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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sexta-feira, março 31, 2006

Meu Tio Antoine, de Claude Jutra * ½

Herbert de Perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz *

Boa Noite, e Boa Sorte, de George Clooney ***

 

terça-feira, março 21, 2006

Aqui Termina o Inferno

De Masaki Kobayashi

Odeon dom 5 18hs

** ½

 

Bom, percebi só agora que não escrevei nada sobre o filme do Kobayashi, que passou no Odeon. Uma oportunidade quase única para ver o cinema japonês dos anos 60 e 70. Aqui Termina o Inferno, num cinemascope em PB de grande plasticidade, quase que retoma a tradição do cinema de samurais japonês. O filme se passa no fim de uma era feudal, em que o comércio é proibido. Os “samurais” agora são uma espécie de contrabandistas, que não atraem a suspeita da polícia exatamente por se esconderem sob a fachada de uma antiga classe aristocrata, agora claramente decadente. Eles vivem nesse lugar-nenhum, numa espécie de semi-ilha isolada da cidade mas ao mesmo tempo em contato com ela, um entremeio. Por isso serve como um refúgio silencioso a quem quer se isolar do mundo, por qualquer motivo que seja. O filme, tipicamente japonês, desenvolve as motivações dos personagens e o “código de ética” que envolve essas relações, mas o destino, cruel, traiçoeiro, desde o início parece que vai esperar a primeira oportunidade para apunhalar esses personagens. É o que acontece no final, quando esses “jovens amaldiçoados” tentam ajudar um pobre homem, que perdeu o pouco que tinha por causa de um amor puro (sua amante por quem ele trabalhava a vida toda para libertá-la de seu chefe, foi vendida por este para um bordel). A luta pela redenção desse amor puro talvez seja a última esperança de redenção deles mesmos, esses marginais, forasteiros, perdidos, e por isso lutam por esse homem. O final mostra a síntese dos conflitos: uma armadilha, o destino, o lugar-nenhum. Kobayashi numa estética simples se torna testemunha da impossibilidade de redenção, da difícil tarefa de lutar por uma esperança perdida, mas como, ainda assim, precisa-se lutar até o final por um centelho de esperança, por um mundo melhor, mais puro, menos ardiloso. É nessa ingênua mas sincera tentativa de “purificação” que o calmo cinema de Kobayashi navega suave até a batalha final, filmada com grande energia e ímpeto. A prisão do protagonista é exemplar, e o grande clímax do filme. O filme poderia ser um pouco menor e às vezes se perde um pouco, mas o grand finale de Kobayashi, a maestria técnica e seu cinema ético nos tira o fôlego, e ao final fica a impressão de um belo apesar de imperfeito filme.

segunda-feira, março 20, 2006

Gente,

O POSTO passou na TVE.

Vi o debate. Achei que foi super legal. Acho que consegui falar o que queria sobre o curta com uma certa pose de intelectual mas sem parecer muito pedante. Estava calmo e, embora repetindo muito as palavras, deu pra passar bem o meu recado. A parte que eu mais gostei foi quando eu disse que o guarda era “um prisioneiro daquele lugar-nenhum”. Foi legal tbem quando falei da minha formação oriental e que, embora o filme seja todo em externa, num espaço em expansão, era como se eu filmasse no quarto daquele guarda. Eu adorei isso!!!! hehehe

Foi bem legal receber os telefonemas das pessoas a 1 hora da manhã me dando parabéns pelo filme e falando coisas engraçadas. Depois na segunda recebi vários emails de amigos comentando a sessão. Bem legal! Faz a gente esquecer um monte de chateação com o filme, com a vida e com o trabalho.

O pessoal da Estácio, vocês podem imaginar, também me ligou. Mas não foi para dar os parabéns. Foi para fazer cobrança, pra encher o saco, pra enfiar mais burocracia na vida desse curta. Não é possível!!!

terça-feira, março 14, 2006

O POSTO NA TVE

Pessoal,

Para aqueles que ainda não tiveram oportunidade de ver, meu curta em 16mm O  POSTO será exibido na TVE no Programa Curta Brasil, neste sábado (18/03) às 23:59. Após a exibição do curta, haverá um tradicional bate-papo com a crítica Ivana Bentes, que fará sua avaliação crítica do filme... Não percam!

 

Link

sábado, março 11, 2006

A Nossos Amores
De Maurice Pialat
CCBB sex 10 17hs
*

Fui com uma grande expectativa para ver pela primeira vez um filme de Pialat. Isto é, não vi Loulou, Sob o Sol de Satã, Van Gogh, nenhum desses, tudo porque numa época eu tinha um preconceito bobo com um cinema francês pós-anos setenta, que eu sempre achei chato e pretensioso. Mas apesar de ser chato e pretensioso, é muito melhor do que a maioria das coisas que se vê por aí, então fazendo esse devido desconto, eu vou aos poucos me atualizando com esse cinema francês.

Mas o fato é que, apesar da expectativa, esse filme do Pialat não me pegou. Provavelmente por causa do tema. A primeira meia hora do filme me irritou bastante. É curioso, porque Pialat não faz questão que simpatizemos com a protagonista do filme (uma jovem e ótima Sandrinne Bonnaire), mas ainda assim a superficialidade da postura da personagem me irritou em muito, além do que (tom moralista) não aprovo em nada sua postura para com os homens (apesar disso ser problema meu e não do filme...). De qualquer forma, o tom encontrado por Pialat para contar essa história não me convence, principalmente no conjunto de tapas e atraques histéricos que povoam partes do filme. É inegável que se trata de um trabalho original com os atores (o próprio Pialat parece que faz o papel do pai), e Bonnaire está ótima, mas é o tipo de filme com cujas idéias não compartilho, seja no tema seja na estética. O estilo de Pialat é discreto, mas nada, nada que nos faça associar a cineastas do nível de Bresson ou Straub, como já vi fazendo. Pelo menos por esse A Nossos Amores, a vocação de Pialat parece ser a da crônica farsesca, e nesse estilo apresenta um cinismo particular (como na cena do jantar ao final do filme). Um filme que, se tem os seus méritos (especialmente na visão não moralista dos conflitos da adolescência), definitivamente não vai ficar comigo, porque as coisas que me interessam no cinema passam ao largo do que esse filme busca.

quarta-feira, março 08, 2006

O Segredo de Bareback Mountain, ou melhor,

O Segredo de Brokeback Mountain

De Ang Lee

Estação Paissandu seg 6 19:10

***

 

Gosto muito do cinema do Ang Lee (com exceção de Hulk) mas depois de toda a badalação em torno do filme, estava meio sem saco (ops...) para vê-lo. Mas afinal o vi, e achei um filme do cacete (ops...).

 

Meu principal interesse no filme nem foi pelo “retrato humano do relacionamento gay”, como tanto se falou, embora isso evidentemente tenha um grande peso no filme. Meu fascínio em relação ao filme se baseou em dois pontos: i) a brilhante forma como Ang Lee filmou essa história simples, como ele usou a linguagem do cinema de forma criativa, que só poderia ter sido feita por um oriental; e ii) como o filme confirma minha visão do cinema de Ang Lee como uma tentativa de promover uma ponte entre Oriente e Ocidente de forma.

 

Se o cinema é feito de enquadramento, luz e corte, então Brokeback Mountain é feito de cinema. A fotografia do filme (não sei porquê ao certo) foi uma das mais impressionantes que vi em muito tempo: a luz deu um volume e uma textura que acentuou a vocação trágica dessa história. A direção de arte é fantástica, recuperando uma visão do interior americano que dialoga com a geração realista do início do século, especialmente Edward Hopper. O enquadramento – extremamente sóbrio e sem espalhafatos – encontra a distância certa, precisa, exata, para contar essa história. O tempo, e o corte, do filme é primoroso: as revelações são rápidas, abruptas, o que valorizam a idéia do “instinto”, da “natureza indomável” que está presente no filme: a primeira cena de sexo entre os dois, a gravidez da futura mulher de Jack Twist, a descoberta da esposa da homossexualidade de Ennis del Mar, a súbita morte deste, etc. a transição para os tempos fortes é feita sem preparação, como no cinema moderno, e em seguida se debruça longamente, reflexivamente sobre as conseqüências desse ato que nos pega de surpresa. Ou seja, o filme tem respiros de observações dessa rotina que permitem um olhar intimista e que valorizam o tempo cotidiano, mas que são complementados por transformações rápidas e inesperadas.

 

Por outro lado, Ang Lee comprova ser um diretor extremamente preocupado em promover uma ponte possível entre a cultura oriental e ocidental. Dentro desse ponto de vista, sua contribuição como um artista contemporâneo não pode ser desprezada. Dentro do cinema comercial hollywoodiano, Ang Lee propõe um interstício criativo. Este Brokeback é quase o avesso de O Tigre e o Dragão: se neste havia uma proposta de trabalhar com a base da dramaturgia oriental (o filme de luta) para “traduzi-lo” para as necessidades do filme de ação americano (como Hulk é seu antípoda), em Brokeback, Lee trabalha com o cinema de gênero americano, e com a base do cinema americano – o western – para inserir elementos do cinema e do modo de vida orientais. Lee, mais que humanizar o western (pois isso já se via desde Shane), promove um cinema que valoriza a observação, os silêncios, a contenção na expressão dos sentimentos, ampliando os potenciais narrativos da codificada narrativa americana. O personagem de Heath Ledger (Ennis Del Mar) é como se fosse um cawboy representado por Chishu Ryu (o ator dos filmes de Ozu): introspectivo, solitário, com uma enorme capacidade de expressão. E mais: desde Hud não se via um filme que toca na questão do western como símbolo da decadência de um certo modo de vida da nação americana (o norte industrial vencendo o sul agrário).

 

No fundo, Brokeback se revela um filme sobre a tragicidade da razão, que sepulta o instinto humano, ou ainda, sobre como nunca conseguimos ser o que realmente gostaríamos de ser, dado que vivemos em sociedade. E não é que não consigamos por uma covardia nossa, mas porque viver em sociedade é por definição achatar as diferenças e oprimir a liberdade. E, claro, é um filme sobre a solidão da condição humana.

 

O filme possui cenas maravilhosas. Por exemplo, quando Ennis del Mar fala a Jack Twist que este atrasou toda a sua vida. Outra, quando Ennis del Mar visita os pais de Twist e entre no quarto dele, agora já morto. Ou ainda, a seqüência final, quando sabemos do casamento, e o último plano do filme, em que, de uma foto pendurada no guarda-roupa, uma pan revela a própria moldura da paisagem vista pela janela (um quadro dentro do quadro).

Plataforma

De Jia Zhang-Ke

CCBB sab 4 20hs

***½  

 

O que dizer sobre Plataforma? Desde sexta-feira passei o dia ansioso para chegar a hora de ver o filme, depois de ter visto Prazeres Desconhecidos e sobretudo O Mundo, este último no último FestRio. A expectativa era enorme. O filme, se não fez comprová-la, afirmou a coerência e a maturidade do olhar de Zhang-Ke, e que seu brilhante cinema apresentado em O Mundo já estava plenamente estabelecido desde Plataforma.

 

Plataforma é sobre duas coisas: primeiro, sobre o desmantelamento do papel da arte na sociedade contemporânea; segundo, sobre as transformações econômicas da sociedade chinesa, a transição do comunismo para o capitalismo. Mas com isso não esperemos nem o xarope de Zimou (Nenhum a Menos) nem o deslumbramento romântico de Kaige (Adeus minha concubina), e sim um cinema extremamente severo e rigoroso sobre o entrelaçamento da arte, da economia, da sociedade, enfim, no dia-a-dia das pessoas.

 

Zhang-Ke trata o tema com um profundo senso de observação e uma profunda complexidade, sem utilizar nenhum “artifício” para caricaturizar essas relações. Seu cinema surge de uma relação extremamente orgânica entre os diversos níveis de realidade e representação. Com isso, seus filmes promovem uma importantíssima contribuição contra o tom esquemático da narrativa clássica, baseada nos princípios duais de causa-efeito, identificação dos personagens, pontos de virada, etc. As transformações nos filmes de Zhang-Ke são feitas na cabeça do espectador, que passa a conviver com os personagens ao invés de observá-los, ou julgá-los. Um cinema que se confunde com a vida, mas que assume a maturidade de vê-lo (o cinema) como um processo de representação. Com isso, Zhang-Ke, ao fugir dos cacoetes da grife do cinema autoral, se torna um dos mais importantes e sérios autores contemporâneos.

 

A câmera fixa (ou móvel de forma bastante lenta), os longos planos-seqüência, a concentração nos “tempos fracos” da narrativa, o mosaico de personagens, trabalhados com muita espontaneidade pelos atores, o tom sóbrio e rigoroso, se revelam recursos de estilo que, de forma absolutamente original e inventiva, refeltem sobre o papel do cinema e da representação ao abraçar uma “realidade” (dos aspectos “micro” aos aspectos “macro”), entrelaçando-os de forma complexa e em toda a sua organicidade.

Passagem Azul

de Yee Chih-Yen

CCBB sex 3 18hs ***

 

Acabando de ver o chato Bully, fui ver esse filme despretensioso taiwanês sobre um grupo de adolescentes estudantes, quase todo passado numa escola. E foi uma grande surpresa, porque o filme é uma pequena pérola. Nada como o cinema oriental!: ao contrário do tom histérico do filme de Clark, um olhar maduro, honesto, sensível sobre essa incompreendida fase da vida.

Passagem Azul é um filme muito pequeno, um filme muito simples sobre três adolescentes: um menino e duas meninas num colégio de Taiwan. É de uma menina A que gosta de um menino, mas este menino gosta de uma menina B, e esta menina B, por sua vez, gosta justamente..... da menina A ! A artimanha de roteiro do filme é quando descobrimos o motivo pelo qual a menina B não retribui o sentimento do menino: isto porque como a menina A é muito tímida, pede à sua amiga, a menina B, para que interceda por ela junto ao menino B. Por isso, pensamos que a menina B não quer ficar com o menino por uma questão ética, pela amizade à menina A. Mas depois o filme revela a questão do homossexualismo.

Por isso, o filme é geralmente mal interpretado, como uma adaptação delicada do problema do homossexualismo feminino e na adolescência e ainda mais num filme oriental. Apesar de tbem ser isso, o principal mérito do filme não é nem esse.

É o fato de o filme ser um filme de cinema e não de roteiro. Seu roteiro é simples, às vezes até banal. Mas a forma como o diretor Yee Chih-Yen filma essa historiazinha é muito impressionante. Apesar de ser apenas seu segundo filme, a segurança e a maturidade com que o diretor trabalha de forma criativa os elementos da narrativa clássica são exemplares. Torna-se tbem um filme absolutamente oriental: na dificuldade de expressar os sentimentos, na questão do contato com o corpo, na difícil exploração da sexualidade, na forma sutil com que o filme trabalha o tempo e o espaço. Surgem seqüências memoráveis: uma briga entre o menino e a menina B num auditório cheio de cadeiras vazias, em que um empura-empurra se repete sequencialmente (chega até a lembrar a famosa sqc de Prazeres Desconhecidos...), uma maravilhosa pan para o horizonte quando a menina A joga fora suas lembranças do menino, a sqc em que a menina B pergunta à sua mãe como fazemos para esquecer uma decepção profunda (que me lembrou Não Amarás, claro...), etc, etc.

Ao final, fica um filme triste, doloroso de se ver, ainda mais para um oriental. As relações todas não se completam, fica a solidão (o menino nadando nas águas da piscina vazia, escondido.... ou a menina B escrevendo escondido nas paredes da escola...). A gosta de B que gosta de C que gosta de A. O que poderia ser um triângulo amoroso se desfaz; o que poderia ser um filme sobre a ética da amizade se desfaz: no final não há nada, a não ser o terrível desafio de prosseguir, de tentar ir para a Universidade e ser alguém. Num final com uma voz off madura e dolorosa (não chega a ser tão sinistra quanto no meu Natal...), Yee Chih-Yen termina o filme com uma elegância e uma maturidade que coroa sua pequena fábula contemporânea, uma pequena jóia, e uma verdadeira aula de cinema. Um filme simples, humano e filmado com uma sabedoria econômica tipicamente oriental.

Bully

De Larry Clark

CCBB sex 3 16hs

0 ½

 

Não creio que Larry Clark faça filmes apenas para aparecer. É nítido que seu cinema tenta desenvolver um certo olhar (até certo ponto original) sobre a tão pouco compreendida fase da adolescência. É claro, também, que, por meio dela, Clark quer falar sobre a América de hoje. Há uma certa tentativa de um cinema em que o artesanal cruza com o comercial. Mas se há tudo isso e se isso é visível, o grande problema é que tudo é muito mal realizado. Em termos do ofício da realização, Bully, como um ou outro filme de Clark que assisti, é muito mal realizado e mal resolvido. O filme todo tem uma grande dúvida se deve abraçar esses meninos (ser íntimo) ou deve criticá-los por sua alienação (ser distante). E com isso a câmera (às vezes planos fixos, rigorosos, às vezes câmeras na mão), a luz, o corte, o trabalho dos atores, tudo se confunde, tornando o filme uma “geléia geral”.

Na abordagem do tema, confesso que tenho até uma certa simpatia com Clark. Mas é só ver os seus filmes para perceber que nada pode ser levado muito a sério, em termos de um olhar honesto sobre qualquer coisa. A personagem da menina “femme fatale” é ridícula, a transformação que faz o melhor amigo querer matar o outro é pífia, etc, etc. Ao final, Bully soa extremamente moralista, com os cartazes de prisão que mostram a condenação da turma. “Todos presos com a sentença de cada um” tenta colocar uma certa responsabilidade ética ao diretor, que tanto é criticado por isso. Engraçado que se torna quase uma versão de Crime e Castigo, literalmente mas ao mesmo tempo ao contrário, porque acaba se revelando tremendamente moralista, o que no fundo é a vocação de Clark: um filme da extrema-direita.

Só preu não esquecer:

Bully, de Larry Clark CCBB sex 16  ½

Passagem Azul, de Yee Chih-Yen  CCBB sex 18 ***

Plataforma, de Jia Zhang Ke CCBB sab 21 ***

Aqui termina o inferno de Kobayashi OD dom 18:20 ***

O segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee Paiss ter 21:10 ***

Para que serve o cinema (pelo menos para mim e às três horas da manhã de uma terça-feira) ?

Envolver-me de forma mais profunda com o cinema me fez aprender um conjunto de coisas: conhecer o funcionamento de um conjunto de equipamentos, intuir o sentido de um plano como um recorte da realidade, constatar que, enfim, nenhuma imagem é gerada de forma espontânea, ou seja, é parte de um processo de construção ideológica que envolve necessariamente uma construção, uma fabricação. Mas acima de tudo a minha atração pelo cinema não foi tanto pela dimensão técnica ou pela ideológica, e sim por sua dimensão humana: eu, quando me encontrei com o cinema no início da minha adolescência, era um garotinho com um punhado de problemas, e me sentia diferente das pessoas ao meu redor, e sofria com isso. O que o cinema me passou foi uma visão da tolerância: através dos múltiplos olhares dos autores (e atores) de cada um dos mais estranhos e diferenciados filmes com que me deparava, fui observando que no fundo somos todos diferentes, e que não era apenas eu que me sentia distante e acuado ante a “miséria do mundo”. Isto é, por um lado, o cinema me fez conhecer “irmãos de alma”, travar contato com olhares que se aproximavam do olhar diferente e distante que eu tinha do mundo e das pessoas que me rodeavam na escola, em casa, na rua. Por outro, o cinema me mostrava olhares diferentes dos meus, e que ainda assim, me eram irmãos, porque, assim como eles, eu poderia entender o que significava ser diferente, e eu os respeitava por isso. Por isso, a grande lição do cinema para minha vida sempre foi a possibilidade da diferença de olhares, sensações e visões do mundo, a possibilidade da tolerância e do respeito à diferença.

Assim sendo, nunca consegui aceitar as pessoas que têm um conhecimento íntimo de cinema mas que insistem em repudiar a diferença, que denigrem a possibilidade da divergência por trás de um suposto “academicismo” teórico. Porque, para mim, a essência do cinema sempre foi a negação da autoridade e do instrumento de poder, para afirmar a legitimidade do diálogo e da multiplicidade de leituras. As minhas maiores brigas dentro do pequeno mundo do cinema sempre foram nesta direção.

O cinema, mais que cidadão, me formou como ser humano. Foi a minha “escola de vida”: através de seus olhares, enquadramentos e cortes, passei a respeitar quem era diferente de mim, exatamente porque lutava pela possibilidade da diferença.

Não sei porque mas ver The Brokeback Mountain me lembrou disso. Talvez seja na cena em que o protagonista vai à casa dos pais do amigo (amante) já morto. A mãe deste leva o visitante até o quarto do amigo. Ele olha o quarto, vai até a janela, e abre-a, colocando um pedaço de madeira para escorar a janela. Não sei porque, mas essa cena me lembrou o final de Não Amarás, que mexe muito comigo. O visitante de Brokeback era como Magda (a mulher de Não Amarás), revendo, a partir de uma ausência, uma lembrança que não pode ser mais revertida, e que se perde no espaço vazio. Tudo estava ali naquele quarto. O quadro, o tempo e o corte de Ang Lee são extraordinários. Heather Ledger olha pela janela. Ali está o cinema. Lembrei-me que tenho uma obsessão por filmar quartos, porque acho que eles transmitem uma aura de intimidade. Encontrei várias motivações minhas ali perdidas naquele quarto e me lembrei do que o cinema tinha me possibilitado, lá no início, na época quando vi o quarto de Não Amarás pela primeira vez.

quinta-feira, março 02, 2006

Mais uma pérola carnavalesca

Primeira parte do samba do Salgueiro 2006:

 

“O que sou eu no universo?

Simples ser humano

Grão de areia no deserto

Gota d´água no oceano

Minúscula partícula da criação

Grandiosidade, perfeição

O homem nem nota, há vida em volta

Viaja Salgueiro

Em cada pequenina imensidão”