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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quarta-feira, junho 29, 2005

Um Ano

Ah há cinco dias atrás este blog fez um ano. Quem diria! Como passou rápido!
Foi melhor do que eu esperava!

A vocês que acompanham (ainda) (já):
Meus pêsames!

Por um cinema didático – parte II

É impressionante como os dias passam e um filme simples como UM FILME FALADO não consegue nos sair da cabeça. É impressionante como é comovente o legado de Manoel de Oliveira, aos noventa e tantos anos, nos dizendo que é possível fazer uma obra absolutamente desconcertante e contemporânea com os recursos mais simples do cinema – o campo-contracampo, a câmera parada, a película 35mm.

Um Filme Falado é um filme sobre a História, sobre a civilização e sobre a civilidade. É também, evidentemente, um filme didático, já que uma professora de História e mãe conta para a filha-aluna o que é o mundo, o que são as coisas. É um filme sobre o conhecimento, ou ainda, sobre o desconhecimento do conhecimento, ou ainda, sobre como o conhecimento nos faz revelar milhares de desconhecimentos.

Daí que se torna um filme sobre a linguagem, sobre a oralidade, mas ainda mais, sobre a possibilidade de comunicação. Comunicação vista como contato entre diferentes culturas, ou ainda, como um contato com o outro.

Daí que se revela um filme sobre a tolerância, sobre a inevitabilidade da História, da civilização e da civilidade, da linguagem, da tolerância, do didatismo.

Um cinema didático. Um cinema que se mostra como menor para se revelar como grande. Um cinema que não precisa de cacoetes de estilo para sobreviver. Um estilo que nega o estilo, mas que também é ao mesmo tempo uma reação contra a invisibilidade do escudo defensivo do cinema clássico. A humildade de Manoel de Oliveira: só é possível dizer pouco, mas o quanto menos dizemos mais há para ser dito, ou ainda, o quanto há para ser dito ainda que digamos muito pouco!

Mas há que se fazer um epílogo não tão deslumbrado, é preciso ponderar. O desconcertante final de Um Filme Falado mostra o fim dos tempos, mostra a impossibilidade de Portugal existir como nação. Encurralado, ameaçado de extinção, o cinema de Manoel de Oliveira se rende à falta de pressa de abandonar a lendária embarcação (é extraordinária a seqüência em que se mostra a menina e a mãe caminhando cômodo por cômodo da embarcação para buscar a boneca), se rende à necessidade de voltar para resgatar uma boneca muçulmana, se rende à negação do “salve-se-quem-puder”. Rende-se ainda aos rumos dos “novos tempos”, com grande sabedoria.

Um Filme Falado é um filme sobre a vida, sobre a História, sobre a civilização, sobre a linguagem, sobre o cinema. Num plano de um cachorro amarrado a um navio, num plano de uma grande placa de metal, Manoel de Oliveira consegue fazer uma humilde e profunda declaração de amor ao seu ofício, um voto de fé em relação à sua linguagem em particular. Nesses breves momentos é que acreditamos que o cinema pode ser uma obra de arte, e que um diretor de cinema pode ser chamado de um artista.

quarta-feira, junho 22, 2005

É verdade. Clean tem uma coisa bem em comum com a Claire Denis: é de buscar o essencial do seu cinema. Então é como se o filme fosse contado a partir de explosões de energia, de pequenos momentos, repletos de elipses, pois a junção do sentimento desses momentos é que produz um sentimento de vida. Enquanto Maggie Cheung está num carro fumando, seu marido morre vítima de overdose. O filme se concentra no tempo morto, no não-estar lá, na ausência. É mas de outro lado tem as cenas da vovozinha chata que fala pro netinho não gostar da mãe – isso é chato pra burro. Mas no final o conceito de Clean é muito positivo.

Quanto Vale ou É Por Quilo?

Quanto Vale ou É Por Quilo?
De Sérgio Bianchi
Estação Paço, ter 21 junho 19hs
**½

Outra ausência importante que supri: vi Quanto Vale ou É por Quilo na salinha do Paço. Ver um filme do Sérgio Bianchi é sempre um programa obrigatório. Vê-lo nos faz relembrar que fazemos (aqui me coloco pedantemente nesse grupo) parte de um troço chamado CINEMA BRASILEIRO, e que com todos os problemas e percalços e picaretagens, ainda se trata de CINEMA BRASILEIRO. Paradoxalmente, o desencantado filme do Bianchi nos dá um novo fôlego, uma energia nova, um turbilhão de idéias, uma indignação ante tudo isso que estamos vivendo. E pensamos como é importante que Bianchi permaneça filmando, como o filme é essencial, ele respira um desejo muito grande pela expressão.

Vi esse Quanto Vale ou É por Quilo como uma espécie de desejo de resposta, como uma espécie de auto-defesa. Algumas pessoas (não poucas) disseram que Cronicamente Inviável é um filme muito “esculachado”, muito desleixado em relação ao cinema como ofício, em relação à mise-en-scene, em relação à sua artesania. Então com uma estrutura um pouco melhor Bianchi tbem quis mostrar que sabe filmar: uma luz mais equilibrada, um conjunto de gruas e carrinhos, uma arte bem convincente na parte histórica. Mas aí é que paradoxalmente eu pelo menos achei que o filme perde um pouco o seu encanto. Pois o cinema de Bianchi é assim mesmo: duro, cru, feio, mal acabado. Essa preocupação com o acabamento algumas vezes tira essa energia primitiva, esse tom exageradamente esculachado, que caracteriza com muita coerência o cinema do diretor.

Qdo Bianchi se solta o filme fica bem melhor. E continua sendo uma porrada. Se o cinema brasileiro é “cultura” e “indústria” ao mesmo tempo, então o filme do Bianchi é uma porrada muito grande no falso mercantilismo que ampara a produção nacional. Porque no fundo é um capitalismo de fachada, uma picaretagem de capitalismo, então Qto Vale ou É Por Quilo vira um filme metalingüístico. As ONGs podem ser as cooperativas. Neguinho finge ter filme social só pra ganhar edital da Petrobras, mas no fundo é tudo fachada.

Nesse ponto faltou essa coragem. Obrigatoriamente o próximo filme do Bianchi tem que ser sobre cinema. Tem que ter esse discurso raivoso, ambíguo, complexo, anarquista, mas sobre o cinema. Aí eu quero ver como vai ser.

Fiquei na dúvida se esse filme é um filme anarquista. Na cena do Lázaro Ramos, o filme quase chega a fazer apologia ao seqüestro. Não gostei muito dos 20 minutos finais, embora a idéia do “feitor contemporâneo” seja muito interessante. A parte que acho que Bianchi fica mais à vontade é no comercial com crianças negras. Esse é o cinema do Bianchi!

* * *
Os filmes do Bianchi são num certo sentido muito distantes do que busco no cinema. Claro que um trabalho como Casa de Areia me estimula mais, é mais próximo do que sinto. Mas não dá pra deixar de admirar Bianchi como diretor. Para Bianchi é como se o cinema sucumbisse diante do seu desejo de falar sobre o Brasil, diante de sua indignação com a realidade que vivemos. Isso é muito essencial, muito necessário. Bianchi tem um estilo, um olhar completamente característicos. É totalmente criativo, inquieto como espírito criativo. Por isso, seus filmes são muito bem vindos, e a gente tem que tirar o chapéu. Ainda que, evidentemente, meu espírito oriental não esteja em sintonia com o tom anárquico e exagerado do diretor.

Imperfeito, inacabado, excêntrico, irregular, com um humor particular, o cinema de Sérgio Bianchi é brasileiro. Cinema Brasileiro é isso.

terça-feira, junho 21, 2005

Calo

Fico tbem muito tentado a falar sobre os curtas que vi no Festival Universitário, com muita atenção e com muito gosto. Mas, como meu texto de lamentação “sobre este blog” já sabiamente prenunciava, infelizmente não podemos falar tudo, ou melhor, podemos falar sobre quase nada, ou ainda, “quem fala o que quer ouve o que não quer”, e como não quero ouvir gracinhas sobre O POSTO, desde já coloco-me devidamente no meu apropriado lugar: o da ausência e do silêncio. O fato de ter participado (como coadjuvante, para não dizer como figurante) me tira qualquer possibilidade de um texto ter algum crédito, sem que as pessoas me acusem de rancor ou de avareza. Teria algo a dizer, mas infelizmente infelizmente me calo. Calo.

A Janela da Frente

Para não perder a viagem devo citar que vi um dia o A JANELA DA FRENTE. Na verdade estava fisicamente no cinema mas com a cabeça em outro lugar. Vi o filme por motivos que escapam ao do cinema, e de qualquer modo fico muito feliz de conseguir fazer uma escolha desse tipo (há anos isso seria impossível...). Eu estava tão desligado que só vi o nome do diretor no final, e dei grandes risadas ao saber que se tratava de F. Ozpetek, um cara que eu não tenho lá grande respeito. Pelo que consegui ver, o filme nada tem a dizer, e é surpreendente que consiga ter sido exibido em cinema no Brasil. Bom, meno male, é cinema italiano na tela. Tem uma coisa da mulher se interessar pelo vizinho, e uma coisa com um cara mais velho que me lembou muito mal comparando algo dos filmes do Kieslowski, mas de qqer forma o mistério e o tom metafísico estão fora do projeto de Ozpetek. A pobre dona-de-casa italiana descobre o frescor da vida com a solidariedade, então o filme provoca aquela “sublimação reconfortante”, ou seja, é para ser visto por donas-de-casa frustradas. Um belo plano final no olhar da bela protagonista fica na mente, mas não muito mais do que isso. Um equívoco.

A Casa de Areia

A Casa de Areia
De Andrucha Waddington
São Luiz 3, 26 de maio de 2005 15:20
**

Precisava ainda escrever sobre Casa de Areia, que vi há algum tempo atrás no São Luiz. Primeiro uma coisa engraçada. O filme passou às 15:20, sendo que Star Wars III ficou esgotado na sessão de 15hs, então algumas pessoas para não perderem a viagem acabaram indo ver o Casa de Areia. Daí que quando o filme começou deu pra perceber que essas pessoas ficaram muito indignadas, muito ofendidas com o ritmo de Casa de Areia. As pessoas simplesmente não conseguiam acreditar, achavam que era um pesadelo ou uma espécie de piada de mau gosto com o dinheiro delas, e gritavam coisas como “não é possível”, “o que é isso”, nos primeiros quinze minutos quando lentamente somos introduzidos àquele mundo completamente isolado. Depois os gritos pararam, o que pude supor que as pessoas simplesmente desistiram do filme e foram-se embora. Outra: a cópia estava péssima, toda riscada no primeiro rolo. A gente paga caro pra ver o filme no São Luiz e ainda tem que ver uma cópia que parece que veio da Cinemateca do MAM...

Mas enfim vamos ao filme. Estava com uma certa expectativa porque o Andrucha não é um diretor vulgar, isto é, ele tem uma proposta de fazer cinema. Muito havia escutado que dessa vez ele ousou tanto que perdeu a mão, em suas extravagâncias e delírios, então fiquei esperando um filme descosturado como um As Três Marias. Mas não foi isso que vi. Na verdade acabou sendo o contrário. Acho que o problema de Casa de Areia é exatamente o oposto: não é excesso de ousadia, e sim falta dela. Isto é, o filme tem vários gomos, mas a proposta do filme é exatamente “fechar” todos esses gomos ao final, fazer com que tudo fique redondo, explicado, “fechadinho”, enquanto a proposta do filme creio que seria exatamente ser um filme em aberto, abrir suas possibilidades. Mas o cinema de Andrucha é assim mesmo, e daí vem a influência de sua roteirista, a Elena Soares. Para mim, o filme é muito próximo a Eu, Tu, Eles nesse sentido, de ser um trabalho de grande sensibilidade mas ainda ter uma carência de ser um filme realmente em aberto como ele a princípio se propõe. Ainda, a história do triângulo amoroso, que desponta lá pro terço final do filme é puro Eu, Tu, Eles, a idéia de espaço limítrofe, das situações-limite, da fotografia publicitária, etc.

O grande problema do filme sem dúvida é a fotografia. Ora, desde o início sabemos que o espaço físico é completamente opressor: a areia é dura e quente e seca, os personagens estão presos a esse local amplo. Mas o filme é fotografado com uma opulência que traduz uma idéia de liberdade e não de aprisionamento. Pobre Andrucha: ele mesmo foi tragado pelo feitiço de suas imagens sedutoras! Ou seja, as imagens são belíssimas mas pouco acrescentam em termos da dramaturgia do filme. Ao contrário, afastam o espectador de seu filme. O cinemascope, o brilho, a sedução das dunas, nada poderia contrastar mais com o sentimento duro e opressor daquele espaço físico em relação aos personagens!

Casa de Areia me lembrou o antológico Mulher de Areia, o filme japonês do Teshigahara de produção simples (quase todo filmado num estúdio) mas uma verdadeira obra-prima. O sábio Teshigahara filmou o deserto com um quê misterioso, mas seu enquadramento é extremamente claustrofóbico. O filme é todo centrípeta (tudo nos traz para o interior da imagem), enquanto o Casa de Areia é absolutamente centrífugo (o deslumbramento da imagem e do cinemascope nos traz para as bordas da imagem, para um universo em expansão). Ora, o filme japonês fala do aprisionamento desses personagens, de suas limitações, então o próprio quadro os aprisiona. Ou seja, a imagem contribui para a dramaturgia. As belas imagens de Andrucha seduzem o espectador mas o arremessam para fora do conflito, para fora do filme.

Mas Casa de Areia tem méritos. O maior deles é o corte seco com grandes elipses temporais, que fazem com que o espectador só se posicione no filme a posteriori. As atrizes se confundem com os personagens porque os anos passam e os personagens envelhecem, a filha se torna a mãe, e etc. Isso é simples mas tem grande força no filme. O filme tbem fala com as imagens. Ou seja, sua matéria-prima é o cinema, e isso é muito positivo. Então tem partes que nos conquistam, que tem uma grande força. Ao final, fica a sensação de que Andrucha desperdiçou uma oportunidade de fazer um verdadeiro grande filme, mas ainda assim fica a certeza de que ele continua fiel aos seus princípios, e fez um trabalho coerente, de grande envolvimento, de grande risco, de verdadeira entrega pessoal e – mais que tudo – vontade de fazer cinema. Então, o saldo é bem satisfatório, principalmente tendo em vista o cenário triste que vivemos hoje em termos de cinema brasileiro.

segunda-feira, junho 20, 2005

André Scucato e o cinema de poesia

Assisti mais uma vez, agora com um pouco mais de calma, o DVD dos curtas do André Scucato. É curioso, mas só agora percebi como a sua visão de cinema é completamente diferente da minha, mas ainda assim é muito próxima, e isso é muito interessante. Scucato tem um olhar profundamente deslumbrado pelas possibilidades técnicas do cinema, especialmente as da edição não-linear que o vídeo possibilita. São os efeitos de cor, de textura, de corte, de sobreposição, são as possibilidades da própria câmera, o diafragma, o zoom, o foco, a portabilidade. É um trabalho muito deslumbrado com a possibilidade de fazer cinema, um trabalho com grande frescor, com grande energia. Mas ao mesmo tempo fica claro que Scucato não é simplesmente um técnico, seu trabalho é um trabalho de construção particular e rigoroso, com as ferramentas do cinema, com a possibilidade de um cinema de linguagem, artisticamente estimulante. Então Scucato vai fazer um trabalho radical, que vai recusar tudo o que não seja essencial à sua busca, tudo o que possa fugir de um projeto de cinema que seja essencialmente experimental. Por outro lado, é um cinema prosaico, quase naive, no sentido de tentar buscar um sentido de poesia nas coisas mais prosaicas da vida e que acabam nos passando despercebidos (um jardim, um elevador, um banheiro, um trem), tudo é meio para o poeta recriar artisticamente um sentido da vida. Por trás da vida corrida da grande cidade de grande mecanização, Scucato busca a sublimação de um desejo por um mundo transfigurado mas que ao mesmo nos permita achar o sublime nas coisas mais simples. É nesse sentido, um cinema puramente romântico, mas um romantismo de base materialista, porque os elementos de linguagem e a manipulação do material fílmico continuam sendo a base do seu cinema de investigação, um cinema de busca. São trabalhos que surpreendem porque são inacabados, daí o seu frescor. Talvez seu trabalho mais bem acabado seja o Três Tons, porque a estrutura ternária já permite isso. A série Crisântemos, que no DVD não tem completa, me fascinou bastante, e me lembrou dos hand painted films do Brakhage. Ou seja, há sem dúvida ainda bastante a caminhar, mas é um trabalho extremamente promissor, porque já aponta tudo o que os primeiros filmes precisam ter: um olhar pelo cinema e pela vida, uma declaração de princípios do que o cinema pode ser, do que se busca no cinema, do que lhe interessa investigar em particular. Por fim, é curioso como seus vídeos são mal compreendidos, mesmo sendo trabalhos muito objetivos e muito simples num certo sentido. É incrível a resistência das pessoas a um tipo de cinema que realmente tenha sua coerência particular, seja uma investigação cuidadosa. Se não for narrativo, tem que ser clipe, tem que ser fashion, tem que se engraçadinho, senão é muito chato, não serve. Ou seja, Scucato é um dos nossos, então junte-se aos bons!

Série Carandiru na Globo

Meninos,
Eu vi CARANDIRU – OUTRAS HISTÓRIAS na televisão. Deixei de sair à noite em duas sextas pra ver essa joça. E digo: se isso é a produção independente na televisão, então que fiquem os Zorras Totais e os A Grande Família da vida, porque no fundo não dá muita diferença. Profundamente moralistas, os dois primeiros episódios são lições de moral das mais básicas, tipo “o crime não compensa”. Não há nenhuma possibilidade de olhar para a marginalidade, tudo já está preestabelecido pelo filme. Outra: os dois primeiros episódios não se passam na prisão: são relatos de algo que aconteceu antes da prisão. Logo, o Carandiru é mero pretexto.

Faça-se justiça: há um esforço por parte do Walter Carvalho para dar algum vigor ao filme em termos de direção. Sim, é verdade que não raras vezes tem aqueles cacoetes de estilo, de câmera e grão que não contribuem muito para a dramaturgia. Mas há uma certa liberdade na forma de filmar essa história que faz esse projeto ser bastante diferente da ficção que vemos na televisão. No segundo episódio, isso ficava claro nas cenas da praia, filmadas com uma ternura, com uma paixão que nos convencia. Mas o roteiro é muito fraco. A história do Lázaro Ramos saindo do apartamento e atropelado pelo carro de polícia é bizonha de ruim.

Floribella dá de cem a zero. Ainda vou escrever sobre a novela da Band, mas eu preciso ver mais alguns capítulos.

Melinda e Melinda

Melinda e Melinda
De Woody Allen
São Luiz 4, seg 20 junho 15hs


Bom, hoje no meu último dia de férias fiz a coisa que me dá mais prazer no mundo: ver um filme no cinema durante a semana à tarde. Aquele cinema vazio, ninguém para encher o saco... ai, são nesses breves momentos que a gente acha que a vida vale a pena ser vivida. Depois ainda passei no árabe do Largo do Machado para comer uma tradicional esfirra com suco de melancia...

Fui ver então Melinda e Melinda. Sempre vou ver os filmes do Woody Allen, e gosto desses seus últimos filmes, tipo O Escorpião de Jade e Dirigindo no Escuro, porque são obras de um diretor na maturidade. Allen faz um cinema discreto, mas sem dúvida ele tem um olhar para o seu ofício e um olhar sobre a vida, então seus filmes sempre nos trazem algo de novo, algo que nos ilumina. Seus últimos trabalhos são um tanto sombrios, eles refletem de uma certa forma uma espécie de encruzilhada a que Allen chegou sobre uma suposta invisibilidade de suas obras. Allen faz o cinema que quer fazer, sem se preocupar em fazer grandes filmes ou coisa do tipo. Eu gosto disso.

Mas enfim, Melinda e Melinda não é nada disso. É um filme simples, um dos mais simples do diretor, baseado numa idéia simples: a vida é tanto tragédia quanto comédia, depende do ponto de vista. Há elementos trágicos na comédia e elementos cômicos na tragédia, passa a ser simplesmente como nos posicionamos em relação a determinada coisa. O filme então conta praticamente a mesma história duas vezes, uma com um perfil trágico, outra com perfil cômico, mas há nuanças que nos fazem perceber os pontos cômicos da parte trágica, e os pontos trágicos na parte cômica.

Só que como Allen quer dizer que as duas histórias na verdade são a mesma, ele então resolve adotar o mesmo estilo para contar as duas histórias, então o filme perde a sua graça e o seu frescor, principalmente na encenação, bastante básica. Sim, os filmes de Allen quase todos são assim, mas neste, nada passa a interessar a Allen a não ser o texto e os atores. De modo que desta vez esse academicismo me incomodou, e o filme fica preso, não consegue decolar, até porque a parte trágica parece um telefilme, é fraca, sem ser muito convincente.

Claro que Allen faz uma breve reflexão sobre uma idéia de artifício, e como a vida é fagueira. O filme é na verdade uma versão dupla de uma história que está sendo contada num restaurante, então tem um lado metalinguístico. Mas o problema é que depois de vinte minutos já entendemos o mote, e todo o filme passa a desenvolver burocraticamente essa idéia, sem nos fazer particularmente torcer ou nos envolver por qualquer um dos lados. O filme tem um ou outro interesse, como a ótima atuação da atriz que faz o papel duplo de Melinda (esqueci o nome), e como o filme trata de forma interessante a questão racial. Mas a parte trágica não convence, e na parte cômica os atores são muito careteiros. Outra coisa: há muito tempo eu não via um filme do Woody Allen tão mal fotografado. Ou seja, no final fica a sensação de ser um filme menor do diretor, menos inspirado tanto no estilo quanto no texto.

domingo, junho 19, 2005

Carta

Tenho trocado várias cartas com o Rosemberg, grande cineasta que tem dado um apoio fundamental a meus pobres trabalhos. Segue a última que enviei ontem, que achei por bem colocar aqui no blog. Quis colocar pq primeiro reflete bem meu estado de espírito atualmente; segundo, porque tem uma reflexão bastante interessante sobre meus filmes e sobre cinema, motivo desse blog.

* * *

Oi Rosemberg,

Sua carta me chega num momento de grande reflexão.
A correria nas últimas semanas foi muito, muito grande. O desgaste – físico, emocional – está sendo muito grande. Além do meu trabalho, que me tira muitas das minhas energias (você deve imaginar), vim dando aulas às segundas, terças, quintas e sábados. Esse Festival Universitário foi muito cansativo. Passaram muitas coisas minhas, o que é muito legal, então por isso quis ver o máximo de filmes, participar dos eventos, essas coisas. Teve finalmente a primeira exibição pública de O POSTO, um projeto que é muito sofrido para mim, um projeto que eu sempre tive uma relação de compromisso que transcende todos os meus vídeos, com quem tenho uma relação muito mais lúdica. Teve a primeira exibição do EM CASA, que me consumiu todas as energias. Isso porque foi um sufoco danado pra cópia ficar pronta, porque o Yuri, que me ajudou muito fazendo a parte do som, teve umas dificuldades técnicas, então praticamente fiquei três noites sem dormir para poder finalizar esse trabalho a tempo de ser exibido. Tive que tirar meio na marra dez dias de férias, senão eu não ia agüentar, mas já estou de volta ao batente, porque a vida tem que continuar, não é mesmo?

Você me pergunta sobre a exibição de O POSTO. Difícil, muito difícil falar. Em geral, fiquei muito contente: as pessoas gostaram, vieram comentar comigo, senti que é um trabalho que tem um equilíbrio entre comunicação e expressão, que sempre foi um norte, uma meta para mim nesse trabalho. Vendo a reação das pessoas ao POSTO, agora sinto que posso ter a ousadia de querer aspirar a me tornar um cineasta um dia. Isso me deixou muito orgulhoso e confiante!

Mas por outro lado, vêm os dias seguintes, e sua carta me pega num momento de grande melancolia, ainda fruto desse cansaço. A gente fica se perguntando, depois de tudo, “pra quê isso?”. As pessoas até gostaram de O POSTO, mas estão muito longe de saber o que está em jogo com esse trabalho, o que realmente isso representa. Eu também fiquei muito triste porque grandes amigos, que sabiam o quanto esse momento significava para mim, sequer apareceram para ver o filme, e olha que já passou três vezes. As pessoas não tiveram essa generosidade, e senti a falta de algumas pessoas importantes para mim. Mas também não dá para esperar muito das pessoas, não é? É claro que esse não é o seu caso, sua presença me deixou muito honrado. Aliás, agradeço muito todos os elogios e toda a força que você está dando para meu trabalho, você não sabe o quanto isso é importante. Ninguém nunca deu valor nenhum a esses vídeos que eu faço. Nenhum mesmo. E eu só continuei fazendo porque é uma necessidade muito grande que eu tenho, então eu continuo fazendo, porque é a forma que eu encontro para me expressar, para viver, para continuar vivendo. Geralmente esses vídeos são motivo de chacota. Foi assim com a exibição do AUTO-RETRATO na Mostra do Filme Livre e no Festival Universitário. Mas é assim mesmo, não dá pra esperar que seja diferente. A gente que quer fazer um trabalho que seja realmente diferente do que está aí, tem que estar pronto para isso, não é? Vejo o seu exemplo, uma pessoa super respeitada e consagrada, mas que não consegue mais filmar, mas mesmo assim tá na luta, fazendo seus vídeos, escrevendo. É isso, a gente não pode deixar esmorecer. Mas eu que tenho uma personalidade mais franzina, sinto mais isso. É incrível como as pessoas reagem contra o nosso direito de ser livre, parece que isso ofende muito as pessoas!! Às vezes, sinto vontade de gritar “EU TENHO O DIREITO DE TENTAR SER LIVRE, PELO MENOS DE TENTAAAR!!!”, mas depois logo percebo que seria uma bobagem. O desafio é permanecermos serenos, equilibrados...

Então que me senti muito solitário depois de tudo. Depois de toda a alegria com a recepção do filme, com o alívio desse trabalho ter chegado ao seu esperado fim, veio a reflexão. Mas o cinema – estou começando a perceber – é isso mesmo. O cineasta é muito solitário. Tem toda a equipe, aquele alvoroço pra tudo ficar pronto, etc, mas depois o cineasta fica sozinho, e só lhe resta recomeçar, partir pro próximo filme. É como se fosse uma festa: todos vêm, participam, te dão os parabéns, mas no dia seguinte, você tem que limpar a casa sozinho, sempre sozinho. Assim é o rumo das coisas, não dá pra mudar isso. Essa tarefa de limpar a casa depois da festa é dolorosa mas é necessária, é muito necessária, porque ela é adubo pro que vem depois, te dá a humildade de saber que o cinema não é só a festa, e que se tem que trabalhar duro, muito duro, sem se iludir com as coisas. Aliás, já falei muito disso no meu AUTO-RETRATO, não é verdade? Bom, mas é isso: resta partir para o próximo filme!

Até porque amanhã é um novo dia, não é?
Espero que seja.

Um abraço,
e mais uma vez obrigado,
XXX.

segunda-feira, junho 13, 2005

Clean

Clean
De Olivier Assayas
Est Botafogo 1, dom 17hs
**½

Devo escrever mais sobre esse filme. Agora às 2 da manhã, vai ser difícil organizar algum pensamento. Hmmm... um filme sobre uma mãe drogada que quer ficar com a guarda do filho a princípio não promete muita coisa, mas Clean vai muito além da churumela. Se fosse um filme italiano, já poderáimos imaginar o conjunto de lágrimas e comoção barata que o filme estaria cheio, mas a diferença é que Olivier Assayas é um diretor de cinema, e daí que Clean, apesar das limitações, é sem dúvida um trabalho invulgar. Um trabalho muito humano sobre a transformação dessa mãe. E também um trabalho muito repleto de um sentimento de cinema, o tesão pelo cinema invade cada plano do filme, e para a gente que sonha em fazer parte desse mundo é delicioso ver a forma livre como Assayas conta essa história narrativa, linear. Às vezes parece até um filme da Claire Denis, tamanho é o desejo pela linguagem: o primeiro show filmado ao calor da pele, e o filme cheio de jump cuts e elipses filmados em planos próximos, entrecortados com longos planos gerais de tempos mortos (o carro perto da ponte, o fumar de um cigarro, etc). Mas também não chega a ser tanto: a verdade é que Clean acaba se perdendo lá pelo seu miolo do filme, o personagem do menino e mesmo o do Nick Nolte acabam não muito bem desenvolvidos, etc. Clean poderia até ser um filme americano, dado o seu entrecho, mas Assayas é muito hábil em construir uma narrativa cheia de vigor, paixão e gosto pelo cinema. Assim, quem é cinéfilo curte.

Mas não é só isso. Esse desejo de transformação da mãe é filmado de uma forma muito respeitosa por Assayas, o que nos traz muitas lições. E mais: uma performance fantástica da fantástica Maggie Cheung (quem não guardar para sempre sua reação quando ela encontra com o empresário de seu marido na prisão é a mulher do padre...): uma economia de recursos, um poder de síntese, no sentido de ter que se transformar mas ao mesmo tempo continuando a ser a mesma pessoa: esse é o enorme desafio que Cheung resolve com incrível simplicidade. Às vezes o filme até parece um pouco o Bleu do Kieslowski, pelo gosto pelos tempos mortos, pelo respeito ao tempo da transformação, pelas cenas de moto ao longo de Paris, por uma atuação de grande concentração de energia. É incrível, porque esse filho só tem essa mãe (os avós estão morrendo...), e essa mãe só tem a esse filho (seus amigos a abandonaram), então apesar dessa distância abissal, a vida de um passa a ser a do outro, e quando estão juntos, toda a distância se dissipa (é claro que o filho o tempo todo apenas estava com medo de a mãe não o querer, não o amar). Da intimidade dessa distância, Assayas faz um retrato quase fenomenológico dessa transformação, desse desejo de origem, dessa necessidade de “fazer as pazes consigo mesmo”, desse desejo de amadurecer. O filme então acaba falando de uma geração que “encaretou”, que foi respeitosa em ver o tempo passar, e que agora até tem que trabalhar como vendedora de uma lojinha furreca. Mas é claro – Assayas sempre gosta disso – que também tem uma metalinguagem: Emily passa a ser cantora, artista, e deixa a lojinha para pegar sua chance fugidia. A cena da gravação no estúdio é primorosa, prova de que Assayas é encenador invulgar (não é qualquer um que dirige uma cena dessas). Toda essa fissura acaba na música, forma que Emily alcança para extravasar tudo isso, talvez (a cena em que ela chora tomando um capuccino é divina). Um belo filme, estimulante como linguagem, inteligente, mas tbme não é aquele trabalho que te “tira o chão”, é muito do que a gente já viu, e em termos do entrecho nada demais. Primeiro filme do Assayas lançado no Brasil, um trabalho mais comercial do diretor francês. Parabéns de qualquer forma a Imovision.

segunda-feira, junho 06, 2005

E depois?

Depois do primeiro festival, de toda a correria para ver os filmes, curtir a repercussão de O POSTO, e finalizar a tempo o EM CASA, vem a ressaca do dia seguinte. Um cansaço muito grande, uma certa melancolia, uma sensação do “valeu a pena?”, ou ainda do “o que fazer agora?”.

O melhor comentário sobre meus filmes veio do Guilherme Tristão. Foi sobre o Auto-Retrato, que ele considerou um filme muito triste, apesar de ser uma comédia. “Depois de arrumar toda a casa, lá naquela cena do banheiro, a gente fica pensando: ‘e agora?’, ‘o que fazer depois disso tudo?’”. Sem dúvida, respondi eu. Para não enlouquecer, agora a gente faz o próximo filme, não é?

* * *

E o que ficou desse Festival Universitário em relação aos filmes? Pouca coisa. Tiveram até bons filmes, mas trabalhos que não vão muito na direção do que eu acho que deva ser um curta, ou ainda do que eu espero do cinema, e meu pensamento acaba involuntariamente se contaminando com essa expectativa. Na verdade, ficou um vídeo: o belíssimo “O Chapéu do Meu Avô”, e trechos de trabalhos como “Trânsito por Dora” ou “Homens Pequenos”.

E O POSTO? Cheguei à conclusão de que O POSTO não é um trabalho que favoreça sua apreciação em festivais. Porque é um trabalho de risco, um trabalho de pôr-se à prova, um trabalho de elaboração não muito elementar. Trabalhos mais simples acabam tendo sua recepção facilitada: são mais fechadinhos, e mais “perfeitos”. O POSTO é um filme imperfeito, repleto de algumas imperfeições (especialmente técnicas) mas é exatamente isto o que busquei nesse projeto: que não fosse um projeto covarde, ou defensivo, que eu não usasse apenas os instrumentos que domino, mas que fosse um trabalho de “colocar-se à prova como cineasta”, um trabalho de execução das ferramentas do cinema, um trabalho (nesse sentido) um pouco mais ambicioso. Mas que por isso evidentemente, dadas as condições de produção, acaba escapando um pouco às vezes. Mas o curta é isso, é um trabalho de descoberta e aprendizado. Por isso sou muito avesso a experiências como um “Noturno” ou “Quando Tudo Formiga” (dois bons filmes mas que me irritam), porque se parte do que já se sabe para se chegar nisso mesmo, como se fosse um cão correndo atrás do próprio rabo. O POSTO é um trabalho para o médio prazo: um trabalho que coloca questões, que sem dúvida apresenta um olhar em relação ao cinema e em relação à sua própria construção. Mas não é um trabalho redondinho, certinho, executadinho, todos os “inhos” tão próprios aos Festivais. Ainda assim, a recepção das pessoas foi muito boa, o que me alegrou, e abriu uma série de perspectivas para mim deste trabalho, e – é claro – das minhas possibilidades em me considerar um diretor de cinema. Mas daí a ganhar um prêmio num festival.... hmmmm.... acho que está cada vez mais difícil. Acho que o filme será muito mais “não selecionado” do que “selecionado”. Mas às vezes o importante é a qualidade, porque é um produto esmerado: passar pouco mas passar bem. E convenhamos: não se deve perder muita energia pensando nos festivais.

* * *

A sessão do EM CASA passou despercebida como o filme. Mas a sessão numa sala de cinema me deu mais convicção da força desse trabalho. É um trabalho de enorme rigor, de grande força conceitual, um cinema de arquitetura, um trabalho de construção arquitetônica. No cinema, pude ver a influência de Straub. Senti tbem que, em diversas medidas, o EM CASA é uma espécie de síntese das coisas que venho trabalhando, pouco a pouco, com grande afinco, no cinema: a construção de um olhar, um cinema de decupagem rigoroso, uma dificuldade de expressar os sentimentos, uma relação de intimidade e distanciamento da câmera com os objetos, um sentido de melancolia e solidão, um cinema de imersão, de conotações metafísicas mesmo sendo de base materialista. Senti no cinema que assistir ao EM CASA é embarcar numa espécie de transe: depois dos primeiros 25 minutos, quem embarca na “regra do jogo”, mergulha num outro universo de suspensão do tempo e do espaço. Sinto ser um trabalho muito corajoso, e um trabalho de fortíssimo conteúdo religioso, espiritual. Fiquei muito contente com o trabalho de som, muito importante para o filme. Fazer esse filme abriu para mim muitas perspectivas conceituais: representa uma síntese radical, elevada a algumas potências, dos meus trabalhos mais pessoais.

quarta-feira, junho 01, 2005

UM FILME FALADO

Um Filme Falado
De Manoel de Oliveira
Unibanco Arteplex 2, dom 29 abril 13:20
***½

A emoção ao ver Um Filme Falado foi tão grande que todo o filme passou a ser em relação a esse estado de espírito. O domingo chuvoso, a espera ansiosa desde a quinta-feira quando soube da notícia da estréia do filme, a sala lotada às 13:20 para conferir o último filme deste jovem diretor de noventa e tantos anos. E o filme é maravilhoso. Manoel de Oliveira filma com tanta sabedoria que ficamos diante de uma espécie de iluminação, em estado puro de graça, de êxtase. Logo nos seus primeiros planos, uma declaração de princípios: os figurantes acenando com lenços brancos em terra, corta para o contracampo de Leonor Silveira e sua filhinha embarcando solitárias em um grande cruzeiro. Os primeiros dez minutos: campo-contracampo, voz off, a câmera imóvel. Ou seja, o cinema elementar, em sua forma mais básica assume um estado não de primarismo mas de pureza, de purificação. Manoel de Oliveira, o sábio.

Um filme sobre a tolerância. A viagem, o passeio, a várias civilizações em tom quase didático, como é o próprio cinema de Oliveira. A filha tem muitas perguntas, há tanta coisa a se responder.... os tesouros da humanidade estão cheios de turistas, a história virou produto de consumo de massa (faltaram os japoneses e suas câmeras...). Os guias se multiplicam, a quantidade de informação se dissipa, os sons estridentes da cidade ao fundo oprimem a imponência do lugar. Tudo filmado com uma sabedoria... um cinema do registro, sem julgar as imagens e os personagens...

As sereias são seres míticos que acompanham as embarcações, navegam ao seu lado, abençoando os navegantes. “elas existem?”, pergunta a menina. ‘Talvez”, responde a mãe. E de forma recorrente surge o muito emocionante plano do casco da embarcação, um “plano ponto de vista” das sereias imaginárias.

E vamos para o interior do navio. Vinte minutos quase de diálogos banais: amor, traição, etc. Mas são quatro atores extraordinários: John Malkovich, Irene Papas, Catherine Deneuve, Stefania Sandrelli. Quatro atores, cada um com sua língua. Eles se comunicam falando em sua língua original. A sonoridade da linguagem, da língua, é respeitada em sua forma mais pura, como forma de expressão e de existir...

E aí Irene Papas começa a cantar uma música em grego, falando de suas origens, sobre a poesia de uma pequena árvore. É quando o filme permite um de seus raríssimos movimentos de câmera, acompanhando a perambulação despercebida da atriz/cantora pelo salão de jantar. No meio desse estado de expressão pura, uma notícia, o súbito anúncio: uma bomba prestes a explodir.

A mãe e a filha portuguesas retornam a seu quarto para juntar suas coisas. As duas fogem, mas a menina retorna a seu quarto para pegar a boneca. A mãe volta para pegar sua boneca, sua filha. Cada um dos corredores de acesso é filmado nesse percurso, entre o ir e o voltar das duas. O espaço físico, o percorrer, a distância, são respeitados em sua integridade mais absoluta.
Mas é tarde demais. O bote já havia saído. No grande transatlântico, as duas, mãe e filha, condenadas pela busca de uma boneca. No pequeno frágil bote, os representantes das civilizações, ali reunidos. Mas é tarde demais. Tudo explode. É o fim de Portugal, o que, ao final do filme, já descobrimos que, infelizmente, não é o fim de muita coisa.