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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Saldo MFL

Saldo MFL:

Uma infecção na garganta
Uma foda
Uma exibição traumática
Uma exibição divina

Alguns elogios
Alguns conhecidos
Algumas festas ruins
Alguns filmes


Conclusão Final:
A vida continua uma merda

“Eu ainda não me atrevo a ser alguém”
Dias em Branco, dos Irmãos Pretti
Selecionados por engano, Dias em Branco e O Primeiro Grito foram uma sessão-ilha dentro da Mostra do Filme Livre. Isolados no último dia do evento, disputando espaço com a premiação, foram solitários representantes do “alternativo dentro do alternativo”. Antípodas de Um Maluco em Copacabana, são trabalhos que indicam um cinema jovem na contramão dos cacoetes de um cinema alternativo. Propõem um trabalho austero de linguagem, de reavaliação das potencialidades da linguagem cinematográfica em expressar os sentimentos, expandindo os horizontes da narrativa clássica e examinando alternativas para seus personagens em crise. Com isso, dialogam com uma proposta contemporânea de dramaturgia, como os recentes filmes de Sofia Coppola e Vincent Gallo.

O Primeiro Grito é um filme de contenção. Logo após o longo plano-seqüência que abre o filme e que estabelece um mote, o curta estabelece um trabalho de contraposição entre os ambientes em expansão, que oferecem ao protagonista uma nova alternativa e a clausura de sua postura pessoal. Um “road movie” às avessas, filme de grande desterritorialização, de imersão aguda e ao mesmo tempo distante das motivações e dos sentimentos desse protagonista, o filme promove uma reavaliação do potencial do cinema em perseguir um íntimo, uma caminho interior. Seu deslocamento de si faz parte da proposta de provocar uma angústia: um não-estar lá.

Dias em Branco percorre o mesmo trajeto, mas faz um adendo metalinguístico: é sobre as angústias do artista em seu processo de criação. Processo esse que se confunde com sua vida rotineira, ou melhor, com uma vida não-vivida. Ou seja, um não-estar lá. Ao mesmo tempo, um humor atípico (autocrítico) e um desejo pela linguagem preenchem o filme, contrastando até com o rigor e a inércia de O Primeiro Grito. O humor naive, a tendência à autocrítica se misturam a um trabalho de grande afetividade, de um mergulho possível na intimidade partida desses jovens que buscam uma maneira de sobreviver. Com isso, busca-se um trabalho mais livre de expressão dos sentimentos, de compartilhamento de uma angústia, de uma reflexão sobre a possibilidade de uma alternativa e qual o papel do artista e do processo criativo diante disso. Diante de suas impossibilidades, a criação surge como desejo de expressão desse descompasso: um não-estar lá se confunde com um não-ser. A saída do absurdo da vida muitas vezes parece ser o cerne da criação artística: dizer o nada é uma forma de dizer, de expressar-se, de viver. A vida passa a ser um acúmulo de entremeios possíveis, um “tempo de espera possível”.
Dois filmes, em conjunto, que investigam novas possibilidades de expressão para o cinema, que se preocupam mais com as perguntas do que com as prontas respostas. Fora do gueto dos filmes-de-efeito, dos filmes-piada, ou dos cacoetes da dita produção alternativa, são mergulhos desiguais numa afetividade possível, reflexo de um deslocamento, de um tempo-espaço outro, trabalhos que prosseguem sendo incompreendidos, malditos, detestados, não-vistos. Quem não os viu nessa sessão da Mostra do Filme Livre provavelmente nunca mais os verá. Um cinema da solidão condenado a ser solitário.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Cinediário: um tema e cinco variações.
O Posto: o antes, o durante e o depois. O sempre.

Cinediário: Um artista e seu casulo
O Posto: Um guarda e seu posto

O guarda de O Posto e o artista de Cinediário: dois irmãos

A rotina, o silêncio, a angústia de existir, a intimidade respeitosa: a necessidade de prosseguir
O tempo, o quadro, a decupagem
Um cinema moral e espiritual

Cinediário e O Posto: duas formas de me ver, duas formas de poder existir

Gente,
Estou muito contente com a exibição do CINEDIÁRIO junto com os trabalhos do Rosemberg e do Santeiro. Casa cheia de presenças ilustres, de João Luiz Vieira a PC Saraceni. Fiquei muito lisonjeado ao receber sinceros elogios do Julio da Polytheama e do Gilberto Santeiro. E depois de ninguém menos que Vladimir Carvalho, que fez uma leitura do meu filme como um ato de resistência possível dentro do regime, como uma metáfora sobre a condição do artista na ditadura militar, aprisionado no apartamento ouvindo as “bate-estacas” ao fundo. Obrigado Rosemberg!

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Menina de Ouro

Menina de Ouro
De Clint Eastwood
Estação Paissandu, qua 13:40
*1/2

E justamente nesse instante de fragilidade – física e emocional – a companheira de sempre: o cinema. Entrar no Paissandu completamente vazio já me deu uma sensação de conforto espiritual: era como se eu estivesse entrando em uma Igreja. E o filme era justamente o tão aguardado Menina de Ouro, em que eu já estava mais que pronto para desaguar todas as minhas carências.

Mas não foi o que se viu. Apesar de todas as expectativas, Menina de Ouro para mim ficou aquém. É nítido o esmero do diretor no trato com a narrativa clássica, a habilidade em combinar seus elementos, o viés humano e o tom intimista com que confere ritmo ao filme, mas tudo isso já se esperava no cinema de Clint Eastwood, vistos seus últimos trabalhos.

Mas não dá para evitar: Clint faz um cinema passadista, e transforma a nostalgia e o sentimento em medo de se enfrentar os desafios do futuro. Menina de Ouro vira um dramalhão, entre Rocky e O Campeão. Decerto que a ambigüidade de uma América sombria na busca de um lugar ao sol torna o filme um canto de lamento contra um cinema hollywoodiano cada vez mais previsível e de encomenda. Acontece que o cinema de Eastwood quer resgatar a mesma América de sempre. Seu cântico é meramente reformista, arraigado às mais profundas tradições desse cinema e desse país. A lutadora na grande final vem da “Alemanha Oriental”, é uma ex-prostituta que só ganha porque luta sujo, representada como a verdadeira corporificação do mal, contra a linda garçonete que oferece a casa para a mãe oportunista, e por aí vai. “Sempre se proteger, sempre se proteger”, a grande lição de moral que ressoa nos ouvidos de uma América alarmada contra a invasão de terroristas que “jogam sujo”.

Quando o filme investe fundo no dramalhão, vemos a sensibilidade de Eastwood nos tempos e na economia do campo-contracampo, e como o diretor mergulha de cabeça em temas pesados como a eutanásia sem se deixar intimidar, mas a verdade é que Menina de Ouro se alonga muito mais que o necessário, tornando seu corpo desequilibrado mesmo diante da narrativa clássica que o autor quer tanto se filiar e preservar. Menina de Ouro também deixa de lado vários dos dilemas da menina lutadora para compor climas em louvor a um tempo que já se foi, de uma memória perdida que já se desfez, o que já o torna um dos mais melancólicos e tristes filmes dos últimos tempos do cinema americano, ainda que preocupado com a construção de uma “moral” e com a preservação de suas instituições. Clint poderia ser Ozu se refletisse melhor sobre os desafios de seu tempo, se ao invés de se lamentar sobre as contradições de seu tempo, buscasse transcendê-las, mas na verdade é o novo John Ford do cinema americano. Para o bem e para o mal. Que assim o seja.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

é nóis na fita!!!

tamos na capa da veja rio! não apareci por motivos profissionais (leia-se a merda q paga meus salarios) mas é nóis na fita!

a mostra ta bombando!!! Responsável: a curadoria? Bobagem!!!! A maior responsável é a assessoria de imprensa, a Lilian. Falei guilherme q ela ia ser a salvação da lavoura!!!

as pessoas estão gostando das sessões e da programação dos filmes. os programas nao estao ruins, nao. O saldo esta positivo.

domingo, fevereiro 20, 2005

o dia seguinte

A primeira exibição pública do Auto-Retrato (foi na salinha de vídeo) foi meio traumática, a expressão é essa. Difícil, porque não dá pras pessoas entenderem o que está em jogo, e não foi uma só pessoa que após a sessão me perguntou se eu fazia aquilo fundamentalmente para chocar as pessoas, o que obviamente não era o caso. As pessoas riram, xingaram, fizeram piadinhas, ingênuas ou maldosas, o que foi possível.

Pessoas ilustres compareceram na sessão para me prestigiar, presenças surpreendentes. A partir de então as coisas aconteceram.

Mas acontece que hoje é o dia seguinte, e estou muito, muito cansado, com o pós-carnaval e com a primeira semana da Mostra que me consumiu todas as energias. E então para rechear estes meus últimos meses, cheio de súbitos altos e baixos emocionais, há sempre o dia seguinte, novos bloqueios, novas fáceis adversidades que às vezes não consigo ultrapassar. Mais surpresas. Tristeza. Esperemos o que os próximos dias me reservam.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Respeitável público:
O lance do cinema alternativo é a comédia, é a torta na cara. Quem dá mais? Quem dá mais? O cinema muderno é o circo do século XXI. Quem leva mais torta na cara é a mulher do padre!!! Palhaçada, palhaçadas mil para atrair o público. O cinema alternativo é onde dá pra trabalhar linguagem, exercitar o tempo, mudar os paradigmas? Bobagem! O negócio é o filme-piada, o filme-cacoete. Esse é o filão da história! Esse é o esquemanovo!! Viva!!! ÊÊÊÊÊÊÊ!!!

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

El bonaerense

El Bonaerense
De Pablo Trapero
Ccbb, sex 19hs
***

Esse “novo cinema argentino” (ai que nome horrendo!) realmente impressiona pela maturidade com que trabalha os elementos de linguagem e uma visão renovada (antididática, etc) da dramaturgia. El bonaerense tem muito em comum com O Pântano, em seu desejo de linguagem, em seu desejo insano de falar de uma Argentina sem os cacoetes totalizantes, pelo tom semidocumental, pelo caos que se instala em um ambiente fechado, pela recusa da psicologia simples, etc, etc. Mas o que me seduz nesse El Bonaerense é como o filme trata de uma questão muito íntima e próxima de mim: a ilusão de poder, ou como as instituições, as estruturas da sociedade quebram uma inocência. O protagonista do filme (assim como o guarda de O Posto) é levado pelas circunstâncias a perpetuar uma estrutura de poder perversa, desumana, muito maior que ele, que o envolve, sem que ele possa se dar conta. E mais: o filme faz isso sem deixar a sua dimensão humana, individual, sem fazê-lo mera vítima das circunstâncias, sem tratá-lo como um boneco. A cena no natal quando os fogos de artifício são costurados com tiros para o alto, a cena em que o policial mata a sangue-frio por uma coisa à-toa, a grande cena em que o chefe diz para seu empregado (“confia em mim”), mostram que Trapero sabe fazer cinema. Eu que vivi três anos no regime militar senti muito a barra do filme, revivi muita coisa que já havia me esquecido, e talvez por isso minha impressão tenha sido até mais viva. Muita coisa me emocionou, talvez a maior delas é quando o agora cabo volta para casa, e na mesa de jantar com sua família, a câmera faz o mesmo movimento na mesa de natal, com os policiais de serviço. Essa analogia visual é uma das partes mais duras do filme: um carinho bruto mas necessário – a família louva e elogia a “ascensão” do filho “que deu certo”. O lugar ao sol do cabo manco é de uma luz dura, contra a lente da câmera. O lugar ao sol possível na Argentina possível, retalhada, mutilada, descozida. Um plano crítico e carinhoso. Belo filme.

mais um poema imbecil
prometo por todos os santos que é o último do mês!!!


Documentário sobre meu trabalho
Ou as 10 perguntas mais freqüentes no meu trabalho:
ou por que ainda não fiquei louco e dei um tiro na minha cabeça?


A tabela tá pronta?
Posso sair mais cedo?
Açúcar ou adoçante?
O ramal ta ocupado?
Já consertou a impressora?
Apaga a luz quando sair?
O ar não está muito frio?
Pegou o número do ofício?
Pode ser até o final do dia?
Você tem compromisso pra hoje?

autohaikais

mais poemas imbecis
documentários haikais sobre meu dia-a-dia
reflexões haikais de um bêbado insone


AUTOHAIKAIS

Como vai sua família?
Tudo bem, obrigado
Viver é ruim

Meu cachorro morreu
Tua boca agora fede
Viver é ruim

Quer mais um café?
Claro que estou ouvindo
Viver é ruim

“Ué, não era pra contar?”
Ela nem vai perceber
Viver é ruim

Ói como ela mexe o cabelo
Dispara automático?
Viver é ruim

Não consigo dormir
O tempo não termina
Quero morrer

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

O Filho

O filho
Dos Irmãos Dardenne
Ccbb cinema, sexta 17hs
***

O filme que vi para começar o carnaval foi O filho, dos irmãos dardenne, aqueles do Rosetta. Barra pesadíssima, o anti-espírito carnavalesco, mas vamos lá. Me lembrou um pouco o hero do frears na coisa da anti-vitimização ou anti-heroicização dos personagens. Um cara que trabalha num centro de reabilitação de menores infratores, numa marcenaria, acaba encontrando com o garoto que matou o seu filho. Fazer o que? Um estudo sobre a impossibilidade da vingança muito humano, o pai acaba se apaixonando pelo garoto, ou é quase isso. Uma espécie de sedução pelo mórbido, tom de destino, fatalidade, mas o fato é que os irmãos dardenne trabalham com uma câmera asfixiante (às vezes irrita) com uma edição de som perturbadora, esp no início com os sons da marcenaria, como já era no rosetta. A narrativa, se é possível falarmos em narrativa, é muito bem costurada, e só lá pros 30 minutos do filme é que descobrimos o que está em jogo. Até tem uma coisa de psicologia, como típico filme francês, mas é um trabalho de dramaturgia altamente estimulante e inventivo. Cenas fortes combinadas com tempos fracos, poucos diálogos, tratamento do tempo e do espaço com maestria. Um final seco, apropriado, cenas de grande envolvimento afetivo por parte dos atores, grande trabalho de entrega e de criação de personagem. A liberdade da câmera pseudo-documental não atinge limites extremos como rosetta, este o filho é um pouco mais distanciado, um pouco mais sóbrio, o que é até melhor. Se estreou mesmo em 2004, certamente ta na lista dos 10 melhores. Ah me lembrei também do imbecil do Jaime biaggio que como sempre assassinou o filme dando bonequinho dormindo. Queria falar melhor sobre o filme mas to cansado pacas, pra articular algo ta complicado.