de “abrir o jogo”. E acaba fazendo um retrato com ternura de uma geração, quebrando tabus entorno do perfil do “homem” e da “mulher” na relação adolescente. Belo filme.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Cinema é um atraso de vida", segundo Edgard Navarro

Entrevista com Navarro. Muito boa. Uma síntese do nossos cinema brasileiro, em seu lado lúdico, terrível e artesanal.


Assunto: "Cinema é um atraso de vida", segundo Edgard Navarro

“Cinema é um atraso de vida”
Desiludido, mas com a verve de sempre, Edgard Navarro explica por que está pensando em deixar o cinema
Ceci Alves (Especial para 'A Tarde')
O diretor baiano de cinema Edgard Navarro, a princípio, não queria dar entrevista: “Eu estou despongando do cinema. Por isso, não quero falar dele”, justificou.
A afirmativa era grave. Edgard - engenheiro civil aposentado - dedicou a vida à Sétima Arte. E, quando finalmente pôde fazer seu primeiro longa-metragem, foi acometido por um surto de desilusão. Tudo por conta das pressões que sofreu do mundo real para colocar o filme Eu Me Lembro na lata.
“Esse mundo do CNPJ me assusta, sou angustiado, neurótico. Não quero dar minha alma para Satanás, que para mim é o dinheiro, a chapa branca”, diz Navarro, se declarando incapaz de produzir uma obra artística para um mercado “que suga o sangue do diretor”.
Desiludido, mas com a verve de sempre, o polêmico e irreverente autor do genial média-metragem Superoutro, que arrebatou os principais prêmios do Festival de Gramado à época de seu lançamento (1989), finalmente aceitou falar pessoalmente de Eu Me Lembro e do fazer cinematográfico. E, brincando com as palavras, diz por que vai abandonar o “bonde andando” do cinema nacional - aquele que está sempre sendo retomado - na entrevista que segue.

A TARDE - Você diz que está “despongando do cinema”. O que significa essa afirmação? O bonde vai andar sem você?
Edgard Navarro – Estou despongando porque eu perdi. Porque, se é verdade que os rápidos vão engolir os lentos, eu sou lento, e gosto de ser lento. Estou despongando do cinema porque a minha vida inteira – tenho 55 anos – tentei fazer as coisas de uma forma correta, transgredindo apenas nas metáforas e na criação, e a coisa não andou como eu esperava. O menino se transformou num homem que, para fazer cinema, teve de fazer muitas concessões. Passei dois anos esperando verba para finalizar algo que filmei em 2002 (N.R.: Eu Me Lembro, longa que ganhou o primeiro edital de produção de cinema do governo do Estado) e, só dois anos e meio depois, vou finalizá-lo, por não estar próximo a uma plêiade, ao jet set, a um star system, aos globais que fazem e que decidem o cinema nacional. Não tenho esse perfil, talvez porque sou feio, pobre, nordestino, que tem que vestir a beca, e não só vestir a beca, mas também conhecer fulano, ser apadrinhado... Eu não tenho esse savoir-faire. Eu desagrado. As pessoas não vão me convidar para uma festa porque sabem que sempre vou dar um peido, ou falar um palavrão impublicável, ou dizer, na minha ousadia ingênua, que o rei está nu.

Você não acha que isso é entregar os pontos depois de ter nadado até a praia?
Fiz o (média-metragem) Superoutro em 87/89 e consigo, 15 anos depois de um trabalho renitente, escrevendo muitos roteiros, tentando vários concursos e sem passar em nenhum, fazer meu primeiro longa-metragem. E, cá estou eu, 20 anos depois, me esforçando (ainda) para terminar meu primeiro longa-metragem. É frustrante. Então, acabou esse tempo, é hora de parar e fazer algo que valha a pena e não custe tanto. Para quem deu certo e consegue fazer essa ponte da poesia com o real – falo também do real moeda – só tenho admiração. Eu não dei certo.

Você atribui o seu fracasso a alguma coisa, do tipo (falta de) políticas públicas na Bahia, ao destino, à sorte...?
Não há política do audiovisual na Bahia, nem no Brasil. Por isso, não consegui continuar fazendo filmes depois de Superoutro. Isso é uma coisa perversa e representa, na Bahia, a hegemonia de um grupo que está aí há 30 anos boicotando o Estado, e que não fez, em termos do audiovisual, uma política crível. Se não, eu, cineasta baiano, teria grana para estar fazendo um próximo filme. Se não, depois de Superoutro, eu teria feito O Homem Que Não Dormia, que foi o roteiro que escrevi logo depois, e, quem sabe, hoje, eu não teria que despongar. Mas eu também faço um mea culpa: Superoutro tinha 45 minutos. Será que se ele tivesse o formato de consumo do mercado – mais 15 minutos, ou se fosse até de uma hora e 20 minutos – poderia ter conseguido sucesso e, assim, hoje, teria dispensado ser beneficiário político de um governo que “incentiva” o audiovisual? Quem sabe, então, O Homem Que Não Dormia poderia ter rendido um fundo de investimento para novos cineastas, já que eu estaria no meu mar, dialogando com Pedro Almodóvar e com os de minha geração. Mas não fui testado para as multidões, como Almodóvar, Caetano e Gil. Me sinto frustrado. Fui esmagado.

Por que despongar só agora, então?
Eu não faço as concessões que fiz ao entrar num projeto de um longa que ganhou R$ 1 milhão, atrelado a contratos com empresas que representam o filme, que é controlado de todas as formas pelo financiador – pelo Estado –, que quer ver as exigências cumpridas. E ainda tem as exigências do mercado, de ter que fazer sucesso, de ter que arrasar nos festivais. Eu tô muito angustiado com esse babado todo, com essa politica que não responde. Quero despongar do cinema tal como ele é feito, com todo esse aparato técnico, com um orçamento de R$ 6 milhões. Desisto disso.

Não há chance de volta?
Se Eu Me Lembro me tornar uma grife, e os produtores correrem atrás de mim com tempo e dinheiro, eu volto. Sem pensar em números, sem estar preocupado com dinheiro, ou seja, tentar dialogar com Satanás de uma forma interessante, inteligente, temperada.

Enquanto isso não acontece, o que você vai fazer da vida?
Quero me despir e ficar nu que nem o rei, fazer vôos alternativos. Acordei para a câmera digital, quero pegar uma e sair filmando, usar a música que quiser sem ter que estar atrelado à indústria fonoaudiovisual. Desisto de ser um homem do playground, quero ser do underground. Essa é uma alternativa existencial, porque não tenho muito tempo de vida. Quero dedicar esses últimos 30 anos que tenho para o amor verdadeiro, para as coisas reais. Não quero mais concorrer a editais, atravessar espinhos, pântanos, para chegar à terra prometida.

Você recebeu R$ 1 milhão do governo do Estado para fazer seu filme. Isso faz cinco anos, e você ainda não terminou seu filme. Por conta disso, correm muitos boatos, de que você e/ou a empresa produtora não soube (souberam) administrar esse dinheiro, que vocês estouraram o orçamento, e que, por causa do atraso de Eu Me Lembro, não houve edital para cinema e vídeo do Estado em 2003. O que você acha dessa boataria?
O governo não fez edital porque não quis! O filme não estava – como não está – concluído, mas, em termos formais, para as exigências do edital, nossa tarefa estava cumprida, e no prazo que eles estipularam. Exibimos o filme numa versão dada como finalizada, como foi exigido à (produtora) Truk, em fevereiro de 2003. Por que não fizeram concurso por nossa causa, se eles deram à Truk a última parcela que faltava do financiamento do filme, a tal parcela do filme pronto? Eles usaram isso como pretexto.

Por que Eu Me Lembro está demorando tanto de ser finalizado?
Tive que parar o processo porque não tinha mais grana.
Tive que reduzir o número de seqüências durante a filmagem, de 120 para 83, também por conta do orçamento apertado. Mas isso não refletiu na qualidade do filme. Pré-editamos, paramos alguns meses, retomamos, para enxugar a edição, e, aí, paramos de vez, porque não tinha como continuar. Parou de vez em 2003, até hoje. Mas já exibimos em vídeo, na Sala Walter da Silveira, em maio desse ano, o que me deixou aliviado.

Por que o alívio?
Porque convivi muito tempo com o filme sem saber como iria bater nas pessoas. Quando bateu e a recepção foi positiva, calorosa, vi pessoas rindo e chorando, se emocionando, eu disse: ‘Meu Deus, o filme funciona! Aí, é só alegria. Não consegui dormir naquela noite, de alegria incontida. Estou muito satisfeito com o resultado final, mesmo com todas as dificuldades de produção. É meu filme e funcionou, apesar de todos os problemas.

E o que falta agora, para ele sair da lata para a tela?
Falta a edição de som, o pagamento de direitos autorais das músicas (que compõem a trilha), a criação e gravação da música original – que pedi ao Caetano (Veloso) para fazer –, mixagem e laboratório, que é a parte mais cara. Depois de tudo isso, tenho que parar de novo e esperar outra verba, a de lançamento, para fazer cópias, cartaz, mídia... Mas, estando pronta a primeira cópia, posso não lançar o filme comercialmente, passá-lo em festivais, ganhar notoriedade e, aí, ter verba de lançamento.

É verdade que uma das coisas que estaria atrasando a saída do filme seria o pagamento dos direitos autorais da trilha?
Estou tentando liberar o direito autoral de mais de 30 músicas. São fonogramas caros para o filme, tanto em dinheiro quanto em memória. Isso vai ter que ser negociado com as editoras, e só uma determinada empresa está cobrando US$ 3,5 mil música de importância terciária ao filme. São quatro as músicas importantes: as duas mais são Luzia Luluza, de Gilberto Gil, e Shine On You Crazy Diamonds, do Pink Floyd. Depois vem O Que Foi Feito de Vera, de Milton Nascimento, e A Day In The Life, dos Beatles. Estamos em negociação.

Fale um pouco mais de seu filme.
Eu Me Lembro é um filme de memória. É a visão de um personagem inspirado em mim, abrindo um universo que abriga minha geração. Nele, eu trabalho coisas que me aconteceram, condenso fatos, acrescento coisas que aconteceram com outras pessoas, dou cores fortes em alguns momentos. Trabalho a tensão dramática como um ourives. Eu trabalho a anatomia do drama no filme com minha veia manipuladora dos fatos, da realidade. São 20 anos – de 1954 a 1974 – em 100 minutos.

Então você passeia por dez anos de ditadura. A política é um aspecto importante no filme?
O aspecto político daqueles anos aparece, apenas, como pano de fundo do filme. Esse eu do título é um eu poético que criei para representar a mim mesmo e à minha geração. Encaro isso de autobiografia como um carma, um exorcismo.

Como é voltar a filmar?
Tenho pânico de estar com uma equipe, com equipamentos caros e grana para financiar esse exército todo, com o taxímetro rodando. É muito para mim. Trabalho sob estresse violento, não fico nada confortável.

Vinte anos é o tempo de uma geração. É o fechamento de um ciclo?
Estou virando a página, encerrando esse ciclo e começando uma vida nova. Acabou o cinema, não quero mais dar murros em ponta de faca. A criação de Eu Me Lembro, por exemplo, já foi. Ficar cinco anos assim, sem terminar, dá uma sensação de atraso. Cinema é um atraso de vida.

domingo, janeiro 02, 2005

Auto-Retrato do intelectual de férias

Auto-Retrato do intelectual de férias

Retrospectiva 2004:

- Qual foi o pior momento de 2004?
- Bom, é uma pergunta difícil, foram tantos... provavelmente o pior foi aquele toco que eu levei no odeon, isso não se faz, ela me dando mole, e quando eu chego....

- E o melhor momento?
- Foi a b... daquela menina que eu esqueci o nome. Nossa, inesquescível.... muito boa mesmo.

- E quais são as suas perspectivas para 2005?
- Muitos melhores momentos e nenhum pior momento. Basicamente isso. Ou ainda, que o melhor momento seja eterno enquanto dure, pois que aí certamente não haverá pior momento. Se é que você me entende.

Melhores filmes 2004

É só pra não perder o costume.........

Os 11 melhores:

1 - Kill Bill, vols. 1 e 2, de Quentin Tarantino
2 - Intervenção divina, de Elia Suleiman
3 - Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola
4 - O Pântano, de Lucrecia Martel
5 - A Vila, de M. Night Shyamalan
6 - Filme de Amor, de Julio Bressane
7 - Peões, de Eduardo Coutinho
8 - Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
9 - Meu Tio Matou um Cara, de Jorge Furtado
9 - Elefante, de Gus Van Sant
9 - Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry


Filmes que eu não vi mas gostaria de ver:

El bonaerense
Zatoichi
(dois que provavelmente entrariam na lista)

Tiresia
Como se fosse a primeira vez
Ken Park
Antes do por-do-sol
Ser e Ter
Ligado em você
Peixe grande
Harry Potter 3
Shrek 2
As Cinzas de Deus


Piores:

Em nome de Deus
Balzac e a costureirinha chinesa
Ararat
Matadores de velhinhas
Nina


Cinema Brasileiro - 10 filmes visíveis:

Filme de Amor, de Julio Bressane
Peões, de Eduardo Coutinho
Meu Tio Matou um Cara, de Jorge Furtado
Narradores de Javé
Redentor
O Prisioneiro da Grade de Ferro
Entreatos
Justiça
Garotas do ABC
De Passagem