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Cinecasulofilia

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sexta-feira, setembro 02, 2005

GAIJIN 2

Gaijin – Ama-me como sou
De Tizuka Yamazaki
Odeon qui 1 setembro 21hs
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É difícil começar um texto sobre Gaijin – Ama-me como sou, porque o filme é lamentável. Triste porque sabemos que Tizuka batalhou, durante 10 anos, para fazer o projeto de sua vida. E, por mais que discordemos, sabemos que ela não é uma picareta, é uma pessoa talentosa. Ainda assim, e com um orçamento superior aos R$ 10 milhões, ela fez um filme lamentável. Por que? Por vários motivos, e o primeiro dos quais é que o cinema é assim mesmo, e o cineasta pode muito facilmente perder o tom do filme, o filme pode “passar do ponto”. Com todas as interrupções e dificuldades de manter o mesmo tesão por 10 anos num projeto em continuidade, Gaijin peca antes mesmo de tudo isso, peca por sua concepção. Querendo fazer um produto que, aliando acabamento técnico e artístico com uma proposta que abraçasse o grande público, Tizuka não conseguiu nem uma coisa nem outra, e seu trabalho ficou longe de conseguir agradar ninguém. A princípio, poderíamos pensar que a diretora tropeçou em sua própria pretensão. Mas eu acho que é exatamente o contrário: tropeçou na sua covardia. Essa é a grande, enorme lição que tiro ao final do tenebroso Gaijin.

É a velha lição: quem um dia mergulha na merda dificilmente consegue se limpar, mesmo tomando banho de perfume. A merda se entranha nos poros da pessoa. Repleta dos filmes da Xuxa e das novelas canhestras, Tijuka poderia dar a desculpa que não se tratava de um projeto pessoal, e poderia exercitar a parte técnica, o refinamento da artesania. Mas o problema foi exatamente esse: quando se deparou com um projeto pessoal, levou todos os vícios anteriores para esse projeto. Então, o problema é essencialmente de concepção. Gaijin tem a estrutura de uma minissérie, de um melodrama de novela mexicana, no pior sentido de termo: encenação de atores canhestra, música o tempo todo para sublinhar tempos dramáticos, roteiro com mudanças de tom e excessos dramáticos risíveis, etc. O trabalho é tbem muito ambicioso, no sentido de cobrir um período histórico muito extenso e diversos personagens, com tramas, subtramas, etc. Mas nem na artesania o filme se salva: uma dificuldade de trabalhar com o cinemascope, esp no corte entre o close e o plano geral, uma série de gruas que em nada acrescentam à dramaturgia, uma direção de atores constrangedora, uma arte meramente decorativa.

Ah, alguns temas de Gaijin: i) o feminismo – as mulheres é que tocam a vida, sempre solitárias, “o importante é ter filho, e não marido”; ii) o conflito de gerações versus etnias – a adaptação aos novos tempos, e o sentimento de não ser brasileiro nem japonês. Nisso Tizuka quer contar sua própria história, de mãe solteira, e de imigrante rebelde. Nisso tbem fracassa, embora seja a parte do filme que nos traga algum interesse: ela ora defende a tradição dos bons costumes (a sabedoria da batyan) ora defende a necessidade da adaptação aos novos tempos (criticando o conservadorismo apático de sua mãe). No fim, Tizuka faz um retrato excessivamente carinhoso e tolerante, por isso enviesado pelo melodrama.

Mas seria fácil listar os problemas e problemas de Gaijin. Como a necessidade de mostrar que se sabe filmar ao invés de simplesmente filmar, a necessidade de mostrar que o filme é caro ao invés de simplesmente filmar uma história cara, etc. O que aqui nos cabe – e o que mais nos surpreende – é como uma pessoa talentosa deixa o projeto de sua vida escapar, fazendo um trabalho extremamente canhestro. Doloroso. Uma lição. Deixa escapar sim, por uma covardia, por uma dificuldade de se prender ao essencial desse trabalho, ou seja, por uma grande ilusão: a de que se pode fazer “um filme para o público”. Ilusão que sempre derrubou o cinema brasileiro.

1 Comments:

Blogger Felipe Nobrega said...

o mais triste é que ele ganhou o fraquissimo festival de Gramado
é mais uma prova que Gramado tá virando novela da GLOBO
ae!

3:56 AM, setembro 04, 2005  

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