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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sexta-feira, setembro 30, 2005

(FESTRIO) A Morte do Sr. Lazaresco

A Morte do Sr. Lazaresco
De Cristi Puiu
Espaço Unibanco 2 qui 29 19:15
***

Esse filme romeno, laureado com o Camera d´Or no Festival de Cannes (prêmio para filmes de estreantes), impressiona pela ousadia e radicalidade de seu projeto. O Sr. Lazaresco, viúvo, cerca de 60 anos, começa a passar mal em sua casa, pede a ajuda dos vizinhos, vai piorando, até chegar finalmente uma ambulância que o leva de hospital a hospital, até a sua morte, já anunciada desde o título do filme. Filmado com uma linguagem que simula um documentário do cinema direto (isto é, um cinema do registro, sem a interferência do realizador), por trás de sua simplicidade estilística, A Morte do Sr. Larazesco esconde um trabalho de construção bastante detalhista e sutil, especialmente nas cenas do hospital. Com isso, o filme adquire um regime de urgência que torna o material vivo e pulsante.

Mas o que torna Lazaresco um trabalho impressionante é sua precisão cirúrgica, seu cinema impiedosamente descritivo: o que poderia ser um exame social das precárias condições dos hospitais de um país do terceiro mundo (como por exemplo o início de As Invasões Bárbaras) ganha uma outra dimensão. Por trás do estilo pseudo-documental de grande objetividade, Puiu faz um pequeno inventário sobre a impotência da condição humana, narrando uma odisséia, uma luta infindável contra o fim inescapável da espécie humana: a morte. Puiu o faz com um cinema que valoriza o tempo e os pequenos momentos rotineiros da espera (todo o filme se passa numa única noite, em tempo contínuo), mas, por trás do tom seco e descritivo, apresenta um certo humor sarcástico (já presente na música dos créditos iniciais e finais), que atenua o que poderia ser um dramalhão ao estilo de Óleo de Lorenzo, e apresenta uma visão do ser humano carcaterítica dos sinistros povos da Europa Oriental: a aventura de viver do Sr. Lazaresco, apesar de trágica, no fundo no fundo se revela extremamente inútil e patética. Aqui, não há possibilidade de transcendência ou religiosidade: os últimos momentos do Sr. Lazaresco não possuem a “agonia moral” e os devaneios existenciais de um Morte em Veneza. Há apenas a morte. E a solidão, é claro.

Café Lumière

Café Lumière
De Hou Hsiao-Hsien
Estação Botafogo qua 28 21:30
****

Café Lumière é completamente diferente do cinema de Hsiao-Hsien, já que, aqui, há o compromisso de emular a estética de Yasujiro Ozu, homenageado explícito do filme.”
Jaime Biaggio, blog do bonequinho do O Globo

Começo falando sobre Café Lumière pegando a frase do crítico Jaime Biaggio, pois se Café Lumière é exatamente isso (uma grande homenagem ao centenário de nascimento do Mestre Yasujiro Ozu) nada poderia ser mais distante dos objetivos de Hsiao-Hsien. Isto porque o filme, em primeiro lugar, acaba sendo uma reflexão profunda sobre o significado de uma homenagem, ou ainda, sobre o que representa fazer um filme “em referência de outro”, termo que expressa uma auto-referencialidade cada vez mais em moda nos meios cinéfilos. Se Ozu é de fato o “homenageado explícito do filme” (como é infeliz o termo “explícito”!...), Café Lumière sobrevive tranquilamente mesmo para o espectador que nunca ouviu falar quem seja Ozu, simplesmente porque se Hsiao-Hsien simplesmente “emulasse uma estética” ele nunca estaria realizando uma homenagem verdadeira a Ozu. Claro, porque o cinema de Ozu nunca foi devoto a “emulações”, bajulações ou adornos estéticos: seu cinema, ao contrário, se reduz ao essencial, ao mesmo tema de sempre: a complexidade e a poesia simples da vida comum de cada dia e as transformações da família e da sociedade japonesas. A sabedoria de HH é exatamente essa: saber que a única homenagem possível a Ozu seria através de um filme que nunca tentasse “emular uma estética” mas que simplesmente buscasse, a partir de referências temáticas e estéticas, dialogar com o cinema de Ozu, trilhando os caminhos possíveis do cinema oriental de hoje e da sociedade e da família japonesas de hoje.

Através desse diálogo, entre o cinema “de estúdio” de Ozu de ontem e o cinema “de arte” de Hsiao-Hsien de hoje, o diretor acabou realizando uma metalinguagem sobre o conflito entre tradição e modernidade, típico do cinema de Ozu. Se antes era a sociedade japonesa pós-segunda guerra na sua reconstrução econômica que flerta com o capitalismo norte-americano, hoje é o Japão de um mundo globalizado pós-guerra fria, entre uma crise mundial de emprego e entre um cinema que cada vez mais comprova que precisa largar seus artifícios formalistas para se dedicar às necessidades de aproximação entre os indivíduos.

Mas, antes disso, Café Lumière é um filme sobre o tempo da vida, sobre a duração das coisas, e sobre uma idéia de rotina. É um filme que tenta conduzir uma idéia de cinema que abandone meramente um sentido funcional (leia-se narrativo, causal, impositivo) para buscar um cinema que de forma orgânica busque uma possibilidade de “viver com os personagens”, e não “viver dos personagens”. Ou melhor, mais que “ser personagens”, eles simplesmente são. Com isso, Hsiao-Hsien busca um cinema puro, um cinema que não precisa “ter que dizer alguma coisa” mas que simplesmente diz.

Um rapaz tem um livraria e nas horas vagas grava sons de trens, simplesmente porque tem uma curiosidade. Uma menina, artista gráfica, pesquisa o que sobrou de antigos cafés em mapas antigos da cidade. Ela conta aos pais que ficou grávida, e quer ser mãe solteira (se isso no Brasil de hoje já é difícil, imagine no Japão, em que a “família” ganha um outro sentido...). Um pai bebe saquê, vê beisebol na TV e fala “hmmm”. Uma mãe cuida da casa e faz as comidas mais deliciosas para sua filha.

Cada um faz o que acha conveniente para si, mas com um profundo respeito pelo outro. Cada um no seu lugar, mas ao mesmo tempo, cada um em sintonia com o outro. Nisso, o trem passa, as estações do ano passam, as pessoas envelhecem, as coisas mudam um pouco, ainda que lentamente.

Esse é o cinema de Hsiao-Hsien em Café Lumière. Um filme atípico do diretor, que em geral busca um cinema de linguagem expressivo, com uma atmosfera asfixiante e soturna (Milenium Mambo e Flores de Shangai, pelo menos assim o eram). Mas nesse filme não: qualquer possibilidade de esteticismo sucumbe a um desejo de um abraço carinhoso e de um resgate ao verdadeiro cinema de Ozu, sem desprezar o papel do tempo e a inutilidade de simplesmente “emular uma estética”. Um filme em que a mise-en-scene existe (é um filme de construção, embora sutil) mas não para que “dissimule” uma realidade, e sim para que seja. E mais: um trabalho sobre a possibilidade de viver, com respeito e dignidade. O “Lumière” do título acaba despertando a possibilidade de mais uma referência: a de que o cinema, para sobreviver, precise reaprender as lições do seu berço uterino.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O que dizer?

Crise criativa

O que escrever sobre:

O Mundo, de Jia ZhengKe ***
Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira ***
The Wayward Cloud, de Tsai Ming-Liang ***
Café Lumière, de Hou Hsiao-Hsien ***

Não tenho o que escrever. Na boa. Papel em branco.

(FESTRIO) Uma Escola Muito Especial

Uma Escola Muito Especial
De Yoji Yamada
MAM, sab 24 set 16:45
0

Fui ao MAM para ver o Kinoshita, mas como não tinha chegado e eu estava acompanhado, resolvemos ficar para não perder a viagem. Mas ao final ficou a sensação de que era melhor perder a viagem do que o nosso tempo, porque Uma Escola Especial é o tipo de filme da sessão da tarde que não dá pra ver nem que nos pague. E isso é triste porque o cinema de Yamada é bem intencionado, e tbem porque ele é um realizador veterano do cinema japonês que merece o nosso respeito. Mas esse filme é risível, há muito tempo não via um filme tão constrangedor. É o cinema clássico, televisivo, em sua vertente mais absurdamente caquética, burocrática e cheia de sentimentos nobres e imbecis. O filme é uma espécie de escolinha do professor raimundo piorado. Um professor e seus cinco ou seis alunos. Aí o filme em flashback conta a história de cada um, histórias absolutamente chatas, aborrecidas, pouco inspiradas e imbecis. Ao final, há um discurso patético sobre a felicidade e como o professor tbem aprende com os alunos, então aquela foi uma aula memorável, para não ser mais esquecida (e vem o título em inglês “a class to remember”). Lamentável! Tudo o que o cinema não deve ser está lá. É bem intencionado mas muito, muito ruim.

(FESTRIO) Election

Election
De Johnnie To
Estação Ipanema 2 seg 26 22hs
***

Elecion, de Johnnie To, é um filme comercial de Hong Kong que mostra a máfia dos traficantes de droga e seus códigos de conduta. Falando assim, o leitor pode pensar de que se trata de um telefilme daqueles que passam na Band no domingo à noite. Não deixa de ser, mas por outro lado é extremamente cinematográfico e muito bem realizado. Além de todo o talento de Johnnie To na parte da artesania do filme, com soluções econômicas mas bastante precisas (o filme tem carrinho e gruas quando precisa ter, tem câmera parada quando precisa ter, etc, etc), Election vai bem além disso, apesar das intenções do filme serem modestas. Isso porque é como se, no fundo, o objetivo do artesão To fosse traduzir as tradições dos antigos “filmes de samurai” para o tempo contemporâneo. Os gangsters de Election vivem uma guerra de samurais: tudo o que vale para eles é a manutenção dos seus códigos de conduta e de sua dignidade pessoal. Os dois membros da máfia que lutam para obter o bastão que representa a liderança do grupo (a luta feroz pelo tão simples bastão lembra a referência da “ilusão do poder” de Relíquia Macabra) têm estilos extremamente opostos: um representa a racionalidade, a harmonia e o equilíbrio (yin), o outro, o instinto, a explosão de energia, a violência dominadora (o yang). Johnnie To retrata esse conflito com uma postura fria, mas extremamente sábia e observadora, valorizando em muito o trabalho dos atores e a individualidade (os conflitos psicológicos) de cada um. Com isso, o que é raro, cria um filme de ação em que os personagens ganham vida. Mas o estilo de To é descritivo, sóbrio, é o da invisibilidade da autoria típica do cinema clássico de gênero. Razão ou instinto, tradição ou modernidade, dignidade moral do grupo ou desejo de ascensão pessoal, conflito de temas típicos do cinema oriental, são trabalhados por To com momentos de verdadeira ambigüidade e complexidade. Tudo isso por trás de um cinema de profunda transparência. Ao mesmo tempo, uma ingenuidade, uma devoção e um profundo carinho com que To abençoa as deficiências, as teimosias de seus personagens e especialmente como a direção respeita as suas limitações. Ainda mais: ao final, o que poderia ser um conto moral sobre a necessidade de união e a possibilidade da harmonia e do equilíbrio de forças acaba tendo uma conclusão austera, que problematiza de forma dolorosa toda a sua construção, evitando a “moral da história”. Um final doloroso, amargo mas necessário que revela que o artesão To, por trás de seu cinema simples e cheio de convenções, faz pulsar um profundo desejo, sombrio e urgente, pela natureza do ser humano. Um trabalho para ser visto e apreciado com mais atenção.

(FESTRIO) Batalha no Céu

Batalha no Céu
De Carlos Reygadas
Espaço Unibanco 2, sex 23 setembro
***

Após a repercussão de sua obra-prima de estréia, Japón, o segundo longa metragem do mexicano Carlos Reygadas é um trabalho em continuação com os principais temas de seu primeiro filme. A principal diferença é que enquanto Japón trabalha no universo de um pequeno vilarejo do interior, Batalha no Céu se passa na metrópole urbana. Mas o cinema de Reygadas usa o espaço como possibilidade de aprisionamento e ao mesmo tempo de imersão para seus personagens. O grande tema do cinema de Reygadas parece ser o questionamento de uma noção de beleza. O belo e o grotesco cruzam o cinema de Reygadas, mas ainda assim o diretor, de forma ambígua, busca apreender um certo sentido espiritual que escapa a seus personagens. Com isso, o diretor acaba povoando a tela de símbolos que nos remetem às origens étnicas do povo mexicano, com fortes ressonâncias míticas, poéticas e religiosas. Seu cinema, no entanto, escapa aos padrões de um “cinema de poesia”: é um cinema cru, duro, austero, muitas vezes provocativo, de difícil digestão, mas antes de tudo, trata-se de uma experiência, que o espectador leva consigo ao final da projeção. Sua missão é promover uma espécie de ascese, mas sempre pontuando os obstáculos, os sacrifícios e a asfixiante tarefa de viver. A contrapartida moral dos personagens de Reygadas, em busca da morte ou torturados por um grande complexo de culpa, é pontuada por um lado por um cinema suntuoso, em termos dos elementos de linguagem, com uma valorização do tempo e um trabalho de câmera que valoriza as gruas e os carrinhos; por outro, por um cinema cru, sujo, instintivo. Nesse equilíbrio precário, entre o belo e o grotesco, Reygadas faz um filme desesperado, uma jornada trágica e profundamente espiritual. Se Reygadas em Batalha no Céu mostra um caminho de continuidade em relação a Japón, por outro lado também mostra alguns sinais de desgaste dessa estilística. As principais virtudes e os principais defeitos de Japón também se encontram nesse trabalho, de modo que, ao seu final, Batalha no Céu confirma o talento de Reygadas mas por outro lado avança pouco em relação ao que já foi apresentado em seu filme anterior. Como segundo filme convence, especialmente por ter uma atmosfera e um clima extremamente particulares, pelo aspecto sombrio e perturbador da obra, mas deixa o espectador esperando pelo terceiro filme para confirmar se Reygadas ainda tem o que dizer ou se sua obra caminha para uma diluição típica da “síndrome do primeiro filme”.

(FEST RIO) O Perfume do Incenso, de K. Kinoshita

Kinoshita, artesão

O Perfume do Incenso
De Keisuke Kinoshita
Estação Botafogo 3 qua 28 20hs
**

O cinema de Kinoshita é repleto dos signos do cinema clássico: o domínio da mise-en-scene, a transparência da narrativa e dos sentimentos morais dos personagens, as convenções de um cinema de gênero. O obediente Kinoshita, que conseguiu realizar seu grande sonho de realizar um filme (escapando de seu ofício de assistente de fotografia), está dedicado a seguir a grande tradição das artes japonesas, dedicando-se fielmente a aperfeiçoar as ferramentas expressivas de seu ofício: é um simples artesão devoto às tradições do cinema japonês. No entanto, esse típico oriental desfolha, um a uma, os elementos de cinema com grande maturidade e sabedoria: sem pressa, delicadamente, como lhe parece ser possível.

Em O Perfume do Incenso, durante suas mais de três horas de projeção, o espectador é projetado para uma atmosfera de um romance quase épico, em que várias gerações, épocas de um Japão histórico e famílias se cruzam para contar a história de um mulher solitária condenada por seu destino. Sua luta pela dignidade é a luta de um Japão, e parece representar o cinema devoto de Kinoshita. Fiel a seus princípios, o cinema de Kinoshita abençoa os passos dessa mulher com uma intimidade e um frio distanciamento tipicamente oriental. Mas o que mais nos emociona em O Perfume do Incenso é a descrição da vida que um mulher proibida de amar pelo destino. Ou melhor, mostra a luta de uma mulher pela possibilidade de preservar sua dignidade moral, ainda que a vida a impeça de amar. De um lado, sua egoísta mãe; de outro, seu amante distante, pelas obrigações da sociedade e da profissão. O destino é a solidão. Filmado com grande elegância formal, com planos com grande profundidade de foco e notável domínio do enquadramento em cinemascope, ainda que entremeado de alguns movimentos de zoom que hoje parecem datados, O Perfume do Incenso é um melodrama feminino delicado e ligeiramente frio, conservador, resignado ante as convenções da sociedade e do destino, cujo grande projeto é a manutenção da tradição da família japonesa. Ainda assim, seu clima de melancolia, sua elegância formal, a harmonia e o equilíbrio da mise-en-scene de Kinoshita resgata a força interior e o interesse por esse ainda pouco visto realizador japonês.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Carreiras

Carreiras
de Domingos Oliveira
Odeon qua 28 12:00
**

Em primeiro lugar, digo que não gosto do cinema de Domingos Oliveira, mas respeito o seu trabalho como criador e gosto eventualmente de um ou outro filme. Não gosto de seu cinema mas me encanto por seus filmes. Por trás das imperfeições desse cinema, há um desejo que pulsa, e eu respeito isso. Ainda assim, e aqui nesse caso talvez Carreiras se encaixe à perfeição, o cinema pouco importa, ou melhor, importa menos que a vida, importa menos que os personagens. Ou ainda, aqui uma única personagem, a jornalista representada por Priscila Rozembaum. Amargo, doloroso, o próprio título denuncia a ambigüidade de sua proposta: “carreiras” pode se vincular tanto à carreira profissional quanto às fileiras de cocaína fartamente sorvidas pela protagonista. O filme é um espelho profundo de uma crise, é uma das mais desesperadas tentativas de verbalizar um descontentamento, da forma como for, ainda que seja apelando, descabelando-se, gritando, ainda que sem um mínimo de elegância (parece que não é mais possível ser elegante): é preciso antes de mais nada “botar para fora” esse descontentamento. Descontentamento com um Brasil, com o ser humano (ou ainda, com a ilusão de poder das pessoas), com o cinema brasileiro, consigo mesmo... Carreiras é um desabafo sobre a angústia de viver, sobre o desafio constante de permanecer vivo, de se motivar para fazer alguma coisa. E ainda mais no Brasil. E ainda mais no cinema brasileiro. Então que vi a jornalista de Priscila Rozembaum como um espelho do cineasta no cinema brasileiro. O filme tbem me agrada em como trata a ilusão de poder, a necessidade do reconhecimento, como isso é doloroso e necessário, e nisso o filme bateu profundamente em mim neste momento. O final ambíguo, que me pareceu um falso final feliz, coloca em evidência todas essas cicatrizes mal urdidas, toda a “hipocrisia nossa de cada dia”, um retrato cínico dessa espécie de “seleção natural”. Ao final, sobra a solidão, fica na nossa cabeça os momentos de desespero e de entrega de uma atriz a um papel (Carreiras é tbem uma declaração de amor a uma atriz), fica a profunda tristeza dessa necessidade de sobreviver na selva humana em que temos que ser “alguém”, fica uma reflexão de qual é o papel da nossa profissão na nossa vida pessoal. Mas de tudo o que não fica é o cinema, que passa ao largo desse último trabalho de Domingos Oliveira.

Qu´est-ce que le cinema?

Qu´est-ce que le cinema?
(Fest Rio: um prólogo doloroso mas necessário)

Estou numa fase da vida e no meio deste caótico Festival do Rio que me encontro totalmente perdido. Quanto mais filmes eu vejo menos tenho alguma compreensão do que seja o cinema. E não falo para fazer pose. Atualmente consigo entender muito menos dos filmes do que entendia há, sei lá, cinco anos atrás. Mas hoje tenho um profundo respeito pela diferença: num dia vejo o filme comercial de máfia japonesa de Johnnie To, no outro, a comédia romântica sarcástica e profundamente melancólica de Tsai Ming-Liang, depois, a homenagem ao Ozu em Café Lumière, onde não acontece nada. Em seguida, a cusparada verborrágica, a desesperada declaração de princípio de Domingos Oliveira. Antes, a epopéia religiosa e quase fanática de Reygadas. Entre eles, a sabedoria da sobriedade franciscana de Manoel de Oliveira. Cada um buscando o seu cinema, o seu modo de exprimir e de viver particulares. Tentando, errando, conseguindo, buscando. Então respeito, cada vez mais respeito, mas cada vez menos entendo, cada vez mais fico perturbado com minha ignorância, e de fato não sei o que fazer. Hoje, o meu desejo mais verdadeiro seria tirar férias do cinema de pelo menos 2 meses, sem ver uma única imagem, um único frame. Ou então ficar um tempo só revendo os clássicos, revendo os filmes de Antonioni, Tarkovsky, Bergman, John Ford, Renoir, etc, etc, esses filmes que já vi há algum tempo e tenho uma memória nebulosa. Mas sei que não seria possível manter essa promessa, então declino dela. O cinema hoje me angustia, me tortura: é com enorme esforço físico e psicológico que acompanho “as aventuras de um personagem em tentar viver”, ou ainda, “a aventura de um diretor poder se expressar”. Para mim cada vez mais assistir a um filme se revela um processo difícil: cansativo, traumático, perturbador e – o que é mais cruel – ao final das contas, muitas vezes ininteligível.

Festival do Rio 2005

Festival do Rio 2005

Três Extremos, de Fruit Chan, Park Chan Wook e Takashi Miike *
Batalha no céu, de Carlos Reygadas ***
A última transa do presidente, de Sang-Soo *
O Mundo, de Jia ZhengKe ***
Uma escola muito especial, de Yoji Tamada 0
Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira ***
Sex and philosophy, de Mohsen Makhmalbaff **
A Máquina, de João Falcão **½
Election, de Johnnie To ***
The Wayward Cloud, de Tsai Ming-Liang ***
Café Lumière, de Hou Hsiao-Hsien ***


Sex and philosophy
de Mohsen Makhmalbaff
São Luiz 3 dom 25 21:30
**

O fato lamentável foi ter que assistir a esse filme na sala lotada do São Luiz. O público do São Luiz não merece ver cinema, até parece que eles entraram na sala errada, já que na sala ao lado do filme iraniano do Makhmalbaff estava O Virgem de 40 anos. As pessoas riram durante o filme em cenas de dança e cerca de 30 pessoas foram embora antes de o filme acabar. Fora os cochichos, as gracinhas, enfim...

Mas vamos ao filme. Sex and philosophy é um filme atípico de Makhmalbaff porque foge tanto dos estereótipos da vertente “neo-realista” do cinema iraniano quanto da vertente “auto-reflexiva” cujo próprio diretor é um dos expoentes (Um Instante de Inocência, Salve o Cinema). Um filme muito simples, é uma tentativa de realizar um cinema de poesia (o protagonista, que narra a história, é um poeta), ingênuo, romântico, e que traz para a linguagem a tentativa de construção de um cinema que traduza um frescor, um desejo para a vida. Os primeiros quinze minutos são antológicos: um motorista de táxi convida quatro mulheres para chegarem no mesmo horário na escola de dança. Esse chamamento assume um tom exótico e místico que nos associa aos trabalhos de Paradjanov: a questão do olhar, a chave dentro da árvore, a voz off, as cores da cenografia, tudo compõe um cinema de linguagem altamente inventivo. Ao longo do filme, no entanto, quando seu entrecho se estabelece, Sex and Philosophy cai em algumas soluções óbvias, ou com efeitos que acabam não se realizando que faz o filme perder sua força, tornando-se na verdade um trabalho bastante irregular, mas que seduz em sua tentativa de promover um cinema dos sentidos e de escapar do cinema de sempre iraniano. Alguns belos planos e seqüências acabam ficando em nossa mente; outros momentos se tornam quase risíveis. Mas Makhmalbaff não tem medo de errar, e em sua sinceridade, em sua honestidade, e no seu desejo romântico de que a vida seja um tórrido e (por definição) incompleto caso de amor, Sex and Philosophy comprova uma espécie de entremeio na filmografia do diretor, bastante salutar. Por fim, a se destacar, a ousadia do tema do sexo e do corpo e do papel feminino na rígida sociedade iraniana.


A última transa do presidente
de Im Sang-Soo
Estação Ipanema sex 23 20hs
*

Exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2005, este filme se baseia no assassinato do presidente da Coréia do Sul para fazer quase que um pastelão, uma falsa crônica de costumes que denuncia a futilidade das elites e das autoridades sul-coreanas. Por isso, espanta a ousadia do tratamento, e o tom dado pelo diretor Sang-Soo: o da comédia de equívocos. Com um pitada forte de humor negro, A Última Transa do Presidente nitidamente falseia o documental: o filme torna-se mais uma paródia dos acontecimentos do que propriamente um olhar sobre o ocorrido. No entanto, o filme perde a sua força por adotar a estrutura de um thriller americano, tornando seu argumento muito mais instigante do que a realização em si, repleta de clichês e sem muita inspiração. Com isso, acaba se tornando óbvio e redundante no seu terço final. Os personagens acabam virando estereótipos sem um perfil individual próprio, reduzindo o interesse em torno dessas personalidades e das pessoas em seu “entorno”. Por isso, se não soubéssemos de que se trata de uma paródia de um caso real, A última transa do presidente seria uma espécie de telefilme de ação, um pouco melhor realizado. O que comprova por si só que o desejo de cinema passam por longe do cinema de Sang-Soo, que nesse caso se ancorou apenas no escândalo e se esqeuceu do cinema.


A Máquina
de João Falcão
Odeon seg 26 setembro 12:00
**½

Uma bela surpresa. A Máquina vem comprovando os novos rumos da Diler Produções. Consciente de que o poço do sucesso fácil, dos filmes da Xuxa, Trapalhões e Padre Marcelo Rossi está quase secando, Diler está tentando diversificar a cartela da sua produtora, aproveitando uma safra de vacas magras e sua habilidade como produtor para levantar recursos pelas leis de incentivo. A Máquina, filme de estréia de João Falcão, é o projeto ideal dessa nova fase da Diler, e na verdade espelha toda uma tentativa de um cinema brasileiro: uma ponte hábil entre o cinema popular (ou ainda, o cinema de produção, o apoio da Globo Filmes, etc.) com um cinema mais autoral (ou ainda, o cinema de linguagem, o cinema anti-televisivo). Pois A Máquina consegue, e mesmo ancorado numa proposta de cinema popular, nunca abandona um desejo intenso pela linguagem e uma vontade doida de filmar na corda-bamba, de utilizar os recursos do cinema. Daí que sua referência primeira vem dos filmes de Guel Arraes, e se torna quase improvável ver A Máquina sem nos remeter a Lisbela e o Prisioneiro: o discurso verbal e a atenção para a fala, para a oralidade como recurso expressivo; as mudanças de tom que dialogam com os diversos gêneros dentro do mesmo filme (o romance, a comédia, o dramalhão, o musical), ou ainda a tentativa de se fazer um filme tanto para o público masculino quando feminino; o cinema de montagem frenético e a intertextualidade (o videoclipe dentro do filme, a reportagem de televisão dentro do filme). A Máquina consegue, de forma simples, fazer uma ponte entre o cinema regional e o universal, como o cinema brasileiro muito tenta mas pouco consegue: o humilde morador de Nordestina (Gustavo Falcão) quer ir para a cidade grande com o único objetivo de trazer o mundo para sua amada (Mariana Ximenes). É através desse desejo louco de conquistar o mundo apenas para ter o seu amor que o filme se equilibra entre o delírio e a paixão, entre o cinema e o mercado. Impressiona também a habilidade do estreante João Falcão de promover mudanças de ritmo e tom ao filme, e ainda de filmar com um vigor de linguagem que nos passa a impressão de que o filme está sempre na corda-bamba, como se o diretor quisesse testar o tempo todo sua própria capacidade de inventar um fabulário que se confundisse com a própria essência do cinema. A história assume-se como um faz-de-contas, já que é narrada por um contador de histórias, que se revela ao final seu próprio protagonista: ficção e realidade, absurdo e realismo, ou seja, cinema e vida. Emocionante (a cena do primeiro beijo entre o casal principal é uma das mais acertadas cenas de amor dos últimos anos do cinema brasileiro) e ousado (como lhe é possível), A Máquina, além de despertar um cineasta promissor, prenuncia que o cinema de produção brasileiro (a Diler) também pode gerar bons frutos se apoiado numa proposta de um cinema moderno e de talento. Que sirva de inspiração para outros cineastas e produtores.

segunda-feira, setembro 26, 2005

O colibri sibila por trás das palmeiras
A chuva molha o contorno dos umbrais
Onde estará a lágrima que jorra dos cílios da noite?

sexta-feira, setembro 23, 2005

FESTIVAL DO RIO 2005 !!!

Hoje começa o Festival do Rio 2005. Esse festival que ... CENSURADO Mas temos que aproveitar o que nos pode ser útil: os filmes. Esse texto, que escrevi em 2002, sinaliza muito do que acho hoje do que seja o Festival do Rio, sempre acho bom começar por esse texto, embora – graças a Deus – hoje estou muito menos paranóico que há três anos. Gosto muito do último parágrafo do texto, talvez tenha postado o texto só por ele.

* * *

Festival do Rio

Quando afinal são divulgadas a relação de horários e a lista dos filmes a serem exibidos no Festival do Rio, a reação é um misto de encanto e desespero. Sim, porque ao mesmo tempo em que surge a oportunidade de conhecer um conjunto de filmes que prosseguirá conosco, surge também o dever paranóico de encaixar todos os horários dos filmes, além das nossas tantas outras tarefas mundanas. É aquele filme tailandês imperdível que só irá passar durante a semana ao meio-dia, são todos os outros eventos culturais que deixam de ser vistos, é aquela consulta que você esperava há dois meses e que agora vai ter que cancelar. À medida em que folheamos a programação, um arrepio de alma se prolonga. Às vezes, chegamos até a torcer para que aquele filme imperdível NÃO seja exibido, para que tenhamos algum tempo livre nessas duas semanas de festival. Mas, para nossa sorte, ele passa. Para nossa sorte e nossa angústia.

Só algum tempo acompanhando o Festival é que adquirimos alguma idéia de buscar um equilíbrio entre marcar ou não marcar. Isto é, de definir quais filmes serão vistos e quais deixarão de ser. Será que aquele filme da Quirguízia vale a pena? E aquele outro, daquele diretor estreante da Mauritânia? “Ah, mas o filme de fulano deve entrar no circuito após o festival, então vou poder vê-lo com mais calma...” “Ih, mas será que vai mesmo? Olha, ele está com legenda eletrônica...”

Mas por que toda essa necessidade obsessiva, essa busca desesperada por ver o maior número possível de filmes, ter o maior número de informações antecipadas sobre o Festival? Durante o Festival, é melhor não pensar muito nisso, para que não caiamos numa angústia profunda. Numa espécie de inércia, saímos de um cinema e entramos em outro; vemos um filme repleto de planos-seqüência sobre a angústia existencial de um homem solitário, e logo após um outro com um coquetel de drogas e rock-and-roll, com aquela câmera frenética. Cambaleando, comemos um pacote de pão de queijo nos quinze minutos entre uma sessão e outra, e encaramos o terceiro filme da noite, após um dia inteiro de trabalho. Já de madrugada, voltamos para casa para sentar ao computador e escrever as críticas dos filmes vistos no dia. Só então pensamos em comer alguma coisa, tomar um banho, e dormir, ainda pensando na programação do dia seguinte.

A cada final de festival, seguem as promessas que “no ano que vem será diferente, que serão só uns quinze filmes no máximo”, mesmo sabendo que tudo é em vão. E qual é a recompensa de todo esse sacrifício, de fazer sua vida parar por duas semanas para assistir a um conjunto desordenado de filmes? Todo esse esforço vale a pena? Não sei. Talvez sim. Porque dos trinta, quarenta filmes que se vê nessas duas semanas, três ou quatro ficam conosco pra sempre. E durante todo o ano a gente pensa como seria incompleta a nossa vida se não tivéssemos visto aquele filme... e tentamos nos esquecer de quão incompleta ela o é por ter deixado de descobrir tantos outros.

O Festival é em muitas medidas um painel de nossa impotência: física, mental e intelectual.

BENDITO FRUTO

Bendito Fruto
De Sérgio Goldenberg
CCBB qui 22 set 19hs
***

O papel do encontro, ou melhor, do reencontro

Talvez por tê-lo visto em uma semana que foi muito desgastante para mim por causa do trabalho, ver EBNDITO FRUTO foi uma das mais intensas experiências no cinema nesse ano. Talvez porque eu não esperasse muita coisa do filme, ou talvez porque eu esperasse uma comédia inconseqüente sobre um cabeleireiro de Copacabana e sua empregada (não sabia quase nada sobre o filme). Então que me debrucei com um filme profundamente honesto, e muito bonito sobre como a vida pode nos oferecer uma oportunidade de reconciliação, ou sobre como as pressões das pessoas ou da sociedade podem nos afastar do que realmente precisamos para nossas vidas. Bendito Fruto faz esse exame com um olhar muito humano e delicado, e ao mesmo tempo bem-humorado sobre o tema. Na verdade o filme é um drama e não uma comédia, e o ótimo roteiro de Sérgio Goldenberg consegue abraçar todo esse lado pitoresco da Zona Sul do Rio de Janeiro, etc, com um exame delicado sobre as limitações e as vidinhas de seus personagens. A direção do estreante Goldenberg é sábia, ainda que bastante discreta. Se as soluções de decupagem e ritmo não empolgam muito, o filme acerta por encontrar esse tom ambíguo entre a comédia e o drama. O filme, na minha opinião, consegue fazer um inventário (uma crônica de costumes) sobre o Rio de Janeiro e nosso caldeirão de culturas, porque é um pequeno, modesto libelo a favor da tolerância e do respeito à diferença. Ao final, no entanto, Goldenberg não é assim tão romântico: a menina (Camila Pitanga) morre num tiroteio, Vera Holtz volta solitária para Ribeirão Preto, Biribi continua na rua, Otávio Augusto e o filho não conseguiram ainda se reconciliar. Mas se o encontro definitivo entre Otávio Augusto e Zezeh Barbosa demorou quase toda uma vida, por que não esperar que o tempo possa reaproximar pai e filho?

Por fim, não concordo nem um pouco que o filme possa ser considerado preconceituoso. Ao contrário. Creio que é uma das mais honestas declarações da dificuldade de se lutar contra os preconceitos que já estão mais que arraigados na nossa vida de cada dia. Uma cena muito bonita foi quando Zezeh Barbosa volta para sua casinha, tirando as toalhas dos móveis, sem emitir nenhuma palavra. Cinema simples e puro.

* * *

Vendo Filhas do Vento e Bendito Fruto logo em seguida ficou muito claro como o tema do encontro, ou do reencontro, é muito essencial e muito forte para mim. Pessoas que levam toda uma vida para esclarecer pequenos mal entendidos, para superar pequenas pendências que se revelam grandes. Isso porque as pessoas são diferentes e porque as outras pessoas, as coisas, e as malditas convenções da sociedade fazem as pessoas ficarem meio cegas, apesar de os dois lados terem razão. Essa possibilidade de diálogo e de convívio com a diferença eu acho muito bonito o cinema poder apontar com honestidade mas sem demagogia essa possibilidade.

FILHAS DO VENTO

Filhas do Vento
De Joel Zito Araújo
Unibanco Arteplex, dom 18 setembro 2005 22hs
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O que esperar de um primeiro filme, de um filme de estreante? Essa é uma pergunta (para mim) cada vez mais crucial, cada vez mais instigante, especialmente quando se pensa em cinema brasileiro, quando são poucos os diretores que têm a oportunidade de realizar um segundo filme. Joel Zito já tinha dirigido um longa-metragem, mas era um documentário, então que este é seu primeiro filme ficcional, onde ele precisa criar uma mise-en-scene e colocar em cena elementos estilísticos que podem ser mais complexos. E este Filhas do Vento, apesar de não ser um grande filme, convence exatamente por isso: por cumprir seu papel de um filme de estreante, em que, por trás da simplicidade e da modéstia de seus propósitos, apresenta um olhar em relação ao cinema e à vida, uma preocupação com a mise-en-scene, mostra uma espécie de declaração de princípios dos rumos que se pretende trilhar no cinema, ainda que estes precisem ser melhor desenvolvidos.

A principal virtude deste Filhas do Vento é a honestidade da encenação, é a simplicidade com que o diretor acalenta seus modestos personagens, respeita suas limitações mas sem deixar de apontar suas teimosias e resistências. Filhas do Vento é um filme sobre a possibilidade de reconciliação, ou ainda, sobre a possibilidade de convívio com a diferença. Isto é colocado de forma muito clara quando o primeiro plano do filme é o olhar que não se cruza entre as duas irmãs no enterro do pai. Os temas do filme se apresentam lá de forma clara: o papel do reencontro, o conflito de gerações, ou entre tradição e modernidade, a visão da diferença, o papel da família. A história do filme é a de duas irmãs bastante diferentes que se reencontram no enterro do pai. A primeira irmã é a representação da tradição: quer ficar ao lado do pai no interior; a segunda irmã, a da modernidade, ou da mudança, indo para a cidade grande, tornar-se uma atriz. Suas filhas então tem o caminho cruzado. Cada uma das duas filhas “puxou” mais o lado da tia do que da mãe. A filha da mãe da cidade grande quer ir para o interior. A filha da mãe do interior quer ser atriz como a tia. A partir desses caminhos cruzados, Joel Zito faz um filme bastante honesto. A decupagem é segura e bem cuidada; os atores (apesar de um estilo de interpretação que eu propriamente não compartilho) estão todos bem. Tem um grua na cena do enterro que absolutamente me encantou, porque é um 360º bem feito e sem um virtuosismo desnecessário (os diretores quando tem uma grua querem fazer movimentos só para mostrar que tem uma grua e não porque realmente precisem desse movimento de grua). Apesar de uma dramaturgia simples que em alguns momentos fica simplória, e alguns pressupostos que eu não compartilho, o saldo de Filhas do Vento é bem mais positivo e negativo, mostrando que Joel Zito cumpre a função do que se pode esperar de um diretor de um primeiro filme: mostra o que se espera do cinema e da vida.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Tragicomédia

A saudade nos faz virar a casaca
Hoje vesti o calção do Fluminense
E dormi cheirando o uniforme

sexta-feira, setembro 16, 2005

CACILDIS! PQP! VAI COMEÇAR A PIOR ÉPOCA DO ANO!! O FESTIVAL DO RIO!!!
KINOSHITA e OSHIMA; mais ZHANG KE, HSIAO-HISIEN, SANG-SOO, AOYAMA, MING-LIANG, FRUIT CHAN, KAR-WAI, MIIKE, e OLIVEIRA E REYGADAS
PUTA QUE LOS PARILIS!!!!!!!!!!!!!!!!

quinta-feira, setembro 15, 2005

dublagem

Maravilha de texto. Inácio Araújo aproveita uma exibição de Mamma Roma para, de forma simples e efetiva, filosofar sobre a importância da dublagem. Sim, a dublagem dá mais valor à imagem mas por outro lado fere o campo do ator porque a voz tbem é um elemento expressivo. E o texto coloca essa dialética com muita propriedade.

 

INÁCIO ARAUJO

CRÍTICO DA FOLHA

 

O cinema italiano sempre se notabilizou pela dublagem dos filmes estrangeiros. Ninguém menos do que Roberto Rossellini defendeu lindamente a dublagem, lembrando-nos de que o tempo usado para leitura das legendas passa a ser dedicado à imagem.

 

No entanto, nenhum cinema no mundo perde mais com a dublagem do que o italiano. Seu jeito incisivo de falar, que se faz acompanhar por uma gestualidade expressiva, normalmente perde-se e o conjunto, em outra língua, tende a soar bem falso.

 

Veremos hoje como fica essa história de "quem com ferro fere", quando a TV5 passa o "Mamma Roma" (21h20), de Pier Paolo Pasolini, na versão dublada em francês. Em todo caso, a exibição é um grande evento, tanto mais que teremos legendas em português.

 

quarta-feira, setembro 14, 2005

Filmes de Agosto

Desejo e Obsessão, de Claire Denis ***
Casa Vazia, de Kim Ki-Duk **
La Niña Santa, de Lucrecia Martel **
Cine Majestic, de Frank Darabont *
Esses Moços, de José Araripe Jr. ½
Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira ½

FILME DO MÊS: Desejo e Obsessão, de Claire Denis ***

diálogos de mim comigo mesmo

Um diálogo imaginário sobre o EM CASA. Na verdade uns amigos me pediram pra fazer isso e colocar num pedaço de roteiro. Como acho que vai acabar não saindo, vai aí pq tem coisas interessantes...

A: pô, as imagens estão muito bonitas.... e como é que você vai montar?
P: como assim como eu vou montar? O filme já ta pronto!!
A: ah ta pronto? Mas o filme é todo assim? Não tem pessoas no filme?
P: exatamente. Não tem ninguém. Pelo menos no cinema a gente pode ter o direito de se ver longe das pessoas.
A: mas tem uma pessoa por trás da câmera, tem esse olhar, não tem?
P: certamente. Ou melhor, infelizmente.... É verdade: acho que a gente nunca vai conseguir se libertar totalmente das pessoas
A: mas onde você filmou isso?
P: é na minha casa em Campo Grande... foi aí que eu nasci, que eu me criei, que eu vivi durante..... hmmm.... uns 20 anos, quase. E aí depois eu saí, fui estudar economia, fui ganhar a vida, e nunca mais voltei, voltava quase nunca... Mas depois de uns 10 anos eu voltei pra casa, pra passar as férias de natal com a família. E essa casa era outra, minha mãe tinha feito umas obras, trocado uns móveis, essas coisas.... eu tbem era outro, era outra pessoa.

É aquela coisa: sabe aquele seu melhor amigo de escola? Imagina que você fique dez anos sem o ver, e aí depois você o reencontra... É outra coisa: o tempo é muito sinistro... sabe, toda aquela intimidade que você tinha já não tem mais.... fica o constrangimento, a distância, o tempo.... como é que pode uma pessoa que era tão íntima te parecer de repente tão distante?

A: mas então seria melhor não voltar, não rever esse amigo nunca mais?

P: talvez. Mas às vezes isso não é possível. O reencontro é doloroso mas é necessário. Fica uma saudade dentro da gente, um sentimento do que se foi e não se é mais.

A: ta... mas achei o filme muito frio! Não tem gente, não tem vozes, não tem movimento.... não tem calor humano nenhum!!! Por que essa casa é tão sem vida, é tão cheia de lugares vazios, de pó, de silêncio?

P: É verdade, você tem razão... Acho que é porque essa casa se tornou parte de mim, e eu me tornei essa casa.

segunda-feira, setembro 12, 2005

ATENÇÃO

Atenção, todos os leitores deste blog. Atenção! Por favor, dois segundos de atenção a todos. Por favor, atenção. Será rápido. Um momentinho.... obrigado!

Leiam todos! Não deixem de ver esse link.
http://cinemainvencao.blogspot.com

domingo, setembro 11, 2005

COISA DE MULHER

Coisa de Mulher
De Eliana Fonseca
Cinemark Botafogo 4, qui 8 setembro 19:50
*

Apesar de Coisa de Mulher estar longe de ser um bom filme, vê-lo traz muitos insights interessantes para se pensar o cinema brasileiro hoje. Coisa de Mulher, primeira produção da SBT Filmes, se encaixa na quimera do cinema industrial tentada por Diler Trindade. Ciente de que não poderá viver dos filmes da Xuxa para sempre e de que “o poço está secando”, Diler, o industrial, vem tentando diversificar a sua produção. Claro, porque o cinema brasileiro hoje se ganha na produção, e não na bilheteria, e as majors, por sua vez, lançam o filme como se fosse banana na feira, conseguindo com a parceria com o Diler, participações de quase 40% nos direitos patrimoniais do filme. Então, Coisa de Mulher é feito só com os R$ 3 milhões do Art. 3º da Lei do Audiovisual, mas poderia custar muito menos, já que é um filme muito simples. Então que a Lei do Audiovisual é isso: acaba sendo uma válvula de escape para que as produtoras vivam da produção do filme, e não das receitas dele.

Coisa de Mulher é uma pornochanchada dos anos 70, só que custando 5 vezes mais, mesmo com toda a simplicidade da produção filmada em HD. Só que é uma pornochanchada feita para mulheres, o que torna o produto bastante atípico. A melhor sacada é o próprio papel do Evandro Mesquita (ótimo) como símbolo do personagem masculino: aquele que precisa compreender a alma feminina. Pega, então, suas confidências, para fazer sucesso como jornalista, na coluna de Cassandra. Com isso, os homens (do público) se identificam com as travessuras de Evandro Mesquita, e passam a compreender mais o universo feminino, representado através das diferentes personalidades das meninas do Grelo Falante. A partir disso, o besteirol se desenvolve, com piadas em geral de mau gosto e trocadilhos infames, em soluções verbais e de roteiro bastante simples e comuns. Em termos de cinema, as soluções da diretora Eliana Fonseca, já partindo para o seu terceiro ou quarto longa, são sempre as mais banais, as mais óbvias: é o corte do plano geral para o médio seguido do close, é o plano de conjunto, é o corte em continuidade. O único mérito da direção é o equilíbrio entre os atores, todos ótimos (até a Adriane Galisteu não compromete). Eliana Fonseca faz metalinguagem numa parte do roteiro em que ‘Cassandra” é convidada a editar um livro, e dessa vez Evandro Mesquita quer publicar um livro sério. A diretora Eliana Fonseca, como atriz, lhe diz “mas as pessoas não querem ver o seu trabalho sério, querem ver o livro da Cassandra”. Então que a talentosa curta-metragista de outrora se rende ao cinema do pior tipo, inclusive pior do que a televisão, em se tratando de decupagem e de cinema. Há uma hora em que isso é clássico: a “virgem” olha o apartamento do Evandro Mesquita pelo buraco da fechadura. Todas as vezes em que isso ocorre (pelo menos umas cinco) a cena é filmada da mesma forma, em um plano médio absolutamente banal. Não há um zoom, um corte para o olho, uma brincadeira com a questão do olhar, ou mesmo uma variação. Nenhuma criatividade é possível na direção burocrática, sonolenta e tediosa de Eliana Fonseca, o que faz esse trabalho ter um engessamento, uma caretice de linguagem que soterra o filme.

Outras questões nos surgem, a primeira é: qual é o público desse filme? Outra: qual é o perfil de produção da SBT Filmes? Outra: como se compara Coisa de Mulher com Sexo, Amor e Traição e Os Normais? Sem dúvida, a balança pesa a favor de Coisa de Mulher: o roteiro é mais desenvolvido, e o diálogo com a pornochanchada enche de graça e carisma o filme. A cena final no banheiro dá um desfecho adequado ao filme. Ainda assim, Coisa de Mulher é indefensável. Chega a ser simpático, mas não é o cinema brasileiro que precisamos, e mesmo assim, ainda está longe de ser um sucesso com o público. E pensando bem, Coisa de Mulher acaba sendo sexista, e nada acrescenta a uma melhor visão das relações entre os sexos, além de corroborar todos os preconceitos e clichês existentes. Ou seja, dispensável, mas ainda assim importante de ser visto.

quinta-feira, setembro 08, 2005

mais um video caseiro

Um Filme Abstrato – parte II
(MiniDV, 7´)

Sim, Um Filme Abstrato virou uma série oficialmente, e consegui romper a fronteira da “parte I”. O projeto, agora, é quiçá, que se transforme em um longa, formado dessas partes. Para isso, preciso de oito ou nove partes como essa, e aos pouquinhos, sem nenhuma pressa ou pretensão de se concretizar, o projeto vai sendo feito...

A premissa dessa parte II foi a de que é possível fazer um filme sem imagem e sem som. É a idéia de ir “purificando”, de ir reduzindo o filme ao seu essencial, de ir simplificando a artesania do filme, radicalizando a proposta de tal forma, que, no limite, um filme poderia ser feito sem imagem e sem som. Seria isso possível?

É claro que Um Filme Abstrato não é isso. Ele tem tanto imagem quanto som. Mas a imagem é “pura”; o som é “puro” (se é que isso é possível...). É um filme feito exclusivamente de sensações, de sons e imagens os mais primários possíveis. Outra novidade: a imagem é totalmente feita no computador. Ou seja, um filme sem câmera. Meu primeiro filme sem câmera.

Os sons e as cores se imbricam, se multiplicam, se fundem. Os sons tornam-se coloridos; as cores exalam sonoridades. “Cartelas” com cores e “cartelas” com sons. O ritmo. Rimas e paralelismos. Proximidades e oposições. Outra coisa: planos rápidos, de dois frames. Isso é uma grande inovação tendo em vista meus lentíssimos trabalhos....

Um Filme Abstrato é também um filme religioso, já que vi, com muita atenção, os quadros de Mark Rothko (por fotos) e os hand painted films de Stan Brakhage, a quem dedico este trabalho. Talvez alguns achem engraçado, e há de fato um certo humor naive, mas no fundo é um trabalho religioso. Um exercício de purificação. É um trabalho despretensioso, um exercício de linguagem, mas no fim achei o resultado válido, embora esteja longe de ser mais típico das coisas que venho fazendo (o que a parte I com certeza era). Mas gostaria de ver esse trabalho num cinema, num lugar fechado. Quem sabe a série fique pronta até fevereiro para a Mostra do Filme Livre? Isso, se enfim eu estiver mesmo por lá........

terça-feira, setembro 06, 2005

Entrevista

Tive que responder uma entrevista super idiota, então a gente tem que zoar pra não cortar os pulsos. Lá vai...

ENTREVISTAS
CINEMA/AUDIOVISUAL/MIDIALOGIA

Nome:BRUZUNDANGAS
Profissão: Brasileiro e não desisto nunca

01-)Há quantos anos o(a) Sr(a) se formou?
O suficiente para já ter me esquecido.

02-) O que levou a escolher essa profissão?
A Julia Roberts.
Dizem tbem que fazer cinema era cartaz pra pegar mulher. Pura ilusão. Economista pega muito mais mulher pq elas pensam que tem mais grana.

o3-) É difícil trabalhar no mercado cinematográfico no Brasil?Este ainda é muito restrito?
É Muito difícil trabalhar, mesmo qdo se é contratado, pq ninguém trabalha no cinema

05-) É importante fazer faculdade de cinema, ou o Sr (a) julga que os cursos técnicos e “Escolas de Cinema” são auto suficientes?
São autosuficientes e automóveis.

06-)Qual o diferencial para se destacar nessa profissão?
Uma boa bunda.

07-) O Sr(a) já atingiu seu objetivo no cinema?Se ainda não, o que falta alcançar?
Não, o cinema é mero trampolim. Meu sonho é eleger-me deputado.
Meu segundo objetivo no cinema é comer a Luana Piovani, o que ainda não alcancei. Alias eu só alcanço o tornozelo dela de tão alta que ela é.

08-) Em algum momento o Sr (a) pensou em desistir do curso?
Do curso ou da vida?

09-) Cite um profissional que você admira na sua profissão
Paulo Thiago. Fabio Scorpion. Como produtor, Marcos Valério.

11-) Dizem que o mercado cinematográfico no Brasil ainda é muito restrito.O Sr (a) aconselharia um “futuro cineasta” a ir fazer o curso e trabalhar no exterior?Por quê?
Não, porque o Brasil é um paraíso. Um paraíso fiscal.

12-) O Sr (a) se arrepende de ter feito cinema?
Sim, foi o maior erro da minha vida. Se eu tivesse me tornado deputado estaria muito melhor.

13-) Qual cena cinematográfica ficará eternamente em sua memória?
Nenhuma, pois devido a alguns vicios que infelizmente carrego, não guardo mais nada eternamente em minha memória. não me lembro mais nem mesmo o que almocei
e algumas vezes esqueço inclusive meu endereço e a chave de casa constantemente na casa de outrem, ficando vagando perdido e sem rumo pelas ruas sórdidas e pelos becos sombrios da cidade do rio de janeiro.
Aliás o que vc perguntou mesmo?

blog sobre samba-enredo

pra quem não sabe, eu sou fanático por samba-enredo. FANÁTICO. e agora começaram as eliminatórias para o Carnaval 2006. Então criei um blog sobre isso. Aí não mistura: quem é fanático por cinema vê esse; quem o é por samba-enredo, aquele. Quem o é pelos dois, vê os dois (ou seja, só eu...). Vai lá http://www.sambofilia.blogspot.com

segunda-feira, setembro 05, 2005

as coisas vão assim

Estou tão cansado que mal consigo suportar-me sobre meus pés.
Queria poder tirar uns dias de férias do mundo, ou de mim mesmo.
Hibernar. Viajar. Meditar num enorme mosteiro zen.
Lustrar os azulejos do banheiro, pastilha por pastilha.
Sem falar uma única palavra.
Adormecer numa banheira com sais.
E quando acordasse, queria poder olhar no espelho
e ter orgulho do que visse.
Mas estou tão cansado que mal consigo me mover.
As buzinas rugem, as contas farfalham, os números soluçam.
E eu aqui sentado no meu canto de casa, esperando
um balãozinho laranja e os teus olhos verdes-azuis.

Tenho muito medo de amanhã eu não poder ser feliz
como hoje.

CARTA NASCENTE

Agora que recebi uma resposta, coloco aqui no blog carta que enviei para o Helvécio, sobre o seu curta NASCENTE, uma das melhores coisas que vi recentemente do cinema nacional. Estou pegando com o Rosemberg o gosto de enviar cartas....rs

* * *


Caro Helvécio,

Estou lhe escrevendo ainda sobre o impacto do Festival de São Paulo. Cada vez mais me convenço de que os festivais não são para pessoas como eu, que simplesmente quer fazer cinema por uma necessidade pessoal. A quantidade de pessoas deslumbradas que fazem filmes para mandar beijinho é impressionante.

Mas vamos ao que interessa. No meio de 90% de filmes lamentáveis, eis que surge um trabalho que se destaca de todos os outros, pela coerência, pela coragem, pela sabedoria com que trabalha a linguagem articulada a um sentido de mundo, a um sentimento de cinema.

Este trabalho é o NASCENTE.

Fiquei muito comovido pelo filme. Através do Rio São Francisco, o filme é uma viagem poética por um Brasil interior (um Brasil verdadeiramente interior, e não o interior de Dois Filhos de Francisco, evidentemente). Nesse percurso cabe todo o cinema brasileiro: está lá o interior dos filmes de Candeias, a frágil canoa de Limite, o sertão-mar de Deus e o Diabo, está lá o mar revolto de alguns dos filmes do Bressane. Está lá o cinema brasileiro, puro e desvirginado, poluído e prostituído. Está lá pulsando discretamente todo um Brasil, um Brasil interior que percorre vários estados, de Minas a Bahia, mas sem nenhum “panfletarismo regionalista” que tanto tem assolado nosso cinema. Há também – e isso é muito emocionante – todo um cinema poético mineiro, todo um percurso de um certo cinema que se vem buscando, pelos seus amigos da Teia, pela jovem vanguarda mineira. Está lá também um percurso individual, um percurso pessoal: não só do próprio personagem que navega o barco, mas deste autor que guia os rumos do barco-filme. Está lá também uma investigação humilde sobre a natureza (não só das coisas como da condição humana), sobre a solidão, sobre o destino, sobre a vida nossa. Está lá um sentimento de cinema que se articula de forma muito íntima com um sentimento de mundo.

Esse rumo – poluído e puro, individual e coletivo, real e cinematográfico, poético e realista, ficcional e documental – também me fez colocar uma questão: é o homem que conduz o barco, ou o barco que é levado pela correnteza?

Mas todas as palavras são em vão. Fiquei contente em ver o filme pouco após ter te conhecido em Minas. Em constatar que o melhor cinema que se faz hoje no Brasil vem de Minas, vem do pessoal da Teia. Em ver que ainda se pode fazer um cinema de verdade no Brasil, em poder apresentar esse trabalho num festival, ainda que na mesma sessão de Eu Te Darei o Céu ou de Red. Hesitei muito em te mandar esse texto e nem quis falar contigo após a sessão, porque fiquei com medo de ser mal interpretado. Mas era preciso. Seu filme é muito valioso, ou pelo menos foi para aquele estudante de cinema, sentado na primeira fileira no Museu da Imagem e do Som. E eu queria que você soubesse disso.

É isso,
um abraço,
Cinecasulófilo.

O ELOGIO AO ATRASO

Brilhante texto publicado no Balaio Vermelho, do incansável Moacy Cirne, chamado O ELOGIO AO ATRASO, sobre Dois Filhos de Francisco, de autoria de Ozualdo Mizogroucho. Ver na capa do site http://www.balaiovermelho.blogger.com.br
Texto obrigatório para os sobreviventes leitores desse blog. Concordo com tudo, ipsis literis. Esse texto, se eu pudesse (e se não fosse o filho de ministro...) eu assinaria embaixo!!

domingo, setembro 04, 2005

O Brasil venceu. Está classificado para mais uma Copa. A Capital Federal canta o hino nacional com energia.
Quase anoitece. A rua está mais deserta que de costume.
Estou aqui, debruçado na janela. A casa ainda tem cheiro de tinta.
Todos os traços percorrem os mesmos celeiros, os mesmos pincéis.
Daqui, tudo parece calmo como antes.
Parece que nada mudou. Mas ontem você estava aqui.
Hoje talvez também esteja. Mas meus olhos não vêem mais.
Os lençóis manchados. Os óculos partidos. Os tonéis entreabertos.
Não há ressaca, não há festa, não há vidraças trincadas.
Hoje o telefone não toca, a geladeira não geme, o ventilador não range.
Mas nem por isso tudo parece vazio ou parado.
Adormecido, à espera de sua hora do acordar.
As cortinas sonolentas entoam um cântico um tanto fúnebre
que adocica os demônios e embriaga as vilanias.
Queria que cada passo fosse um de cada vez, pé por pé.
As mãos se debruçam nos umbrais, protegendo-se do vento.
A brisa é estéril, o leito é seco, o verso é fútil.
Ainda assim, me apóio neles como se fosse a primeira vez.
Ou a última. Porque de tudo eis que me restam:
o horizonte, as ventainhas, a campainha histérica,
as vozes de comando e os túneis de perdizes.
Quando tudo parece perdido, procuro ouvir a voz do vento,
tranco os ferrolhos das fechaduras
e observo minha vida passar lá longe, sorrateira,
sem deixar rastro,
completamente despercebida.

Batalha de Rosas

Batalha de Rosas
De Mikio Naruse
VHS, sab 3 set 10hs
**

O cinema de Naruse é extremamente sutil e difícil de ser desvelado, porque Naruse é um artesão que trabalha copiosamente para ocultar um estilo. Trata-se quase de um artista medieval, extremamente absorto com os problemas de seu tempo, dedicado fielmente, como um servo, a melhor cumprir o seu ofício. É o segundo filme que vejo do diretor, e mais uma vez me surpreende sua devoção a um “cinema do mesmo”, a sua pretensão de uma certa invisibilidade, e como tradição e modernidade se intrincham de forma integrada e polida.

Conservador, moralista, a proposta do cinema de Naruse, e aqui retomo este Batalha de Rosas, é fazer uma investigação do esforço de reconstrução do Japão no pós-guerra, ou ainda da “contrapartida moral” que se paga para a reconstrução econômica. O tema da independência da mulher, a relação entre amor e negócios, a tentativa de reconstrução são todos trabalhados no filme de forma implícita. A trama não revela muito interesse, a artesania idem, mas ao mesmo tempo o estilo de Naruse (objetivo-contemplativo) seduz porque se desvela através de um lento processo de construção arquitetônica, em que o objetivo de Naruse é exatamente de reconstruir a “velha tradição moral” das artes japonesas. As três mulheres passam a ser o arquétipo da sociedade japonesa, e a crítica sutil ao desejo de capitalismo me lembra Bom Dia, de Ozu. A ‘leve ironia cáustica’ de Naruse é essa: ele exibe com melancolia e conformismo o painel sombrio dos novos tempos, mas seu cinema é extremamente consciente da necessidade de engajamento nessa “estética moral”, ou no “realinhamento”. Mas o faz como típico japonês: de forma tímida, dolorida, autocrítica e observadora. Três mulheres querem mudar o rumo das coisas: a primeira acha que a reforma é para o capitalismo, custe o que custar; a segunda, busca a reforma dos costumes, dos comportamentos. A terceira incorpora a virtude, a temperança, a justiça, ou seja, a velha tradição japonesa. Tradicionalista, conservador, Batalha de Rosas faz buscar sua ascese por meio de sacrifícios, artifícios e uma ascese moral. Mas seu cinema não é o de Dreyer ou de Kieslowski: o faz através de uma estética fria, de um processo de invisibilidade de autoria, de um materialismo duro, doloroso, sem meios-tempos ou sinais entrecobertos. O melodrama está lá o tempo todo mas não se apresenta, e sim se oculta: os personagens escondem suas intenções para si mesmos, como se tivessem vergonha de seus destinos, irreversíveis. Costurando plano a plano, delicadamente como lhe parece ser possível para esse típico japonês que não fica muito à vontade em mostrar os sentimentos, o cinema feminino de Naruse não parece ter um orgulho e uma iluminação particulares no ato de se fazer cinema. Suas intenções são outras, distantes do fanatismo romântico do autor ocidental. A última palavra que se pode aplicar a Naruse é “gênio”: cada pincelada parece ser dada com enorme esforço, para que o equilíbrio consiga se restabelecer pelo menos no cinema.

sexta-feira, setembro 02, 2005

o melhor curta do Festival de são Paulo foi NASCENTE, de Helvécio Marins Jr.
Semana que vem quero falar sobre isso.
Mas agora eu vou para o mundo.

GAIJIN 2

Gaijin – Ama-me como sou
De Tizuka Yamazaki
Odeon qui 1 setembro 21hs
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É difícil começar um texto sobre Gaijin – Ama-me como sou, porque o filme é lamentável. Triste porque sabemos que Tizuka batalhou, durante 10 anos, para fazer o projeto de sua vida. E, por mais que discordemos, sabemos que ela não é uma picareta, é uma pessoa talentosa. Ainda assim, e com um orçamento superior aos R$ 10 milhões, ela fez um filme lamentável. Por que? Por vários motivos, e o primeiro dos quais é que o cinema é assim mesmo, e o cineasta pode muito facilmente perder o tom do filme, o filme pode “passar do ponto”. Com todas as interrupções e dificuldades de manter o mesmo tesão por 10 anos num projeto em continuidade, Gaijin peca antes mesmo de tudo isso, peca por sua concepção. Querendo fazer um produto que, aliando acabamento técnico e artístico com uma proposta que abraçasse o grande público, Tizuka não conseguiu nem uma coisa nem outra, e seu trabalho ficou longe de conseguir agradar ninguém. A princípio, poderíamos pensar que a diretora tropeçou em sua própria pretensão. Mas eu acho que é exatamente o contrário: tropeçou na sua covardia. Essa é a grande, enorme lição que tiro ao final do tenebroso Gaijin.

É a velha lição: quem um dia mergulha na merda dificilmente consegue se limpar, mesmo tomando banho de perfume. A merda se entranha nos poros da pessoa. Repleta dos filmes da Xuxa e das novelas canhestras, Tijuka poderia dar a desculpa que não se tratava de um projeto pessoal, e poderia exercitar a parte técnica, o refinamento da artesania. Mas o problema foi exatamente esse: quando se deparou com um projeto pessoal, levou todos os vícios anteriores para esse projeto. Então, o problema é essencialmente de concepção. Gaijin tem a estrutura de uma minissérie, de um melodrama de novela mexicana, no pior sentido de termo: encenação de atores canhestra, música o tempo todo para sublinhar tempos dramáticos, roteiro com mudanças de tom e excessos dramáticos risíveis, etc. O trabalho é tbem muito ambicioso, no sentido de cobrir um período histórico muito extenso e diversos personagens, com tramas, subtramas, etc. Mas nem na artesania o filme se salva: uma dificuldade de trabalhar com o cinemascope, esp no corte entre o close e o plano geral, uma série de gruas que em nada acrescentam à dramaturgia, uma direção de atores constrangedora, uma arte meramente decorativa.

Ah, alguns temas de Gaijin: i) o feminismo – as mulheres é que tocam a vida, sempre solitárias, “o importante é ter filho, e não marido”; ii) o conflito de gerações versus etnias – a adaptação aos novos tempos, e o sentimento de não ser brasileiro nem japonês. Nisso Tizuka quer contar sua própria história, de mãe solteira, e de imigrante rebelde. Nisso tbem fracassa, embora seja a parte do filme que nos traga algum interesse: ela ora defende a tradição dos bons costumes (a sabedoria da batyan) ora defende a necessidade da adaptação aos novos tempos (criticando o conservadorismo apático de sua mãe). No fim, Tizuka faz um retrato excessivamente carinhoso e tolerante, por isso enviesado pelo melodrama.

Mas seria fácil listar os problemas e problemas de Gaijin. Como a necessidade de mostrar que se sabe filmar ao invés de simplesmente filmar, a necessidade de mostrar que o filme é caro ao invés de simplesmente filmar uma história cara, etc. O que aqui nos cabe – e o que mais nos surpreende – é como uma pessoa talentosa deixa o projeto de sua vida escapar, fazendo um trabalho extremamente canhestro. Doloroso. Uma lição. Deixa escapar sim, por uma covardia, por uma dificuldade de se prender ao essencial desse trabalho, ou seja, por uma grande ilusão: a de que se pode fazer “um filme para o público”. Ilusão que sempre derrubou o cinema brasileiro.

os críticos são cruéis e verdadeiros

Como os críticos podem ser cruéis mas verdadeiros em seu ofício
Dou destaque ao último parágrafo, vou escrever mais sobre isso.
O texto é de João Carlos Sampaio - jornal A Tarde, Salvador, BA.

"O problema é que esse Gaijin (termo nipônico que significa estrangeiro) está forjado sobre bases muito superficiais para falar de temas densos. Concluído após muitas interrupções e dificuldades, que acabaram por resultar num orçamento muito alto para os padrões do cinema brasileiro, o filme derrapa de forma bisonha na dramaturgia, que vai piorando até o esdrúxulo terço final.

Os diálogos são muito fracos, assim como a média geral das performances do elenco, que inclui Tamlyn Tomita, Nobu McCarthy, Kyoko Tsukamoto, Luís Melo, Zezé Polessa, Louise Cardoso, Mariana Ximenes e a presença do intérprete cubano Jorge Perrugoría (de Morango e Chocolate). Por sinal, a opção pela dublagem em português para o personagem do ator é talvez a mais desacertada dentre todas as equivocadas decisões dos realizadores.

Tirando o conjunto de boas intenções que fizeram Tizuka Yamazaki se lançar nesse que é o projeto de sua vida, sobra quase nada para esse filme, com pouquíssimas chances de agradar a qualquer faixa de público."

quinta-feira, setembro 01, 2005

(GDV) CARTA PARA JANE

Carta para Jane
CCBB qua 24 ago 21hs
****

Os filmes do Grupo Dziga Vertov são extremamente radicais em termos de sua busca por uma nova linguagem, uma linguagem que em si mesma reflita uma política, uma estética e uma ideologia. Com isso, são trabalhos que se afastam completamente do que um público pode esperar de um filme. Mas nesse Carta Para Jane há um equilíbrio, e o filme consegue isso sem abrir mão de seu radicalismo, da essência de seu cinema. Então que se revela um trabalho extremamente perturbador, extremamente atual, extremamente revelador de uma realidade. E um trabalho de linguagem pura! Todo o filme se baseia em duas coisas, que a princípio seriam anti-cinematográficas: uma foto e um texto escrito (uma carta). O filme todo é um ensaio de análise de uma foto tirada com a Jane Fonda no Vietnã. A princípio, seria uma foto pró-vietcongs , pois denuncia as atrocidades cometidas pelo imperialismo americano, já que a cara da JF é de pena dos pobres dos vietnamitas assolados pela guerra. No entanto, o filme vai inverter esse pensamento, mostrando, com muita propriedade, que na verdade o efeito é ao contrário: o filme é uma investigação profunda e complexa de que nenhuma imagem, nenhum representação é “ingênua”, mas um processo de fabricação que reproduz uma ideologia. O filme então mostra que a imagem de Jane Fonda como símbolo de um star system é deliberadamente usada, e que a atriz deve ter consciência disso e não se deixar explorar pelo fenômeno midiático. Além disso, mostra que a foto faz com que quem vê tenha um impulso de compaixão que ao invés de levar para a ação, ao contrário, faz fugirmos dela, leva à inércia. O filme mostra que a foto revela que a atriz escuta (e não fala), portanto não há diálogo. Mostra que o enquadramento, a luz, o foco, a posição da câmera (em contra-plongée), tudo enfim corrobora um estado de coisas. Esse ensaio acaba sendo feito a partir de uma foto e de um texto, e é um ensaio (isto é nem doc nem fic). Ou seja, um trabalho de profunda problematização de linguagem. Bonito, poético, contundente, Carta Para Jane é um filme definitivo, que teria que ser obrigatório em qualquer curso de fotografia, jornalismo, comunicação social, cinema, etc. Ou ainda tinha que passar em todas as escolas do ensino fundamental. Ver esse filme é um ato de cidadania, porque é isso o que a TV faz todos os dias. O filme me fez ver muita coisa. Saindo do cinema, conversando com uma francesinha de férias no Brasil, ela disse que adorou Central do Brasil. E eu repliquei – numa boa sacada – que o olhar da Fernanda Montenegro pro garotinho no filme é o mesmo da Jane Fonda pros vietnamitas. Esse olhar de pobrezinho, de miséria, de inércia, de sair intocado daquela realidade... Um filme que 30 anos depois de feito torna-se ainda mais atual que na época (é só ver a cobertura da CNN sobre os terroristas...).

(GDV) VENTO DO LESTE

Vento do Leste
CCBB qua 24 ago 19hs
***

É difícil falar sobre Vento do Leste, mas esteticamente foi o trabalho do Grupo Dziga Vertov que mais me impressionou. A princípio me pareceu ser um filme sobre a impossibilidade de se fazer um filme. Daí que é um filme que desconstrói seu próprio ponto de partida. No início parece ser a proposta de construção de um novo cinema, ousado, radical, delirante, profundamente questionador da narrativa clássica e consciente de seu papel nesse sentido, mas sem deixar de ser onírico, transgressor, sublime, irregular. Mas lá pro meio do filme, quando ele se assume de verdade ser uma paródia de um western, o filme assume seu lado dialético: ser um outro cinema é acima de tudo não ser um certo cinema (o de Hollywood). Ou seja, o “vento do leste” só pode estar soprando para as bandas do oeste, e não do norte, do sul, etc. Ou seja, necessariamente se é contra um cinema, mais do que a favor de um cinema outro. Essa dialética então passa a ser o próprio estado das coisas: o filme passa a ser um manifesto para que o espectador perceba o filme como processo fabricado, como artifício da construção de um espetáculo. Mas essa negação não implica necessariamente a construção de um novo modelo, e o filme percebe essa mesma contradição, e estaciona por aí, com uma profunda auto-consciência da impossibilidade da revolução. Daí que a cena paradigmática do filme é (justamente) com o Glauber, diante de uma encruzilhada: o cinema revolucionário é “perigoso, divino e maravilhoso” mas ao mesmo tempo parece não levar a caminho nenhum, ou, no mínimo, a um caminho nebuloso. Essa consciência (que nos filmes de Godard já existe desde A Chinesa) faz com que o filme alcance proporções mais amplas, dado o contexto dos anos 60 em que foi feito o filme.

GRUPO DZIGA VERTOV

Estou devendo escrever sobre os filmes do Grupo Dziga Vertov. Foi bom e ao mesmo tempo engraçado ver o CCBB cheio para ver esses filmes esquisitos. O que a mídia não faz... mas de qqer forma, estive lá, nos dois primeiros dias, que é o que deu, porque a maldita viagem pra Sampa me esperava.

A primeira coisa a se salientar foi a presença do Gorin. Ele estava lá assistindo (provavelmente pela enésima vez) a todos os seus filmes, sem piscar, buscando desesperadamente um diálogo com o público, ávido por passar o máximo de informações para que os filmes pudessem ser melhor compreendidos. Esse esforço (essa paciência, essa dedicação) desse francês me pareceu absolutamente comovente, emocionante...

Vi quatro filmes: Sons Britânicos, Um Filme como Qualquer Outro, Vento do Leste e Carta Para Jane. Os filmes em geral me soaram um pouco datados, com um ranço marxista de esquerda algumas vezes excessivo, mas é um retrato radical e apaixonado de uma época, e devem ser extremamente respeitados por isso.