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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sexta-feira, junho 30, 2006

Cada um vive como quer

Five Easy Pieces

De Bob Rafelson

DVD ter 27 21hs

***

 

Como um filme pode ser honesto? A primeira resposta que vem na nossa cabeça é quando pensamos em um filme que mostra personagens honestos, que não hesita em mostrar as carências e as dificuldades de seus protagonistas. Mas quando pensamos num “cinema independente”, ou seja, num cinema que “se quer independente”, o conceito de cinema honesto, ainda mais quando pensamos num filme americano, é aquele que faz com que as suas carências de produção se tornem recursos de estilo, que encare essas carências como virtudes, e a partir delas, elabore um conceito de cinema e de vida. Ou seja, um “filme honesto” é aquele que acima de tudo “encena de forma honesta”, ou que busca a partir da encenação e do uso da linguagem uma forma de abraçar a essência do filme ao invés de mascarar seus possíveis pontos fracos para seduzir o espectador (pois sabemos que o cinema é muito sedutor e que é razoavelmente simples seduzir o espectador).

 

Five Easy Pieces é um filme simples sobre a dúvida, e a encenação mergulha nessa dúvida junto aos personagens, mas o diretor não toma partido.

 

Five Easy Pieces é tbem (e pra mim essencialmente) um filme sobre a dificuldade de se mostrar os sentimentos, é sobre uma pessoa que não sabe como expor os sentimentos, especialmente porque simplesmente não sabe bem o que sente, porque tem medo de mostrar o que sente, ou porque está cansado de mostrar o que realmente sente e não ser compreendido, ou coisas do tipo, porque no fundo não sabemos muito bem porquê.

 

Tem uma cena fantástica quando Jack Nicholson toca para Katherine, e ela chora de tanta emoção, e ele diz que simplesmente não sentiu nada. Ele simplesmente se concentrou nas peças e as tocou. Então como é que ela pôde extrair um sentimento?

 

É um filme tbem sobre os Estados Unidos dos anos setenta. O Jack Nicholson não quer viver com a hipocrisia da decadente família de pianistas mas tbem não quer viver a vida de operário num trailler com um bando de filhos e indo no boliche no final de semana. Então o que resta a ele? O que ele pode ser?

 

Ou seja, no final das contas, Five Easy Pieces acaba sendo um filme sobre a liberdade, ou sobre a impossibilidade de sermos totalmente livres. Mas o que me impressionou é essa “liberdade triste” na encenação, que é uma coisa bem desse cinema americano da época.

 

Não estou muito sóbrio (acabou Alemanha x Argentina), mas é mais ou menos isso o que acho nesse instante sobre o filme. Vou tentar me expressar melhor depois.

domingo, junho 25, 2006

Uma Visita ao Louvre

Uma Visita ao Louvre
De Jean Marie Straub e Danielle Huilet
DVD (gravado RAI), sex 23 23hs
***

(Uma primeira impressão de Uma Visita ao Louvre, com legendas em italiano e cópia meio tétrica)

Quando vamos ao Louvre, vemos o movimento da vida e da História da arte pelos quadros, que por definição são estáticos. Isso é possível? É possível ver vida e movimento através desses quadros estáticos?

Lá fora pulsa uma outra vida, a dos carros, a da fumaça, a do barulho. No entanto, essa vida outra é essa mesma vida. Quando os artistas criavam os quadros, também havia uma vida outra pulsando lá fora que no fundo era essa mesma vida.

Se o filme de Straub é basicamente feito filmando os quadros estáticos com uma câmera estática, existe ao longo do filme um movimento: o movimento do tempo (são 41´ vezes 2) e o movimento das palavras (do som).

Esse movimento é em última instância um movimento do espírito, baseado na contemplação e na reflexão.

Notem que desde o início Straub faz questão de dizer (pela boca de outro) que não gosta da arte primitiva. Ou seja, o quadro estático não é para ele homenagem a Lumière, ou coisa do tipo, ou mesmo tentativa de se contrapor aos avanços da tecnologia. Ao contrário, para ele é questão de princípio, sobre o cinema e a vida.

Quando vamos ao Louvre, o que podemos ver além dos quadros? Tudo. Mas só podemos ver se nos concentrarmos nos quadros, na materialidade dos quadros.

Desertum é o análogo-antípoda à Visita ao Louvre. Fiquei com vontade de mandar uma cópia para o Straub (??!!!!??)

Ela e o Secretário

Ela e o Secretário
De Mitchell Leisen
Telecine Classic (VHS), sab 24 jun 15hs
***

O Pedro Camargo uma vez me disse que se pode fazer um filme que fale muito para poucas pessoas, ou então um filme que fale pouco para muitas pessoas, e que numericamente ambos podem acabar dando o mesmo efeito. É claro que fiquei com vontade de retrucar que nesse sentido então seria melhor que o filme falasse muito para muitas pessoas, mas a frase nos dá um bom norte sobre o cinema comercial americano. As screwball comedies de Leisen acabaram, com o tempo, tendo menos prestígio crítico do que alguns de seus conterrâneos, como Hawks e Wilder. Sofisticadas à sua maneira, mas mais convencionais, não conseguiram nem o ritmo frenético dos filmes de Hawks nem a crítica ferina ao American way of life de Preston Sturges. Sim, porque Leisen nunca escondeu o propósito de seu cinema: era o de falar pouco para muitas pessoas. Mas entre essas muitas pessoas, havia algumas para as quais alguns de seus filmes falou muito, e entre elas estavam pessoas como Bracket e Wilder.

Ela e o Secretário é um filme sobre como conseguir contratos milionários de publicidade não exatamente por causa da qualidade de seus produtos, mas pelo “jeitinho” com que se seduz os donos das empresas contratantes. Mas o filme já começa com um arroubo de metalinguagem: os créditos do filme são como os “croquis” de publicidade sendo aprovados pelo diretor. Com isso, em meio às reviravoltas tradicionais das screwball comedies, Leisen, que nunca assinou um roteiro de seus filmes, desenvolve o tema típico da sua filmografia: como as pressões do American way of life pela busca do poder e do dinheiro fazem com que as pessoas assumam “identidades alternativas” que escondam o seu verdadeiro eu. Rosalind Russell e Fred MacMurray são artistas frustrados que acabam no ramo da publicidade. Ainda que no final, mesmo tendo oportunidades de finalmente entrarem de vez no sistema, escolham o seu “trailler no México”, ou seja, buscam o amor e seu ideal pessoal, o clima romântico (e cômico) atenua a crítica ao sistema. Mas não tem problema: a função de Leisen é falar pouco para muitas pessoas.

Mas o que impressiona no simples trabalho de artesania de Leisen em Ela e o Secretário é sua habilidade em compor cenários e figurinos (uma característica de seus filmes, já que ele começou no cinema nessa função), e especialmente em como a decupagem (simples, funcional) faz um paralelo com o vazio da vida desses personagens mesmo em meio ao movimento frenético do cotidiano da publicidade. São as câmeras que se movimentam discretamente por corredores esguios, é o uso calculado em alguns momentos da profundidade de campo, é a posição em que os personagens se sentam (às vezes distantes um do outro, valorizado pela posição de câmera). Nesses momentos, percebemos que o cinema de Leisen não é tão ingênuo para utilizar os elementos de linguagem da narrativa clássica, ainda que seus filmes estejam condenados, desde o princípio, a serem meros veículos de diversão refinada e de desfile de um elenco estelar. Ainda assim, em seus melhores momentos, Leisen consegue imprimir uma marca pessoal, um jeito próprio de falar sobre o cinema e a vida, ainda que de forma extremamente discreta, e para admiradores de seu cinema (como eu), essa tentativa chega até a emocionar.

quarta-feira, junho 21, 2006

A Derrota

A Derrota

De Mário Fiorani

MAM qua 16 :30

**

 

Eu tinha uma grande expectativa para ver um filme desse italiano chamado Mário Fiorani, radicado no Brasil, que fez dois filmes sem grande repercussão e voltou para Itália. No MAM, dentro do Cinesul, passou A Derrota, para cinco pessoas. Se o filme não comprovou minhas expectativas, mostrou alguns méritos desse filme praticamente esquecido dentro do cinema brasileiro.

Típico primeiro filme, A Derrota é um pequeno exercício formal de compressão do tempo e do espaço, como sugere o início do filme, em que o protagonista, representado por Luís Linhares, toma consciência e se descobre como prisioneiro num amplo casarão, com paredes velhas e descascadas. Claramente, A Derrota se filia à tradição do cinema novo: se o contexto político não é citado explicitamente, a prisão, a tortura, a opressão fazem nitidamente referência ao regime militar. No entanto, em algumas partes, vai lembrar alguns aspectos do cinema marginal: na precariedade de produção e no tratamento de elementos que lembram o abjeto e o sujo (o vômito, o look do casarão, o prato de comida, e principalmente na metalinguagem – refletores aparecem no meio do filme, mostrando que é um processo fabricado)

A Derrota é um filme simples, quase precário de produção, e que tem uma descontinuidade estranha quando surgem tiroteios e o filme quase vira um thriller, perdendo seus feitios mais psicológicos. Mas o que é interessante é esse clima um tanto particular que Fiorani cria para seu filme, valorizando os tempos mortos, com poucos diálogos, que acentua o vazio de seu lado psicológico (não há explicações sobre a origem do personagem) e com uma decupagem que registra os poucos elementos físicos do cenário. Conta, tbem, com uma participação ativa da fotografia e câmera de Mário Carneiro, discreta, elegante, mas muito efetiva.

É muito curiosa a escolha do personagem de Luís Linhares, que aliás tem uma boa participação no filme, com um grande trabalho de entrega física. Ele mata vários capangas, mas deixa vivo (acorrentado) um certo intermediário. Depois, este consegue se soltar e capturar o prisioneiro, mas, de alguma forma, isso deixa marcas nesse intermediário que o levam a refletir. Não se sabe se isso será suficiente para ele mudar, mas é um início.

Sugestivo, instigante, o título A Derrota é o resumo do filme. O final é marcante: o preso, tenta fugir, mas é preso, enforcado e morto. Suas cinzas são queimadas, para que não sobrem os restos. As cinzas são apenas pó (i. e não cabe o romântico final de um Jules e Jim, por exemplo). A Derrota significa várias derrotas: de um projeto político de um país, de um projeto de liberdade das amarras da condição humana (a personagem de Glauce Rocha se vende ao sistema e acaba bem), a derrota de um projeto pessoal do cinema de Fiorani, enfim, a derrota de um cinema brasileiro. No fim, suas cinzas jogadas num forno. Ou seja, A Derrota, ainda que ingênuo, é profundamente atual.

segunda-feira, junho 19, 2006

Imitação da Vida

(R) Imitação da Vida

De Douglas Sirk

VHS, sab 17 jun

***

 

O último filme de Sirk nos Estados Unidos, produzido por Ross Hunter, é tudo o que um último filme pode ser: uma despedida afetuosa, uma declaração de princípios do que é o cinema e a vida. Imitação da Vida, no título que diz tudo sobre o que é o filme, começa com uma das mais fantásticas cartelas do cinema americano: sobre fundo preto, caem diamantes, que cobrem a tela. Além de apresentar o contexto racial que está presente no filme, é um espelho da condição desse cineasta que sempre foi um estrangeiro em Hollywood. Por trás de seus melodramas baratos, Sirk, mais que um retrato dessa América dos anos cinqüenta, em pleno apogeu da Guerra Fria, faz um filme afetuoso sobre “a miséria da condição humana”, sobre a falência do poder. Imitação da Vida é uma espécie de Cidadão Kane, já que todo o sonho da atriz Lora Meredith (Lana Turner, canastra como sempre), desmorona ao final, ainda que o suposto final feliz tente encobrir. Todo o seu sucesso parece uma bolha de sabão. “É disso que são feitos os sonhos”, ocos, tolos, como os diamantes sobre o fundo austero do início do filme. Mas o que é mais emocionante é que a história dessa mulher se confunde com a história desse próprio diretor alemão, que saiu do teatro de seu país natal para tentar ganhar a vida como diretor de Hollywood. Conseguiu, fazendo grandes obras de sucesso comercial, mas no ápice de sua carreira, justamente após esse filme, saiu de Hollywood, voltando para sua terra natal para dar aulas de teatro, o que o fez até o fim de sua vida.

 

Imitação da Vida é um melodrama de estúdio, com figurinos luxuosos, com a trilha sonora lacrimejante, etc, etc. Mas é o que de melhor o mainstream americano sabe fazer, porque é a história de uma vida contada com uma imensa dignidade e com um imenso olhar para esses personagens. Sirk nunca hesita em apontar os pontos fracos dos seus mocinhos, e isso é o que dá força aos seus filmes. Neste, as mães são extremamente corajosas para vencer a vida sem seus homens, mas fracassam como mães: sua luta foi incapaz de fazer com que suas filhas tivessem uma vida melhor do que a sua. Preocupadas com suas questões pessoais (uma negligenciando, outra superprotegendo), não conseguem trocar uma única palavra verdadeira para com elas.

 

É um filme tbem sobre “o preço pago” para chegar ao sucesso. E isso é muito sério, e muito pesado como Sirk aponta para isso. Tolos, os personagens lutam mas não saem do lugar. É como se a vida fosse um “cobertor curto”: você resolve um problema e não percebe que existem outros! Tantos outros! Afinal, é um melodrama, a vida é difícil, as pessoas têm problemas e não conseguem ver coisas a um palmo do seu nariz porque têm preconceitos e limites.

 

O filme fala tbem de preconceito: preconceito de cor, de origem, do sexo feminino, do “ser artista”. Imitação da Vida é uma tragédia porque tudo dá errado exatamente porque todos têm razão e todos se esforçam para que as coisas dêem certo.

 

É inacreditável a forma como Sirk ilumina seus filmes. Dentro da opulência daquele cinema de estúdio, colorido e encantado, há um profundo senso de fatalismo (ora, é um diretor alemão!), e um profundo pesar, um profundo lamento por tudo ser dessa forma. Claro, alguns lêem como uma certa ironia ao modo de vida americano, e eu acho que se tem isso tem tbem uma coisa universal, maior, que preenche seus filmes: a impossibilidade de vivermos uma vida verdadeiramente humana. Esse destino trágico está lá em todo o filme, desde o primeiro plano, na forma como Sirk ilumina as cenas, o que confere uma incrível unidade ao filme, o que mostra um certo distanciamento crítico do diretor em relação a esse universo. Há sempre sombras, penumbras, escadas, passagens de meias-luzes entre as cenas de “altas luzes” e de brilhos.

 

Há o final, sim, um terrível final, duro de se ver. É a despedida de Sirk no cinema, uma espécie de enterro e de muro de lamentações. O estúdio praticamente obrigou Sirk a fazer um final feliz, em que a filha Sarah Jane volta e pede desculpas para a mãe, o que praticamente acaba com o filme do Sirk. Mas o sábio diretor paga as lições de Murnau em A última Gargalhada, e faz um falso final feliz, amargo, estranho. A empregada negra guardou todas as suas economias para um enterro opulento, com quatro cavalos brancos levando a carruagem. No céu ela pode ser feliz. E ela deve comemorar por isso. Os cavalos brancos estão lá, e é inacreditável. Está todo mundo lá dentro da carruagem: a empregada no caixão, a filha Sarah Jane, a filhinha de Lora (feita pela Sandra Dee) e o John Gavin. A família americana, ali dentro. Dureza. De um diamante ou de uma bolha de sabão, “é disso que são feitos os sonhos”.

Mouchette

(R) Mouchette

De Robert Bresson

Odeon, qua 14 20:30

****

 

A gente sabe que a vida é ruim, mas muitas vezes a gente não se dá conta do quanto. Mouchette é um dos filmes mais tristes da história do cinema, porque não se preocupa em parecer triste, ele simplesmente é. É um filme seco e descritivo, como o eterno cinema de Bresson. Fica difícil falar sobre o filme, dada a sua maestria. Nessa terceira vez que o vi, percebi aspectos que tinham me passado despercebido das outras vezes, especialmente como as cenas do parque são boas e bem filmadas, e como elas são importantes no filme. Um parquinho de diversões sempre é fascinante, e o cinema francês sempre teve essa coisa do parquinho bem presente. A câmera passeia entre os presentes com grande desenvoltura e desembaraço, nem parecendo um filme do Bresson. É impressionante como esse filme é todo muito bem filmado... A cena do “bate-bate” é antológica: essa mistura de inocência e violência está lá, está em todo o filme. Mas por que Mouchette deixa de acreditar na vida? É claro que Mouchette vai se entregar ao epiléptico Arsène, porque ele foi o único que lhe deu amor em toda a vida, ainda que esteja bêbado e queira estuprá-la (meros detalhes.....rsrsrs). É impressionante a decupagem do Bresson, porque é muito clara, e valoriza demais os objetos e as ações físicas, o que faz o filme ganhar uma materialidade, uma forma física, que, claro, vai reforçar as partes em que se apóia no espiritual. Exemplo máximo é no suicídio de Mouchette ao final. Tudo é muito insuportável. Não tem olhada dela pro horizonte como se fosse despedida ou coisa do tipo. É ela rolando pela grama e só. E o lago, triste e lindo, como se fosse um filme de Straub. Fantástico filme! Depois do filme, participei do debate... na sinuca da Lapa, claro....!!!

 

quarta-feira, junho 14, 2006

texto

Mexendo nas minhas coisas velhas, achei um texto que escrevi em dezembro de 2003, uma resposta a uma leitora do falecido Claquete que pedia uma lista de filmes indispensáveis na vida de alguém que goste de cinema. Minha resposta, ei-la:

 

Ola xxx,

 

É muito difícil relacionar os filmes que são “indispensáveis na vida de alguém que goste de cinema”, até porque este conceito é um tanto obscuro. Sim, existem os “clássicos”, aqueles filmes que foram consagrados seja por sua relevância estética ou mesmo histórica. No entanto, seriam esses filmes “indispensáveis”? Ou ainda, seriam esses os únicos indispensáveis, ou os que devem ser visto primeiro?

 

Isto porque há um conjunto – e não são poucos! – de filmes que não figuram em nenhuma lista dos “indispensáveis” mas que não consigo imaginar minha vida sem eles. São filmes pequenos, menores, que geralmente passaram despercebidos, mas que tocaram fundo em mim, que me fizeram descobrir (na abordagem do tema, numa solução estética,...) algo de muito novo e secreto de dentro de mim. Ou às vezes há filmes até irregulares (alguns que até nem gosto) mas que possuem um plano, um diálogo, um movimento de câmera, que me desnorteiam. Há ainda os filmes que sempre guardei em minha memória mas que, ao revê-los, aquele encanto inicial se dissolveu por completo (até porque nós mudamos e os filmes mudam conosco...).

 

Dessa forma, como posso eu – como um juiz, como um carrasco – aconselhar que filmes são “indispensáveis”? Mas, por outro lado, como podemos nos posicionar em relação à avalanche de filmes que podemos ver? Ora, não podemos “escolher” quais nos são indispensáveis, mas assistir a filmes é indiscutivelmente uma questão de escolha. Escolher é então refletir sobre o que nos interessa. Então, depende do que te interessa em particular, do que te atrai no cinema, no ato de ver filmes. Não é muito diferente de decidirmos o que iremos fazer no final de semana, a que horas sairemos do trabalho, ou se devemos ou não atravessar a rua. É uma questão de escolha e também de acaso.

 

Para finalizar, digamos que essa escolha é um exercício, que deve ser aprimorado com o tempo, com o próprio ato de ver filmes. Ou seja, é um exercício de viver.

segunda-feira, junho 12, 2006

FBCU

Festival Universitário

 

O nível dos curtas em película do Festival Universitário deste ano foi muito, muito fraco. O que me assustou foi o nível dos filmes da Estácio, mas é apenas um reflexo do que se vem fazendo com o curso. Mas teve muito pouca coisa digna de nota mesmo. Tiveram os filmes corretos, com uma excelência técnica rara de ser vista num nível universitário, mas que não diz muita coisa, apenas mostra um desejo de inserção que é mais lamentável do que bem-vindo: Alice, Ímpar Par, o Rap da Ceilândia. No final das contas, teve

 

O Latido do Cachorro altera o percurso das nuvens – dialogando de forma inventiva com o primeiro cinema e com a poesia vanguardista de uma Maya Deren, foi talvez o grande destaque do festival.

 

Berenice – o belo (extraordinária fotografia de Thiago Lima), sombrio e esquisito Berenice recebeu vários preconceitos por onde passou, mas seus méritos aparecem em primeiro plano: um mergulho de cabeça, radical, na possibilidade de o cinema abraçar um protagonista e viver com ele sob o risco. Belo, imperfeito, uma obra em aberto, bonita de se ver.

 

A História da Figueira – queria ver de novo esse filme, porque o vi depois de 10 curtas numa noite, mas o filme de realização da Julia Zakia (que já tinha feito o fantástico O Chapéu do Meu Avô) demonstra a maturidade de um olhar poético, muito bem realizado e com uma proposta que se de um lado dialoga com esse “cinema de festival” que sempre vemos, de outro abre espaço para uma experimentação poética e novas possibilidades da imagem.

 

Tiveram tbem alguns filmes razoáveis, mas os destaques foram esses três.

Vi pouco os vídeos. A sessão que fui eu não gostei, mas os comentários gerais é que o nível dos vídeos foi melhor que o de película. Natural porque película não tem seleção.

 

Meus vídeos até que este ano foram bem recebidos. A sessão do NATAL foi dureza mas o debate foi muito bom, então o saldo foi bem positivo. Acho que o natal cumpriu seu papel no meio dos filmes: o de defender o “amadorismo com critério”.

 

quinta-feira, junho 08, 2006

Retrato do FAM

Retrato do FAM

Fui a Floripa acompanhar a projeção de O POSTO. Foi ótimo para conhecer a cidade e ficar com amigos. A cidade no inverno é sensacional, porque tem locais completamente vazios que contrastam com a cor da “alta temporada”. Ou seja, com minha eterna companheira (minha PC1000), vem aí DESERTUM 2. O teatro do FAM é ótimo, capacidade de 1000 pessoas, mas no festival não tem um estímulo para os realizadores se conhecerem, não tem uma festa ou coisa do tipo, e o 16mm é recriminado, até em relação aos vídeos. Os filmes e curtas que vi vão aí listados, alguns deles revisão.

 

Mostra de Longas Mercosul

Mi Mejor Enemigo de, Alex Bowen / Ficção / Chile, Argentina e Espanha / 107’ *

 

Esse longa de Alex Bowen produzido por Pablo Trapero coloca a produção chilena no cenário internacional mas com um viés: o cinema de linguagem sucumbe ao retrato jocoso e convencional de uma trupe de brancaleones, no meio de uma guerra num lugar-nenhum na Patagônia, na fronteira entre o Chile e a Argentina. Aos poucos, o filme vira uma chanchada, uma avacalhação desse absurdo que é a própria possibilidade dessa guerra. Os soldados em si se ajudam, ao invés de se matarem, o que é o princípio de A Grande Ilusão, do Renoir: um soldado argentino e um chileno têm muito mais em comum do que um soldado chileno e um marechal chileno, por exemplo. Essa situação absurda que o filme vai avacalhar politicamente faz um retrato do subdesenvolvimento latino-americano mas o faz de forma tão desengonçada e caricata que não consegue sair desse “insight” de entrecho. Mal desenvolvido, mal articulado, e com piadas e recursos desgastados, Meu Melhor Inimigo acaba não empolgando, sendo uma caricatura mais do que retrato de um estado de coisas, filiando-se ao mal intencionado La Grande Guerra, de Monicelli. Também não chega a tanto esse filme de Bowen mas não passa disso: um filme de amenidades com muitas limitações.

 

Mostra de Vídeos Mercosul - Competitiva

Curta Ilha de, Rafael Favaretto Schlichting / Ficção / SC / 26’  0

O Fim Do Mundo - Flashback Society de, Alan Langdon e Guilherme Ledoux / Documentário / SC / 21’30”  0

Neguinho e Kika de, Luciano Vidigal / Ficção / RJ / 17’40” 0

 

Mostra de Curtas Mercosul (Competitiva)

En la Oscuridad de, Marcelo Charras e Juan Manuel Rampoldi / Ficção / Argentina / 15’ *

Soberano de, Kiko Mollica e Ana Paula Orlandi / Documentário / SP / 15’ 0 ½

O Caderno Rosa de Lori Lamby de, Sung Sfai / Ficção / SP / 19’ 0

Pax de, Paulo Munhoz / Animação / PR / 14’ 0

Saudosa de, Erly Vieira e Fabrício Coradello / Ficção / ES/ 15’ 0

Tubarões Voadores de, Angelo Clemente / Experimental / SC/ 7’59” **

 

20

Lista dos 20 melhores filmes feita para o site Balaio, do Moacy Cirne.

Na verdade, são os 20 títulos que mais me marcaram pessoalmente. Ou seja, não são os 20 melhores filmes da história do cinema, mas os 20 filmes que eu mais gosto.

Se bem que pessoalmente eu deveria ter trocado o KES pelo A LOJA DA ESQUINA, de Ernst Lubitsch, embora hoje tenha minhas dúvidas se é de fato uma obra-prima. E se bem que meu gosto pessoal precisaria ter A DUPLA VIDA DE VERONIQUE e pelo menos um filme do Rocco Siffredi. Bom, como toda lista é incompleta, ei-la:

 

Não Amarás, de Krzsyztof Kieslowski

Crônica de Anna Magdalena Bach, de Jean-Marie Straub

A Cor da Romã, de Sergei Paradjanov

Walden, de Jonas Mekas

A opção, de Ozualdo Candeias

Tokyo monogatari, de Yasujiro Ozu

Le Trou / A um passo da liberdade, de Jacques Becker

Gertrud, de Carl Th. Dreyer

Diário de um Pároco de Aldeia, de Robert Bresson

O Espelho, de Andrei Tarkowski

O Sol do Marmeleiro, de Victor Erice

A aventura, de Michelangelo Antonioni

Terra, de Alexander Dovzhenko

Persona, de Ingmar Bergman

Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica

Mulher de Areia, Hiroshi Teshigahara

No decurso do tempo, de Wim Wenders

Aurora, de F. W. Murnau

Kes, de Ken Loach

Japón, de Carlos Reygadas