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Cinecasulofilia

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quarta-feira, setembro 28, 2005

Carreiras

Carreiras
de Domingos Oliveira
Odeon qua 28 12:00
**

Em primeiro lugar, digo que não gosto do cinema de Domingos Oliveira, mas respeito o seu trabalho como criador e gosto eventualmente de um ou outro filme. Não gosto de seu cinema mas me encanto por seus filmes. Por trás das imperfeições desse cinema, há um desejo que pulsa, e eu respeito isso. Ainda assim, e aqui nesse caso talvez Carreiras se encaixe à perfeição, o cinema pouco importa, ou melhor, importa menos que a vida, importa menos que os personagens. Ou ainda, aqui uma única personagem, a jornalista representada por Priscila Rozembaum. Amargo, doloroso, o próprio título denuncia a ambigüidade de sua proposta: “carreiras” pode se vincular tanto à carreira profissional quanto às fileiras de cocaína fartamente sorvidas pela protagonista. O filme é um espelho profundo de uma crise, é uma das mais desesperadas tentativas de verbalizar um descontentamento, da forma como for, ainda que seja apelando, descabelando-se, gritando, ainda que sem um mínimo de elegância (parece que não é mais possível ser elegante): é preciso antes de mais nada “botar para fora” esse descontentamento. Descontentamento com um Brasil, com o ser humano (ou ainda, com a ilusão de poder das pessoas), com o cinema brasileiro, consigo mesmo... Carreiras é um desabafo sobre a angústia de viver, sobre o desafio constante de permanecer vivo, de se motivar para fazer alguma coisa. E ainda mais no Brasil. E ainda mais no cinema brasileiro. Então que vi a jornalista de Priscila Rozembaum como um espelho do cineasta no cinema brasileiro. O filme tbem me agrada em como trata a ilusão de poder, a necessidade do reconhecimento, como isso é doloroso e necessário, e nisso o filme bateu profundamente em mim neste momento. O final ambíguo, que me pareceu um falso final feliz, coloca em evidência todas essas cicatrizes mal urdidas, toda a “hipocrisia nossa de cada dia”, um retrato cínico dessa espécie de “seleção natural”. Ao final, sobra a solidão, fica na nossa cabeça os momentos de desespero e de entrega de uma atriz a um papel (Carreiras é tbem uma declaração de amor a uma atriz), fica a profunda tristeza dessa necessidade de sobreviver na selva humana em que temos que ser “alguém”, fica uma reflexão de qual é o papel da nossa profissão na nossa vida pessoal. Mas de tudo o que não fica é o cinema, que passa ao largo desse último trabalho de Domingos Oliveira.

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