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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, janeiro 31, 2006

Munique

Munique
De Steven Spielberg
Cinemark Botafogo 5, sab 12:20
*

É difícil ter o que falar sobre Munique. Nem eu, que sou fã dos últimos filmes do Spielberg consegui engolir. Parece que aqui Spielberg quis fazer um filme mais próximo de um A Lista de Schindler: um filme político (evidentemente um filme falsamente político), que supostamente trata de “temas importantes”, mas um filme menos de invenção, menos de cinema. Como o tema em si não me interessa (isto é, não sou judeu nem palestino), o filme foi completamente entediante.

O filme é sobre a vingança, ou melhor, sobre a impossibilidade de vingança. O grupo planeja o assassinato de líderes, para vingar o fato lá de Munique, só que os assassinados são substituídos por outros, talvez mais cruéis que os primeiros, isto é, a fila anda, as coisas mudam para continuarem como estão, e então a vingança é tola e vã. Esse é o humanismo de Spielberg. Mas o filme mostra morte a morte coroando o cinema de suspense (a bomba vai estourar ou não, etc, etc), o que faz com que, depois da segunda morte, fiquemos absolutamente de saco cheio de tudo isso.

Nos últimos vinte minutos, o filme retoma seu interesse, quando desenvolve as questões sobre o fato daquele palestino ter que ser um estrangeiro defendendo as causas do seu país. (Como por causa do Desertum estou debruçado sobre as questões do estrangeiro, isso me interessou em muito, especialmente as cenas nos Estados Unidos). O filme foca na questão da família (pra variar na filmografia de Spielberg) e aí temos que o líder do grupo terrorista se torna quase como John Wayne em Rastros de Ódio: ele tem o dever de fazer justiça e parte em sua peregrinação insana. E tem o seu interesse, um filme reticente, o tom de paranóia do líder. A “medalha que não é ganha”, como se fosse um filme de guerra. Mas isso não salva o sonolento e pouco inspirado desenvolvimento do quase burocrático Munique. Ou seja, prefiro os filmes atípicos de Spielberg, porque quando ele faz cinema a sério.... hmmmmm... é dureza!

p.s: a projeção do Cinemark e o público foram TÉTRICOS! O som falhava, etc.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Desertum

Dia 11 de fevereiro no CCBB às 17hs estréia meu segundo longa experimental em vídeo, intitulado DESERTUM. Ainda tem coisas para filmar: o “prólogo” e o “epílogo”, que acredito que darão uma força maior para esse trabalho. Mas do que se trata? Das coisas de sempre: um filme sobre o silêncio, sobre a solidão, sobre o distanciamento e a intimidade, um filme sobre a linguagem, um filme sobre mim. A não ser esse prólogo+ epílogo, o filme foi todo filmado quando eu estava em férias na Argentina. Por isso, eu digo que o filme é um “Em Casa versão Argentina”. Mas na estética não se trata tanto disso: enquanto o Em Casa era quase todo em planos detalhe em interiores, o Desertum é quase todo em planos gerais em exteriores; enquanto o Em Casa era quase mudo (som ambiente), o Desertum tem música (uma música esquisitíssima, que só o Ricardo Pretti poderia ter me apresentado). Mas para mim é como se eu fizesse o mesmo filme mais uma vez, o que para mim não chega a ser um retrocesso, apesar de o Em Casa ser muito mais austero e pessoal do que o Desertum.

O Desertum é sobre a questão do estrangeiro. Se o Em Casa era sobre sentir-se estrangeiro em sua própria casa, o Desertum é sobre sentir-se estrangeiro num país estrangeiro. No fundo, os dois são sobre sentir-se estrangeiro consigo mesmo, que no fundo é outra forma de ver a questão do distanciamento e da intimidade. E tudo tbem faz parte de um cinema que não diz mas simplesmente mostra, isto é, um cinema do registro (viva Lumière e viva Mekas).

Nessa Argentina não tem pessoas, há apenas um olhar aparentemente frio e distante sobre tudo, ou seja, sobre a perenidade das coisas. Essa Argentina pode ser qualquer lugar, pode ser inclusive nossa própria casa. O que muda antes ou depois de ter viajado? Na volta tudo está no mesmo lugar. É como se não tivéssemos ido. Mas é claro que fomos.

Por isso sinto uma necessidade de terminar quase da mesma forma do Em Casa. Com a certeza de que é importante viajar, mas que no fundo dá no mesmo. Por isso, tem que terminar na minha casa, na minha casa de sempre. Ou ainda, tem que terminar em mim. Ir é como não ter ido, mas é importante ter ido. Estar lá e não estar lá é estar em lugar-nenhum. Em Desertum não há mais a materialidade dos objetos duros de Em Casa, há apenas um conjunto de “lugares-nenhum”. Dar um conceito a essas imagens estranhas a si mesmas, imagens de uma ausência, é que é talvez o grande desafio formal desse trabalho. Essas imagens banais ganham um sentido exatamente pelo seu não-significado. Nesse sentido, Desertum é um diário de viagem às avessas: o romantismo da viagem é revertido pelo confrontamento consigo mesmo.

Duro é o confrontamento da volta, é ver as coisas no mesmo lugar quando se volta. Sumir por dez dias e ver que tudo está absolutamente na mesma, que na verdade não se faz a menor falta. Os objetos estão no mesmo lugar. A viagem de volta é sempre mais difícil que a de ida. Por isso, tem um mesmo plano de dentro do avião, na ida e na volta: é quase o mesmo plano, mas é um plano outro.

2046

2046
De Wong Kar-Wai
Unibanco Arteplex 1, ter 19hs
0

Apesar de não ter gostado de Amor à Flor da Pele, não sei porque fui com boas expectativas para o novo filme do Kar-Wai, mas bastaram os créditos iniciais para constatar de que a coisa cada vez mais iria pro brejo. Em nenhum momento do filme senti uma vontade legítima, intensa, de se fazer cinema: tudo servia para corroborar a “grife Kar Wai”, ou seja, obra de um deslumbrado que no fundo quer mesmo é aparecer. Os créditos são hilários: as letras incompreensíveis começam pequenas e avançam em direção ao espectador, aumentando de tamanho quando surge o nome do diretor: “um filme de Wong Kar Wai”. Recurso típico do filme, em que tudo é parafernália para aparecer: todos os maneirismos possíveis, firulas, câmeras lentas, etc, etc.

A coisa curiosa é que Kar Wai é um oriental cujo maior desejo era ter nascido latino. E para quem conhece um pouco a cultura oriental isso é a coisa mais esquisita do mundo. Kar Wai quer filmar como um latino, como se fosse Almodóvar: câmeras lentas, entrechos românticos, música latina, etc. Até na atuação e nos diálogos a contenção – típica da expressão corporal e dos costumes orientais – desaparece. Daí vemos como Maggie Cheung é fantástica: ela tem que se desdobrar para dar dimensão a essa personagem tipicamente latina. Ainda assim não consegue tornar o filme suportável. Elipses, flashbacks, pulos, que poderiam tornar o filme mais ágil acentuam ainda mais o tom de cacoete do filme. Mas, enfim, como falávamos, Kar Wai quer fazer cinema latino, e os diálogos e os atores tentam colocar isso. Chega até a ser comovente, porque o filme fala sobre a impossibilidade amorosa, sobre como é vão tentar esconder um sentimento que é inevitável (nada mais latino). Pode-se até argumentar que a beleza de 2046 está nisso: os personagens dizem mas no fundo não dizem nada, e o filme é exatamente sobre essas máscaras. Mas se é assim, a estética deslumbrada de Kar Wai corrobora o “mundo de máscaras”, e dá legitimidade ao mundo superficial e banal em que mergulham os personagens, não havendo nem um distanciamento crítico típico de Fassbinder ou Sirk nem o clima ingênuo da “vida pela vida” dos filmes americanos. Quando entra então o lance do escritor, e o próprio filme é o tal livro, então é que a coisa vai pro brejo de vez. Se não estivesse esperando outro filme depois, confesso que teria saído do cinema. Um dos filmes mais irritantes que vi nos últimos tempos.


E depois vi CRIME DELICADO, o melhor filme brasileiro que vi há tempos. Um filme corajoso, arriscado. Falo mais depois, inclusive sobre a tétrica crítica da Veja, assinada por Isabela Boscov.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Trajetória de O POSTO :

Passou em:
Festival Universitário (não tem seleção)
Festival de Curtas de São Paulo (não tem seleção)
Primeiro Plano – Juiz de Fora
Festival de Brasília
Olhares – Festival de Viçosa
Festival Cine Curupira

Foi vetado em:
Curta Cinema
Atacadão dos Filmes (??!!!)
Gramado
Goiânia
Vitória
Santa Maria
Tiradentes
Paraty
Cine Taquary – Taquaritinga do Norte (??!!)
e
outros que esqueci

Foi convidado:
Mostra do Filme Livre (por mim mesmo)

Fulaninha
De David Neves
CCBB sex 20 17hs
* ½

Este filme de David Neves busca ser uma amena crônica de costumes sobre o Rio de Janeiro, ou mais especificamente sobre Copacabana. O roteiro, ágil, ajuda: concentra-se num cineasta (Antônio Marzo), que é uma espécie de alter-ego do diretor. Amigo de todos, ele mantém um certo tipo de distância, um certo romantismo, uma certa pureza, em contraste com seus amigos que no fundo querem se dar bem (o cineasta pornô, o advogado que agora vai ter que trabalhar, o corretor que vive do dinheiro da mulher). O cineasta busca uma beleza perdida, uma lolita apelidada de “fulaninha”. Quer fazer um filme sobre ela, quer amá-la. Aos olhos de Marzo, ela é de uma beleza pueril; aos olhos do espectador, no entanto, ela é bem ativa: transa livremente com o namorado, não se importando que ele seja filho do porteiro, resolve problemas para a mãe, etc. Sabe o que quer. Marzo também: quer fazer um filme sobre ela. Quer ela. Acaba conseguindo a mãe. Ou seja, vê a realidade, não se deslumbra com o sonho. Entre a mãe e a filha, a mãe, claro. Esse é o cinema de David Neves: romântico, mas preso à realidade do cinema brasileiro, o “cinema possível” no final dos anos oitenta, acabando a Embra, acabando o sonho de uma geração, acabando o sonho de um cinema brasileiro forte. O cinema possível de Neves é também ligeiramente apelativo, mas, como dissemos, é o que era possível para a época. É o cara que para se dar bem, faz filme pornô. Mas ainda é possível ter uma esperança, e o personagem de Marzo está lá. Nisso, o roteiro encanta, e é legal ver as cenas na Prado Júnior, uma Copacabana filmada com um jeito de bairro em que as pessoas se conhecem, como se fosse na Zona Norte. Mas a mise-en-scene é muito esculhambadazinha, um tanto desleixada, as piadas um tanto passadas como se fossem de um curta da UFF. Filma-se para os atores, o que não á mal, mas acaba sendo um filme muito mais de roteiro do que de cinema. É o cinema possível, o que não indica que necessariamente seja bom. Por isso, dá uma certa tristeza. Destaque para a cena em que Emanuel Bonfim desabafa sobre a situação de todos. Enfim, de qualquer forma, um filme que merece ser visto.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

As Chaves de Casa
De Gianni Amelio
Estação Paissandu, qui 19 21:30
* ½

“Pai reencontra o filho, deficiente físico, após tê-lo abandonado quinze anos antes”. Por esse entrecho, poderia se esperar um filme absolutamente piegas sobre a reconciliação, e As Chaves de Casa não deixa de ser isso, e se utiliza recursos para escapar do dramalhão (o alto-astral do filho, a tentativa de o filho ser normal, etc.), esses recursos no fundo não deixam de ser um lugar-comum para enfatizar o drama. Há um certo interesse em As Chaves de Casa, no entanto, e esse interesse reside especialmente na sobriedade da mise-en-scene de Amélio. O diretor utiliza um tratamento do tempo que enfatiza os silêncios e as expressões dos personagens. Faz um filme simples, mas de uma elegância formal que o afasta do que o cinema americano poderia fazer com um tema desses (ou seja, As Chaves de Casa não é um telefilme, vide o raríssimo uso da música no filme). Os primeiros dez minutos oferecem ao espectador uma apresentação estimulante, quebrando alguns elementos da narrativa clássica (identificação, elipses, etc.). De qualquer forma, não há nada particularmente iluminado no tão batido tema do reencontro pai-filho, ou mesmo no tema da inserção do deficiente físico na sociedade “sã”. Mas há um sentido de cinema por trás disso: há um elegantérrimo final em aberto, bastante bonito; há a separação do pai e da senhora que lhe dá conselhos numa estação de trem.; há a extraordinária performance do menino deficiente. Amelio mostra que conhece seu ofício como diretor, e cria um clima para o filme que lembra o típico cinema italiano dos anos setenta. Dados os limites de seu pressuposto, acaba senso razoavelmente estimulante.

Nunca pensei que pudesse ser assim
Ontem as palmeiras cresceram
As flores desabrocharam
Ali na minha varanda
E fiquei ali, matutando como um espelho d´água,
De frente para mim mesmo,
Onde estão meus tão estimados colares?

Queria que estivesses aqui
Quiçá tão perto, ou longe,
Um palmo de légua amargo
Na longa estrada que me leva
para o rancho das ribanceiras
Não nos vemos mais
Mas talvez assim deva ser
Exatamente assim

Triste olaria
Lembrança do ontem que não se foi
E hoje aqui o gesto fúnebre
A carniça seca, os olores pútridos
E o retrato sob o paletó

quarta-feira, janeiro 18, 2006

DESERTUM

Mais um aperitivo:

Frase que abrirá meu novo longa: DESERTUM

“Estou à procura de um homem que não conheço, que nunca foi tão eu mesmo quanto desde que comecei a procurá-lo.” Edmond Jabès

Tonacci

Aperitivo só pra isso não ficar vazio. O início dos textos que escrevi sobre o Tonacci. Comparei-o com um camaleão, que muda de cor para sobreviver às ameças de seu habitat natural...


Os múltiplos olhares do cinema camaleônico de Andrea Tonacci

Um cinema camaleônico

Quarenta anos após sua estréia no cinema, com a realização do curta Olho Por Olho, Andrea Tonacci acaba de finalizar seu segundo longa-metragem de ficção, o esperado Serras da Desordem. Este, então, torna-se momento mais que oportuno para a realização de uma retrospectiva da obra desse diretor italiano-paulista-brasileiro que continua sendo pouco visto e ainda menos compreendido.

Depois da positiva recepção do mitológico Bang Bang, Tonacci teve que esperar mais de trinta anos para ter a oportunidade de rodar um novo filme de ficção. Mas nesse intervalo o diretor nunca se manteve inativo e, como um camaleão que muda de cor para sobreviver às ameaças de seu habitat natural (e a megalópole do pequeno cinema brasileiro é muitas vezes mais árida do que a caatinga plena), foi buscar alternativas para o prosseguimento de seu projeto de cinema, fugindo dos estereótipos do “cineasta marginal” que tanto o perseguem desde a estréia de Bang Bang. O filme passou a ser a coroação e o martírio de Tonacci desde então. Porque se de um lado marcava a presença do diretor na história do cinema brasileiro, por outro, Tonacci passava a ser um autor à sombra de sua obra. Estigmatizado pelo impacto do filme, Tonacci passava a ser “o autor de Bang Bang”, ao invés de simplesmente ser “autor”.

À margem dos marginais, Tonacci foi buscar alento no contato com o outro. Refugiou-se primeiro no exterior, entre o Irã e a França, onde acompanhou a turnê internacional da peça de teatro de Victor García produzida por Ruth Escobar, dando origem ao longa documental Jouez Encore, Payez Encore (Interprete Mais, Pague Mais). Por tratar de forma crua o turbulento processo de criação da peça, concentrando-se nos bastidores de sua produção, Tonacci enfrentou resistências para a exibição do filme, culminando com sua interdição. Apenas na década de noventa, o longa, remontado (sua duração foi reduzida de 120 para 70 minutos), pôde voltar a ser exibido, mas permanece inédito comercialmente.

Em seguida, uma longa pesquisa sobre a questão do olhar desembocou no contato com a cultura indígena, praticamente “ameaçada de extinção”, num Brasil desenvolvimentista em que os índios eram vistos, pelo governo militar, como “entrave ao progresso brasileiro”. Numa cultura ainda não contaminada com o aparato tecnológico do audiovisual, o olhar indígena ainda poderia ter um frescor, um senso de novidade? A pesquisa propiciou um contato que gerou o longa documental Conversas no Maranhão, em que, se os índios ainda não tinham o controle dos equipamentos de cinema, eles poderiam ter voz para narrar suas adversidades e contar sua história desde tempos imemoriais. A poesia e a linguagem do “ter voz” rapidamente foram combinadas com a urgência da questão política, em especial da demarcação das terras indígenas. Política, poesia e linguagem.

A questão indígena prosseguiu com a série Os Arara. Originalmente produzida em três partes, apenas as duas primeiras foram exibidas na TV Bandeirantes, sendo que a terceira, em exibição na Mostra, nunca foi completamente finalizada, e permanece inédita. Na série, Tonacci acompanha o drama da nação Arara, não-contactada (isto é, sem contato com a “civilização”), que teve suas terras partidas ao meio com a construção da Transamazônica. Em um constante crescendo, de forma asfixiante, Tonacci vai desvendando os interesses em torno da construção da rodovia e tenta um inédito contato com os índios hostis, mediado por um sertanista da FUNAI.

Após a realização de Os Arara e vendo fracassadas suas tentativas de dirigir mais um longa, restou a Tonacci a realização de institucionais para que pudesse continuar na ativa. Por trás do academicismo dos projetos de encomenda, o diretor exercita a linguagem do audiovisual por meio de uma combinação de ritmos, imagens e sons de forma singular. Dentre estes, estão em exibição na Mostra, Brasil Bienal Século XX, Theatro Mvnicipal de São Paulo e Biblioteca Nacional.

* * *

Quatro olhares

Vendo a obra de Tonacci como um todo, é possível identificar quatro grandes linhas, quatro olhares em torno das quais a camaleônica filmografia do diretor se divide:

A primeira é o olhar experimental, que coincide cronologicamente com o início de sua filmografia, e é a sua vertente mais conhecida. Dela faz parte seu primeiro curta-metragem Olho Por Olho, e o primeiro longa-metragem Bang-Bang.

A segunda seria o olhar metalingüístico. Tonacci, através do cinema, sempre refletiu sobre o próprio processo de criação da obra de arte, inserindo uma auto-reflexividade que dialoga diretamente com o cinema como ato de construção de um discurso, contra a invisibilidade típica da narrativa clássica. Dessa vertente, integram Blá Blá Blá, um dos primeiros filmes que aborda o complexo tema de como os meios de comunicação perpetuam um discurso de massa, e Interprete Mais, Pague Mais, que se concentra nas turbulências em torno dos bastidores de uma peça de teatro, em processo de ser encenada. Mais recentemente, dentro de seus vídeos institucionais, Pra Ver TV Tem Que Ficar Ligado recupera a participação da TV na construção de uma sociedade brasileira, dando voz a defensores e críticos de sua estrutura de funcionamento.

A terceira é a do olhar antropológico, tendo como foco a questão indígena. Conversas No Maranhão é um dos primeiros filmes brasileiros a dar voz aos nativos, retratando seus costumes e rituais praticamente fadados à extinção, graças à arbitrária atuação dos “órgãos competentes”, responsáveis pela demarcação das terras indígenas. Em seguida, a série Os Arara, ao buscar um inédito contato com a tribo dos Araras e ao denunciar o descaso das autoridades locais na construção da Transamazônica.

A quarta envolve os trabalhos de encomenda, os institucionais. Optamos em chamá-la de “um olhar por trás da encomenda”. Com isso, queremos apontar para o fato de que, ainda que não sejam típicos do diretor, são trabalhos em que existe um olhar que se esconde por trás do academicismo do formato do institucional. Esse olhar se revela pela presença da montagem, pela inventividade da associação entre imagem e som, e pela forma como se apresenta um desejo pela linguagem. Nesse grupo se inserem Brasil Bienal Século XX, Theatro Mvnicipal de São Paulo e Biblioteca Nacional.

Por fim, cabe destacar que essa classificação é simplesmente um parâmetro, não devendo ser vista como uma categorização. Por exemplo, Blá Blá Blá é um filme que oscila entre a vertente experimental e a metalingüística, assim como Brasil Bienal Século XX, ainda que possua um olhar institucional, dialoga com a vertente metalingüística por revelar um olhar panorâmico sobre a evolução das artes plásticas brasileiras no século passado.

É dessa forma que retomo ao início deste texto. Os quatro olhares se fundem, representando na verdade um mesmo olhar, o olhar de seu autor, Andrea Tonacci. No fundo, cada filme revela aspectos desses quatro olhares, ainda que em um caso uma forma de olhar se sobressaia em relação às outras. É assim que deve ser visto o camaleônico cinema de Andrea Tonacci: um cinema de múltiplos olhares.

to ralando pacas, então isso ta meio parado
Só para registro
SERRAS DA DESORDEM, o nofo filme do Tonacci, é um grande filme.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Algumas "justificativas" (depois escrevo mais quando tiver saco...)


Jonas MEKAS
Por fazer os filmes mais intimistas do mundo, por querer fazer os filmes a frente de seu tempo resgatando o cinema das origens, por mostrar que só é possível falar do outro falando de si mesmo, pela generosidade em compartilhar uma intimidade sem medo de ser ingênuo e sem querer fazer um “cinema grande”, por mostrar que um filme pode ser artístico sem acabamento técnico

Yasujiro OZU
Por fazer o cinema mais rigoroso do mundo, por viver de forma linda e dolorosa o desafio da modernidade, o desafio de ver com dignidade a cultura oriental se desfazendo entre a tradição e a modernidade, por querer obstinadamente sempre fazer o mesmo filme, por ser novo sendo eterno, por conseguir registrar toda a complexidade da natureza humana, nossas motivações egoístas, tolas, mesquinhas, solidárias, amorosas.

Robert BRESSON
Por tornar a dramaturgia do cinema uma coisa artística, por ter uma fé descomunal na possibilidade de o cinema ir a fundo na alma das pessoas, por mostrar que só é possível ser verdadeiros se vivermos o cinema e não se “posarmos para o cinema”, por conseguir olhar nos olhos da alma das pessoas e não abaixar a cabeça

Jean-Marie STRAUB
Por fazer os filmes mais absurdamente coerentes de todos os tempos, por mostrar que só se pode transcender o filme se nos prendermos ao concreto, por revolucionar as potencialidades da linguagem no cinema ao simplificá-las ao máximo, por mostrar que cinema é arquitetura, por fazer poesia com um pedaço de concreto

Krzysztof KIESLOWSKI
Por mostrar que o mundo é feito de pessoas que sofrem e que tentam, por mostrar estilhaços de modernidade através de signos difusos e de simbologia nada trivial, por dar pistas aparentemente falsas que se encontram, por mostrar que a imagem é traiçoeira mas é tudo que temos, por mostrar que o ser humano é frágil e impotente mas é preciso acreditar nele, por mostrar que deus existe ainda que não o vemos

Andrei TARKOWSKI
Por ainda acreditar no poder miraculoso, transformador e redentor das imagens, por sua devoção a um cinema do tempo que retrate a angústia existencial do viver com seriedade, por conseguir mostrar por trás do russo carrancudo uma enorme possibilidade de sentir intensamente



Alexander DOVZHENKO
Por compor alegorias visuais a frente do seu tempo, pela coragem em destruir o esquematismo do cinema russo do pre-guerra, por fazer animais ensinarem os seres humanos a terem vida, por fazer uma declaração de amor à sua terra natal e à possibilidade de ressurreição diante da guerra, por fazer da poesia um libelo de transformação pessoal e política da vida

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Quinze cineastas
(hoje para mim)
(sem ordem)

Jonas MEKAS
Yasujiro OZU
Robert BRESSON
Jean-Marie STRAUB
Krzysztof KIESLOWSKI
Andrei TARKOWSKI

Alexander DOVZHENKO
Ozualdo CANDEIAS
Michelangelo ANTONIONI
Wim WENDERS
Carl Th. DREYER
Alain RESNAIS
Eric ROHMER
Roberto ROSSELLINI
Kenji MIZOGUCHI

obs

Filmes que se eu visse poderia mudar o meu ranking:

A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou), de Wes Anderson (EUA, 2004).
O Castelo Animado (Hauru no ugoku shiro), de Hayao Miyazaki (Japão, 2004).
Tão Distante (Distance), de Hirokazu Kore-Eda (Japão, 2001).
De Tanto Bater, Meu Coração Parou (De battre mon cour s'est arrété), de Jacques Audiard (França, 2005).

Filmes que eu gostaria de ver por uma curiosidade :

Desde Que Otar Partiu (Depuis qu'Otar est parti), de Julie Bertuccelli (França, 2003).
Espanglês (Spanglish), de James L. Brooks (EUA, 2004).
A Noiva-Cadáver (Corpse Bride), de Tim Burton (Reino Unido, 2005).
A Queda! As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang), de Olivier Hirschbiegel (Alemanha/Itália, 2004).
Sobre Café e Cigarros (Coffee and Cigarettes), de Jim Jarmusch (EUA, 2003).

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Ao contrário de nada
Nada ainda existe
Existe ainda
Ainda existe
Ao contrário
Nada
Tudo
Ao contrário
Ainda existe
Existe ainda
Existe ainda tudo
Ao contrário de tudo

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Alguns motivos (depois eu continuo)

NINGUÉM PODE SABER
Por trazer um novo olhar ao eterno tema do cinema oriental: o conflito entre tradição e modernidade, entre intimidade e distância; por transpor a difícil tarefa da sobrevivência e da invisibilidade em um cinema ético e afetivo

UM FILME FALADO
Por transpor os limites das barreiras da idade (novo x velho), das fronteiras (cada país) e da arte (teatro x cinema), por fazer de um filme didático algo absurdamente novo e de enorme frescor

THE BROWN BUNNY
Por compor um cinema que vê a solidão de forma orgânica, que une o tempo, espaço e o meio físico como forma de ver o mundo.

MARCAS DA VIOLÊNCIA
Por mostrar com uma decupagem austera e invisível como o melhor cinema americano, a cruel essência da natureza humana, na impossibilidade de aniquilação do mal, do instinto ou da violência

RETROSPECTIVA 2005

Melhores Filmes do Ano
(lista provisória)
concorrem: lançamentos comerciais na cidade do Rio de Janeiro (que eu vi)
.
1 - Ninguém Pode Saber, de Hirokazu Kore-Eda
2 - Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira
3 - The Brown Bunny, de Vincent Gallo
.
4 - Marcas da Violência, de David Cronenberg
5 - Desejo e Obsessão, de Claire Denis
.
6 - Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes
7 - Old Boy, de Park Chan-Wook
8 - Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg
9 - Clean, de Olivier Assayas
10 - Exílios, de Tony Gatlif
.
p.s.: A Borboleta Púrpura, de Lou Ye, foi lançado diretamente em vídeo, ficando fora da lista. Se lançado em cinema, certamente integraria a lista dos 10 mais.
.
e mais:
A Menina Santa, de Lucrecia Martel
Nossa Música, de Jean-Luc Godard
Flores Partidas, de Jim Jarmusch
Irmãos, de Patrice Chereau
O Aviador, de Martin Scorsese
.
No cinema nacional, os melhores a meu ver:
Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes
Bendito Fruto, de Sergio Goldenberg
Extremo Sul, de Monica Schmiedt e Sylvester Campe
O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho