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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sexta-feira, abril 29, 2005

Garam Hawa

Garam Hawa
De M. S. Sathyu
MAM, sex 22 18:30
**½

Belíssima surpresa. Um filme de Bollywood atípico, parece mais um de Calcutá, realista e sem números musicais. O conflito entre Índia e Paquistão, os preconceitos, a tradição versus modernidade e a questão da família são retratados de forma muito contundente pelo filme. Um sapateiro islâmico que vive na Índia e que não quer se mudar pro Paquistão porque quer manter a fábrica de sapatos criada pelos pais. Mas o pais muda e a Índia está muito fudida. A família se ferra mas o patriarca contra todos os indícios quer ficar, porque para ele somente lá é um lar. Eles chegam até a mudar de casa, então a idéia do lar é muito interessante, porque há uma desagregação da família exatamente porque o cara cisma em ficar lá. Há (na minha leitura do filme) um erro de avaliação: manter o lar seria sair do país, a única forma de manter a fábrica e manter a família junta. Ou seja, as pessoas são maiores que o país, a nacionalidade nada diz. Do jeito como foi, a família se rompeu. O filme é mais interessante tbem em termos de linguagem, nos tempos, nos cortes, etc. E socialmente é uma porrada muito grande. Este gostei, valeu a pena.

A Alma do Osso

A Alma do Osso
De Cao Guimarães
É Tudo Verdade, Memorial Getúlio Vargas, dom 10 de abril meio-dia
***

A Alma do Osso, do mineiro Cao Guimarães, é um belo filme. Radical, é incrível como ganhou o É Tudo Verdade. Esse festival é sério, é um dos poucos festivais no Brasil que são realmente sérios, que realmente buscam o bom e o novo. Esse ano, o premiado foi o Aboio, que só não ganhou a Mostra do Filme Livre porque dois dos seus três curadores são completamente imbecis. Cao não tem peixada, A Alma do Osso é um filme simples, sem grana. Palmas para o Festival, que permitiu que o filme pudesse ser visto.

Um trabalho muito íntimo. Bernardet escreveu um belo texto sobre o filme. Talvez o mérito nem seja do festival, mas do Bernardet de dar uma chance a este filme. Não tem entrevista, não tem blábláblá: o filme é um mergulho na vida, na rotina daquele forasteiro. Mas um retrato tão íntimo, tão humano, que nos assusta. E com uma simplicidade desconcertante. Quando o filme vai pras externas, seu sentimento de liberdade se multiplica: o super 8 e o som (belíssima trilha de O Grivo) fazem com que a natureza e o homem se tornem um,e o filme se torna bem experimental. É um filme sobre a liberdade e sobre a solidão. Mas sem presepada, sem lição de moral sem artifício de comoção. É cinema. Não gosto tanto da parte final em que o cara fala, gosto mais do início, que é muito rigoroso e íntimo. De qualquer forma, A Alma do Osso é um dos raros docs brasileiros que não querem respostas prontas, apenas um olhar para o humano e suas contradições, um olhar humano, uma proposta de um cinema do tempo que deixe a pessoa se expressar com seus próprios meios sem forçá-la a falar, sem constrangê-la. O “dar a voz” é muito mais orgânico, muito mais respeitoso com a natureza do ser humano. Que lição importante! Com isso, dado o tétrico nível do cinema nacional, o filme se faz um dos melhores da retomada pra cá. Para ser visto.

quarta-feira, abril 27, 2005

Os Normais

Os Normais
De José Alvarenga Jr.
Globo, seg 25 abr 22hs
0


Razões pelas quais achei Os Normais um dos filmes mais lamentáveis vistos nos últimos anos:

1 - A relação homem-mulher é vista pelo pior dos prismas possíveis.
2 - O filme é preconceituoso, vulgar, da mau gosto, como há muito eu não via.
3 - O filme não tem graça nenhuma
4 – Fernanda Torres não tem peito
5 – O filme tem campos-contracampos tenebrosos de ruim. Tem um no carro no engarrafamento da “Magda” com o seu pai que é de doer.
6 – Acho que nunca vi uma direção de arte tão ruim, a ponto de prejudicar a dramaturgia do filme.
7 – As pornochanchadas eram muito mais engraçadas e muito mais cinema que Os Normais
8 – o que é a cena da menina sendo estapeada na igreja?

Os Normais chega a ser constrangedor.
O cinema brasileiro chegou num ponto lamentável.É por isso que eu gosto cada vez mais de LISBELA E O PRISIONEIRO, que mal ou bem, é cinemão de boa qualidade.

sábado, abril 23, 2005

Pinga na minha cabeça
O teto da sala está coberto de rachaduras
Já chamei o bombeiro mas ele anda ocupado
Com outros serviços

Ele cobra caro porque o serviço é urgente
Tem que ser em cash e não aceita cartão
Ainda tem gente no mundo que não tem conta no Itaú

Enquanto isso a gota pinga

Eu não tenho dinheiro
E ele não tem tempo nem paciência
O prédio tem oito blocos, doze andares
Quatro apartamentos por andar
O condomínio é bastante caro

Talvez a culpa seja da vizinha de cima
Mas ela está de viagem e não pode resolver
Dizem que foi ver uns parentes em Olinda

Enquanto isso a gota pinga

Comprei mais dois baldes e seis panos de chão
O estranho é que é só na sala
E não posso mais receber visitas
Estou cansado de dar desculpas
e não deixar ninguém entrar!

À noite faz um barulhinho chato
Que às vezes não me deixa dormir
Mesmo que eu pense que é um sininho japonês

Enquanto isso a gota pinga

O prédio de frente tem um bombeiro barateiro
A escada é muito baixa, não alcança o teto
O síndico sempre me olha como se fizesse um favor
Os sapatos dele são surrados e a meia é sempre cinza

O bombeiro de frente disse que pode ir pros outros cômodos
Quis fazer uma obra completa
Só que trocar toda a estrutura custa uma grana

Enquanto isso a gota pinga

Pinga na minha cabeça
Pingo com a gota
Não posso mais assistir a novela na sala
Porque tenho medo da minha TV pifar

No banheiro começou a pingar
As gotas são grossas
É melhor eu não tomar mais banho pra não piorar

Enquanto isso a gota pinga

Não saio mais do quarto
Não deixo ninguém mais entrar
A campainha toca toca
E às vezes eu vejo mas são só as gotas que pingam

Não quero mais me molhar
As gotas são sujas, vêm do esgoto
podem me dar doenças de pele horríveis

Enquanto isso a gota pinga

Todo o lugar pinga, pinga, pinga
Acho que hoje o bombeiro não vem mais
O quarto está sujo de poeira e umidade
Mas a vassoura está longe na cozinha, cheia de pingos

A gota pinga
Pingo com a gota
Não consigo parar mais de pingar

Quando mijo tenho nojo de mim

Não consigo mais me mover
A campainha toca e não consigo mais atender
Mesmo que ouça os gritos do bombeiro
Eu tiraria todo o dinheiro do banco para resolver logo isso

Então comecei a chorar
E dos meus olhos caíram gotas
E as gotas pingaram em mim
Tocaram meu rosto, minhas pálpebras, minhas mãos
Meu rosto, meu corpo, meu sexo
Meus pés
Lavaram a casa, transbordaram os ralos
Passaram por baixo das frestas das portas
Derrubaram os baldes
Limparam as pichações das paredes, o resto de gordura das panelas
Escancararam as portas, inundaram as escadas e os corredores

E então me vi como um peixe
Nadando entre minhas gotas
Entre minhas lágrimas, minhas rachaduras
Meus baldes, minhas pichações, minhas portas e panelas

E bebi da água
O gosto era azedinho mas não me fez mal
Então foi que bebi mais um pouco
E deslizei flanando abaixo pelos corredores
O bombeiro e o síndico me olharam com espanto
Passei pelas ruas, pelas lojas envidraçadas
Provoquei o maior engarrafamento perto da São Clemente
E só fui parar num riacho lá bem longe de tudo
Onde tudo era mato
E só lá é que pude descansar

E quando parei de chorar
O sol secou minhas lágrimas
A corrente espichou, a correnteza desceu, o céu se acalmou

Tudo voltou ao normal

E fiquei ali sentadinho, nu,
Olhando para o que restou da minha vida

Rosemberg sobre Auto-Retrato

Texto do Rosemberg sobre o meu "auto-retrato" ...

* * *


“Somos pobres de histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações.”
Walter Benjamin

Proximidade e Distâncias

Como é filmar o silêncio de um observador mudo? Um cineasta filma tudo que vê, ou só representa aquilo que já domina? O que é ser um artista da subjetividade? Sensibilidade ajuda ou atrapalha, num país como o nosso? Como explicar pensamentos conflituosos com a imobilidade provocada pelo vazio? Ora, se o país é levado com um escândalo a cada dia, porque a nossa própria casa não seria reflexo da dessarrumação geral? Me refiro aí às pessoas que ainda lidam com o processo criativo. E que são poucas. Como bem dizia a “A$untina das Amérikas”: “Todo mundo faz cinema, mas poucos fazem filmes”. E se falta imaginação e poesia ao poder, porque teríamos que estará associados à modernidade de um pensamento de vanguarda? Ora, como substituir o amadorismo, a arrogância e os radicalismos por devaneios e momentos de sinceridade, pensados?

A socialização do narcisismo está tão enraizada no poder como no indivíduo a desempenhar uma tarefa idiota como o seu compromisso com o trabalho. Sempre insincero só lhes resta o poder. E lá chegando tornam-se deslumbrados, idiotas, arrogantes, mistificadores, pulhas, sabujos... e por aí vai. Para o verdadeiro criador este percurso não lhe diz nada. O seu grande compromisso é estabelecido entre viver o prazer (sempre difícil e complicado) e a conscientização e elaboração de um pensamento mais profundo. E se o olhar do Outro insiste em ver a velhice da intolerância como a única riqueza ameaçada, defender o que seja podre torna-se um reasseguramento junto ao poder, e não a vida-vivida. Ou seja, a vida-representada apazigua o poder. Já a vida-vivida torna-se um confronto com este triste e deprimente aprendizado da boçalidade do poder.

Em essência o cinema pode ser tudo. Até mesmo uma tela escura com um texto político no som. Se se permitisse deixar a imaginação voar, sua singularidade iria muito além de tido o qualquer discurso crítico já feito. O trabalho expressivo (ainda que difícil) de Marcelo Ikeda atesta uma profunda paixão anti-acadêmica que dá relevância à responsabilidade de um saber mais profundo. E é claro que é preciso disciplina nas múltiplas bandeiras da experimentação. As expressões Cinema Livre ou Experimental estão muito além de uma simples recusa do mercado ocupado por Hollywood, e seus imitadores. Na verdade serviçais administradores pós-graduados na manutenção do status quo.

Ora, se o espetáculo boçal serve ao sistema de Sarney, Collor, FHC, Lula... a experimentação pensada serviu e serve à Vertov, Welles, Pasolini, Visconti, Kubrick, Antonioni, Bergman, Godard... isso sem falarmos na importância ilimitada do nosso Glauber Rocha. “Auto-Retrato do Artista Durante a Gestação” segue o percurso da procura do seu trabalho anterior com o nome de “Cinediário”. E entre a glorificação do espetáculo (em geral televisivo e boçal) ou um culto à impotência, o cinema de Marcelo Ikeda legitima a alternativa do pensamento profundo como queria Walter Benjamin. E evidentemente que não se pode julgar este seu último trabalho pelo viés do pessimismo, da auto-suficiência pessoal, do egocentrismo surtado ou de impulsos narcisistas, primários. Ikeda se oferece ao espectador como autor-ator e personagem, sem pretensão alguma de ser uma referência do fracasso, do reconhecimento ou do poder.

Ele ali está removendo o lixo da sua casa e do próprio ser. O final exemplar nos surpreende pela sua confiança em se expor nu, depois do banho. Ou seja, não é um filme para bonequinhos ou estrelinhas. E sim um trabalho (até bem humorado) questionando as intenções de algum resultado muito além da profissão de cineasta em gestação. A sua exposição como personagem de si mesmo, desfecha na rigidez do capital, o gosto estético do prazer. O seu terno modo de filmar passa por múltiplas metamorfoses provocando um mal-estar dividido entre a inocência perdida e a dor entranhada no olhar sofrido. Olhar a casa desarrumada. Olhar alguns alimentos envelhecidos na geladeira. Olhar o próprio rosto no espelho, depois do banho. Rosto que não acrescenta ao corpo ausência de densidades. O seu “auto-retrato” não deixa de ser uma viagem ao imobilismo da sua própria vida desarrumada.

Adepto de um cinema de linguagem, Ikeda dá a sua insatisfação uma espécie de embriaguez sofrida da alma. A perda do lado belo interno da casa é acompanhada em alguns momentos por excessos musicais bregas. E a gestação da arte torna-se substância viva da desordem. Passa uma sensação de caos onde a pureza é regida pelo demônio em estado de putrefação. E no lugar dos cadáveres: os restos, o podre, o cheirar-mal, o sujo...Mas não seria também o podre, o cheirar mal e o sujo do país que se recusa a mudar? É da desordem que se gesta a obra de arte, ainda que crepuscular. Ikeda é um straubiano, sem excessos de situações. E nesse seu pequeno trabalho doméstico, ele persegue a sua tolerância com o seu próprio horror sem suavizar nada. E muito menos a possível irritação do espectador, que o seu processo intimíssimo deixa fluir. Seus múltiplos exercícios cinematográficos acentuam essa traumática viagem à luz da insatisfação humana com o tempo real, retrabalhado pelo olhar. É um cinema que não se deixa sodomizar pelas razões do mercado.

Pouco interessado em camuflar a ignorância do seu tempo, faz do horror do mundo o sujeito de sua tragédia: a casa desarrumada como metáfora da sua ânsia de mudar, sempre que possível. Romper com o sujo externo para poder criar. A gestação do processo criativo. O essencial é aproximar e traduzir o lixo externo numa espécie de tempo passando/passado. Tal conclusão leva-o ao banho real. O personagem ultrapassa o ator, colocando-o diante de si mesmo diante do espelho do banheiro. Se vê então Marcelo Ikeda sentado no seu banheiro em três olhares: o real, o do ator e do personagem. O que se busca é uma real substituição do tempo comum dos objetos pela densidade do ser-artista para a vida. E não é o que importa?

Luiz Rosemberg Filho

sexta-feira, abril 22, 2005

ENQUANTO ISSO,
UM FILME FALADO ESTRÉIA EM SÃO PAULO!!!
SEM COMENTÁRIOS!!!
AMÉM!AMÉM!AMÉM!AMÉM!AMÉM!
AH E COM BELA CRÍTICA DE INÁCIO ARAÚJO NO ESTADAO!...

quarta-feira, abril 20, 2005

DO LUTO AO LUTO

Este é o nosso cinema brasileiro!
O fascista DO LUTO À LUTA ganhou sete prêmios no Festival de Recife!!!
O fim do documentário, o fim do jornalismo, o fim do fim.

Cine PE vai Do Luto à LutaFESTIVAL
Recife, PE - quarta-feira, 20 de abril de 2005 - 02:45:09
Na festa da premiação do Cine PE, documentario sobre a síndrome de Down faturo nada menos que sete prêmios entre os longas-metragens
MARCOS TOLEDO
O gênero do documentário confirmou mais uma vez sua ótima fase no cinema atual, ontem, após o anúncio dos vencedores do Troféu Calunga, na nona edição do Cine PE: Festival do Audiovisual. A produção paulista Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel, sobre o tema da síndrome de Down, faturou nada menos do que sete prêmios na categoria de Longa-Metragem, incluindo os de melhor documentário, de melhor filme na opinião do Júri Oficial e do Júri Popular, e melhor direção. “O documentário está ajudando a renovar o cinema brasileiro”, disse o diretor.

terça-feira, abril 19, 2005

Filmes de Março

Filmes de Março
(com grande atraso)

Bom Dia, de Yasujiro Ozu ***½
Duplo Suicídio em Amijima, de Masahiro Shinoda ***½
O Último Pôr-do-Sol, de Robert Aldrich ***½
Cega Obsessão, de Yasuzo Masumura ***
O Mágico de Oz, de Victor Fleming ***
Um Dia no Campo, de Jean Renoir ***
Sunset Boulevard, de Billy Wilder ***
O Aviador, de Martin Scorsese **
Sideways, de Alexander Payne **
Cabra-Cega, de Toni Venturi *
O Casamento de Romeu e Julieta, de Bruno Barreto *
Mar Adentro, de Alessandro Amenábar 0

Minha Vida de Menina

Minha Vida de Menina
De Helena Solberg
VHS, seg 18 20hs
*

Sabe que o cinema consegue nos complicar em coisas fáceis? O início de Minha Vida de Menina indicava para um filme quase amadorístico: o predomínio de um cinema tatibitate sobre um mundo rural puro e virginal, com ênfase num cinema acadêmico de fotografia e de reconstituição de época. O início do filme, numa espécie de piquenique com as duas famílias, que tenta promover uma apresentação da atmosfera de todo o filme, nos deixa constrangidos, porque é só ver o que Renoir fez nos anos 30 em Une Partie de Campagne para ver a dificuldade de Solberg em exprimir um tom para o filme.

O filme avança e se desenvolve sem nenhuma novidade: o dia-a-dia opressor, fofoqueiro e conservador de uma cidadezinha (Diamantina), o declínio econômico da mineração, a condição da mulher, são vistos a partir de um cinema do cotidiano que se prende muito mais a anedotas que beiram o lugar-comum (os ciúmes da escola, a avó carinhosa que morre, o primeiro amor, o conservadorismo da confissão na Igreja) do que realmente propor um olhar humano sobre a rotina dessa menina que cresce para a vida.

Minha Vida de Menina sem dúvida fracassa em construir um olhar que possua um vigor de cinema, uma expressão atenta a construir uma personagem humana, em traçar os contornos das suas contradições, das suas dores e pequenas alegrias, etc. Beira, então, o caricatural, e nisso o filme fica próximo do tatibitate (como já dissemos), como se apresentasse o dia-a-dia de uma moça de forma didática, descritiva, banal e anedótica. As pequenas transformações e as relações entre os personagens são muito óbvias, grosseiras, lineares. Minha Vida de Menina, então, é um cinema com uma proposta muito antiga de dramaturgia.

Mas o que nos desconcerta no cinema é a expressão de um autor. Então por vezes ou outra um acorde do filme nos encanta pois para Solberg toda a pacata vidinha de Diamantina cheira a uma inevitável melancolia e saudade perdida. Ume ternura, um abraço carinhoso, uma câmera respeitosa aos recursos do cinema clássico mas atenta aos pequenos detalhes (um vaso que se quebra, a cor de um vestido, a forma como se senta numa cadeira, etc). Nesses pequenos detalhes, Solberg imprime ao filme um ritmo leve, conciente do anacronismo de sua proposta, como um refúgio impossível. Assim, Minha Vida de Menina se torna o filme mais bucólico do cinema brasileiro recente, desesperadamente contra qualquer tipo de aparato tecnológico, rendendo-se a um cinema simples, passadista e nitidamente conservador. Mas encanta sua visão feminina, trágica, doce, esguia. Esquiva-se dos problemas e é ligeiramente covarde, mas é um filme apaixonado, criação coerente. Talvez eu já tenha crescido suficiente e a ingenuidade de Minha Vida me soe nitidamente como ausência, e não como proposta de cinema (como em Jonas Mekas, Kitano, etc), mas ainda assim os poucos méritos do filme podem ser vistos, o que o salva da iminência do desastre.

REYGADAS

PUTA QUE O PARIU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O NOVO FILME DO REYGADAS VAI ESTREAR EM CANNES NA COMPETITIVA!!!!

Carlos REYGADAS - BATALLA EN EL CIELO (Battle in heaven) - 1h41

JÁ É O FILME MAIS ESPERADO DOS ÚLTIMOS ANOS!!!!!!!!!!!!!!

segunda-feira, abril 18, 2005

Herói

Herói
De Zhang Yimou
Odeon dom 17 16:30


Tá certo que eu não vi o filme com a devida atenção (graças a Deus agora eu consigo ir ao cinema sendo que o filme pra mim é supérfluo em relação ao meu real interesse na sessão...), mas Herói, do neofascista Zhang Yimou, é bem melhor que a expectativa. Porque pelo menos Yimou teve a ombridade de admitir seu olhar de cinema: um cinema sensorial, plástico, mais atento ao deslumbramento da imagem do que qualquer desenvolvimento de personagens e história. Plasticamente deslumbrante, impecável. Como sempre, todo o lance histórico sobre a China antiga é mera cascata, descontextualizada, etc. Agora, todo esse “deslumbramento da imagem” cai no risco do cinema publicitário. E, claro, é isso o que acontece: folhas amarelas que voam, gotas d´água em câmera lenta, etc. Parece um comercial de sabonete. Ou seja, um projeto muito aquém da consistência e da ambição de um Ang Lee (O Tigre e o Dragão). Mas ainda assim Herói está longe de ser um dos piores filmes de Yimou. A dramaturgia é meio de novela, mas deu pro gasto.

Por outro lado, gostei de uma entrevista do Yimou que saiu na net. Trechos:

Xu: Would you mind summarizing your strengths and weaknesses?

Zhang: Creating a stunning visual is my strength. Narration is my weakness.
I'm not good at vividly and charmingly bringing characters to life or vividly narrating a story.

So learning how to narrate is my lifelong task. On the contrary, the visual techniques are enough. But characters are more important. I know this is my weakness. Just quote an example. When I watched 2046, I didn't understand the Cantonese and Japanese parts in the film while the subtitles were in English and French. I couldn't read and listen. But Wong Kar-wai has such a good grasp of the actors that the actors generated vivid and lively performances. I want to learn about that.

Keep on Learning

Xu: I think you are facing a dilemma with the press, critics and industry professionals commenting on the depth, narration and portrayal of your characters while the market and others outside the film industry hope you will present stunning visual feasts. So you have to strike a balance between these two ends.

Zhang: I am not striking a balance! I am not going to remedy myself by listening to opinions because many of them improvise and are subjective.
Their criticism is convoluted with a lot of different attitudes. So when you read an article that says it (a film) sucks, I may have had problems here and there. How can I continue my film-making? I only know that I will try my best despite my inadequacies to use my abilities to the full.

I have been invited to work on many projects that allow me to use my strength of visual effect. But I am well aware that that doesn't mean my weaknesses are remedied. To work and to learn is what I do in film-making. I try hard to overcome my weaknesses. Perhaps I may not be able to reach the level that I'm happy with in my lifetime. I'm still learning how to film.
This is my honest opinion. I'm not trying to be humble. I'm still learning how to tell a story, how to portray a character and how to shoot a film.

When Akira Kurosawa, one of the world's most renowned directors whom I respect, received the Lifetime Achievement Award at the Cannes Film Festival at the age of 80, he said, "Today I still don't know how to shoot a film."
Everyone laughed and thought the old man was being funny. But I can understand him. Of course, I can't be compared with such a master as him.
But from him I learnt that no matter what, you can't think you're great.
There are always many things to learn. That's why I don't care about other people's comments. You can neither be Mr. Big nor a flower in a greenhouse; what's important is to know yourself thoroughly. You need to remain calm and understand that you are only a director. Being a director is nothing incredible; it is no different from being a carpenter. We are just lucky that our work catches people's attention.

Lately the press in China love to use the word "visual feast" to describe films which makes me think that in recent years, my films may have had some visual or sensual impact on them. Actually, I look forward to the spiritual impact that I can bring to them.

domingo, abril 17, 2005

Pyaasa

Pyaasa
De Guru Dutt
MAM sab 18hs


Desse Pyaasa eu até que gostei. Passei a gostar depois de hora e meia de filme. Na estética, o que já sabemos: apanhado de lugares-comuns, filmados como um novelão americano, sem nenhuma criatividade e sem um único plano que revele algum olhar pelo cinema de linguagem. Mas lá pelo meio o roteiro começa a ficar estranho, e até a decupagem se ilumina (uma cadeira de balanço vazia, a aparição do poeta Raj no plenário com forte contra-luz e sua voz serena, etc.).

O que eu achei interessante foi o roteiro. Poeta vive para escrever, ou seja, é pobre e ridicularizado. Por engano, pensam que ele se suicidou na linha do trem. Passa a ser exaltado pela mídia que vive da grana de seus livros, agora best seller. Mas ele volta, agpora super famoso. Mas caga pra tudo isso, acha um absurdo, prefere sua vida medíocre.

Filme religioso, é incrível como o filme fala sobre a mesquinhez da condição humana, sobre como as pessoas se vendem por causa do dinheiro e do poder, como não há mais possibilidade de humanidade por causa das pressões que a sociedade faz no indivíduo por uma posição. O filme critica o uso da imagem dentro do star system, critica o materialismo dentro da indústria bollywoodiana. Isso é interessante. Fala também sobre o papel do artista no meio de tudo isso. Fala, como é típico dos filmes de Kapoor (que produziu e foi no fundo o grande mentor do filme), sobre a inevitabilidade do destino, e como os pobres são explorados pelos ricos e não conseguem ascender. Fala também sobre as hipocrisias da sociedade indiana e denuncia (brandamente) as desigualdades de classe. Essas questões fizeram que o file tivesse interesse para mim em particuçar, porque essas questões me são muito íntimas. Mas em termos de linguagem, desenvolvimento da trama e de cinema em si, o filme é muito fraco. Cinema hollywoodiano mal feito. Nesse nem teve cena de sonho ou parecida para viajar. Ah, e o que era aquele cabeleireiro?

sábado, abril 16, 2005

Aawara

Aawara
De Raj Kapoor
MAM, sex 15 18:30
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Primeiro filme clássico de Bollywood, a Meca do cinema industrial indiano, que eu pude assistir. E pra mim me lembrou (mal comparando) a Vera Cruz: um roteiro estranho com altas transformações e quebras, cinema de estúdio com tudo em cenários falsos e breguíssimos, o falso conteúdo popular, o cinema de tom melodramático, a imitação do modelo clássico americano. Ou seja, um cinema completamente equivocado. A famosa seqüência do sonho é de fato interessante, mas nada que Pabst em 1925 não tenha feito dezenas de vezes melhor. A comparação com Chaplin é totalmente esdrúxula e despropositada. Bom, é cinema clássico competente, até que bem narrado, mas o roteiro de quebras absurdas, muitas oscilações de ritmo que dão soooono, etc, fazem o filme ter envelhecido muito, e hoje nada dizem a nós mortais. Diz a lenda que Kapoor era um esteta: bobagem. Um diretor mediano americano faria melhor. Quase tudo em plano médio, e na dúvida tasque planos de cobertura. Pura televisão.

A história, típica dos filmes de Kapoor, fala sobre a inevitabilidade do destino, e sobre a opressão das classes populares que não têm chance de subir na vida. Juiz abandona a mulher por suspeita de que seu filho na verdade foi fruto de um estupro. Mas o garoto é na verdade seu filho. Ele cresce pobre, e mesmo sendo bom, acaba bandido, porque a sociedade não lhe dá uma chance (ohh!). Ele se apaixona por uma mulher que o juiz é o tutor (o amor impossível). Pobre x rico. Ele tenta mudar de vida mas não consegue, já está condenado pelo destino. Mata o bandidão ao proteger a mãe, vai pro tribunal, é condenado. Mas ao final o juiz descobre que é seu filho, e fica com grande culpa. Mas é tarde demais.

terça-feira, abril 12, 2005

Diabo a Quatro

Diabo a Quatro
De Alice de Andrade
DVD, ter 12 abril 6hs da manhã
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Quando se trata do cinema nacional, todo cuidado é pouco. Então não é raro vasculharmos os méritos de trabalhos que no máximo são dispensáveis. Vemos um olhar na fotografia, um jeito de narrar que escapa ao mais básico primarismo, e já vemos algum mérito. Mas filme após filme não há paciência oriental que resista. É preciso dizer: estou cheio dos filmes brasileiros. Os filmes brasileiros estão MUITO ruins. Está cheio de filmes que não tem nada a dizer, apenas se limitam a repetir um bando de imagens banalizadas, clichezadas, vulgares.

Então não tenhamos medo do exagero: Diabo a Quatro é MUITO ruim. Poderíamos ver alguns méritos: a competência da produção, o humor debochado carioca, o resgate da comédia de equívocos, o filme sem heróis, o resgate da geografia urbana carioca sem precisar ser um filme de denúncia. Mas esses supostos méritos falam muito pouco do que é o filme, e no fundo o filme é muito pouco. É um conjunto de situações-clichê trabalhadas com uma decupagem irritante que nada contribui para a dramaturgia. Um filme anti-cinematográfico, cheio de meios-preconceitos, com um roteiro fraco em que os personagens perdem suas motivações como trocam de roupa. O filme frequentemente não monta, e a diretora estreante tem uma dificuldade profunda de investir ao filme um ritmo que permita ao espectador mergulhar no que está acontecendo. Então o que sobra é o recurso do efeito: o corte rápido, a piada rasteira, o conjunto desordenado de ações e reviravoltas como se fosse uma novela mexicana. Mas isso NUNCA, nunca está ligado a um olhar pela dramaturgia ou nada que acrescente alguma humanidade e desejo a seus personagens. Canastro, falso e mesquinho todo o tempo, o filme de estréia de Alice de Andrade joga o nome do pai pela latrina. Aliás (é aqui que não tenho medo de tachar de preconceitos), quando é que o cinema brasileiro vai se livrar da maldição das “capitanias hereditárias”? Com um currículo de “assistente de direção parisiense”, a filhinha de Joaquim Pedro vai fazer um filme ágil completamente desequilibrado e mal intencionado, preconceituoso, mesquinho – fútil como ideologia e fútil como proposta de cinema. Não é primário, não é constrangedor: é apenas ruim. O que é pior, pois ela sabia o que estava fazendo, e teve condições de fazer o que quis, e fez essa merda. Lembrei de Eu Transo, Ela Transa, o filme esquecido de Pedro Camargo, e fiquei com vontade de rir de Diabo a Quatro. Enquanto no simples filme do Pedro, tudo era uma visão de cinema e dramaturgia, agora tudo é recurso de efeito, purpurina, “toquinho de lado”. Basta de filmes como Diabo a Quatro – cinema brasileiro ruim que é realizado pelo conhecimento ou pela árvore genealógica. Basta!

segunda-feira, abril 11, 2005

ATENÇÃO!!!!!

Amigos,
Rosemberg escrevendo sobre EM CASA. Belo texto!

http://www.balaiovermelho.blogger.com.br/

As rochas soluçam de dor
Meu Deus onde andarás tuas campinas
Hoje nem tudo parece ser o que era antes

Tilintam os rincões
Os peixes borboletam as águas do rio doce
Oh Meu Deus, Deus meu, responde!
Responde este que Te pede em oração!

Daqui destas montanhas o verde soluça
O parto das cabrochas, o brilho da lua
E a loucura dos desterros
As ventanias ecoam pálidas lamúrias
Arrastando cânticos em teus novelos

És tu me provoca risos e calafrios
Soluços módicos, orvalhos roucos e epifanias
Os verões recobram-se dos pesadelos

Nas cavernas protejo-me da escuridão

sexta-feira, abril 08, 2005

De Luto à Luta

De Luto à Luta
De Evaldo Mocarzel
CCBB qui 7 abr 21hs
0

Terceiro longa do jornalista Mocarzel em três anos. Típico paulista (isto é, ranzinza e rancoroso), os filmes de Mocarzel, embora eu nunca goste, sempre tem um olhar de linguagem, uma polêmica, um desejo por um olhar renovado, com um frescor. Foi com esse olhar que eu fiquei no Centro da Cidade até 9 horas da noite pra ver o novo longa de Mocarzel, depois do Parteiras da Amazônia, que me causou calafrios. Porque por mais que eu não goste MESMO dos outros filmes do Mocarzel, ele é um cineasta que eu tenho um certo respeito, porque tem um olhar de cinema.

Então até mesmo por isso, este De Luto à Luta é uma decepção total. É um filme sobre pessoas com síndrome de Down, e esperava-se que Mocarzel fosse contra um paternalismo, contra uma visão de vitimização e politicamente correta que tanto infestam esse tipo de filme. Mas Mocarzel fez EXATAMENTE isso, um filme chapa branca, um institucional para pais de crianças com síndrome de Down, mostrando que “são pessoas como qualquer outras, que é uma benção de Deus que essas pessoas estão vivas”, etc, etc. Ou seja, é um trabalho muito desapontador dada a trajetória de Mocarzel.

O próprio diretor tem uma filha com Down. Provavelmente foi isso. Ele quis fazer um trabalho respeitoso, e acabou respeitoso demais. Para mostrar que são pessoas como quaisquer outras, ele mostra pessoas com Down dançando, surfando, beijando na boca, etc., o que na minha opinião só corrobora os preconceitos.

Tem uma hora que Mocarzel dá a câmera pros personagens. Trash! O filme que eles fazem é ruim de dar dó. Além disso, o roteiro é do próprio Mocarzel e fala sobre um pai que recebe a notícia de que tem um filho Down. Isto é, o institucional dentro do institucional.
O filme fala uma coisa interessante, que é sobre a inclusão. Downs têm que estudar com pessoas normais, não tem que ter a segregação. Mas como Mocarzel mostra isso? Com depoimento dos pais, e não mostrando o dia-a-dia na escola, a convivência e o preconceito diários... é isso que me irritou no péssimo e dispensável Do Luto à Luta, que no final acaba sendo um desserviço à trajetória de Mocarzel.

quinta-feira, abril 07, 2005

videvideo

Pode parecer loucura mas está rolando o FESTIVAL VIDE VIDEO/UFRJ e estou triste porque por um lapso esqueci de mandar os meus pobres vídeos. É um Festival que eu tenho um carinho particular, porque foi lá (e só lá) que foi exibido o DEPOIS DA NOITE, numa exibição meio traumática mas que hoje eu acho meio engraçada. Ano que vem de qualquer maneira eu vou me lembrar de mandar os meus trabalhos. Esse ano ta passando na Casa França-Brasil, que é um lugar bem legal, pena que eles resolveram concorrer com o É Tudo Verdade, aí é dose pra elefante...

quarta-feira, abril 06, 2005

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída
de Uli Edel
DVD sab 28 março 23hs
**½

Fui assistir a Christiane F., sem nenhum interesse ou entusiasmo, só porque um cara aqui do meu trabalho encheu o meu saco para ver. Mas com um único fotograma todos os meus preconceitos se dissiparam: o saldo foi imensamente positivo. É o tipo de filme que se eu tivesse visto na época do Não Amarás, com certeza teria um efeito devastador em mim. Foi um filme que me fez transportar de volta para minha “fase alemã” onde eu achava que a vida é pura miserabilidade. O filme me espantou pelo retrato cru de uma juventude, e especialmente pela forma como o filme encena esse retrato. O filme é todo escuro, é muito escuro, de baixo orçamento, aproveitando de forma muito criativa as locações ( o metrô, as ruas, os banheiros públicos, a boate, etc.). É incrível como o espaço físico interage com os personagens. É um cinema pouco didático no sentido de apresentar a história, o que se pretende é um mergulho num sentimento de vida, ou melhor, numa ausência profunda. Isto é, ao invés de dar motivações, justificativas, ou – o que seria pior – de ser uma denúncia sobre um tipo de sociedade, ou sobre uma “sociedade careta”, o filme simplesmente mostram jovens sendo. É um cinema fenomenológico. Eles não sentem prazer ou coisa do tipo consumindo droga: eles apenas a consumem por uma necessidade intrínseca de ser, pelo desejo por um tipo de sentimento, por uma inserção em um mundo. Por isso até, o filme é bastante sinistro, sombrio, os personagens sem maquiagem, o clima diretamente expressionista, os pais cagando pros filhos (i.e os filhos têm que se virar, eles têm que tomar as decisões por eles mesmos). Angustiante, sobre o papel do destino, o filme é baseado numa relação de amor e amizade muito profunda, e isso é muito instigante. Pois se o filme é sobre drogas, sobre o lado sinistro da vida, ele tbem é calcado numa necessidade profunda de amor e de compreensão. Ora, os dois personagens são anjos caídos, pervertidos pelo destino, que os suga para a auto-destruição. O filme se arrasta demais, e nos últimos vinte e cinco minutos perde o vigor, quase cai no melodrama (o que no fundo ele é), mas o filme todo é muito seco, é extremamente alemão. A vida é muito miserável, e as pessoas, mesmo querendo se ajudar, se destroem, porque o destino é assim. Gostei MUITO, mas MUITO mais desse filme do que as bobagens tipo Trainspotting ou Drugstore Cowboy. Não há ingenuidade, todos sabem o que estão fazendo. Tbem não tem aquelas tão irritantes câmeras subjetivas que mostram os “delírios” dos drogados (ah como eu odeio esse tipo de coisa). Ou seja, o filme trata os personagens não como “drogados” mas como pessoas: é de uma profunda humanidade, e de um profundo respeito com esses personagens (não tratando como vítimas, ou não procurando dar respostinhas simples prontas, etc, etc). Um filme para ser visto.

Jogo Subterrâneo

Jogo Subterrâneo
De Roberto Gervitz
Esp Unib 3 ter 5 21:20
½ (isto mesmo, entre 0 e 1)

Fui correndo ver Jogo Subterrrâneo depois dos catastróficos resultados de público deste final de semana publicados pela FilmeB. E quando chego no Espaço Unibanco, a primeira notícia: o filme já “caiu” da sala 2 para a sala 3 apenas com o resultado do primeiro final de semana. No cinema, outra bomba: a projeção em digital. Mas ainda assim as expectativas eram positivas: o argumento do Cortazar, a produção caprichada, o retorno do competente Gervitz. Os primeiros vinte minutos do filme são sedutores, especialmente pela decupagem: obsessiva, enérgica, segue os olhares do protagonista em movimentos de puro cinema – o corte, o movimento, a busca por uma motivação, um desejo. Nos corredores esguios do metrô, a câmera de Escorel acha seu espaço autônomo, a decupagem busca um desejo de cinema. Num corte, num campo-contracampo, todo um cinema pode se estabelecer. A obsessão psicológica e matemática do personagem, a combinação do acaso-destino me lembrou o que pode ser o primeiro longa do Philippe Barcinski.

Mas o filme continua, e não tem fôlego para manter-se como longa. Na verdade, o filme começa a descambar quando Daniela Escobar tira a roupa e vemos seu corpo cheio de tatuagens. Ali, a esquisitisse sem fundamento invade o filme, que perde o rigor, a coerência, e vai caindo, caindo, caindo, até se perder completamente. Nas partes de drama, a platéia ria. E que elenco bizarro: Felipe Camargo e Daniela Escober péssimos; Maria Luíza Mendonça passando por cenas constrangedoras. E o filme de fato acaba constrangedor, e isso quando acaba, porque demora muito a acabar. Uma pena, porque Gervitz é talentoso, e teve todas as condições para fazer um bom trabalho. Não o fez porque foi incompetente. Por fim, que cena é aquela da cobra no deserto? E o final feliz, em Porto Desejado? E a menina autista tocando piano? E o cara querendo passar a ferro a cara da MLM? E... etc etc etc

segunda-feira, abril 04, 2005

Monsieur Verdoux

Monsieur Verdoux
De Charles Chaplin
DVD sab 2 abr 18hs
***

Queria rever Monsieur Verdoux, um filme cult meio esquecido de Chaplin, mas que tem uma magia irresistível. Para mim, é o projeto mais ousado de Chaplin. Revendo o filme, vi que ele é irregular: tem vários problemas de ritmo, a decupagem à vezes é muito teatral e forçada, não tem a fluidez de mise-en-scene dos filmes sonoros, os diálogos banais muitas vezes são completamente dispensáveis. Mas ainda assim existem seqüências extraordinárias, e todo o filme é de uma ousadia e coragem surpreendentes, e de um frescor e de uma atualidade impressionantes.

Falamos antes que o verdadeiro diretor é o que encontra o TOM certo para o filme. E daí vemos que Chaplin é um grande, grande diretor. Essa comédia de humor negro tem sutilezas de tom muito difíceis para o diretor. Verdoux é um personagem belo e terrível, com quem ao mesmo tempo simpatizamos (ele tem uma ingenuidade típica do vagabundo Carlitos) e ao mesmo tempo execramos. Seu tom é romântico, lúdico, e ao mesmo tempo premeditado, falso, artificial, afetado. A interpretação de Chaplin é espetacular, porque dá margens a toda essa gama de sentimentos, com uma atuação que vai na essência desse personagem. Verdoux é também um ator, e dái vemos toda a terrível faceta da representação. Vemos também a terrível face das mulheres que Chaplin seduz. Todas são miseráveis, mesmo com diferentes níveis de miserabilidade....rs

O filme á amoral, tem uma ética difícil que nos remete aos filmes do Mojica. É claro que não é uma apologia ao assassinato, ao contrário, uma condenação, mas ao mesmo tempo é um elogio à liberdade e à reavaliação do assassinato. É difícil explicar.

É sempre filmado com uma grande profundidade de campo, o que provoca um efeito realista, mas ao mesmo tempo os cenários são completamente falsos, artificiais. O filme é muito estranho, mas muito bem orquestrado, arquitetado.

A cena em que Chaplin salva a pobre mulher de tomar a taça de vinho com veneno mexeu muito comigo. A morte por um fio. Não conseguimos tirar os olhos da taça, porque as taças são iguais, e achamos que a qualquer momento Chaplin pode por um engano beber a taça com veneno. É terrível.

O final é espetacular. “Se se mata um, é assassino. Se se mata milhões, vira-se herói” Ou ainda, no tribunal, quando o advogado diz que estamos diante de um monstro. E todos se viram para ver Chaplin, inclusive ele mesmo, procurando o tal monstro. Ou ainda, quando Chaplin resolve tomar rum, porque “nunca havia experimentado rum”. E afinal, o plano final do filme, um plano que reforça o tom moral e ético do cinema chapliniano (o assassino tem que morrer e ser punido), mas ao mesmo tempo na minha cabeça ficou uma referência muda ao “pobre Jacques”, a estarrecedora declaração ao final de Le Trou.

Apesar de todo o tom irregular, Monsieur Verdoux é inesquecível. Um filme sobre a natureza humana, um filme político, uma crítica contundente à necessidade de sobrevivência dentro da selva do american way of life. Chabrol matou a pau quando diz “Verdoux é na verdade um filósofo”. É uma versão do vampiro de Nosferatu, ou do gabinete de Dr. Caligari: Verdoux sofre um transe e começa a executar suas vítimas, sem grande discernimento moral, apenas no cumprimento de seu dever. Filmado no entreguerras, M. Verdoux é um grande, um enorme exame sobre as contradições do mundo contemporâneo, um questionamento agudo sobre o valor da vida, da amizade, do amor, da família, do dinheiro, da verdade. Um filme doloroso de se ver e muito, muito ousado.

Extremo Sul

Extremo Sul
De Monica Schmiedt e Sylvester Campe
É Tudo Verdade, CCBB sex 1 21hs
**½

Fui com muito pouco entusiasmo para assistir a Extremo Sul, e já o fui encarando como um “filme sobre alpinismo”, uma mega reportagem no estilo SporTV, um “filme de fotografia” que pouco teria a dizer. Mas em primeiro lugar, já fiquei surpreendido pela competência técnica do filme. A primeira parte do filme, que apresenta o histórico dos quatro alpinistas, tem uma linguagem dinâmica, evitando o didatismo e tornando o ritmo dessa apresentação bem ágil. Ainda mais se tratando de um documentário, em que na maior parte das vezes não pode existir o “retake” é exemplar a eficiência da fotografia, do som, da câmera, ainda mais com as filmagens em película. A alternância entre o digital e a película também são muito bem feitas: o digital para as entrevistas, mais longas e em que a imagem não tem um papel primordial; a película para os planos gerais, para as imagens da paisagem local.

Mas se o filme já tinha o seu interesse pela competência da parte técnica e pelo dinamismo da montagem, nada poderia nos levar a pensar que o filme teria uma grande virada exatamente na metade do filme, revelando-se um grande ensaio metalingüístico sobre a realização de um documentário e sobre os limites do sonho e da existência humana.

É que se na parte inicial acompanhamos, nos moldes do cinema clássico narrativo, toda a hercúlea preparação da equipe de quatro alpinistas, extremamente capazes e aptos para o desafio de alcançar o cume do monte, na segunda metade, acompanhamos a derrocada desse processo. Aos poucos, começam a surgir intrigas dentro da equipe. Mas o mais interessante é que essas intrigas estão intimamente relacionadas com a própria presença da equipe de filmagem, que, mesmo involuntariamente, acaba interferindo de maneira decisiva na execução do projeto. A presença de um acampamento a parte da equipe de filmagem gera ciúmes por parte de alguns dos alpinistas. Ao fim, os alpinistas acusam a equipe de filmagem de atrapalhar seus planos, e se recusam a ao menos tentar a escalada. Dizem os alpinistas que eles poderiam subir mas não com a presença das câmeras, e que a possibilidade de um acidente fatal da equipe técnica lhes coloca uma responsabilidade brutal. A cineasta e produtora (Monica Schmiedt) contra-argumenta, dizendo que na verdade essa é uma desculpa para o verdadeiro motivo da não-escalada: o medo e a incapacidade individual. Instala-se então uma grande lavagem de roupa suja, que coloca em xeque a própria realização do documentário. O filme passa a problematizar de forma extremamente aguda seu próprio processo de realização. O mito da não-intervenção, e do “filme de montanha” rompe brutalmente.

Mas o mais interessante é que o documentário abre mão da sua suposta imparcialidade e passa a nitidamente defender sua posição, e acusar os alpinistas. Torna-se um trabalho extremamente rancoroso. Em nenhum momento, a câmera tenta entender as motivações dos alpinistas. Ora, eles devem sentir uma imensa frustração de, após toda a preparação, pararem inerte ante ao pé do monte. Mas o filme volta-se para si mesmo, e abandona seu objeto de estudo; rompe com ele. Passa a acusar, difamar os alpinistas, tentar defender a si mesmo. Passa a ser um espelho do processo de frustração de seus produtores, e não dos alpinistas, em última instância o objeto do filme. Abandona a imparcialidade: só edita os trechos que interessam a si mesmo, manipula nitidamente o material filmado. Sente-se então todo o peso do processo: ora, assim como houve uma enorme preparação dos alpinistas, houve um enorme esforço por parte dos cineastas, seja para captar recursos, para convencer os investidores, para preparar, organizar toda a parte logística necessária para a execução do projeto. O filme passa a ser pura metalinguagem. E a magia do documentário é essa: tudo está prestes a acontecer. É da natureza do documentário. Mônica não é nada generosa: ela achou que perdeu o filme, perdeu a grande chance de fazer o projeto da sua vida, e ela se esforça em terminar o filme, até porque ela precisa prestar contas, etc. Mas o filme vira uma outra coisa, não-didática, menos óbvia. Vira um produto vivo, torturante, angustiante, cheio de contradições.

Os alpinistas realmente desistem de subir o monte. O filme acaba com a equipe empacotando as coisas, e pegando o barco de volta para casa, com a missão não-cumprida. O clima é pesadíssimo. O último plano de Extremo Sul é um plano síntese. Sentada na proa do barco, com o monte ao fundo, vemos um close de Monica Schmidt, cineasta e produtora, cabisbaixa, sem nenhuma palavra. Um plano-sequência de quase um minuto. Corte seco. Fim. Plano-síntese: o filme acaba na decepção do próprio filme em não ser feito. Ele poderia muito bem ser um plano de um dos alpinistas, mas não, o objeto de estudo não vem mais ao caso. É um filme sobre a percepção do fracasso do próprio filme: trata-se de uma mórbida autobiografia. Narcisista, egoísta, necessária, contundente.

Assim, Extremo Sul passa a ser um documentário sobre o Brasil, sobre o cinema brasileiro, sobre o fracasso da experiência humana em vencer os desafios da vida, sobre os limites da existência humana. Uma grande e inesperada porrada. Sem dúvida, o mais instigante filme brasileiro do ano, até agora.

Como uma Imagem

Como uma Imagem
De Agnes Jaoui
Est Paissandu, dom 3 19hs
*½ , talvez **

Depois do chocolate tricolor (ai como é bom ver o menguim cair de quatro...), fui ver Como uma Imagem pouco interessado no filme. Achei curiosa a comparação do estilo de Jaoui com o de Woody Allen: ela que é chamada de Woody Allen francesa de saias (?!!?). Seu cinema é típico do circuito de arte: um cinema delicado, íntimo, refinado, de bom gosto, mas que no fundo acrescenta muito pouco em termos de linguagem e em termos de um olhar sobre cinema. Por outro lado, Jaoui mostra uma sensibilidade, um toque feminino de direção, um olhar sobre o relacionamento humano, sobre as pequenas fraquezas de seus personagens. É curioso tbem como os personagens são “resmungões”, eles estão sempre reclamando de alguma coisa. Allen deve gostar dos filmes de Jaoui, porque ela consegue equilibrar comédia e drama, embora caia mais para o segundo, que é uma coisa que o Allen vem tentando ao longo de sua filmografia (embora ele caia mais para o primeiro gênero). O tema do “sucesso” é a mola mestra do filme, e tbem a questão dos “contatos”, tão importante no meio artístico (e acho que em qualquer meio). Às vezes, o filme tem momentos intensos, verdadeiros; às vezes, cai em alguns clichês, tanto de interpretação quanto de plot (os personagens se revelam meio caricaturais, como por exemplo, o pai artista egoísta que caga pra filha). No final, se não diz muito, ficou acima da minha expectativa: é um filme humano, bem intencionado, sobre a fraqueza de seus personagens, sobre o dia-a-dia, e bem francês. Em termos de cinema, no entanto, fica devendo. Dizer simplesmente que “é um filme de roteiro” também é maldade: o filme tem méritos na sobriedade da encenação, na direção de atores, e no ritmo, que não cai. Um filme equilibrado, redondo, sentidinho, correto, mas que nunca chega a empolgar ou surpreender. Tem méritos, mas discretos.

domingo, abril 03, 2005

As Cinco Obstruções

As Cinco Obstruções
De Lars von Trier e Jorgen Leth
É tudo verdade, Odeon, 2 de abril, 15:30 hs
**½

É muito interessante ver um filme como As Cinco Obtruções num festival de documentário, porque a forma como o filme faz documentário é muito criativa. Sua estrutura é complexa: Lars von Trier convida um grande cineasta dinamarquês (Leth) mas meio esquecido para fazer cinco novas versões de um curta clássico do cinema dinamarquês dirigido pelo próprio Leth (O Homem Perfeito), sendo que Lars dita algumas regras que Leth tem que seguir rigorosamente. Versão 1) rodado em Cuba, com planos com no máximo 12 frames; versão 2) rodado num lugar miserável, com o próprio Leth de ator; versão 3) adaptação livre; versão 4) um cartoon; versão 5) imagens de Lars, com texto escrito por Lars e lido por Leth. O filme então se torna uma espécie de um making of dessas cinco versões, mostrando as dificuldades de Leth em acolher os caprichos sádicos de Lars von Trier. A montagem é muito criativa, porque não contextualiza didaticamente o espectador nas premissas dessa espécie de jogo: o espectador entende suas regras à medida que o jogo é jogado, intensificando sua percepção. O próprio filme original (O Homem Perfeito) nunca é exibido por completo, apenas trechos esparsos ao longo do filme, à medida que suas partes são relacionadas com desafios específicos de uma das versões. Dessa forma, é um filme sobre o próprio processo de criação, sobre a impossibilidade da repetição no cinema e sobre como, mesmo com todas as restrições técnicas e temporais, ainda é possível manter um olhar, uma coerência, se realmente mergulha-se na essência do projeto, na essência do cinema. O relacionamento entre os dois cineastas é muito conflitante, um misto de admiração mútua e respeito, e de um desafio competitivo sádico e compulsivo. Nesse ponto, Lars está à vontade para expor suas obsessões, seu tom sádico, a câmera nervosa e reveladora das pequenas fraquezas de seus personagens, isto é, o tom típico de seu cinema. Ao mesmo tempo, o filme é muito carinhoso e respeitoso com o processo de criação, com a possibilidade de um sentimento de cinema surgir nas circunstâncias mais inóspitas. O filme também examina os limites, os caprichos e os desejos do artista, ou ainda até que ponto é preciso olhar a si mesmo de uma outra forma para prosseguir criando, para prosseguir como artista. Complexo, sádico e generoso, sempre criativo e instigante, As Cinco Obstruções ao final de um belo e sensível epílogo, coloca várias questões sobre o processo de criação, sobre a natureza do documentário, sobre os limites da condição humana, o que mais que compensa alguns cacoetes típicos de Lars, alguns deles desnecessários para o filme.

Vocação do Poder

Vocação do Poder
De Eduardo Escorel e José Joffily
É tudo verdade, CCBB, 1º de abril, 19hs


É curioso como o grande Carlos Alberto Mattos abriu a sessão filiando Vocação do Poder a uma tradição recente do documentário brasileiro de fazer “filmes políticos”. E na nossa cabeça, vem o Entreatos. E Vocação de Poder segue a mesma estrutura de Entreatos, de desmistificar o político, de uma humanização do político, aproximando-o de um cidadão comum, e também de revelar os bastidores e a trajetória da campanha política. Mas ao contrário de Entreatos, que cerca um dos candidatos (no caso a presidente), Vocação vai no cargo político mais simples, o de vereador, e acompanha seis candidatos: uma evangélica (a Pastora Márcia Ferreira), um idealista (Felipe Santa Cruz), um “candidato do povão” (MC Geléia), um boa praça (Antônio Pedro), um filho de deputado (André Luiz Filho) e um jovem riquinho (Carlo Caiado). Há momentos engraçados, há momentos marcantes, há um olhar sobre o cinema e sobre o documentário. É interessante não ter uma proposta totalizadora, de dar as respostas, ou de não julgar os candidatos e a política no Brasil. Mas ao mesmo tempo fica uma certa distância do filme. No fundo, assim como em Entreatos, Vocação de Poder é um filme que busca o tom excêntrico e as curiosidades em torno do dia-a-dia de campanha, mais do que de fato propor um olhar sobre os dilemas da política brasileira. Com isso, o filme perde a força e parece um conjunto de momentos curiosos da campanha desses seis candidatos, e não um filme ou uma reflexão sobre o processo político. Esse projetos, portanto, de “um filme político” acaba perdendo a tez no fim do caminho. O olhar generoso e a aproximação da câmera com o entrevistado, com o dia-a-dia do entrevistado é na verdade herança profunda do estilo Coutinho. Ou ainda, do estilo João Moreira Salles. Funcionou com Nelson Freire, sobre o processo artístico. Sobre um político, tenho minhas dúvidas. Botando na balança, Vocação do Poder se equilibra, menos do que Entreatos, pelas cenas em si, mas deixa a desejar quanto à proposta de um olhar mais contundente sobre as contradições da sociedade brasileira.

sexta-feira, abril 01, 2005

Eu não havia percebido uma coisa bastante simples em O MÁGICO DE OZ, e a percepção desse fato perturbou-me um pouco. Acho que esse singelo filme me emocionou tanto porque no fundo é um filme sobre a amizade, sobre o valor da amizade, e sobre como é importante percebermos que não se está sozinho no mundo. No início do filme, os “adultos”, preocupados com suas tarefas diárias, não podem dar atenção a Dorothy. Ela está sozinha. Ela só tem a companhia de seu mudo cachorrinho, e quando ameaçam tirá-lo de perto de Dorothy, ela tem uma crise profunda de consciência. A amizade fiel de Dorothy a seu cachorrinho é maravilhosa, porque o cachorrinho não fala, não age, ele representa por si só a existência de uma companhia. Quando ela canta “Over the rainbow”, momento inesquecível do filme, ela na verdade cria em cima desse descompasso, ela expressa seu desejo por um mundo menos solitário. Ao final, ela se reinsere no mundo, na “sociedade”. Essa travessia humana de companheirismo é também claro sobre a tolerância, sobre a consciência de que todos estão em busca de algo muito íntimo que nos escapa.

auto-revisão crítica

Dei um leve sorriso quando ontem revi DEPOIS DA NOITE. Sim, um sorriso pela ingenuidade do tema, pela falta de rigor da câmera e do mise-en-scene, pelo total desconhecimento do mais básico da gramática cinematográfica, pela incapacidade de dirigir um ator. Mas ao mesmo tempo, é impressionante o efeito que esse filme provocou em mim, e especialmente porque todo o meu cinema já estava lá (e assim torna-se um belo primeiro filme, porque confirma muitas das coisas que eu espero que um “primeiro filme” seja). O menininho preso a seu quarto, o final cíclico, a falta de palavras, os dias que se seguem, a solidão e a incomunicabilidade, o austero estudo psicológico dessa intimidade, o desejo pela linguagem, são todos constantes dos trabalhos que vim fazendo, em maior ou menor grau. Também notei como é impressionante a semelhança desse filme com O POSTO, ou mesmo com CINEDIÁRIO. O guarda de O POSTO é o menininho de DEPOIS DA NOITE, ambos presos em seu casulo, ambos vítimas de um campo de forças invisíveis contra o qual se chocam involuntariamente, ambos em processo de uma tomada de consciência, ambos vítimas de uma rotina que se repete interminavelmente. E o menino de DEPOIS DA NOITE é o artista de CINEDIÁRIO, vivendo sempre em casa e olhando, indefeso, o mundo lá fora como uma alternativa de saída, como inspiração possível para uma vida que não se tem, como um desvelamento de uma intimidade. DEPOIS DA NOITE mostra algumas (poucas) virtudes que vim desenvolvendo com mais consistência nos meus trabalhos posteriores, e isso é um bom sinal, é o sinal de um caminho. O principal vício é a da falta de acabamento, é a do cinema como artesanato, e isso eu ainda tenho que caminhar, e muito. Mas já há um esboço consistente de um projeto de cinema, desde lá.

Filmes de Abril

Recentes:

O Aviador, de Martin Scorsese **
Sideways, de Alexander Payne **
O Casamento de Romeu e Julieta, de Bruno Barreto *
Cabra-Cega, de Toni Venturi *
Mar Adentro, de Alessandro Amenábar 0

DVD:

O Último Pôr-do-Sol, de Robert Aldrich ***½
Bom Dia, de Yasujiro Ozu ***½
Duplo Suicídio em Amijima, de Masahiro Shinoda ***½
Cega Obsessão, de Yasuzo Masumura ***
Um Dia no Campo, de Jean Renoir ***
O Mágico de Oz, de Victor Fleming ***
Sunset Boulevard, de Billy Wilder ***
Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída, de Uli Edel **½