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Cinecasulofilia

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quinta-feira, setembro 01, 2005

(GDV) CARTA PARA JANE

Carta para Jane
CCBB qua 24 ago 21hs
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Os filmes do Grupo Dziga Vertov são extremamente radicais em termos de sua busca por uma nova linguagem, uma linguagem que em si mesma reflita uma política, uma estética e uma ideologia. Com isso, são trabalhos que se afastam completamente do que um público pode esperar de um filme. Mas nesse Carta Para Jane há um equilíbrio, e o filme consegue isso sem abrir mão de seu radicalismo, da essência de seu cinema. Então que se revela um trabalho extremamente perturbador, extremamente atual, extremamente revelador de uma realidade. E um trabalho de linguagem pura! Todo o filme se baseia em duas coisas, que a princípio seriam anti-cinematográficas: uma foto e um texto escrito (uma carta). O filme todo é um ensaio de análise de uma foto tirada com a Jane Fonda no Vietnã. A princípio, seria uma foto pró-vietcongs , pois denuncia as atrocidades cometidas pelo imperialismo americano, já que a cara da JF é de pena dos pobres dos vietnamitas assolados pela guerra. No entanto, o filme vai inverter esse pensamento, mostrando, com muita propriedade, que na verdade o efeito é ao contrário: o filme é uma investigação profunda e complexa de que nenhuma imagem, nenhum representação é “ingênua”, mas um processo de fabricação que reproduz uma ideologia. O filme então mostra que a imagem de Jane Fonda como símbolo de um star system é deliberadamente usada, e que a atriz deve ter consciência disso e não se deixar explorar pelo fenômeno midiático. Além disso, mostra que a foto faz com que quem vê tenha um impulso de compaixão que ao invés de levar para a ação, ao contrário, faz fugirmos dela, leva à inércia. O filme mostra que a foto revela que a atriz escuta (e não fala), portanto não há diálogo. Mostra que o enquadramento, a luz, o foco, a posição da câmera (em contra-plongée), tudo enfim corrobora um estado de coisas. Esse ensaio acaba sendo feito a partir de uma foto e de um texto, e é um ensaio (isto é nem doc nem fic). Ou seja, um trabalho de profunda problematização de linguagem. Bonito, poético, contundente, Carta Para Jane é um filme definitivo, que teria que ser obrigatório em qualquer curso de fotografia, jornalismo, comunicação social, cinema, etc. Ou ainda tinha que passar em todas as escolas do ensino fundamental. Ver esse filme é um ato de cidadania, porque é isso o que a TV faz todos os dias. O filme me fez ver muita coisa. Saindo do cinema, conversando com uma francesinha de férias no Brasil, ela disse que adorou Central do Brasil. E eu repliquei – numa boa sacada – que o olhar da Fernanda Montenegro pro garotinho no filme é o mesmo da Jane Fonda pros vietnamitas. Esse olhar de pobrezinho, de miséria, de inércia, de sair intocado daquela realidade... Um filme que 30 anos depois de feito torna-se ainda mais atual que na época (é só ver a cobertura da CNN sobre os terroristas...).

2 Comments:

Anonymous Rodrigo said...

Perdi todos! =(

Mas olha só.. a foto é a captação de um momento.. dependendo do tempo de velocidade, pode ser de menos de um segundo... logo, no momento em q a foto foi tirada, a jane não falava, só escutava.. mas não quer dizer q depois ela nao tenha falado.

A problemática toda concentra-se na fotografia e no modo como a fotografia foi tirada...
mais do q na situação em si...

12:38 AM, setembro 02, 2005  
Anonymous Moacy said...

Meu caro: 'Carta para Jane' não me saiu da cabeça, até agora. Um filme atualíssimo, como você o disse bem. Abraços.

9:05 PM, setembro 02, 2005  

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