Tenho trocado várias cartas com o Rosemberg, grande cineasta que tem dado um apoio fundamental a meus pobres trabalhos. Segue a última que enviei ontem, que achei por bem colocar aqui no blog. Quis colocar pq primeiro reflete bem meu estado de espírito atualmente; segundo, porque tem uma reflexão bastante interessante sobre meus filmes e sobre cinema, motivo desse blog.
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Oi Rosemberg,
Sua carta me chega num momento de grande reflexão.
A correria nas últimas semanas foi muito, muito grande. O desgaste – físico, emocional – está sendo muito grande. Além do meu trabalho, que me tira muitas das minhas energias (você deve imaginar), vim dando aulas às segundas, terças, quintas e sábados. Esse Festival Universitário foi muito cansativo. Passaram muitas coisas minhas, o que é muito legal, então por isso quis ver o máximo de filmes, participar dos eventos, essas coisas. Teve finalmente a primeira exibição pública de O POSTO, um projeto que é muito sofrido para mim, um projeto que eu sempre tive uma relação de compromisso que transcende todos os meus vídeos, com quem tenho uma relação muito mais lúdica. Teve a primeira exibição do EM CASA, que me consumiu todas as energias. Isso porque foi um sufoco danado pra cópia ficar pronta, porque o Yuri, que me ajudou muito fazendo a parte do som, teve umas dificuldades técnicas, então praticamente fiquei três noites sem dormir para poder finalizar esse trabalho a tempo de ser exibido. Tive que tirar meio na marra dez dias de férias, senão eu não ia agüentar, mas já estou de volta ao batente, porque a vida tem que continuar, não é mesmo?
Você me pergunta sobre a exibição de O POSTO. Difícil, muito difícil falar. Em geral, fiquei muito contente: as pessoas gostaram, vieram comentar comigo, senti que é um trabalho que tem um equilíbrio entre comunicação e expressão, que sempre foi um norte, uma meta para mim nesse trabalho. Vendo a reação das pessoas ao POSTO, agora sinto que posso ter a ousadia de querer aspirar a me tornar um cineasta um dia. Isso me deixou muito orgulhoso e confiante!
Mas por outro lado, vêm os dias seguintes, e sua carta me pega num momento de grande melancolia, ainda fruto desse cansaço. A gente fica se perguntando, depois de tudo, “pra quê isso?”. As pessoas até gostaram de O POSTO, mas estão muito longe de saber o que está em jogo com esse trabalho, o que realmente isso representa. Eu também fiquei muito triste porque grandes amigos, que sabiam o quanto esse momento significava para mim, sequer apareceram para ver o filme, e olha que já passou três vezes. As pessoas não tiveram essa generosidade, e senti a falta de algumas pessoas importantes para mim. Mas também não dá para esperar muito das pessoas, não é? É claro que esse não é o seu caso, sua presença me deixou muito honrado. Aliás, agradeço muito todos os elogios e toda a força que você está dando para meu trabalho, você não sabe o quanto isso é importante. Ninguém nunca deu valor nenhum a esses vídeos que eu faço. Nenhum mesmo. E eu só continuei fazendo porque é uma necessidade muito grande que eu tenho, então eu continuo fazendo, porque é a forma que eu encontro para me expressar, para viver, para continuar vivendo. Geralmente esses vídeos são motivo de chacota. Foi assim com a exibição do AUTO-RETRATO na Mostra do Filme Livre e no Festival Universitário. Mas é assim mesmo, não dá pra esperar que seja diferente. A gente que quer fazer um trabalho que seja realmente diferente do que está aí, tem que estar pronto para isso, não é? Vejo o seu exemplo, uma pessoa super respeitada e consagrada, mas que não consegue mais filmar, mas mesmo assim tá na luta, fazendo seus vídeos, escrevendo. É isso, a gente não pode deixar esmorecer. Mas eu que tenho uma personalidade mais franzina, sinto mais isso. É incrível como as pessoas reagem contra o nosso direito de ser livre, parece que isso ofende muito as pessoas!! Às vezes, sinto vontade de gritar “EU TENHO O DIREITO DE TENTAR SER LIVRE, PELO MENOS DE TENTAAAR!!!”, mas depois logo percebo que seria uma bobagem. O desafio é permanecermos serenos, equilibrados...
Então que me senti muito solitário depois de tudo. Depois de toda a alegria com a recepção do filme, com o alívio desse trabalho ter chegado ao seu esperado fim, veio a reflexão. Mas o cinema – estou começando a perceber – é isso mesmo. O cineasta é muito solitário. Tem toda a equipe, aquele alvoroço pra tudo ficar pronto, etc, mas depois o cineasta fica sozinho, e só lhe resta recomeçar, partir pro próximo filme. É como se fosse uma festa: todos vêm, participam, te dão os parabéns, mas no dia seguinte, você tem que limpar a casa sozinho, sempre sozinho. Assim é o rumo das coisas, não dá pra mudar isso. Essa tarefa de limpar a casa depois da festa é dolorosa mas é necessária, é muito necessária, porque ela é adubo pro que vem depois, te dá a humildade de saber que o cinema não é só a festa, e que se tem que trabalhar duro, muito duro, sem se iludir com as coisas. Aliás, já falei muito disso no meu AUTO-RETRATO, não é verdade? Bom, mas é isso: resta partir para o próximo filme!
Até porque amanhã é um novo dia, não é?
Espero que seja.
Um abraço,
e mais uma vez obrigado,
XXX.