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Cinecasulofilia

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segunda-feira, maio 29, 2006

O filme mais ousado do mundo

Crônica de Anna Magdalena Bach

de Jean-Marie Straub e Danielle Huillèt

DVD americano, qui 25 mai

****

 

Esta semana ganhei um inestimável presente: um DVD de Crônica de Anna Magdalena Bach. Impossível é descrever o encantamento que foi poder rever o filme, em condições que se ainda não são as ideais (a película 35mm) são muito melhores que as que vi pela primeira vez (um tosco VHS). Aqui devo traçar ingênuos comentários que possam dar alguma luz de como é possível imaginar que este filme tão simples ( 70% do filme é Bach tocando sua música e outros 20% são cartas sendo lidas) seja uma das maiores obras-primas da história do cinema.

 

Crônica é Straub, e Straub é Crônica. Trata-se de um documentário ficcional e de uma ficção documental. Trata-se de um filme experimental.

 

Crônica é o filme mais ousado do mundo.

 

Crônica nos faz questionar qual é a função do cinema e do que um filme é feito.

 

Straub é o Pascal do cinema. Matemático, científico, metafísico e humano. Religioso.

 

Quem foi Bach, o maior gênio da arte ocidental? Não nos cabe dizer.

Talvez nos dê alguma luz ler parte da comunicação entre ele e seu grande amor: Anna Magdalena.

Talvez nos dê alguma luz ouvir parte de sua obra, à luz de seu maior intérprete: Gustav Leonardt

 

A coisa mais bonita já dita sobre o filme é que ele é uma história de amor. Claro, quem o disse foi o próprio Straub. História de amor entre Bach e Anna Magdalena. História de amor entre o cinema e a música, entre a arte e a vida. História de amor entre Jean-Marie Straub e Danielle Huillet.

 

De um bloco de concreto brota uma flor.

Crônica é poesia do espírito, filme materialista. Cinema-arquitetura.

 

Crônica é absurdamente anti-cinematográfico. É como se alguém quisesse filmar o dicionário Aurélio. Straub o faz e nos faz chorar.

 

Crônica é o filme mais ousado do mundo.

 

Godard disse que Straub era alienado porque no meio da efervescência dos movimentos de 1968 lançava esse filme antigo sobre Bach. Straub disse que o filme era a sua resposta à invasão americana ao Vietnã.

 

Straub se privou de muita coisa para fazer o filme. Vivia mal, praticamente garantia a sua alimentação e o aluguel do seu conjugado. Tudo o que tinha investiu nesse filme.

 

É inacreditável presenciar uma sessão de Crônica. Chegamos até a acreditar que o cinema pode ser uma arte séria, e não mera prostituição, como recentemente disse Bergman.

 

Ave Straub.

Cobertura do Festival de Cannes pelo blog do bonequinho (??!!). Com a palavra, o crítico Rodrigo Fonseca:

PS.: O título de "Sonífero" do festival já tem dono. Pertence ao filme português "Juventude em marcha", de Pedro Costa. Ousado como proposta formal, o filme é um verdadeiro calvário no que diz respeito a ritmo. A história de Ventura, um trabalhador cabo-verdiano abandonado pela esposa, é narrada a passos de cágado com a patinha ferida. Mais lento impossível.”

Caché, de Michael Haneke **

Árido Movie, de Lírio Ferreira * ½

FBCU

Pessoal,

Saiu a programação do Festival Universitário. Sempre é uma alegria quando

recebo os emails do Tristão, porque o festival é o único lugar do mundo em

que foram exibidos TODOS os meus vídeos esquisitos, desde o DEPOIS DA NOITE

até o EM CASA, e enquanto eu não me formo eles continuam passando por lá.

Parece que vai ter bate-papo também após os vídeos, quero ver se vai ter

gente pra isso no final da sessão...rs... Na competitiva, foi selecionado o NATAL

ao invés do ABISMO... e também vai passar o DESERTUM. Pela primeira vez

serão exibidos para o público os filmes abstratos... vou poder ver o

abstrato II na tela grande... legal... e o debate vai ser com o Scucato,

tanto no Natal quanto nos filmes abstratos...

 

NATAL

(Mostra Competitiva - Programa 3)

Quarta 07 19:00 CCBB cinema (com debate)

Sábado 10 16:00 Correios

 

DESERTUM

Sexta 02  16:30 CCBB video

Domingo 11 15:30 CCBB vídeo

 

ABISMO

(Mostra Informativa - Experimentando I)

Sábado 03 14:30 CCBB vídeo

 

FILME ABSTRATO - PARTES I E II

(Mostra Informativa - Experimentando II)

Domingo 04 14:30 CCBB video

Sábado 10 21:00 Teatro/UFF

 

sexta-feira, maio 19, 2006

O Plano Perfeito

O Plano Perfeito

de Spike Lee

Paço qui 18 18:30

**

 

Não deixa de ser desconcertante a forma como O Plano Perfeito entrelaça os códigos do cinemão americano para fazer uma espécie de filme político (apesar de muito blasé). Ainda mais no Brasil de hoje, dominado pelo mensalão e pelo PCC, torna-se um filme profundamente atual. Mas o filme de Spike Lee é um filme pós-moderno: as convenções do cinema de ação hollywoodianos são afirmadas e negadas ao mesmo tempo, ao gosto do freguês, numa verdadeira salada russa (montanha-russa?) de sensações, sentimentos, ações, e é claro de cinema. Um sentido da imagem, o uso do cinemascope, longas gruas combinadas com planos próximos em câmera na mão, impressionam o espectador especialmente nos primeiros vinte minutos. Depois, o efeito-anestesia.

Não há possibilidade de justiça em O Plano Perfeito. Todos são heróis e vilões, e todos no fundo querem se dar bem (que é o que acontece no final). Os mecanismos de amaciamento da conservadora sociedade americana reforçam o status-quo. O assalto ao banco é um assalto pós-moderno, acontecimento-nenhum e revolução ao mesmo tempo. Terroristas, policiais, políticos, passantes, todos têm os seus interesses a defender nesse caso nenhum. E tudo continua como antes.

É um filme falso, cínico, que trabalha sobre as superfícies da imagem. E tome todos os clichês de filme policial que são possíveis imaginar. E algumas (várias) coisas estranhas (tipo imigrantes de todos os tipos, até albaneses, tipo o papo da criança com o bandido dentro do cofre, ou tipo os merchandings hilários – DELL, Pepsi, etc). Ao final, fica claro o ponto-de-vista crítico da direção, mas fica um certo bocejo em relação à trajetória para chegar a isso. Porque o cinema já está bem grandinho e a sensação de montanha-russa do primeiro cinema não raras vezes me enche o saco.

quarta-feira, maio 17, 2006

Três Enterros

Três Enterros

de Tommy Lee Jones

Estação Paissandu ter 16 19:15

** ½

 

O filme de estréia na direção do veterano ator Tommy Lee Jones conseguiu a proeza de ter sido selecionado para a competitiva de Cannes, com um primeiro filme. Um ator na direção, e com isso lembramos experiências recentes como a de George Clooney ou até a de Roberto Bomtempo, aqui nesta terra-sem-fim.

 

O que nos surpreendeu em Três Enterros foi i) a atualidade do tema – as referências à paranóia americana e a seu truculento imperialismo; ii) o forte diálogo com um certo cinema clássico americano – o western; iii) o maravilhoso imperativo ético de todo o filme (mas sem moralismo); iv) o domínio da artesania da direção num filme de estréia, especialmente o uso do cinemascope.

 

Lembramos tbem como a cultura mexicana está quilômetros à frente da cultura americana, enquanto cultura, enquanto civilização, enquanto modo de vida.

 

Três enterros não é um filme sobre a vingança (se engana quem assim o vê) mas um filme sobre a ética da responsabilidade.

 

Juarez é um lugar-nenhum, o que não nos impede de ir lá. Bacana isso.

Mesmo que o tal Melquíades tenha enganado Lee Jones, não importa: esse é o reforço do tom ético de todo o filme.

 

i)

o policial de fronteira e sua esposa versus Tommy Lee Jones e a garçonete

o novo e o velho cinema americano

Tommy Lee Jones e suas relações com o cinema de Eastwood

O bom e velho cinema clássico e seu postulado ético

 

etc

segunda-feira, maio 15, 2006

Achei nos meus papéis virtuais velhos, uma carta dos Irmãos Pretti à curadoria da Mostra do Filme Livre. Atual e necessária. Ei-la:

 

CARTA À CURADORIA – FILME LIVRE

 

Eu acho engraçado que o cinema, a arte mais popular, seja arte que as pessoas menos entendem. Quando elas vão ao cinema, elas querem ver o que elas já conhecem, em termos de narrativa, dramaturgia e signos. Quando você faz um filme buscando se expressar da forma mais cinematográfica possível, parece que ninguém entende e o pior é que ninguém quer se dar o trabalho de entender. Nesse sentido, sim, fazemos um cinema solitário que não quer ser visto, mas é nisso que a proposta desse tipo de cinema tem a sua validade. Um filme é feito com o intuito de se expressar e de dialogar, só resta o espectador querer dialogar com o filme. De qualquer maneira, acho importante esses dois filmes (O Primeiro Grito e Dias em Branco) passarem no filme livre, pois são representantes de um cinema que existe e que não pode ser ignorado. Mesmo que o público em geral não goste, é importante passarem esses filmes como maneira de fomentar a produção de cinema e vídeo no Brasil. Temos que ver os dois lados da moeda e fazer com que eles coexistam, senão vira barbárie. Da mesma forma que deve-se ter espaço para um Almodóvar deve-se ter espaço para uma Claire Denis. Eu acho que o brasileiro tem parar de pensar pequeno (provinciano) e começar a entender que a riqueza não está só no que cai no gosto do público. Público e dinheiro são só dois dos vários fatores que compõem a estrutura social dentro dos porques da exibição de uma obra de arte.

 

abraços

luiz pretti

 

sábado, maio 06, 2006


poeira
Poderia pôr a pá
na poeira ?


peneira
Poderia pôr o pó
na peneira ?


parceira
Poderia pôr o pé
na parceira ?

Por sob o pé
Pôr a pá
Primeira

Pra
par
prazer
prum
pum

prato
parto
trepa
pedra
padre
podre

60 FILMES BRASILEIROS

Eu nos primórdios do blog, já havia feito uma lista dos 60 mais importantes filmes brasileiros. Então, reproduzo aqui, porque complementa a anterior, que tem apenas 3 filmes brasileiros.

Lista 60 filmes brasileiros

Acabei fazendo uma lista de 60 filmes brasileiros que julgo essenciais. É uma lista careta, acadêmica, de introdução. Ei-la.

Uma lista de 60 filmes brasileiros obrigatórios

Primórdios
1 Panorama do Cinema Brasileiro Jurandyr Noronha
2 Limite Mário Peixoto
3 Ganga bruta Humberto Mauro
4 Braza dormida Humberto Mauro
5 Aitaré da Praia Ciclo do Recife
6 Alô Alô Carnaval Ademar Gonzaga (Cinédia)

Chanchadas
7 O homem do Sputnik Carlos Manga
8 Nem Sansão nem Dalila Carlos Manga
9 Alegria de viver Watson Macedo
10 Carnaval Atlântida José Carlos Burle

Vera Cruz
11 Tico-tico no Fubá Adolfo Celi
12 O cangaceiro Lima Barreto

O modelo independente
13 O canto do mar Alberto Cavalcanti
14 Sai da Frente Abílio Pereira de Almeira (com Mazzaropi)
15 O homem dos papagaios Armando Couto (Multifilmes)

Pré-Cinema Novo e alternativas
16 Cinco Vezes Favela vários
17 O pagador de promessas Anselmo Duarte
18 Assalto ao trem pagador Roberto Farias
19 Os cafajestes Ruy Guerra
20 Porto das Caixas PC Sarraceni
21 Grande momento, O Roberto Santos
22 Noite Vazia Walter Hugo Khouri
23 As amorosas Walter Hugo Khouri

Os filmes de NPS pré-cinema novo
24 Rio Quarenta Graus Nelson Pereira dos Santos
25 Rio Zona Norte Nelson Pereira dos Santos

Cinema novo: a fase rural
26 Deus e o diabo na terra do sol Glauber Rocha
27 Os fuzis Ruy Guerra
28 Vidas Secas Nelson Pereira dos Santos
29 A Hora e a vez de Augusto Matraga Roberto Santos
30 Menino de Engenho Walter Lima Jr.

Cinema novo: a fase urbana - a crise
31 A grande cidade Cacá Diegues
32 O desafio PC Sarraceni
33 Terra em transe Glauber Rocha
34 O bravo guerreiro Gustavo Dahl
35 São Paulo S/A Luís Sérgio Person

Cinema novo: a fase alegórica
36 Macunaíma Joaquim Pedro de Andrade
37 O dragão da maldade contra o Santo Guerreiro Glauber Rocha

O pós-cinema novo e a Embrafilme
38 Os inconfidentes Joaquim Pedro de Andrade
39 Guerra conjugal Joaquim Pedro de Andrade
40 A idade da Terra Glauber Rocha
41 Tudo bem Arnaldo Jabor
42 Todas as mulheres do mundo Domingos de Oliveira
43 São Bernardo Leon Hirzsman
44 O amuleto de Ogum Nelson Pereira dos Santos
45 Memórias do Cárcere Nelson Pereira dos Santos
46 Cabra Marcado para morrer Eduardo Coutinho
47 Bye bye Brasil Cacá Diegues
48 A lira do delírio Walter Lima Jr.
49 Pixote Hector Babenco

O cinema marginal
50 O bandido da luz vermelha Rogério Sganzerla
51 O anjo nasceu Julio Bressane
52 Matou a família e foi no cinema Julio Bressane
53 Bang Bang Andrea Tonacci
54 A Margem Ozualdo Candeias
55 À meia-noite levarei sua alma José Mojica Marins

A pornochanchada
56 Ainda agarro esta vizinha Pedro Carlos Rovai
57 O império do desejo Carlos Reichenbach
58 Os paqueras Reginaldo Farias

A "retomada"
59 Central do Brasil Walter Salles
60 Edifício Master Eduardo Coutinho

200 MELHORES FILMES

Pessoal,
como parece que me falta o que fazer, fiz uma lista PROVISÓRIA dos 200 filmes mais importantes da história do cinema, entre 1900 e 2000 (vou fazer uma revisão). Detalhes vários: 1) não considerei curtas; 2)não são meus filmes preferidos, mas o que acho os mais relevantes, então tem filmes que eu gosto muito que estão de fora e filmes que eu não gosto que estão dentro, mas quem me conhece certamente vai ver uma pitada pessoal em uma ou outra escolha; 3) tentei no campo detalhe "justificar" minha escolha pelo filme; 4) ordenado cronologicamente.

Alguns resultados:
anos 60 - 53 filmes; anos 50, 41 filmes; anos 80 e 90 apenas 13 filmes (tenho que rever essa proporção, quero que anos 50 chegue no máximo a 50 = 25% total...)
países: EUA - 74 filmes, França 38 Alemanha 23 filmes
Diretores: Tarkowski, Bergman, Bunuel, Bergman - 4 filmes cada



Num Título Ano Diretor País Detalhe
1 Cabiria 1914 Pastrone Itália origens gramática clássica
2 O nascimento de uma nação 1915 Griffith EUA origens gramática clássica
3 Intolerância 1916 Griffith EUA origens gramática clássica
4 Os vampiros 1918 Feuillade França origens gramática clássica
5 The Cabinet of Dr. Caligari 1919 Wiene Alemanha expressionismo alemão
6 A carroça fantasma 1921 Sjostrom Suécia cinema nórdico pré-guerra
7 Nosferatu 1922 Murnau Alemanha expressionismo alemão
8 Nanook o esquimó 1922 Flaherty EUA o documentário clássico
9 Sherlock Jr. 1924 Keaton EUA o "slapstick": a comédia americana silenciosa
10 Greed 1924 Stroheim EUA "cinema de autor"
11 A Última Gargalhada 1925 Murnau Alemanha expressionismo alemão
12 Em busca do ouro 1925 Chaplin EUA o "slapstick": a comédia americana silenciosa
13 O homem-mosca 1925 Newmeyer (H. Lloyd) EUA o "slapstick": a comédia americana silenciosa
14 O encouraçado Potemkin 1925 Eisenstein URSS cinema soviético silencioso
15 O homem com a câmera 1925 Vertov URSS cinema soviético silencioso
16 Metropolis 1926 Lang Alemanha expressionismo alemão
17 A mãe 1926 Pudovkin URSS cinema soviético silencioso
18 A General 1927 Keaton EUA o "slapstick": a comédia americana silenciosa
19 Aurora 1927 Murnau EUA "cinema de autor"
20 A Turba 1927 Vidor EUA "cinema de autor"
21 Napoleon 1927 Gance França vanguarda francesa pré-guerra
22 A Caixa de Pandora 1928 Pabst Alemanha expressionismo alemão
23 A paixão de Joana D´Arc 1928 Dreyer Dinamarca cinema nórdico pré-guerra
24 A queda da casa de Usher 1928 Epstein França vanguarda francesa pré-guerra
25 O anjo azul 1930 Sternberg Alemanha expressionismo alemão
26 L'Age d'Or 1930 Bunuel França vanguarda francesa pré-guerra
27 O sangue de um poeta 1930 Cocteau França vanguarda francesa pré-guerra
28 Terra 1930 Dovzhenko URSS cinema soviético silencioso
29 M 1931 Lang Alemanha expressionismo alemão
30 Limite 1931 Peixoto Brasil "cinema de autor"
31 Luzes da cidade 1931 Chaplin EUA o "slapstick": a comédia americana silenciosa
32 A nós a liberdade 1931 Clair França realismo poético francês
33 O Testamento do Dr. Mabuse 1932 Lang Alemanha expressionismo alemão
34 Diabo a quatro 1933 McCarey EUA a "screwball comedy"
35 Zero de conduta 1933 Vigo França realismo poético francês
36 L'Atalante 1934 Vigo França realismo poético francês
37 Gold diggers of 1935 1935 Berkeley EUA cinema de gênero: o musical
38 Tempos modernos 1936 Chaplin EUA o "slapstick": a comédia americana silenciosa
39 Cais das Sombras 1936 Carne França realismo poético francês
40 O crime do Monsieur Lange 1936 Renoir França realismo poético francês
41 A grande ilusão 1937 Renoir França realismo poético francês
42 Levada da breca 1938 Hawks EUA a "screwball comedy"
43 Pepé le moko 1938 Duvivier França realismo poético francês
44 E o vento levou 1939 Fleming EUA cinema clássico americano
45 O mágico de Oz 1939 Fleming EUA cinema clássico americano
46 No tempo das diligências 1939 Ford EUA "cinema de autor"
47 A regra do jogo 1939 Renoir França realismo poético francês
48 Fantasia 1940 Disney EUA cinema clássico americano
49 Contrastes Humanos 1941 Sturges EUA a "screwball comedy"
50 Citizen Kane 1941 Welles EUA "cinema de autor"
51 Casablanca 1942 Curtiz EUA cinema clássico americano
52 A Loja da Esquina 1942 Lubitsch EUA "cinema de autor"
53 Ivan o terrível - partes I e II 1943 Eisenstein URSS cinema soviético silencioso
54 Sinfonia de Paris 1944 Minnelli EUA cinema de gênero: o musical
55 Pacto de sangue 1944 Wilder EUA o cinema noir
56 Curvas do destino 1945 Ulmer EUA o cinema noir
57 Laura 1945 Preminger EUA o cinema noir
58 O Boulevard do crime 1945 Carne França realismo poético francês
59 Desencanto 1945 Lean Inglaterra cinema clássico "americano"
60 Rome, Open City 1945 Rossellini Itália neo-realismo italiano
61 Paixão dos fortes (My Darling Clementine) 1946 Ford EUA "cinema de autor"
62 A felicidade não se compra 1948 Capra EUA "cinema de autor"
63 Rio Vermelho 1948 Hawks EUA cinema de gênero: o faroeste
64 Os melhores anos de nossas vidas 1948 Wyler EUA cinema clássico americano
65 O tesouro de Sierra Madre 1948 Huston EUA cinema clássico americano
66 La Terra Trema 1948 Visconti Itália neo-realismo italiano
67 They live by night 1949 Ray EUA o cinema noir
68 Ladrões de bicicleta 1949 De Sica Itália neo-realismo italiano
69 Late Spring / Banshun 1949 Ozu Japão cinema clássico japonês
70 Crepúsculo dos deuses 1950 Wilder EUA "cinema de autor"
71 Diário de um pároco de aldeia 1950 Bresson França antecedentes nouvelle vague
72 Rashomon 1951 Kurosawa Japão cinema clássico japonês
73 Cantando na chuva 1952 Kelly; Donen EUA cinema de gênero: o musical
74 O salário do medo 1952 Clouzot França cinema francês pré-nouvelle vague
75 Madame de 1952 Ophuls França antecedentes nouvelle vague
76 Umberto D 1952 De Sica Itália neo-realismo italiano
77 Viaggio in Italia 1952 Rossellini Itália autores italianos pós-neo-realismo
78 Viver / Ikiru 1952 Kurosawa Japão cinema clássico japonês
79 A vida de Oharu 1952 Mizoguchi Japão cinema clássico japonês
80 Contos da lua vaga (Ugetsu) 1953 Mizoguchi Japão cinema clássico japonês
81 Tokyo Story 1953 Ozu Japão cinema clássico japonês
82 Janela Indiscreta 1954 Hitchcock EUA "cinema de autor"
83 Um bonde chamado desejo 1954 Kazan EUA cinema clássico americano
84 Johnny Guitar 1954 Ray EUA cinema de gênero: o faroeste
85 La Strada 1954 Fellini Itália autores italianos pós-neo-realismo
86 O leopardo 1954 Visconti Itália autores italianos pós-neo-realismo
87 Os Sete Samurais 1954 Kurosawa Japão cinema clássico japonês
88 Intendente Sansho 1954 Mizoguchi Japão cinema clássico japonês
89 O Homem do Oeste 1955 Mann EUA cinema de gênero: o faroeste
90 Tudo o que o céu permite 1955 Sirk EUA "cinema de autor"
91 A morte num beijo 1955 Aldrich EUA o cinema noir
92 Lola Montès 1955 Ophuls França antecedentes nouvelle vague
93 Trilogia de Apu 1955 Ray Índia "cinema de autor"
94 Rastros de Ódio 1956 Ford EUA "cinema de autor"
95 O Sétimo Selo 1956 Bergman Suécia "cinema de autor"
96 Les girls 1957 Cukor EUA cinema de gênero: a comédia americana
97 Juventude desenfreada 1957 Oshima Japão nouvelle vague japonesa
98 Morangos Silvestres 1957 Bergman Suécia "cinema de autor"
99 Um corpo que cai 1958 Hitchcock EUA "cinema de autor"
100 A Marca da Maldade 1958 Welles EUA o cinema noir
101 Os companheiros 1958 Monicelli Itália autores italianos pós-neo-realismo
102 Cinzas e diamantes 1958 Wajda Polônia novo cinema polonês
103 Intriga internacional 1959 Hitchcock EUA "cinema de autor"
104 A um passo da liberdade (Le trou) 1959 Becker França antecedentes nouvelle vague
105 Pickpocket 1959 Bresson França "cinema de autor"
106 Os Primos 1959 Chabrol França nouvelle vague
107 Acossado 1959 Godard França nouvelle vague
108 Hiroshima, Mon Amour 1959 Resnais França nouvelle vague: autores em paralelo
109 Os incompreendidos 1959 Truffaut França nouvelle vague
110 Guerra e humanidade - trilogia 1959 Kobayashi Japão nouvelle vague japonesa
111 Psicose 1960 Hitchcock EUA "cinema de autor"
112 Lola 1960 Demy França nouvelle vague: autores em paralelo
113 Paris nous appartient 1960 Rivette França nouvelle vague
114 Crônica de um verão 1960 Rouch/Morin França nouvelle vague: autores em paralelo
115 L'Avventura 1960 Antonioni Itália autores italianos pós-neo-realismo
116 A doce vida 1960 Fellini Itália autores italianos pós-neo-realismo
117 Viridiana 1961 Bunuel Espanha "cinema de autor"
118 Jules and Jim 1961 Truffaut França nouvelle vague
119 Bandido Juliano 1961 Rosi Itália autores italianos pós-neo-realismo
120 Madre Joana dos Anjos 1961 Kawalerowicz Polônia novo cinema polonês
121 Técnica de um delator 1962 Melville França antecedentes nouvelle vague
122 O ano passado em Marienbad 1962 Resnais França nouvelle vague: autores em paralelo
123 Lawrence of Arabia 1962 Lean Inglaterra cinema clássico "americano"
124 O Eclipse 1962 Antonioni Itália autores italianos pós-neo-realismo
125 O Anjo Exterminador 1962 Bunuel México "cinema de autor"
126 A lei dos marginais (Underworld USA) 1963 Fuller EUA "cinema de autor"
127 O indomado 1963 Ritt EUA "cinema de autor"
128 Shane 1963 Stevens EUA cinema de gênero: o faroeste
129 O professor aloprado 1963 Lewis EUA cinema de gênero: a comédia americana
130 O desprezo 1963 Godard França nouvelle vague
131 Trinta anos esta noite 1963 Malle França nouvelle vague: autores em paralelo
132 8 1/2 1963 Fellini Itália autores italianos pós-neo-realismo
133 Deus e o Diabo na terra do sol 1964 Glauber Brasil cinema novo brasileiro
134 Gertrud 1964 Dreyer Dinamarca "cinema de autor"
135 Dog Star Man 1964 Brakhage EUA vanguarda americana pós-guerra
136 O criado 1964 Losey Inglaterra "free cinema" inglês
137 Mulher de Areia 1964 Teshigahara Japão nouvelle vague japonesa
138 O demônio das onze horas (Pierrot le fou) 1965 Godard França nouvelle vague
139 Os Sem Esperança 1965 Jancsó Hungria cinema europa oriental
140 I pugni in tasca 1965 Bellocchio Itália segunda geração italiana pós-guerra
141 A batalha de Argel 1965 Pontecorvo Itália autores italianos pós-neo-realismo
142 Mouchette 1966 Bresson França "cinema de autor"
143 Persona 1966 Bergman Suécia "cinema de autor"
144 Andrei Rublev 1966 Tarkovsky URSS "cinema de autor"
145 A Margem 1967 Candeias Brasil "cinema de autor"
146 A primeira noite de um homem 1967 Nichols EUA o "novo cinema americano"
147 Bonnie and Clyde 1967 Penn EUA o "novo cinema americano"
148 Banzé no Oeste 1967 Brooks EUA cinema de gênero: a comédia americana
149 Minha noite com ela 1967 Rohmer França nouvelle vague
150 Playtime 1967 Tati França nouvelle vague: autores em paralelo
151 Crônica de Anna Magdalena Bach 1968 Straub Alemanha "cinema de autor"
152 Memórias do subdesenvolvimento 1968 Alea Cuba cinema político latino
153 2001: A Space Odyssey 1968 Kubrick EUA "cinema de autor"
154 Era uma vez no Oeste 1968 Leone EUA cinema de gênero: o faroeste
155 Walden 1968 Mekas EUA vanguarda americana pós-guerra
156 Heat 1968 Morrissey EUA vanguarda americana pós-guerra
157 Se... 1968 Anderson Inglaterra "free cinema" inglês
158 Teorema 1968 Pasolini Itália autores italianos pós-neo-realismo
159 Meu ódio será sua herança 1969 Peckinpah EUA o "novo cinema americano"
160 Easy rider 1969 Hopper EUA o "novo cinema americano"
161 Kes 1969 Loach Inglaterra "free cinema" inglês
162 O conformista 1969 Bertolucci Itália segunda geração italiana pós-guerra
163 A cor da romã 1969 Paradjanov URSS "cinema de autor"
164 Corrida sem fim 1971 Hellman EUA o "novo cinema americano"
165 Laranja mecânica 1971 Kubrick EUA "cinema de autor"
166 American Graffitti 1971 Lucas EUA o "novo cinema americano"
167 Aguirre 1972 Herzog Alemanha novo cinema alemão
168 O Poderoso Chefão - trilogia 1972 Coppola EUA o "novo cinema americano"
169 O discreto charme da burguesia 1972 Bunuel França "cinema de autor"
170 Gritos e sussurros 1972 Bergman Suécia "cinema de autor"
171 A comilança 1973 Ferreri Itália autores italianos pós-neo-realismo
172 Morte em Veneza 1973 Visconti Itália autores italianos pós-neo-realismo
173 Trabalho de meio período de uma escrava doméstica 1974 Kluge Alemanha novo cinema alemão
174 A woman under the influence 1974 Cassavetes EUA vanguarda americana pós-guerra
175 Xala 1974 Sembene Senegal cinema africano
176 O espelho 1974 Tarkovsky URSS "cinema de autor"
177 Nashville 1975 Altman EUA cinema de gênero: a comédia americana
178 Saló 1975 Pasolini Itália autores italianos pós-neo-realismo
179 Nós que nos amávamos tanto 1975 Scola Itália autores italianos pós-neo-realismo
180 No decurso do tempo 1976 Wenders Alemanha novo cinema alemão
181 Taxi driver 1976 Scorsese EUA o "novo cinema americano"
182 Hitler 1977 Syberberg Alemanha "cinema de autor"
183 Cinzas no paraíso 1977 Malick EUA "cinema de autor"
184 O Casamento de Maria Braun 1978 Fassbinder Alemanha novo cinema alemão
185 A árvore dos tamancos 1978 Olmi Itália autores italianos pós-neo-realismo
186 Manhattan 1979 Allen EUA cinema de gênero: a comédia americana
187 Apocalipse now 1979 Coppola EUA "cinema de autor"
188 Touro indomável 1980 Scorsese EUA "cinema de autor"
189 Nostalgia 1983 Tarkovsky URSS "cinema de autor"
190 Paris Texas 1984 Wenders Alemanha novo cinema alemão
191 Veludo Azul 1986 Lynch EUA "cinema de autor"
192 Sacrifício 1986 Tarkovsky URSS "cinema de autor"
193 Decálogo 1987 Kieslowski Polônia "cinema de autor"
194 Lanternas vermelhas 1989 Yimou China cinema contemporâneo
195 O sol do marmeleiro 1990 Erice Espanha cinema contemporâneo
196 Vida e nada mais 1993 Kiarostami Irã cinema contemporâneo
197 Pulp fiction 1994 Tarantino EUA cinema contemporâneo
198 Trilogia das Cores 1994 Kieslowski França cinema contemporâneo
199 Vive l´amour 1994 Ming-Liang Taiwan cinema contemporâneo
200 Vou para casa 2000 Oliveira Portugal cinema contemporâneo

quinta-feira, maio 04, 2006

Achados e Perdidos

Achados e Perdidos
De José Joffily
Palácio 1 qua 18:40
* ½

É sempre um prazer assistir a um filme no cinema Palácio, ainda mais na sala 1, que nunca consegue ficar cheia e a gente vê um filme com tranqüilidade, tentando resgatar um espírito de como deveria ser ver um filme na época áurea do cinema. Achados e Perdidos, filme de Joffily com roteiro de Paulo Halm, se alinha à filmografia do diretor: um olhar curioso pelas regras implícitas de um submundo (Quem Matou Pixote, Dois Perdidos...) mas que não quer subverter as convenções de olhar para esse universo mas simplesmente “contar uma boa história”. Daí já se pode ver os pontos a favor e contra esse trabalho, uma espécie de revisitação de um universo noir e passeio por um cinema de gênero. Uma espécie de filme médio que o cinema brasileiro tanto precisaria produzir mais para ser de fato uma indústria, mas que pelas distorções do nosso cinema vai acabar sendo um filme miúra quando na verdade tem toda a vocação para ser um filme médio (isto é poderia fazer tranqüilamente uns 200 mil espectadores, quando corre o risco de fazer nem 20% desse total). Um filme correto, bem executado, com boas atuações. Nada que comprometa nem nada que empolgue ao cinéfilo mais exigente. Um filme brasileiro sem grandes pretensões e ao mesmo tempo sem querer carregar o peso ou a responsabilidade de ter que ser “o filme da vez”. Com isso, claramente cumpre o seu papel dentro de uma cinematografia, e acaba sendo superior a seus Dois Perdidos (as maiores possibilidades de produção deste nitidamente ajudam). Alguns truques de roteiro às vezes me incomodam um pouco, mas não deixam de fazer parte das convenções do gênero; a fotografia e montagem estão sóbrias e seguras. Com a cabeça (e dado o meu trabalho) acho um filme correto que cumpre o seu papel, mas como realizador, como busco um filme que realmente se arrisque, e que seja um mergulho de cabeça numa piscina sem água, que seja um ato de confissão, de amor e de fé, o filme me agrada menos, porque isso passa meio longe do que o diretor busca para seu cinema.

O Tambor

O Tambor
De Volker Schloendorff
Odeon ter 2 18:50
**

Esse filme alemão de Schloendorff tem toda a pinta de um filme do leste europeu, e nos créditos finais constatei que grande parte foi filmada na Polônia. Isto porque um clima de auto-crítica um tanto sarcástica e a forma ímpar com que combina comédia e drama não pode vir da sisuda Alemanha, e sim parece mais presente nos filmes europeus. Ao mesmo tempo, não raras cenas de O Tambor me lembraram o tom de alguns filmes de Fellini, em como o íntimo e o grotesco se unem para compor o retrato de uma sociedade, e como um tom onírico e nitidamente não-realista aprofundam um desejo de investigação de uma realidade.

O menino Oskar não quer crescer, quer para sempre continuar com três anos e em companhia de seu tambor. Se fosse alemão, o filme seria uma espécie de Kasper Hauser, mas como tem o espírito do leste europeu, O Tambor via uma crônica desvairada, e uma revisitação arguta de uma sociedade alemã rumando para a guerra, diante do nazismo. As grandes reviravoltas do roteiro são aliadas com uma composição muito particular entre o realista e o não-realista. Esse “menino que não quer crescer” representa o desejo de uma Alemanha, que não quer estar entre “o mundo dos adultos”. Nessa miríade de pequenos e grandes sentimentos, Schloendorff faz um filme com um tom estranho, uma triste sátira de costumes, um filme humano e político e ainda grande espetáculo, de notável realização. Com isso, realiza um belo filme mas, como uma ilha, que não consegue articular as bases de um cinema pessoal que vai ter uma continuidade em filmes posteriores do próprio diretor.

O tipo de filme que mostra “a visão da guerra por uma criança” vai aqui ganhar uma roupagem mais original, tanto no que diz respeito ao retrato de uma “guerra” (não chega a ser propriamente uma guerra) quanto no retrato do mundo infantil. Quando Oskar está exatamente embaixo da Torre Eiffel e olha para cima, uma pessoa pergunta para ele “o que você está pensando?”. E ele responde, na barra de saia da minha avó. É esse tipo de cinema – irreverente, íntimo e humano – que O Tambor revela em seus melhores momentos.

Ato Final

Ato Final
De Jerzy Skolimowski
VHS (gravado telecine), seg 1 18hs
** ½

Primeiro filme que vejo do polonês Skolimowski, e uau foi um impacto ver esse filme “saudavelmente irresponsável”, que vê o cinema como uma grande aventura, como uma grande brincadeira, e ao mesmo tempo subverte várias regras do “bom cinema” para fazer um trabalho de composição muito livre e muito sincero, com muito sentimento. Ás vezes até energia demais e organização de menos, o que não raras vezes compromete o trabalho, mas isso também é legal e faz parte desse tipo de cinema. A forma de filmar é muito livre, uma câmera documental, os atores soltos, grandes reviravoltas de roteiro, saídas muito originais, que me lembrou um pouco as maluquices do Suzuki mas com a diferença que o Skolimowski é polonês, então tem todo esse tom de auto-crítica um tanto sarcástica, os corredores escuros etc.

Um garoto tem o seu primeiro emprego num banho público e fica fascinado-obcecado por uma atendente do local, quase um fetiche sexual para ele. Pela sinopse, o filme poderia ser Kes ou então Banhos (aquele filme oriental, meio ruim até), mas não é uma coisa nem outra, apesar de ser os dois: não é nem o drama sobre a crise do menininho nem sobre a crise de uma instituição. Porque o filme não quer se lamentar de nada, ele está muito ocupado para pensar em mais coisas, ele quer se empenhar em viver essa aventura de ser desse adolescente, e ele tem muita coisa para fazer (leia-se pensar como pode conquistar a menina). É um filme que vive de forma muito intensa a vida de um adolescente, e Skolimowski consegue fazer um filme realmente adolescente, sem os estereótipos desse tipo de produção, e isso me encantou muito. Comer vários hot dogs porque não se tem nada melhor para fazer, arrancar e rir de um cartaz com um homem grávido, bolar um método esquisitíssimo para achar uma jóia perdida na neve (o que Skolimowski deve ter tomado para conseguir fazer esse roteiro???!!!). Lá pelo meio cai um pouco porque achamos que o menino tem que desistir dessa garota um tanto chata que o provoca, mas essa insistência impensável é o mote do filme, porque não devemos desistir dos nossos desejos mesmo que eles nos pareçam um tanto impensáveis ou irracionais. E é nesse desejo por um cinema irresponsável e irreverente que o polonês Skolimowski faz um filme longe de seu país natal (é feita na Inglaterra) mas ainda assim divertido, humano, poético, sensível, carinhoso com seu patético e desastrado personagem.

O Novo Mundo

O Novo Mundo
De Terrence Malick
Espaço Unibanco 1 30 16hs
***

Alguns autores já escreveram sobre a “experiência-cinema”, um estado entre a vigília e o sono que envolve o espectador quando está diante de um filme, especialmente em condições ideais, numa sala de cinema escura com uma tela de grandes dimensões. Isto nos faz lembrar que a fruição de um simples filme, perdido entre a enorme quantidade de lançamentos dessa infindável “linha de produção” que parte das majors, ainda pode ser uma experiência. O enigmático Terrence Malick parece ainda acreditar nisso, e suas obras refletem as inúmeras contradições do mainstream da indústria cinematográfica norte-americana: o diretor se transformou em diretor cult e objeto de mídia exatamente por fugir e negar as regras e os padrões de promoção pessoal dessa mesma mídia, realiza projetos grandiloquentes e luxuosos para exprimir uma visão eminentemente pessoal, enfim, usa as regras implícitas desse sistema para questionar a arrefecer sua mesma estrutura.

Mas aqui o que nos importa é a segurança, é o desejo de risco, é o envolvimento na realização de um projeto de grandes pretensões artísticas, logísticas, históricas, sociológicas, enfim, e a maturidade na condução do que parece improvável: um produto do espetáculo da indústria americana aliado com um filme autoral que vai praticamente na contramão do mero produto para o público.

Malick investe num certo mito de origem da formação da sociedade americana, com a chegada do primeiro grupo colonizador no “Novo Mundo” e seu contato com a tribo indígena do local e suas dissidências internas. É um filme-Outro que fala de si, pois os ingleses e os indígenas são o cerne da formação dessa etnia outra, que é a americana. E com isso, Malick recupera os seus temas de sempre, fazendo uma espécie de síntese entre Além da Linha Vermelha e Cinzas do Paraíso: como a guerra faz parte da condição humana, e como em si traz elementos de transformação e de destruição. Ou ainda como o desejo imperialista da nação americana vai de encontro a um mundo idílico de recuperação dos sentidos e de total simbiose com as forças místicas da natureza, representados pela tribo local. O coronel bastardo e a índia Pocahontas são, nesse sentido, dois anjos caídos, estrangeiros de seu grupo e estranhos a si mesmo, por isso são dois irmãos de alma, personagens além e aquém de seu tempo. Ambos têm o desejo de paz e de integração, mas suas próprias naturezas e seu senso de dever e fidelidade a seus mundos próprios são a causa mesma de propagação da destruição e de intensificação dos atritos: é assim a natureza das coisas. O cinema de Malick está todo lá: a integração fugidia entre o Homem e a natureza, e sua própria natureza dominadora e agressiva; as amplas gruas que abraçam essa geografia local, com movimentos largos e reflexivos, combinados com uma romântica e improvável história de amor. Mas a melancolia com que Malick abraça esse imiscuimento entre esses dois mundos distantes alcança níveis impensáveis na segunda parte da história, mudando completamente seu eixo. E como é triste a integração de Pocahontas à civilização anglo-americana! Em seu encanto mudo, a princesa Pocahontas é vítima da terrível miséria da condição humana, ou ainda de um desejo desmedido de superar a si mesmo. São quase insuportáveis as seqüências em que a índia visita a Inglaterra, e caminha pelas ruas e observa as construções. Ali está a máxima expressão de todo um sentido trágico da filmografia de Malick, numa tristeza muda e conformada a pertencer a um mundo ausente de si mesmo.

Mesmo com uma certa ingenuidade dessa história de amor (aliás, a palavra “ingenuidade” está presente em todos os filmes do diretor), e num certo tom de estereótipo com que alinha os personagens em torno do casal principal, e em um final um tanto moralista, O Novo Mundo é mais uma grande obra desse impensável Terrence Malick, uma grande experiência, viva, pulsante, grandiosa, imperfeita, estranha, um tipo de filme que desperta grandes dúvidas e que nos arrebata pela maestria na execução desse grande empreendimento, ao mesmo tempo que nos envolve por sua paixão, pelo seu tom particular, pelo mistério que envolve presenciar sua exibição.