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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, agosto 30, 2005

Sampa

DIÁRIO ABERTO DE IK EM SAMPA

De sexta a segunda foram dias de emoção, de descobertas. Para o que nos interessa aqui, (ou seja, pularei a sexta) no sábado fui para São Paulo, acompanhar meu curta no Festival de Curtas. Ir a São Paulo foi uma experiência, porque se eu estava meio descontente com o Rio, nunca fiquei tão feliz em voltar para casa. Não que a viagem tenha sido ruim, ao contrário, mas é que eu NUNCA gostaria de morar numa cidade como São Paulo. A cidade é uma megalópole, com toda aquela confusão desumana e caótica que caracteriza o termo, e nisso é diferente do Rio. É incrível como é difícil chegar em qualquer lugar em São Paulo. Visitei a Praça da Sé e a Galeria Pajé, o que me deixou muito assustado, tal é a multidão de pessoas consumindo coisas que não tem NENHUM significado para suas vidas: ou seja, apenas um conjunto de bugigangas e quinquilharias. Cheguei tbem à Liberdade, e uau foi um grande impacto para mim caminhar por aquelas ruas, porque as ruínas de uma civilização estão lá, por trás das lojas de objetos toscos e do mundo de concreto tipicamente paulista. Uma civilização que tenta sobreviver, que tenta se preservar, mesmo que diante de um assombro de um mundo outro. Ou seja, não é a Liberdade romântica que está lá mas uma Liberdade paulista, atual, completamente imersa nesse mundo de São Paulo. Foi um grande impacto para mim porque caminhar na Liberdade me fez sentir como esse lugar está próximo dos vídeos que faço, como esse lugar me causou uma intimidade e uma distância, como parecia que eu sempre vivera ali e ao mesmo tempo que eu nunca tinha pisado ali antes, como eu estava completamente em casa e como eu era um estrangeiro ali. Andei muito pelas ruas de São Paulo, e isso foi muito bom, na verdade foi o melhor dessa viagem. Andei só, evidentemente, e daí que fiquei com uma solidão danada. Essa cidade nos faz sentir muito só, e estar fora de casa nos faz sentir muito sós e deprimido. E daí que embora tenha sido bom, eu tive a certeza de como é ruim viajar. Foi bom porque eu fiquei três dias: se fossem dez, eu não teria agüentado, certamente.

Sobre o Festival, tristeza, tristeza, tristeza... Fora alguns bons filmes que eu já tinha visto (man.road. river., isabel e o cachorro flautista, etc) só dois filmes valeram a pena. E justamente dois filmes de pessoas que eu já conheço (se bem que o Caetano eu não conhecia, mas é como se eu já o conhecesse...). O primeiro é a obra-prima NASCENTE, do Helvécio Marins Jr. Devo escrever sobre esse filme, um trabalho de enorme sensibilidade, poesia e maturidade estilística. Outro é O DIÁRIO ABERTO DE R., de Caetano Gotardo, um trabalho quase perturbador porque mostra como é difícil expressar os sentimentos, como demonstrar o afeto pode ser uma coisa tão necessária, tão íntima e tão difícil. O filme mostra essa dificuldade com uma generosidade e uma simplicidade encantadoras. O filme me intrigou por colocar a questão: como o cinema pode registrar um “diário aberto”? o que significa isso? O que está em jogo com esse ato de exposição? Perguntas que ressoam após a projeção. O filme é tbem uma declaração de princípios do que o cinema representa para o diretor, do que se busca no cinema, e isso é muito comovente. Vendo o filme temos a sensação de que tudo parece prestes a explodir, mas não, tudo cheira à normalidade, e isso é muito doloroso. Caetano segura o drama com um distanciamento mas faz um trabalho muito íntimo, e nisso achei bem mais resolvido que seu curta anterior, o bom Feito Não Para Doer.

A exibição de O POSTO tem sido para mim um exercício de humildade, e aqui falo sinceramente. Tudo para mim tem sido uma espécie de humilhação. Tudo o que eu não queria para a “carreira” desse curta tem acontecido: a estréia no Festival Universitário, a “segregação” do curta no espaço universitário do Festival de São Paulo, só falta agora não ser selecionado para Brasília, é o que falta. Pode parecer pretensão minha, mas não é não. Quando soube quem eram os jurados do Prêmio Revelação, um arrepio de alma me correu a espinha, e dei um leve sorriso por perceber como a vida pode nos ser cruel e dolorosa, como pode nos ser irônica, sarcástica. Não porque eu pudesse esperar alguma coisa do prêmio (isso é completamente ridículo), mas desse poder imbecil, e porque eu tive que escrever um texto idiota que respondia “Por que você fez esse curta?” e mandar para o júri, que só então eu descobria quem era (se eu soubesse certamente não teria mandado...) Mas viver é estar pronto para isso. O programa foi de altíssimo nível, passando junto o filme do Tim (Homens Pequenos) e Trânsito por Dora, e fiquei contente com isso. A sala completamente lotada. E foram vários amigos, o que me deixou muito feliz: parte da minha família, Sandro Saraiva, Renato, Eva. Acho que não fui embora por respeito a eles. Senão teria picado minha mula para ver Kieslowski no CCBB/SP. Isso com certeza.

O Festival é bem legal, mas o cinema que passou lá é uma merda. Lembrei do Rosemberg. O cinema brasileiro, seja em curta, média, longa, série, programa de TV, o escambau, está uma grande merda. Essa é a verdade. Cheira a podre. As pessoas só querem aparecer, não têm o que dizer, só fazem filmes pra mandar beijinho e fazer cena. Lamentável. Mas vasculhando a gente acha filmes realmente muito bons, então a esperança é essa, juntar-se aos bons, e conviver tentando não se contaminar com a mediocridade dos festivais.

Voltar foi bom. O dia hoje está sendo terrível de ruim. Não consegui falar com a menina de Vênus.
Ainda não sei se devo escrever para o Helvécio. Estou propenso a fazê-lo, mas não sei se deveria.
Queria ficar uma semana calado, sem falar ou escrever, mas não posso. Infelizmente a vida continua.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Metalinguagem II
(resposta à entrevista da Sra. Yamazaki)

Aqui é minha casa
No set me sinto bem
Minha casa é aqui

A casa é meu set
Aqui me sinto bem
O set é minha casa

A casa me faz bem
O meu set é aqui
Aqui é o meu set

O set me faz em casa
O aqui é meu set
Em casa me sinto bem

Entrevista com Tizuka Yamazaki

“Você não tem nenhum problema em fazer filmes de indústria. Você gosta?

Filme de indústria é igual novela. Sou convidada para dirigir, eles me dão um roteiro e eu conto aquela história da melhor maneira possível. Tudo o que eu gostaria agora, depois de anos de Gaijin, era pegar uma produção contratada, televisão ou cinema. O Fábio, meu filho, me disse uma coisa curiosa nas filmagens de Gaijin: 'Mãe, sabe que você transita com muito mais tranqüilidade no set do que lá em casa?' Eu fiquei pasma, mas depois vi que o Fábio tem razão. No set transito como se fosse meu lugar. Eu sou bicho de set.”

---> Essa entrevista foi triste. Alguém que já pisou num set deve imaginar o que deva ser um set de uma novela, ou, pior, o set de um filme como Xuxa Requebra. Ainda assim, Ms. Yamazaki pisa nesse set com mais tranqüilidade do que em sua casa. Como deve ser sua casa então? Como uma oriental – e lembremos o que escrevi sobre Ninguém Pode Saber e Casa Vazia – pode dizer isso dessa forma? “O set é minha casa. Aqui me sinto bem” Ficam essa palavras finais.

BOLINHA PRETA!!!!

Estive pensando melhor e cheguei a conclusão de que Dois Filhos de Francisco é péssimo, bolinha preta. Eu estava tão preocupado com a artesania do filme, com a construção dos planos que não percebi o discurso do filme. A narrativa clássica é imensamente sedutora, e o filme aparentemente é um trabalho simples, e cheio de boas intenções. Mas agora depois de um tempo tudo ficou claro. O discurso de Dois Filhos de Francisco é o discurso do atraso, o filme é um elogio ao atraso. O filme é sedutor, porque Breno Silveira não é um pretensioso arrogante como o Fernando Meireles, nem o filme é ingenuamente ambicioso como um Central do Brasil. Mas aí é que reside sua sutileza: por trás da simplicidade do projeto, há nitidamente um discurso de corroboração da ideologia das elites: um discurso do atraso. Acho que estou vendo filmes do Grupo Dziga Vertov demais....rs.... e certamente Carta para Jane me fez pensar sobre o filme sertenejo. Todas as suas contradições (até de resultado de bilheteria) refletem os falsos paradoxos do cinema brasileiro e da sociedade brasileira como um todo. Ou seja, VEJAM O FILME mas não “por amor ao Brasil e ao cinema”, como diria o Merten, mas para refletir sobre tudo isso.

terça-feira, agosto 23, 2005

Metalinguagem
(ou a menina de Vênus)

O verso curto
O corte seco
O filme sem música
A vida sem som

O traço reto
A cartela negra
O filme sem som
A vida sem cor

A argila seca
A decupagem dura
O filme sem cor
A vida sem música

Filmo o filme
Vivo a vida
O corte é bruto
O verso é duro

filmo o filme
como
vivo a vida
sem v
oc
ê

segunda-feira, agosto 22, 2005

PÁRA TUDO

PÁRA TUDO!!! PUTA-QUI-O-PARIU!!! TEM QUE VIR PRO RIO, CACILDIS!!!!
vou estar em sampa mas nos horarios que da pra eu ver alguma coisa, so passa a trilogia...

O cineasta Krzysztof Kieslowski ganha mostra no CCBB São Paulo

CCBB São Paulo promove mostra com 20 filmes de Kieslowski

"O que eu tento captar é talvez a alma. De qualquer forma, uma verdade que eu mesmo não encontrei. Talvez o tempo que voa sem nunca ser capturado". A frase é do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996), que será homenageado com um ciclo de filmes no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo entre os dias 23 de agosto e 4 de setembro.

domingo, agosto 21, 2005

Não existo. Sou uma invenção de mim mesmo.
Invento. Reinvento.
Reinvento para poder existir.
Tenho medo do escuro.
E choro às vezes quando tudo parece perdido.
Por que me falas isso logo hoje
que a lua é de prata?
E caminho pelos pântanos, pelas latitudes
à procura de um rastro de vida
que me justifique.
Estou cansado de ter que me falar, de me dizer
de ter que existir assim
tão assoberbado, tão cheio de ruídos, de firulas invisíveis.
Estou cheio desse desafio de viver.

As sombras deixam um rastro nas calçadas.
Tapetes de cor cereja, invisíveis, indisíveis de tanto espanto.
Tudo está tão colorido
e eu aqui sentado nesse canto de ninguém.
Queria que pelo menos hoje escutasses o que digo
não por que tenho algo para dizer
mas apenas para passar o tempo,
esse tempo que não passa

Reinvento o tempo para poder esquecer.

MÃE,
POR QUE VIVEMOS NUM VALE DE LÁGRIMAS?

trecho de UM FILME ABSTRATO, meu novo vídeo caseiro...

Conforme o tempo vai passando, a gente tem condições de perceber um pouco mais o impacto de TROUBLE EVERY DAY, um filme que fica na cabeça da gente. Decerto que o filme não tem a força arquitetônica de UM FILME FALADO, nem a filosofia do desalento de NINGUÉM PODE SABER, mas o que torna o filme da Claire Denis uma experiência marcante é como ela fez questão de fazer um filme adulto, de pôr em cheque a natureza íntima do ser humano, a grande e terrível aventura de viver diante de si mesmo. Fez isso, também, através de um cinema de linguagem traiçoeiro, ardiloso, difícil na apreensão de suas sutilezas: através de um falso filme B, de um falso filme de terror, de um falso cinema de gênero. Mas por trás das superfícies e das falsas pistas, pulsa muito claramente, em todos os seus planos, um cinema que se prende ao essencial: sobre a “dor e a delícia” de viver, sobre a natureza do desejo. Sobre como o desejo é necessário, mas como é ao mesmo tempo doentio, sórdido, auto-destrutivo. Sobre como o desejo causa enorme prazer e inevitável dor por onde passa, sobre os rastros do desejo, que não conseguem ser apagados. E como se pode viver sem o desejo? E, ainda, o desejo pode ser domado? Até que ponto? O filme, ainda, reflete a necessidade do afeto, e tem um final muito doloroso que evidencia todo o projeto de Claire Denis: de dar um profundo abraço afetuoso em seu personagem doentio, mostruoso. Na possibilidade doentia de o Homem querer destruir a coisa que ele mais ama, simplesmente porque ele não consegue dominar o seu desejo, o seu instinto, a sua natureza.

sábado, agosto 20, 2005

Esses Moços

Esses Moços
De José Araripe Jr.
VHS, 19 ago 22hs
0 ½

O primeiro longa de José Araripe Jr. é cheio de boas intenções: é sobre a redescoberta da vida por um velho e duas crianças de ruas a partir da solidariedade, a partir de seu encontro fortuito. Esse olhar para os miseráveis com compaixão mas sem paternalismo tenta alcançar alguns momentos de poesia, tentando incorporar de forma criativa o espaço físico da Bahia, entre a Cidade Alta e Baixa. O trio supera as dificuldades (a falta de afeto, de dinheiro, de memória...) olhando para a vida de uma forma afetuosa, brincalhona, irreverente. O estilo de Araripe é o do curta-metragem de realização ligeira, com uma espécie de realismo mágico (a mala, a falta de memória do velho, etc.). Mas o que impede o filme de se realizar por completo é a dificuldade de Araripe de encontrar o TOM certo tanto para a história quanto para seus personagens. Com isso, acaba sendo um filme que não consegue alcançar nenhuma das suas intenções. A mise-en-scene, apesar do esforço da câmera, acaba refletindo todo esse primarismo da direção, e nunca consegue realizar um olhar, evidenciar um estilo, e mesmo no desenvolvimento do enredo, o filme se ressente em muito de uma organicidade. Não consegue se aproximar desse mundo marginalizado, e fica preso a alguns cacoetes de roteiro (o “marcha soldado” ou a cena na escadaria em que as duas irmãs quase se separam). O final mostra algumas virtudes, apostando na separação e na solidão como símbolos de uma marginalidade, mas nada que absolva Araripe pela sua displicência na realização de um primeiro longa. Seu estilo cru, rude, primário, ao invés de encher o projeto de uma força, acaba evidenciando suas limitações como cineasta do ponto de vista mais básico: a construção de uma dramaturgia, de um olhar, e de um projeto mínimo de mise-em-scene que articule seus elementos de linguagem na construção de um projeto. Pena.

Dois Filhos de Francisco

Dois Filhos de Francisco
De Breno Silveira
Palácio 1 sex 19 agosto 18:20


Nada que possa justificar o tamanho alvoroço de vários setores da mídia e do jornalismo brasileiro. O Globo dando bonequinho em pé aplaudindo; o Merten apelando, dizendo que é uma prova de brasilidade, o grande filme popular do cinema brasileiro, etc, etc. Sabemos que a época é de vacas magras, mas – pelamordideus – por que agora essa necessidade de glorificar o filme?

As pequenas virtudes do filme estão todas no trabalho da direção. Breno Silveira, o fotógrafo da Conspiração, realizou seu primeiro longa num projeto que ninguém levavas fé: todo mundo estava doido para malhar o filme. Mas pouco a pouco começaram a surgir bochichos de que seria o filme do ano do cinema brasileiro, o que surpreendeu a todos. Os preconceitos em relação à “dupla de caipiras sertanejos” floresceram de um forma tipicamente brasileira. Todos caçoaram de Breno Silveira e do projeto. Mas isso deve ser dito: o diretor realizou um projeto decente, digno, por ter tirado os aspectos propagandísticos e ter se concentrado na dramaturgia da história de uma família que tinha um sonho de vencer na vida.

O maior mérito de Breno Silveira foi apostar no meio tom: preocupado em fazer com que o filme não fosse exagerado na pieguice e no melodrama, Silveira segurou o freio de mão, e essa é a grande virtude do filme. Como diretor-fotógrafo, Breno conseguiu segurar sua onda virtuosística até na fotografia: um, trabalho simples, mas bastante funcional. Na decupagem, alguns problemas, típicos de um diretor estreante, até porque o filme não é de trivial realização, com várias locações, passagens de tempo e pequenas mudanças de tom. Mas Breno apostou no básico, no feijão com arroz, e daí fez seu filme. Os atores, todos ótimos, isso é o mais impressionante, dado que o diretor não tem nenhum currículo de dramaturgia. Outra coisa que se fez notar [é que o filme devia ser bem maior, mas que foi cortado para dar os 120´de duração. Com isso, alguma falta de preparação (por exemplo, na cena do acidente) se fez notar. Outra virtude: um filme trabalhado muitas vezes na questão do olhar, e com um tempo de cinema na reação dos personagens. Mas nada que nos faça suspirar por ser um trabalho extraordinário ou acima da média. Nenhum seqüência, nenhum aspecto em particular salvam o filme do ordinário, do feijão com arroz.

Tudo bem acharmos que é incrível como Breno Silveira conseguir fazer um trabalho decente quando tudo levaria a crer que seria um péssimo filme. Mas isso não esconde o fato de que Dois Filhos de Francisco é um trabalho limitado, e nunca, nunca chega a ser um filme acima da média, um trabalho que conquiste, encante, deslumbre. As possibilidade de o filme ser sobre um Brasil que vence suas dificuldades porque acredita no seu sonho e em sua criatividade e ainda de o filme ser um percurso sobre o interior do Brasil, acabam fracassando.

Outra: pelo menos é um filme que olha para um Brasil interior sem um olhar paternalista e sem piedade. Mas é só ver Aopção, do Candeias, para fazer hmmmmmmmmmm.... a esse Dois Filhos de Francisco. Claro.

Última: Merten, Breno Silveira nesse filme conseguiu o que Glauber e Nelson juntos não conseguiram? Fala sério...

quinta-feira, agosto 18, 2005

Depois do comment do Bruno, estive pensando: SEXTA À NOITE, outro filme da Claire Denis, é um puta filme! Eu o vi há uns dois anos, mas ainda está muito vivo em mim. Então que me marcou bastante! É um filme menor, mas é um filme admirável. Começa com uma mulher arrumando sua mudança do apartamento. Uma seqüência filmada de forma espetacular. Depois, o engarrafamento. O filme não tinha muita grana, então a solução do engarrafamento é admirável. Essas soluções de decupagem foram feitas com muito prazer pela Denis, então se vê como ela curte o doloroso processo em si de se fazer cinema. Vi um tempo depois Os Normais, em que tbem tem uma cena de engarrafamento, e é constrangedor! Sexta à Noite é um grande filme! Não tem psicologia bacaca. É um filme mais simples, menos inventivo da Denis, mas é absolutamente feminino, íntimo. Aquela mulher que vai para a casa do homem que ama, mas antes quer ter sua última aventura. Filmado com uma humildade, com uma sabedoria, em relação a esse desejo, a essa possibilidade bonita de a vida permitir a essa mulher ter uma chance de despertar. E então no dia seguinte, ela está pronta para viver para sempre com seu amado... belo filme.

la nina santa

La Niña Santa
de Lucrecia Martel
Unibanco Arteplex 1 ter 16 ago 17:20
**

Algumas considerações sobre LA NINA SANTA

LA NINA SANTA é um filme sobre como as instituições ou as convenções da sociedade sufocam a liberdade do indivíduo, como elas fazem com que as pessoas deixem de amar, deixem de se relacionar positivamente umas com as outras.

Como O Pântano, La nina santa é um filme de laboratório. A diretora coloca um grupo de pessoas juntas no mesmo espaço físico, e observa a inevitável interação entre elas.

Com isso, desabrocham os desejos reprimidos. Tudo no filme tem um clima de tensão e sexualidade latentes. Ou seja, tudo é levado pro lado da sacanagem. A Igreja, a religião, os sentimentos de fachada, as convenções.

LA NINA SANTA é um filme sobre como a sociedade reprime o desejo do Homem.
Entre a mãe e a filha, o médico se vê indeciso quanto a agir, quase como se estivesse num filme de Rohmer. A diferença é que Martel quer fazer um cinema mais provocativo. E não tem o lado ético do Rohmer. Ou seja, ela quer que tudo vá para o caralho, mesmo.

DESEJO E OBSESSÃO

DESEJO E OBSESSÃO
De Claire Denis
Estação Botafogo 1, 16 ago 19:40
***

É difícil começar um texto sobre TROUBLE EVERY DAY, porque o cinema da Claire Denis é completamente avesso aos rótulos, é fugidio em relação às tentativas de definição. “É isso”, mas quando se começa a falar sobre isso, ele já virou “aquilo”, e daí em diante. A essência do cinema da Claire Denis é fugidia, ela nos escapa ao entendimento. Daí que se torna apaixonante, ousado, e tbem profundamente questionador sobre o que é a natureza do cinema.

Desconcertante, porque a cada metamorfose de Denis, de um filme para outro, revela-se um desejo pela linguagem, pelo cinema, pelas contradições da natureza do ser humano.

TROUBLE EVERY DAY é um filme sobre canibalismo. Mas para Denis, esse típico “filme B” não é uma história de horror, e sim uma história de amor. É tbem, claro, um filme sobre o desejo. Sobre como o desejo é necessário e como é vão. Sobre (adoro usar esse termo) a impotência da condição humana. Sobre a fragilidade da condição humana.

Um filme B, com todos os rastros falsos de um certo cinema de gênero (um filme de vampiros).
Um filme que questiona a linearidade narrativa do cinema clássico.
Um filme sobre o desejo. Sobre como o amor (a paixão) é auto-destrutivo.
Uma atuação extraordinária de Vincent Gallo.
Um conflito entre amor e paixão, entre razão e instinto, entre liberdade e destino, entre morte e vida., entre o cinema narrativo e o de linguagem. Conflito ambíguo, doloroso, complexo.
E ao final, pode-se domar o desejo? Até que ponto? Será que Vincent Gallo irá “se curar” (seu impulso é uma doença...) ou irá comer (literalmente) a Beatrice Dalle, sua recém-esposa?

Claire Denis, auteure.
(me disseram que o feminino de auteur é esse.....rs)

Merten

Frase do Luiz Carlos Merten, do Estadão de São Paulo sobre Dois Filhos de Francisco, que está passando em Gramado e irá estrear amanhã.

“Importantes diretores do cinema brasileiro, Glauber, Nelson Pereira, Hector Babenco, Cacá Diegues, tiveram sonhos semelhantes, o da construção de um grande filme popular que fosse honesto e verdadeiro. Breno Silveira conseguiu. Por amor ao cinema, ao Brasil, você não pode deixar de ver 2 Filhos de Francisco.”

Acho que o jornalismo tem que ter RESPONSABILIDADE. Porra, o Merten não está começando, não é oportunista tipo um Biaggio ou um Rodrigo Fonseca. Cacete! Até acredito que o filme do Zezé di Camargo e Luciano possa ser um bom filme, acredito mesmo, mas o Breno Silveira ta começando, ele é um técnico. Não dá pra dizer que só com esse filme ele conseguiu mais do que Glauber ou Nelson fizeram pelo cinema brasileiro...

Outra coisa: que katzo é esse de “pelo amor ao Brasil, vejam o filme”. A gente voltou pro nacionalismo da ditadura, é isso? Pelo amor ao Braisl, vejam esse filme da Globo Filmes, produzido pela Conspiração e lançado por uma major? É isso?

terça-feira, agosto 16, 2005

Rapidim
dois filmes bizarros: LA NINA SANTA e TROUBLE EVERY DAY
Essas mulheres estão cada vez mais B-I-Z-A-R-R-A-S...

Qdo eu recuperar o fôlego eu escrevo mais...

segunda-feira, agosto 15, 2005

Casa Vazia

Casa Vazia
De Kim Ki-Duk
Estação Paissandu, seg 15 agosto 21hs
**½

Vendo este Casa Vazia, lembrei de uma frase do Corações e Mentes: “o Vietnã tem mais de mil anos de civilização. E os Estados Unidos, quantos anos têm?” O cinema oriental realmente bate muito forte neste espectador que vos escreve. E mesmo com suas várias limitações, este Casa Vazia é um filme que bateu muito forte em mim, porque é o cinema oriental em sua autêntica expressão.

* * *

O personagem principal de Casa Vazia não fala. Ele invade casas sem roubar nada, apenas para ficar um ou dois dias, consertando objetos, lavando roupas e ouvindo a secretária eletrônica. Numa mansão, encontra uma mulher que apanha do marido, e os dois acabam formando uma espécie de casal solitário e distante. E o filme segue, sem nenhuma palavra de ambos. O cinema oriental está todo lá: na dificuldade de expressar os sentimentos, no sentimento de solidão, no significado de um lar e de uma família, na miséria da condição humana, na dualidade dos personagens, na transcendência da rotina.

A (vazia) peregrinação desse personagem principal é em busca de um lar. Seu lar é móvel, e em cada lugar, vivendo uma espécie de vida de ninguém, espaço limítrofe entre sua própria vida e a vida desconhecida dos moradores daquela casa, esse rapaz busca uma certa identidade transidia. Desse modo, Casa Vazia é o avesso de Ninguém Pode Saber: enquanto no filme de Kore-Eda as crianças vivem trancafiadas dentro de casa para manter um lar e uma família unida, no filme de Ki-Duk, a idéia de família desaparece, e reina a inevitabilidade da solidão e do silêncio. O lar passa a ser fugidio, e, de casa em casa, busca-se um lar, busca-se uma vida qualquer. Mas mesmo nas circunstâncias mais adversas (em especial a prisão), o personagem sente-se em casa, tem um lar, porque a sociedade pode lhe tirar tudo, menos uma coisa: sua liberdade.

De uma certa forma, Casa Vazia, como os demais filmes de Ki-Duk, fala sobre o paraíso perdido, ou ainda, como a sociedade ou as instituições apreendem a liberdade de ser do indivíduo. O que é comovente neste Casa Vazia é o minimalismo de Ki-Duk. Seus dois filmes anteriores – A Ilha e Primavera, Verão, Outono... – mostravam uma natureza exuberante em expansão. Neste Casa Vazia, reinam, desta vez, os interiores: é um filme de contenção. Um ponto em comum com seus filmes anteriores, no entanto, é como a violência acaba quebrando a harmonia de um estado de coisas. Os personagens são violentados, agredidos, quando vivem em sociedade, quando inevitavelmente entram em conflito.

Por isso, algumas vezes, Casa Vazia soa como um filme sobre um processo de resistência. Isso fica muito claro na cena da prisão em que, enquanto o guarda violenta o protagonista, ele encontra formas de resistir, de transcender à violência daquele mundo, até se tornar semi-invisível, imaterial, como a tradição das artes marciais japonesas.

Num falso final feliz, Ki-Duk opta pela ilusão do cinema, e desiste da violência inevitável do confronto, ou do ato de vingança. A ilusão, a morte, a loucura: os temas de sempre do cinema oriental. A miséria da condição humana. O retorno ao lar. A impossibilidade da imanência. A solução de Ki-Duk é sair do mundo das coisas (o peso zero): a transcendência pela via da não-agressão. O que pode parecer uma indiferença ou mesmo alienação na verdade é princípio de vida, sabedoria, filosofia. O cinema de Ki-Duk pode parecer muitas vezes ingênuo, estranho para os olhos orientais, mas sua beleza está na simplicidade, e na melancolia com que Ki-Duk acompanha a peregrinação de seus pobres personagens em sua passagem terrena: cheia de interstícios, de incompreensões e de um inexplicável sentimento de ausência. Doloroso, tenro e poético, este Casa Vazia, no belíssimo título em português, mostra a difícil tarefa do ser humano em existir e a ingrata tarefa do cinema em expressar os sentimentos daqueles que não o sabem fazê-lo. Um silêncio do eu.

No site www.curtaocurta.com.br é possível ver on line um de meus vídeos caseiros, o AUTO-RETRATO DO ARTISTA DURANTE A GESTAÇÃO. A seguir, é possível postar comentários. Vão abaixo os comentários do “público” sobre o filme...

 

 

j ShekspYre_design (jolrnascimento@click21.com.br)

 Se o objetivo era causar indignação...parabens conseguiu.

SUPORTEI só os primeiros 5 minutos...

 

Glauco Grucci Silva (glaucogrucci@hotmail.com)

 É pra se pensar (?) Onde isso nos leva? O que nasce depois disso?

 

Saulo

 Se a sua idéia era mostrar a rotina como sendo um fator irrevogável do ser humano, sendo artista ou não, poderia ter enxugado mais isso aí, ou mostrado de outra forma.

 

Marco

 e daí ??? 

 

mostrei o NATAL para minha família neste dia dos pais. Todos que participaram do NATAL estavam lá, em conjunto, vendo o filme, na mesma casa onde o filme se passou. Isto foi muito legal. As pessoas riram, se identificaram (evidentemente), se emocionaram, choraram. Todos gostaram muito. Disseram que, de um material absolutamente despretensioso, eu fiz um filme, coloquei um sentimento que pode ser comum a várias famílias, não só à nossa. Só então fiquei com a certeza de ter feito um trabalho digno, apesar de suas limitações. E com isso, já mais que justifica tê-lo feito, comprova - digamos - a suposta validade da sua existência.

Passou também O POSTO. A minha família gostou muito mais do NATAL do que de O POSTO, cuja reação foi morna. É curioso como as circunstâncias da exibição se refletem diretamente na recepção dos filmes.

mais um video caseiro

um filme abstrato (parte I).
Minidv, 2005, 9’

Mais um video caseiro pronto. Todo o processo, entre roteiro, filmagem e finalização durou três horas. Todo sem som. Aproveitei a presença da câmera do Guilherme para fazer alguma coisa, uma coisa mais “abstrata”, mais intuitiva, menos racional. Tipo um “brainstorm” de conceitos para serem melhor trabalhados posteriormente. Então uma idéia de uma série “um filme abstrato” com um monte de “brainstorms” para ser melhor avaliados posteriormente, sobre o que representam, sobre para onde caminhar, etc.

Esta “parte I” (espero que tenham outras...) é composta de quatro blocos: 1 – a casa; 2 – o mundo; 3 – as coisas; 4 – eu. Essa divisão em quatro partes diz tudo o que é possível dizer sobre este trabalho. Tbem enumera uma série de motivações dos meus vídeos caseiros: o eterno tema da casa, a solidão, uma estética materialista, um trabalho de estrutura, um trabalho pessoal mas sem psicologia. Um filme abstrato é um filme aberto, mais livre, sem o suposto peso de ter que ser um filme, de ter que dizer alguma coisa. Ele apenas enumera meu sentimento de cinema e de mundo, sem ter que necessariamente dizer, sem ter que expressar. Ele apenas diz, ele apenas expressa. Ou espero que o faça. Novidades: a explicitação do conteúdo religioso (que acho que sempre esteve de fundo em meus vídeos), e os desenhos, que são a parte que efetivamente mais gosto nesse trabalho. Vendo-o pronto, achei que ficou bem bizarro. Para mim, isso é um elogio. O que me perturba, vendo-o pronto, é que mesmo sendo um trabalho abstrato, é um filme bastante pessoal. Como isto é possível?

sexta-feira, agosto 12, 2005

Darabont

Pobre Frank Darabont!
Preso ao seu dever de ser fiel à longa tradição da filmografia americana, ao dever de consciência do American way of life
Ainda que seus trabalhos sejam em certa medida críticos a esse desejo de ascensão, essa “necessidade do dever” prende seu cinema, é um corrente que o impede de decolar
O esmero técnico, a fluência narrativa aos moldes clássicos, o desejo de um cinema reformista (daí conservador) alia Darabont a uma linhagem do cinema americano de Kazan e cia.
Méritos visíveis e problemas nítidos...Pobre Frank Darabont!

CARACA! MUITO FILME BOM EM CARTAZ!!! O CINÉFILO CARIOCA NÃO PODE RECLAMAR...

TROUBLE EVERY DAY, de Claire Denis
CASA VAZIA, de Kim Ki-Duk
LA NINA SANTA, de Lucrecia Martel
O CASTELO ANIMADO, de H. Miyakaki

quinta-feira, agosto 11, 2005

Cine Majestic

Cine Majestic
De Frank Darabont
DVD, qui 11 agosto 21hs
*

O cinema de Frank Darabont está repleto do mais típico cinema americano: assim o foi com seus dois filmes anteriores, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre. São dois filmes que fazem uma abordagem ligeiramente sombria sobre o tema da liberdade (ambos passados em prisões) e o preconceito contra o passado do indivíduo. Mas no final o bom e velho cinema americano triunfa, com a possibilidade do perdão e das boas intenções. Cine Majestic propõe uma revisitação ao cinema de Frank Capra, e não é raro lembrarmos de cenas de A Felicidade não se compra ou A mulher faz o homem. O homem comum novamente faz o papel de grande herói, de símbolo do desejo de reconstrução moral de uma nação, e o cinema de Frank Darabont o faz de forma cerimoniosa e que tende ao acadêmico, com um ritmo lento e monocórdico que faz seus filmes respirarem um convite a uma falsa e superficial reflexão, como os mais ambiciosos produtos do cinema dramático americano. Mas o grande ponto de interesse de Cine Majestic é como seu enredo se entrelaça de forma até certo ponto confusa e desparatada, lembrando os recursos de dramaturgia do cinema indiano: grandes períodos históricos, grande opulência de produção, grandes reviravoltas e descontinuidades narrativas. A trama é ambiciosa e tenta entrelaçar no mesmo filme três aspectos importantes da vida histórica americana: o fracasso do retorno dos filhos americanos da Guerra, o macartismo e a caça às bruxas, o fechamento dos cinemas de rua no interior americano. A citação a esses três temas torna a primeira metade de Cine Majestic melancólica e sombria como típico filme de Darabont. Mas então surge todo o esforço de reconstrução: o herói Luke, a liberdade da democracia participativa da cidadezinha do interior, a reinauguração do cinema. Mas a verdade volta, e a morte de Martin Landau, sugestivamente quando o personagem de Jim Carrey retoma a memória e o rolo do filme pára, traz um novo marco zero para o enredo, e em seu terço final, Cine Majestic se perde completamente, até o equivocadíssimo discurso do herói ante o Comitê. Mas mesmo em seus atropelos, Cine Majestic é comovente: sem contar com toda a exuberância técnica de uma grande produção americana, é nítido o esforço de desejo do diretor, é nítido por detrás do academicismo de vernil, seu desejo em denunciar e reformar uma sociedade americana de que ele nitidamente faz parte. Entre sua ambição e sua ingenuidade, Cine Majestic é mais um produto do cinema hollywoodiano que, apesar de irregular, mostra um estilo, um desejo, um olhar. Pouco, mas o suficiente para mostrar que Frank Darabont sempre tem algo a dizer, apesar de que, desta vez, seu olhar soe anacrônico e não raras vezes reacionário. Por fim, o tema da memória e da nova identidade faz os melhores momentos de Cine Majestic. A reinauguração do cinema tem seu charme; Jim Carrey se esforça no papel principal, mas o representa sem grande convicção, e a sua namoradinha não consegue escapar do desastre. O fato de ter misturado de forma atípica três grandes enredos e de tocar em algumas feridas não cicatrizadas da sociedade americana fez com que Cine Majestic fosse um fracasso de crítica e de público. Esperemos a próxima grande produção de Darabont, torcendo, é claro, para que tenha o tom sombrio e visionário de seus filmes anteriores.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Filmes de Julho

Recentes:
Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg ***
Exílios, de Tony Gatlif ***
Batman Begins, de Christopher Nolan *½


® Teorema, de Pier Paolo Pasolini ****
Tropas Estelares, de Paul Verhoeven ***
A Marquesa de O, de Eric Rohmer ***
® O Signo do Leão, de Eric Rohmer **½
33, de Kiko Goifman *
Brinquedo Proibido, de René Clement *
Prova de Amor, de David Gordon Green ½

Filme do Mês: TEOREMA, de Pier Paolo Pasolini ****

E-mail que enviei para a Distribuidora Playarte pq eles cagaram o lançamento do novo Miyazaki. Detalhe: vejam o nome do remetente..... o mais engraçado é que aprendi com "o filho do ministro" como mandar e-mails terroristas...

Nome: Hiroshi Teshigahara
Mensagem: Como apreciador do bom cinema, estou bastante indignado com o fato de o filme O CASTELO ANIMADO estar sendo lançado em todo o Rio de Janeiro apenas com cópias dubladas. Como membro da Comunidade Nipo-Brasileira, creio que a distribuidora Playarte desrespeitou o direito do espectador carioca em poder ouvir o idioma japonês, original do filme. Estou enviando um e-mail e uma correspondência para as associações nipônicas para que não se assista ao filme nessas condições. Diante disso, sugiro à distribuidora que no mercado de home video atente à questão do idioma.

domingo, agosto 07, 2005

Por que às vezes fico triste mesmo com as coisas indo bem:

- porque respiro
- porque minha casa está em obra
- porque nunca consigo pegar a câmera com o Guilherme
- porque não como quase (o “quase” me salvou...) ninguém
- porque meu trabalho é uma merda mesmo sendo bom
- porque nunca consigo me planejar tão bem como gostaria
- porque tenho uma porrada de complexos tolos
- porque muitas vezes sou mal compreendido
- porque penso, sinto, vivo, existo e pago contas, tudo ao mesmo tempo
- porque sou assim.

ditados

É dando...........................que se engravida.
Quem ri por último.............é retardado.
Alegria de pobre..................é impossível.
Quem com ferro fere...........não sabe como dói.
Sol e chuva.........................vou sair de guarda-chuva.
Em casa de ferreiro..............só tem ferro.
Devo, não pago....................nego enquanto puder.
Quem tem boca ........fala, quem tem condição vai a Roma.
Gato escaldado ....................morre.
Quem espera........................sempre cansa.
Quando um não quer..........o outro insiste.
Os últimos........................serão desclassificados.
Carro a álcool....................você ainda vai empurrar um.
Se Maomé não vai à montanha...então vai à praia.
Quem dá aos pobres...........cria o filho sozinha.
Depois da tempestade..........vem a gripe.
Devagar.............................nunca se chega.
Antes tarde ...................do que mais tarde...

Corações e Mentes

Corações e Mentes
De Peter Davis
Estação Paissandu dom 7 14:20
**

Um filme importante.
Parabéns ao Peter Davis e equipe por ter realizado um trabalho de denúncia das atrocidades cometidas pelo imperialismo americano.
Dito isto, bom, do que falávamos mesmo?

NATAL

Em geral para mim foi positivo o saldo da primeira exibição de NATAL. A sessão dos filmes no Ateliê foi muito ruim, e isso certamente influenciou na recepção do trabalho, mas ainda assim creio que esse trabalho passa uma certa verdade que parece irresistível. Algumas pessoas questionaram os pressupostos éticos do filme, em relação à exposição da intimidade da família, como pessoas grosseiras, ou ainda ridículas ou patéticas. Embora tenha uma ambigüidade, ainda assim acho que NATAL passa uma ternura em relação a essa intimidade, mas – claro – uma ternura que não vem a ser didática ou educativa. Quando ficamos pensando como seria um filme “sobre o natal de uma família” esperamos um trabalho sobre a união e sobre a felicidade quase mística do momento, o que definitivamente não é o caso desse trabalho. Ao final, ainda mais com a bastante severa conclusão, NATAL consegue estimular uma reflexão de temas mais amplos: sobre a necessidade e a dificuldade de estar juntos, sobre a dor da separação, sobre a inevitabilidade da solidão, sobre a utopia da permanência. O filme então passa a ter duas partes: a primeira, entre a ceia e a entrega dos presentes, em tom acelerado e despretensioso; a segunda, com a chegada do avô e o epílogo doloroso, com um discurso poético e cerimonioso. Essa quebra, para mim, está relacionada ao papel da voz off, recurso que sempre tive um grande receio em utiliza-lo, mas que aqui se fez necessário. A parte do avô foi uma experiência, porque fica no limite entre o poético e o piegas. É um recurso de extrema economia, que lembra Entremeio, e os recursos de um cinema espiritual que me agrada. O doloroso epílogo insere toda uma problemática em relação às despretensiosas cenas do início do filme. Só então o filme se assume menos um registro de uma família e mais uma reavaliação da importância da união, da importância da família. NATAL é também, evidentemente, um filme caseiro, isto é, feito para ser um filme mudo, ou ainda um registro como os Super8 da década de 60. É também um filme infantil (o ronco, o diálogo com o avô): gosto muito do fato de NATAL poder ser visto como um filme infantil. Se a imagem é acelerada, o som não o é: as interações entre som e imagem fazem de NATAL um trabalho criativo de linguagem: se víssemos só as imagens não teríamos o filme, ou seja, todo o filme se resolve no som. Os mesmos temas de sempre também foram vistos de um novo prisma de linguagem: o aceleramento, a ausência das câmeras paradas, o zoom e o foco, a presença das pessoas, a construção entre o documentário e a ficção. Mas sem dúvida a parte final do filme (avô + epílogo) transforma NATAL em um trabalho pessoal em continuidade com os temas de meus outros vídeos, acrescentando algumas coisas novas, o que por si só já justificaria a coerência da realização desse trabalho. Por fim, creio que NATAL é um filme oriental (daí minha ironia em dizer que ele não é um “produto brasileiro”, brincando com a coisa do CPB): os dois planos do Ryukai com um pano de fundo de musiquinha de natal com batucada (que me agradam muitíssimo) não deixam dúvidas de que se trata de um trabalho muito mais de continuidade do que de ruptura, até porque, ao final, a melancolia, a reflexão, a ambigüidade, o desacerto acabam predominando sobre qualquer possibilidade de NATAL ser visto como um filme trash ou como mera exposição exploratória e oportunista de uma família. Que venha o próximo, que provavelmente será um “filme abstrato”. Aguardemos!!!

segunda-feira, agosto 01, 2005

Casulo Filmes

Atualização de minha filmografia
Parece uma “punhetação” sem tamanho, mas é que é pra eu mesmo não esquecer...
2005 já teve um longa e um curta em película...


Depois da Noite (1999, VHS, 18´)
(-)Na Lata (2000, VHS, 1´)
Casulo (2000, VHS, 8´)
(-)Folhas Secas (2001, Digi8, 6´)
(-)Rio (2001, Digi8, 6´)
Entremeio (2002, Digi8, 12´)
Alvorecer (2002, MiniDV, 8´)
Spencer, Ontem, Hoje e Sempre (2003, MiniDV, 10´)
Tesouro do Samba (2004, Digi8/MiniDV, 40´/20´)
Canção de Amor (2004, MiniDV, 10´)
Cinediário (2004, MiniDV, 22´)
Auto-Retrato do Artista Durante a Gestação (2005, MiniDV, 15´)
O POSTO (2005, 16mm, 15´)
EM CASA (2005, MiniDV, 78´)
Natal (2005, MiniDV, 15´)

(-) vídeos que nem considero na minha filmografia, mas que enfim os fiz...rs

mais um video esquisito

NATAL (2005, MiniDV, 15´)

Ficou pronto mais um video caseiro: NATAL (foi o título possível). Na verdade, trata-se de uma carinhosa revisitação aos espetaculares filmes de Jonas Mekas, à questão se ainda é possível um olhar inocente num mundo cada vez mais tão clichezado e vulgarizado, se é possível ter um frescor de olhar no cinema, olhar pela primeira vez, e isso torna-se possível para Mekas dialogando com o cinema dos Irmãos Lumière. Ou seja, NATAL é um registro do natal com minha família absolutamente caseiro mas ao mesmo tempo é uma espécie de pequena reflexão sobre a importância da família, a afetividade da câmera em relação ao objeto filmado, da rotina, dos pequenos momentos. É tbem um prosseguimento de algumas questões do AUTO-RETRATO: a exposição pessoal, a autocrítica, o humor naive, o processo de criação que se passa por um aprofundamento do cotidiano. Mas agora é um documentário, agora há as pessoas. Esse é o desafio do novo. A presença da música, a estrutura em blocos fragmentados, o plano seqüência, o corte seco e abrupto de som, o epílogo severo, vêm tbem do Auto-Retrato. Mas é um trabalho afetuoso, ou pelo menos eu quis que o fosse. Ah como lição primeira dos filmes de Mekas, NATAL é um filme infantil, evidentemente, até porque só as crianças se interessam pelo Natal. Por isso em um momento o filme se aproxima do piegas, eu quis testar isso, talvez pelo impacto de NINGUÉM PODE SABER, com a musiquinha no final com as crianças caminhando pela ponte, completamente piegas e completamente humana. As quebras de ritmo desse filme me fazem ficar um pouco confuso sobre sua consistência, mas a idéia foi exatamente essa: NATAL é um trabalho bastante despretensioso, e tenho a mais absoluta convicção de que ninguém vai entender muito bem, e que até os fãs do meu trabalho podem se desapontar. Exercício ligeiro, espécie de preparação para outras coisas que podem estar a vir. Vamos ver a reação (de horror) das pessoas na sexta no Ateliê.

CAMELOS NÃO CHORAM

CAMELOS NÃO CHORAM
De ? e ?
Espaço Unibanco 3 sábado 15:30
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Fatores extracinematográficos me fizeram ver esse Camelos Também Choram. Fui sem esperar grande coisa, e talvez até por isso o trabalho tenha me surpreendido. Um cinema de registro que dá espaço para a ação, embora com um excesso de dramatização que não raramente me incomodou. Com poucas palavras, o cotidiano da família mongol e sua relação terna com os camelos vai sendo construído, uma relação de tempo e espaço são criadas a partir dos recursos mais simples do cinema, com uma economia singular. Lá pela metade acabamos percebendo que o filme surpreendentemente passa a ser sobre “o tempo do perdão”, sobre a necessidade do afeto e do perdão, e a forma como o diretor usa a natureza para expressar isso é bastante adequada. Virtudes na encenação mas com o tempo o filme desaparece das nossas mentes. Meio cara de cinema iraniano da vertente mais simples.

TOP FIVE ROHMER

1 – Pauline na Praia

2 – Minha Noite com Ela

3 – A Mulher do Aviador

4 – A Marquesa de O

5 – Conto de Verao