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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sexta-feira, julho 29, 2005

Prova de Amor

Prova de Amor
De David Gordon Green
DVD um dia desses num domingo
0 ½

Esse filme me irritou profundamente. Posado, falso, artificial, em nenhum momento me passou uma verdade em torno do drama desses personagens. Por outro lado, a trama do filme me interessa profundamente, uma relação de traição amorosa abordada de uma forma dolorosa. Me interessa para a vida, mas não me interessa para o cinema. Todas as questões que vi em Contracorrente agora se evidenciaram, todas as fraquezas do estilo de DGG. Então esse diretor, que eu sempre ouvi elogiios, e esperava um trabalho de nível, está se revelando um diretor dispensável. Repleto de cacoetes autorais que não fazem o filme andar, é um trabalho que me pareceu profundamente irritante. Tão irritante que me fez pensar: talvez algo no filme tenha mexido comigo, porque o assunto me interessa. Ainda assim, a abordagem teria que ser outra. O roteiro faz viradas e brinca com o sentimento dos personagens de uma forma que me ofende. E achei que tudo no final fica moralista. Dispensável.

Duas Vezes Rohmer

O SIGNO DO LEÃO
De Eric Rohmer
Estação Paissandu ter 26 julho 19:40
**½

Fui rever o primeiro longa de Rohmer. A trajetória do Rohmer é muito interessante. Os críticos da Cahiers enfim resolveram colocar a mão na massa e começaram a filmar. Vários filmes estrearam em 59: Os incompreendidos, Acossado, Os Primos (embora Chabrol já tivesse feito nas garras do vício). Todos com sucesso. Menos um, este O Signo do Leão, fracasso de público e crítica. Rohmer não era garoto, como seus companheiros de Cahiers, já tinha quase 40 anos. Ele ficou deprimido. Passou a fazer curtas em 16mm. Encontrou seu estilo, e o repetiu a exaustão, até a perfeição.

Esse primeiro longa do Rohmer é atípico, porque Rohmer não busca as invenções de linguagem tão típicas da nouvelle vague. Seu cinema é mais afeito à narrativa clássica, e dialogava de forma bastante ambígua com o cinema francês da época. Por isso foi completamente incompreendido, não tendo o espírito jovem e aventureiro de seus companheiros críticos.

Mas visto fora dessa discussão, os méritos de O Signo de Leão como obra de cinema são bastante visíveis. O filme é sobre a deambulação – física, psíquica, espiritual – de um personagem. E como sempre, o cinema moral de rohmer. O filme dialoga, portanto, com vários outros filmes que falam da decadência do Homem ante as regras do mundo social que o cercam: Ladrões de Bicicleta e O Anjo Azul, em especial. E também o extremamente falso final feliz foi tirado de A Última Gargalhada.

A decadência moral desse personagem é pontuada por um discurso moral, nunca moralista. A fisicalidade desses passos é que insere todo esse percurso de uma enorme urgência. Por isso, O Signo do Leão é como um road movie, mas sem estrada. Angustiante, o personagem entra numa espiral: torna-se um mendigo, ao final. Um filme sobre a solidão. Ou talvez um filme sobre a amizade (ou melhor, a falta de dela). Sobre um outro lado de um mundo capitalista. E repleto de um sentimento de cinema, o que é o mais importante.


A MARQUESA DE O
De Eric Rohmer
Estação Paissandu seg 25 julho 21:40
***

Enquanto O Signo do Leão é um filme de aprendizado, A Marquesa de O é um filme de maturidade. Lembrou-me muito do recente A Inglesa e o Duque. Esse A Marquesa é um dos melhores filmes de Rohmer, porque aborda a quintessência de seu cinema: como a linguagem é ardilosa, como a verdade se enconde pelas frestas da linguagem, como a razão e as convenções sociais sufocam o instinto do indivíduo até que se perca o tempo ideal para a ação. É tbem exemplo típico do seu cinema: falsamente teatral, falsamente literário. Mostra tbem a ironia extremamente sutil do diretor. O filme é bastante cruel, e não deixa de ser uma crítica aguda às hipocrisias da decadente aristocracia francesa. O humor do filme vem de um fato muito simples: o espectador sabe mais que os personagens. Dessa forma, vemo-los como completamente patetas ante a situação, que se delineia clara para nós, mas obscura para eles. Filme complexo, com tantas sutilezas, que merece reflexões e revisões.

Rohmer, mestre.

VENEZA

A competição oficial pelo Leão de Ouro

 

La seconda notte di nozze – Pupi Avati (ITA)

O fatalista – João Botelho (PORT/FRA)

Vers le sud – Laurent Cantet (FRA)

Gabrielle– Patrice Chéreau (FRA/ITA)

Goodnight and good luck – George Clooney (EUA)

La bestia nel cuore – Cristina Comencini (ITA)

I giorni dell’abbandono – Roberto Faenza (ITA)

Mary – Abel Ferrara (ITA/EUA)

Les amants réguliers – Philippe Garrel (FRA/ITA)

Garpastum – Aleksey German Jr. (RUS)

The Brothers Grimm – Terry Gilliam (EUA/Reino Unido)

Changhen ge – Stanley Kwan (CHI/Hong Kong)

Brokeback Mountain – Ang Lee (CAN)

Proof – John Madden (Reino Unido/EUA)

O jardineiro fiel – Fernando Meirelles (Reino Unido/Quênia/ALE)

Espelho magico – Manoel de Oliveira (PORT)

Chin-jeol-han Geum-ja-ssi (Sympathy for Lady Vengeance) – Chan-wook Park (COR)

Romance and cigarettes – John Turturro (EUA)

Persona non grata – Krzysztof Zanussi (POL/RUS/ITA)

terça-feira, julho 26, 2005

Beagá

Esse final de semana foi muito proveitoso, quando fui conhecer a cidade de BH e em especial o Festival de Curtas de lá. Sair do Rio foi para mim uma necessidade, eu que atualmente venho pensando, pela primeira vez, que o Rio talvez não seja a “cidade dos sonhos” onde eu quero morar para o resto da minha vida (na verdade isso para mim está cada vez mais claro). Visitar a cidade, estar em contato com o outro, ter o dia totalmente livre para vagar ao léu, foram lições muito vitais para mim, especialmente nessa época pós-concurso. Então eu fui desesperado para “chutar o balde”, mas isso não foi possível, pois os mineiros são mais reservados que os cariocas...

Sobre o Festival de Curtas: o Festival é super bem organizado e com uma curadoria séria (o que é cada vez mais raro nos Festivais Nacionais). Filmes radicais e de qualidade como O Irreconhecível e Trânsito por Dora conseguiram ser selecionados para lá, o que é fantástico. Fui tbem super bem recepcionado pela ultra-atenciosa Thaís Puntel (um anjo de pessoa), pelos coordenadores Márcia e Geraldo (com quem conversei por horas...), comi um macarrão divino na sensacional casa do Daniel (outra recepção calorosa), e tive a satisfação de conhecer o Helvécio, grande figura que conseguiu superar todas as enormes expectativas que já havia depositado em conhecê-lo. Troquei mais idéias com o Aleques e com o Marco Dutra, outra superfigura. Andar na companhia do Marcus Vinícius também foi uma satisfação, muito gente boa, e a viagem de volta foi uma aventura!!!!!!! Fiquei tbem apaixonado (literalmente) pelo jeito meigo de outra realizadora mineira, que a minha timidez impede de revelar (oh!) (pena que não pude trocar mais idéias com ela, mas nem tudo é perfeito, né? fica pra próxima...). Ah, e, claro, ir ao Festival acompanhado do Guilherme é sensacional, porque lá ele conhece tanta gente que parece estar em casa!!!

Comprei duas peças sacras enormes na famosa pracinha em frente ao hotel (para começar a pagar os meus pecados...). Tbem visitei o formoso parque em frente ao hotel, o Parque Municipal. Extraordinário o parque! Grande impressão fez em mim! Filmei as criancinhas no parque de diversões, no cavalinho, na roda gigante, etc para um novo trabalho ao estilo de Jonas Mekas, vamos ver no que pode dar! Vi um show dos tambores de Minas bem interessante lá no Palácio das Artes! Foi cheio de diversões light essa estada de Minas. Não me embriaguei como gostaria, mas enfim a volta ao Rio está aí para isso!!!

Ah, e espero ano que vem estar lá, desta vez com O POSTO!

quinta-feira, julho 21, 2005

Teorema

TEOREMA
De Pier Paolo Pasolini
Unibanco Arteplex 3 qua 20 julho 19hs
****

Uau! Cinema em estado puro. Um privilégio. Um tipo de cinema que não mais existe. O fantástico de Teorema é que é um trabalho filmado de forma simples mas que se revela absolutamente complexo. Vendo-o entendemos todas as motivações dos personagens, sua necessidade de mudança, mas ao tempo tempo eles continuam nos sendo completamente indecifráveis, enigmáticos. Ou seja, são vivos, orgânicos, em sua individualidade latente, pulsante. O filme nos fala de um estrangeiro (Terence Stamp) que, ao entrar em contato (sexual, diga-se) com cinco membros de uma família burguesa, faz com que eles mudem seu comportamento, mudem suas vidas. A mãe vira puta; a filha, uma louca; a empregada, uma santa; o filho, um artista; o pai, um errante. É um trabalho político (a entrevista no início do filme, o tom da família burguesa) mas ao mesmo tempo humano. E ainda: um trabalho de cinema, de linguagem, de poesia (o cinema de poesia de Pasolini em sua quintessência). Um filme sobre a impossibilidade da liberdade plena no mundo contemporâneo. Um filme sobre a repercussão no indivíduo das repressões sociais, da opressão das instituições. Mas não é o “denuncismo” fácil. Filme ambíguo, árduo, doloroso, sublime, poético, libertário, absolutamente cinematográfico, desconcertante. Cinema em estado puro. Um privilégio. Um tipo de cinema que não mais existe. Este é o legado de TEOREMA, de Pasolini, mais de 30 anos depois de seu lançamento.

quarta-feira, julho 20, 2005

FICBRASÍLIA

IMPERDÍVEL NO FICBRASÍLIA!!!! QUERO MINHA PASSAGEM HOJE!!!!!

Amanhã, às 21h30, será a vez do japonês Distance, de Hirokazu Kore-eda. A produção mostra um grupo de seguidores de uma seita apocalíptica, responsável por um massacre que matou mais de cem pessoas. Três anos depois, quatro amigos que perderam conhecidos na tragédia começam a investigar o caso.

DECÁLOGO, de Krzysztof Kieslowski (Polônia)
Inédita nos cinemas brasileiros, a minissérie da tevê polonesa revelou o cineasta Kieslowski. O festival exibirá os dez capítulos, veiculados entre 1988 e 1989. Inspiradas nos dez mandamentos, histórias sobre ética e moral investigam moradores de um complexo de apartamentos.

segunda-feira, julho 18, 2005

O pessoal do Contra fez sua “análise crítica” sobre o Festival Universitário, no primeiro ano entre muitos em que eu, evidentemente, não escrevi sobre os filmes. Destino de O POSTO no texto: o desprezo. Melhor o desprezo que as piadinhas e, ainda, graças a Deus, fiquei em boa companhia, junto com COPO DE LEITE e TRÂNSITO POR DORA, inegavelmente dois dos melhores filmes do Festival. Diz a pretensiosa redatora (não esperava essa postura da Tatiana, mas enfim, diga-me com quem andas...): “foi a premiação mais justa dos últimos anos de Festival” (agora, ela, talvez tentando se recuperar, substituiu o “justa” pelo “sensata”). Ou seja, além de se colocar acima do júri, para avaliar sua suposta justiça, colocou-se acima de todos os últimos júris do festival. Isso é o que eu chamo de petulância. Mas, enfim, tudo não passa de churumela de quem não foi agraciado.... (ai ai... é melhor eu ficar por aqui...)

Ps1: (Pergunta que não quer calar após essa matéria: SERÁ QUE PARTIU DO POVO DO CONTRA A IDÉIA DE DAR UM PRÊMIO ESPECIAL PARA A PRODUTORA LUMIÔ?????????????????? )

Ps2: começo a desconfiar que eles leram os agradecimentos...

Batman Begins

Batman Begins
De Christopher Nolan
Cinemark Botafogo 1 dom 17 julho 11:10


Busquei o horário mais insólito para que eu pudesse ver um filme sem riscos no Cinemark: um domingo de sol às 11:10 da manhã. Mas qual o meu espanto quando vejo que a fila (cheia de mães com suas criancinhas) era tão grande que ia até o MacDonalds?!!! Xinguei todos os nomes, até perceber que a fila não andava, e logo vi que a bilheteria ainda não tinha aberto! Isso ainda que tivesse uma sessão de Madagascar às 11hs e uma de Herbie – Meu Fusca Turbinado (??!!) às 11:20. Então a gerente saiu do cinema e gritou a todos: “fellows, sessão liberada”. Então, vi o Batman de graça, e ainda assim, a sala ficou bastante vazia, permitindo que eu visse o filme sem grande estresse.

Não tenho muita paciência para esses filmes de ação como Batman, mas esse até que não é dos piores. Mas acho graça quando alguém (especialmente os críticos) dizem que o filme é uma obra-prima, e já ouvi o termo da boca de mais de uma pessoa. Porque claramente Batman é, apesar da opulência da produção, um filme menor, um passatempo ligeiro, um filme condenado a ser esquecido meia mordida de BigMac depois. O filme é repleto de tramas psicanalíticas e de dizeres protofilosóficos do mais típico cinema americano (culpa, vingança, limites pessoais, etc). É uma “filosofia de botequim”, mas não deixa de ter seus momentos de validade, ainda que em toda a sua superficialidade. “Pra que caímos? Para que possamos nos levantar...”, e coisas do tipo. Toda a parte do “ensinamento oriental” é, como sempre, de uma grande balela e clichês longamente vistos. E como o típico cinema americano, é um filme que fala da construção de uma moral. Fala sobre uma idéia de justiça (a principal vertente do filme), sobre a importância da educação, da família e das origens (o filme tem momentos de pedagogia), sobre como é importante superar os medos e os traumas, etc. No Brasil de hoje, repleto de mensalões e coisas do gênero, Batman é uma ficção científica profundamente atual e relevante.

Batman me trouxe duas lições. A primeira é que a “elite” não pode ignorar o crescimento da marginalidade, ela deve se incluir no processo de “recivilização” para que o caos não ameace seu status quo (isso vai ser trabalhado de forma muito mais ambígua em Tropas Estelares). A Gotham City de Batman me lembrou a Rocinha, entre o morro e os casarões de São Conrado. A segunda é ainda mais importante, e que ficou me ressoando após o filme. Batman não conseguiria transformar aquele mundo sem o auxílio da tecnologia. Ou seja, não é possível mais fazer revoluções nesse mundo sem o domínio da tecnologia. A se pensar. Batman veio da elite, isto é, ele não era um daqueles miseráveis dos becos de Gotham que queria um mundo mais justo. Ele queria restabelecer toda uma série de princípios dos seus pais (notem como o início do filme é todo filmado de forma bela, com jardins, etc.). Ou seja, Batman tende a ser um filme reacionário.

A direção de Nolan é discreta, equilibra a parte da “psicologia de botequim” com a das cenas de ação de forma competente. Ou seja, foi um artesão dedicado a recriar uma atmosfera em busca do mito, e em busca dos velhos sonhos da sociedade americana. Nada mais, nada menos. Mas quinze minutos depois, fica a pergunta: “sobre o quê é esse Batman Begins mesmo?” ou “O que vimos de novo, ou de realmente inquietante?”. Hmmmm.....

Três bons "Blockbosters"

Nesses dias fiz um fato muito raro: assisti em seqüência três grandes blockbusters de ação americanos. O último que eu tinha visto antes dessa semana foi Hulk, e isso por causa do diretor oriental (Ang Lee). Dessa vez, foi o mesmo, e o que me motivou foi ser mais um filme de Steven Spielberg (Spielberg e Shyamalan são os dois únicos diretores americanos que me OBRIGAM a ir ao cinema). E o mais raro é que são três bons blockbusters: dois muito bons e um bom. Isso é muito raro, conseguir ver em seguida três bons filmes de ação americano. Creio que a probabilidade é menos de 0,1%!

Os três filmes são bem diferentes, e um me levou ao outro, então as comparações são inevitáveis. Já falei sobre o metafísico e soturno Guerra dos Mundos, mais um filme religioso e atormentado do consagrado diretor. O segundo foi Batman Begins, uma ágil e classuda adaptação do novato Chris Nolan. E o terceiro foi um filme em DVD, um pouco mais antigo (1997), que há muito eu queria ver, e aproveitei a oportunidade. É o político e mordaz Tropas Estelares, de Paul Verhoeven.

Tropas Estelares
De Paul Verhoeven
DVD, Seg 18 julho 5hs
***

É claro que todos sabemos que o cinema americano foi usado de forma muito intensa num esforço de guerra. E que depois da guerra o cinema americano continuou sendo usado no esforço da guerra do dia-a-dia. Mas dificilmente se poderia esperar um filme que colocasse a questão de forma tão aguda quanto Tropas Estelares, e ainda mais na forma de um blockbuster de ação, repleto de efeitos especiais. Já nos bancos escolares começa o processo de “pedagogia” da sociedade americana para converter os “civis” em “cidadãos”, ou seja, o processo de construção de uma sociedade fascista, que inibe a possibilidade da diferença pelo exercício da violência, da força. Enquanto Guerra dos Mundos mostra a repercussão do indivíduo comum ante ao ataque alienígena, Tropas Estelares mostra o implícito processo de formação de um mundo adulto em sintonia com os princípios de uma “civilização” de massa. Ou seja, enquanto o individualista filme de Spielberg é metafísico e melancólico, o de Verhoeven é político e irônico. São duas visões sobre a sociedade americana absolutamente complementares. A vantagem para o filme de Verhoeven é que ele foi feito quase dez anos antes. Vê-lo agora, entre o desmascaramento do discurso de esquerda no Brasil e os ataques terroristas nos EUA, torna-se ainda mais pungente e atual. Tropas Estelares é um filme absolutamente político, assustadoramente político sobre a política dos republicanos nos EUA. O falso telejornal (nos lembrou de Cidadão Kane) mostra criancinhas bringando por uma arma, e matando pequenos insetos como forma de propagação do ódio e da violência como instrumentos de domínio de uma sociedade de massas.

Verhoeven deve ter se inspirado em Os Pássaros de Hitchcock para ter um humor tão mordaz. A primeira metade do filme é sobre a inocência do mundo dos jovens, que está prestes a ser destruído pela necessidade do esforço de guerra. É uma preparação que entra em nítido contraste com a segunda parte do filme. Os adultos são todos mutilados, eles sofrem as cicatrizes de sua “política de segurança”. O casal de protagonistas que ajudam a salvar o mundo são Carmen e Rico, e moram em Buenos Aires (sensacional!!). A mise-en-scene é muito expressiva: o décor, a maquiagem dos personagens, as locações falam de um sentimento falso que domina o filme. Os franceses devem ter adorado: Tropas Estelares tem um humor refinado, sutil, muitas vezes cruel, bastante raro para um filme americano. É preciso alertar aos espectadores que a guerra é cruel, e que as pessoas não voltam. A complexa personagem de Carmen é um primor, e mereceria um texto a parte. Enfim, não é à toa que ninguém menos que Jacques Rivette levantou-se para defender o filme quando vários detratores acusaram Verhoeven de ter feito um filme fascista. Tropas Estelares é um filme importante, cada vez mais atual, e que nos faz pensar como existem malucos que conseguem fazer trabalhos incrivelmente pessoais e ousados dentro da cada vez mais conservadora indústria cinematográfica americana!

Brinquedo Proibido

Brinquedo Proibido
De René Clement
DVD sab 16 julho 15hs
*

Frustrada a grande expectativa nesse clássico de René Clement. Visto de hoje se torna mera churumela sobre a inocência perdida do mundo ingênuo e doce das crianças em meio ao absurdo da guerra. Duas criancinhas fofas entre adultos meio imbecis. E tome churumela. Nada de muito relevante nesse filme de Clement.

Mas não nos podemos esquecer: era um cinema francês pré-nouvelle vague, ou seja, ainda existia espaço para o povo no cinema francês, ou ainda, ainda existia espaço para um cinema popular na França. As filmagens em externa, em locação, dão uma vitalidade ao filme, e em seus melhores momentos, nos lembram de um clima bucólico tipicamente renoiresco. Também devemos nos lembrar que Clement começou como documentarista, então as dificuldades da filmagem externa eram dominadas pelo realizador. E não podemos desprezar o fato de que era época do neo-realismo italiano (especialmente o cinema mais humanista de de Sica).

O filme tem um clima anticlerical bastante estranho. A obsessão com as cruzes, a briga das duas famílias no cemitério, a cena em que o garoto destrói todas as cruzes, dão a esse filme convencional uma aura um tanto atípica, estranha. Buñuel teria gostado. Ao mesmo tempo em que Clement valoriza a ingenuidade dessas pessoas simples, ele tbem critica os costumes brutos dessa família, e o conservadorismo daquele vilarejo. Mas em geral dá pra entender como o pessoal da nouvelle vague deve ter detestado o academicismo desse filme.

33

33
De Kiko Goifman
Estação Paço qui 15 julho 19hs
*

Esse longa documental do habilidoso videomaker Kiko Goifman tbem me desapontou. Não chega a ser um trabalho ruim, mas é que eu pensei que realmente seria um bom filme, e em minha opinião ele fica na metade do caminho de várias de suas intenções. O filme se resolve verbalmente na voz off, como se fosse um diário de viagem, o que é uma solução fácil para um documentário e que acaba se revelando um tanto frágil. Mas o diretor comprova seu estilo pouco didático nas imagens que pontuam essa voz off, em fragmentos da cidade noturna, de uma solidão e angústia que nos remetem a alguns momentos de O Prisioneiro da Grade de Ferro. O filme é pessoal: é sobre o próprio diretor que procura sua mãe biológica durante 33 dias. Acaba não tendo um desenvolvimento propriamente dito nem algumas reviravoltas. O filme então fica meio solto, e ao final, fica-se com uma dificuldade de se saber “sobre o que” é esse filme. A comparação entre os livros policiais, o trabalho misterioso do detetive e a própria posição do filme e do autor são interessantes mas não se desenvolvem à altura. Assim como a aparição de uma cartomante. Etc, etc, etc.

quinta-feira, julho 14, 2005

Guerra dos Mundos

Guerra dos Mundos
De Steven Spielberg
Unibanco Arteplex 6, qua 13 de julho 19hs
***

A melhor definição sobre Guerra dos Mundos é que não se trata de um filme “sobre alienígenas que invadem o Planeta Terra e querem dizimar sua população”, mas sim que é “uma história sobre um pai que, diante das maiores adversidades possíveis e inimagináveis, tenta, a qualquer custo, manter sua família unida”. Esse sentimento do dever, essa necessidade do reforço dos laços da família comum americana, são características comuns do cinema humanista, ético e – também, claro – moralista de Steven Spielberg. Mas se Guerra dos Mundos é um grande veículo do cinemão americano, ou seja, do cinema espetáculo, também não deixa de ser um retrato pessoal das angústias de um cineasta no auge de sua maturidade de expressão artística e técnica. A grande contribuição de Guerra dos Mundos aos tantos blockbusters que recentemente têm invadido com maior freqüência nossas telas – só nesse momento estão em cartaz Quarteto Fantástico, Batman Begins e Star Wars III – é que o cinema de impacto, a ação extasiante, a “sensação da montanha russa”, nunca fazem submergir a primazia de um cinema humano, de grande repercussão ética e de indizível impacto emocional. Nos últimos cinco filmes, Spielberg, depois de um longo hiato sem filmar, vem construindo uma filmografia bastante coerente, deixando de lado os preconceitos tanto em relação à sua primeira fase (“os filmes inconseqüentes de aventura”) quanto à sua segunda (“os dramas oscarizáveis”). Os fascinantemente sombrios A.I. e Minority Report já apontavam para uma vitalidade em termos da estética e uma ambigüidade que nunca foram típicas do ingênuo cinema do diretor. Ainda, duas pausas memoráveis como Terminal (um diálogo com o cinema de Capra), e especialmente Prenda-me se for capaz, uma espécie de declaração de princípios do diretor, realimentavam seu espírito criativo. Mas depois das saudáveis pausas, o retorno, que mostra que Spielberg ainda quer fazer projetos ambiciosos que se insiram diretamente no mainstream do cinema americano. Guerra dos Mundos, adaptação do antológico romance de H. G. Wells, não é uma ficção científica, e sim um filme metafísico de terror. Sem motivo aparente, extraterrestres invadem o Planeta Terra, e iniciam seu plano de extermínio. Uma família comum – Tom Cruise e seus dois filhos – tentam fugir para Denver, para reencontrar sua esposa, mãe de seus filhos. Só que o “herói da família” foge sem ter a menor idéia do que fazer, é completamente impotente para tentar superar seus ultrapoderosos inimigos. O filme então se revela uma profunda metáfora sobre a impotência da condição humana, a inevitabilidade da morte e como, ainda assim, existe a necessidade do conforto. Esse herói é covarde, egoísta, chega a se tornar mesmo um assassino. Mas ele tem talvez uma única virtude, uma única força: seu desejo em manter sua família unida, seu amor àqueles filhos. Sua desesperada luta pela sobrevivência se torna cada vez mais improvável, cada vez mais impossível. Ou seja, assistir a Guerra dos Mundos é uma experiência asfixiante, quase torturante para o espectador. Nessa espécie de travessia, Tom Cruise perde tudo, mas o faz para proteger os seus filhos. Seu percurso é quase o avesso da odisséia de um Rastros de Ódio (Tom Cruise foge dos inimigos, John Wayne os caça; ou ainda, Wayne ao final fica na casa vazia, Cruise, ao longe da casa com a família distante), mas o destino final é o mesmo: feita a difícil travessia, resta a solidão. Extremamente sombrio, não raras vezes doloroso e amargo (o banho de sangue, a tomada do carro, a necessidade do assassinato), Guerra dos Mundos é também uma espécie de via-crúcis religiosa, com muitos paralelos com A Paixão de Cristo (o filme do Mel Gibson) e – é claro – o cinema de M. Night Shyamalan (especialmente Sinais). Mesmo as churumelas típicas do estilo moralista de Spielberg e os nítidos problemas de ritmo (o filme foi claramente mutilado, especialmente na parte final) não escondem a importância do ambicioso Guerra dos Mundos, a de provar que ainda é possível inteligência do mainstream do cinema americano, e, evidentemente, pela maestria com que Spielberg comanda a complexa operação técnica da artesania de um caríssimo filme-espetáculo.

quarta-feira, julho 13, 2005

Retrospectiva Primeiro Semestre 2005

Filmes do Semestre

Esse ano até que tiveram muito bons filmes:

Obras-Primas:
Ninguém Pode Saber, de Hirozaku Kore-Eda ****
Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira ****

Excelente:
The Brown Bunny, de Vincent Gallo ***½

O filme brasileiro do ano:
Extremo Sul, de Monica Schmiedt e Sylvester Campe **½

A bomba do ano:
Mar Adentro, de Alessandro Amenabar 0

segunda-feira, julho 11, 2005

Exílios

Exílios
De Tony Gatlif
Espaço Unibanco 2, seg 19:40
***

Depois de três semanas em que eu saí da vida para estudar atos administrativos, lei dos servidores públicos e orçamento público (sim, infelizmente é verdade...), pude voltar ao rumo normal das coisas vendo o esperado Exílios, lançado corajosamente pela Imovision. (Os ávidos leitores desse blog podem esperar que estou ansioso por mais filmes...) O filme desse cigano chamado Tony Gatlif, completamente desconhecido de nós brasileiros, conseguiu aqui ser lançado pelo prêmio de direção em Cannes 2004. É um trabalho bastante inspirador, porque é filmado com um grande sentimento de liberdade que, em seus melhores momentos, contagia, emociona, seduz. Filme autobiográfico, é uma volta às origens desse descendente de argelinos que, morando na França, volta para reencontrar restos de seus antepassados, ou, como diz o filme, para “resgatar antigas lembranças”. Esse estrangeiro entrando em contato com seu íntimo assume um reflexo na própria condição desse cinema (o espectador, também estrangeiro, acaba sendo um cúmplice do protagonista), e o filme revisita com muito respeito e carinho essa cultura alheia, esse sentimento do outro. A convivência com o outro é não só possível como salutar, como saudável, e essa é uma lição – ainda mais nos dias de hoje – muito válida. Mas o cigano Gatlif filma com uma liberdade intensa, com um grande prazer de filmar, então esse desejo pela viagem e pela descoberta do retorno preenche o filme de forma bastante intensa. Essa viagem para a Argélia acaba sendo uma espécie de retorno, de resgate às origens, e é muito sintomática a cena em que os protagonistas estão andando na “direção oposta”. O êxodo rural é invertido, pois “todos” da Argélia querem fugir de lá e chegarem na França. A “direção oposta” é no espaço e no tempo, é um “caminhar contra a corrente” como sinal de encontro, de busca de um íntimo. Não é à toa que o filme se encerra exatamente no ponto final desse retorno como encontro das origens, quando o protagonista chega ao túmulo do seu avô. Apesar de algumas quebras de ritmo e algumas ingenuidades, Exílios é sem dúvida um trabalho de cinema. Me impressionou também como esse espaço físico “tem voz”, como as filmagens em locação dão uma vida ao filme por permitirem uma organicidade, um diálogo íntimo com o casal de protagonistas. Um olhar pela janela de casa. O enterro com concreto de um violino. O olhar pela janela do trem. O cinema. O filme ainda tem uma cena extremamente impressionante que mostra os protagonistas “recebendo um santo” em plena Argélia. Um plano-sequência de quase dez minutos com uma agilíssima câmera na mão em 360º, com um trabalho de som espetacular (aliás, todo o filme tem um trabalho de som formidável), com um olhar totalmente de documentário, mostra uma das cenas mais impressionantes que eu vi recentemente É quando todo esse contato com a cultura do outro atinge o seu ponto-limite. E logo depois tem um plano belíssimo dos dois se olhando na penumbra. E depois um plano próximo de uma tangerina que é de cair o queixo. Enfim, um belo filme esse Exílios. Por fim, (e após o fim), uma companhia que deu luz ao filme, com seus hipnotizadores olhos verdes. Que todos os dias assim o fossem. Que minha vida fosse uma eterna, surpreendente e lúdica, mágica, fascinante viagem de libertação, de encontro com as origens. Mas não: minha praia é o cinema rigoroso, sintático, didático, materialista-metafísico de Manoel de Oliveira, de Straub. Enfim, cada um é como é. Mas é sempre um prazer a possibilidade de sorrir com a diferença do outro. E o cinema às vezes nos dá isso por R$ 6,50...