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Cinecasulofilia

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domingo, outubro 02, 2005

(FESTRIO) Flor do Equinócio

Flor do Equinócio
De Yasujiro Ozu
Estação Botafogo 3 sab 12:00
*** ½

“A soma de todas as inconsistências nada mais é do que a própria vida”

O que dizer diante de mais um filme de Ozu? Primeiro, que realmente o Jaime Biaggio ao escrever que Hsiao-Hsien “emulou sua estética” em Café Lumière, ou não viu nenhum filme de Ozu ou não entende nada de cinema: a estética de Ozu é dura, simétrica, cheio de campos-contracampos duros com planos curtos enquanto a de Hsiuao-Hsien é leve, cheio de planos seqüência alongados, NENHUM campo contracampo, etc, etc.

É incrível como o cinema de Ozu é matemático, e como cada vez mais que o vejo eu lembro dos filmes de Bresson: é preciso buscar o concreto par atingir o espiritual. Este Flor do Equinócio é absolutamente simétrico: Ozu abre parênteses, colchetes e chaves, mas os fecha um por um. Um momento é típico: o pai de Setsuko está ouvindo informações de um empregado, amigo de Tamiguchi. A seqüência começa com o pai de Setsuko trabalhando. Plano 2: entra o amigo de Tamiguchi. Nisso, uma secretária diz que outra pessoa procura por ele. Ozu “fecha o parênteses”: volta para o plano 2, depois para o plano 1. Entra o sr. Hitomi. Tudo se faz da mesma forma. Até que o sr. Hitomi sai. O pai de Setsuko se senta, no mesmo plano do início da seqüência. Corta para outra seqüência.

Esse é o cinema espiritual de Ozu.

De outro lado, por trás do tema simples do casamento de uma das filhas, é incrível como Ozu nos faz ver claramente que seu filme fala sobre o mistério da vida, sobre a complexidade da natureza humana, sobre como a solidão e o egoísmo são próprios da nossa essência. E também, claro, sobre o papel do tempo, como as coisas precisam mudar para que permaneçam as mesmas, como inevitavelmente “a fila anda”. Mas ao contrário do tom barroco, pesado, melancólico de um Visconti em O Leopardo (não sei porque mas me lembrei muito desse filme ao ver Flor do Equinócio...), o cinema de Ozu busca um conforto espiritual, uma espécie de redenção por meio de um cinema duro, austero, rigoroso. O filme é uma tomada de consciência desse pai em relação à sua atitude inflexível, mas, por trás disso, há um profundo amor desse pai a essa filha (talvez ele seja culpado por amá-la demais), um profundo amor desse pai a um sentimento de um Japão que está se esvaindo.

Tem várias cenas fantásticas. Uma delas é quando o casal velho está na ponte, vendo a filha e o namorado ao longe. Outra é na reunião dos amigos de escola, quando eles cantam uma canção. O cinema de Ozu é realmente extraordinário. E absolutamente simétrico e rigoroso. Ainda assim completamente emocional e religioso.

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