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Mexendo nas minhas coisas velhas, achei um texto que escrevi em dezembro de 2003, uma resposta a uma leitora do falecido Claquete que pedia uma lista de filmes indispensáveis na vida de alguém que goste de cinema. Minha resposta, ei-la:

 

Ola xxx,

 

É muito difícil relacionar os filmes que são “indispensáveis na vida de alguém que goste de cinema”, até porque este conceito é um tanto obscuro. Sim, existem os “clássicos”, aqueles filmes que foram consagrados seja por sua relevância estética ou mesmo histórica. No entanto, seriam esses filmes “indispensáveis”? Ou ainda, seriam esses os únicos indispensáveis, ou os que devem ser visto primeiro?

 

Isto porque há um conjunto – e não são poucos! – de filmes que não figuram em nenhuma lista dos “indispensáveis” mas que não consigo imaginar minha vida sem eles. São filmes pequenos, menores, que geralmente passaram despercebidos, mas que tocaram fundo em mim, que me fizeram descobrir (na abordagem do tema, numa solução estética,...) algo de muito novo e secreto de dentro de mim. Ou às vezes há filmes até irregulares (alguns que até nem gosto) mas que possuem um plano, um diálogo, um movimento de câmera, que me desnorteiam. Há ainda os filmes que sempre guardei em minha memória mas que, ao revê-los, aquele encanto inicial se dissolveu por completo (até porque nós mudamos e os filmes mudam conosco...).

 

Dessa forma, como posso eu – como um juiz, como um carrasco – aconselhar que filmes são “indispensáveis”? Mas, por outro lado, como podemos nos posicionar em relação à avalanche de filmes que podemos ver? Ora, não podemos “escolher” quais nos são indispensáveis, mas assistir a filmes é indiscutivelmente uma questão de escolha. Escolher é então refletir sobre o que nos interessa. Então, depende do que te interessa em particular, do que te atrai no cinema, no ato de ver filmes. Não é muito diferente de decidirmos o que iremos fazer no final de semana, a que horas sairemos do trabalho, ou se devemos ou não atravessar a rua. É uma questão de escolha e também de acaso.

 

Para finalizar, digamos que essa escolha é um exercício, que deve ser aprimorado com o tempo, com o próprio ato de ver filmes. Ou seja, é um exercício de viver.

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