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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

segunda-feira, julho 24, 2006

Filmes que vi neste ano de 2006 (Primeiro Semestre) :

 

Recentes extra

(Festivais / Internet / DVD estrangeiro, etc.)

Plataforma, de Jia Zhang Ke ***½

Gerry, de Gus Van Sant ***

Serras da Desordem, de Andréa Tonacci ***

Uma Visita ao Louvre, de Jean Marie Straub e Danielle Huilet ***

Passagem Azul, de Yee Chih-Yen  ***

Herbert de Perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz 0½

Bully, de Larry Clark 0½

Taurus, de Alexsandr Sokurov, 0

 

Recentes

Crime Delicado, de Beto Brant ***½

O segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee ***

O Novo Mundo, de Terrence Malick ***

Ponto Final – Match Point, de Woody Allen ***

Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney ***

Três Enterros, de Tommy Lee Jones ** ½

As Chaves de Casa, de Gianni Amelio **

O Plano Perfeito, de Spike Lee **

Munique, de Steven Spielberg *½

Árido Movie, de Lírio Ferreira *½

Achados e Perdidos, de José Joffily *

Brasília 18%, de Nelson Pereira dos Santos *

2046, de Wong Kar-Wai 0

 

Revisão

Crônica de Anna Magdalena Bach, de Jean-Marie Straub e Danielle Huillet ****

Gertrud, de Carl Th. Dreyer ****

Mouchette, de Robert Bresson ****

O Silêncio, de Ingmar Bergman ***

Umberto D, de Vittorio de Sica ***

Imitação da Vida, de Douglas Sirk ***

 

Antigos

Dias de Ira, de Carl Th. Dreyer ****

Cada um vive como quer (Five easy pieces), de Bob Rafelson ***

Os Olhos Sem Rosto, de Georges Franju ***

Aqui termina o inferno de Kobayashi ***

Ato Final, de Jerzy Skolimowski ** ½

Ela e o Secretário, de Mitchell Leisen **½

A Música de Gion, de Kenji Mizoguchi ** ½

O Tambor, de Volker Schloendorff **

A Derrota, de Mário Fiorani **

Fulaninha, de David Neves *½

Meu Tio Antoine, de Claude Jutra * ½

A Nossos Amores, de Maurice Pialat *

Antes do Amanhecer, de Richard Linklater *

Antes do pôr-do-sol, de Richard Linklater 0

 

Mostra Seijin Suzuki

A Marca de um assassino ***

História de uma prostituta ** ½

Elegia da Briga ** ½

Detetive Bureau 2-3 ter 11 18:30 **

A Vida de um tatuado qui 13 18:30 **

 

A Força do Mal

De Abraham Polonsky

DVD dom 16 jul 18hs

**

 

Eu sempre tive uma grande expectativa para ver esse A Força do Mal, porque é uma espécie de filme mítico devido à figura de seu diretor, perseguido pela caça às bruxas do macartismo. E também porque vi Willie Boy, e gostei bastante. Mas esse A Força do Mal, convenhamos, não é nada demais, e não tem nada que possa ser um libelo ao comunismo e que justifique a perseguição ao diretor. Ou seja, esta deve ter sido por sua vida pessoal e não por seus filmes.

 

O que não significa que A Força do Mal seja um filme ruim, ou direitista. É um retrato do submundo que dialoga com os filmes de gangster pré-cinema noir dos anos trinta, embora esse seja feito um pouquinho depois.

 

O roteiro não parece nada demais (gansgter tem crise de consciência quando num negócio precisa prejudicar seu irmão, que recusa sua ajuda) mas a forma sóbria como Polonsky encena essa história, com um uso muito expressivo da fotografia preto-e-branco dão uma grande força moral a essa história. John Garfield acima da média de seus papéis, mas nada expressivo.

 

O filme tem algumas cenas memoráveis: a morte do velho contador (a montagem e o plano do óculos) e especialmente a enorme cena em que Garfield vai ver o corpo do irmão. Ele se vê cercado de uma geografia física que vai dialogar de forma muito estranha com essa tragédia. De inspiração expressionista, desce ao longo de escadas e espirais, mas ao mesmo tempo é um dos raros momentos do filme em que se vê um espaço aberto, filmado em plano geral. Essa sensação de liberdade e aprisionamento, valorizada pela montagem, resolvida de forma muito simples mas funcional, é uma pequena aula de como fazer cinema com inteligência.

 

Por enquanto é isso.

 

quinta-feira, julho 20, 2006

O Libertino

De Laurence Dunmore

Paissandu qua 19hs

** ½

 

Na última semana, pelo menos umas seis pessoas me recomendaram esse O Libertino, que eu acabei vendo, apesar dos preconceitos por ser “um filme de época”, mais por estar passando do lado da minha casa e por ser convencido que era um filme sobre o processo de criação. Não deixa de ser, mas na verdade O Libertino é sobre a impossibilidade do processo de criação, ou mais ainda, a impossibilidade de uma pessoa ser feliz, se realizar, simplesmente porque ela não ama a nada ou a ninguém, nem mesmo ela própria.

 

Por isso, por trás do “filme de época”, O Libertino acaba sendo o avesso de um Shakespeare Apaixonado: um clima de decadência e de luxúria fútil é espelhado por uma fotografia envolta por uma sombria névoa. Diferentemente dos cacoetes maneiristas da “trilogia dos líderes” de um Sokurov, aqui essa névoa tem uma profunda relação com esse tom ambíguo e enigmático que percorre toda a narrativa.

 

Ainda mais surpreendente é que não só o fotógrafo Alexander Melman mas o próprio diretor Laurence Dunmore são estreantes em cinema. E ainda mais: Dunmore veio da publicidade. Mas seu filme é quase anti-publicitário: ao mesmo tempo que o filme tem um tom narrativo sóbrio, tem uma profunda participação da fotografia e câmera, e uma imensa vontade de um trabalho de direção de atores. A fotografia e câmera são uma proeza: Melman nunca fica seduzido pela opulência do cinemascope mas sempre trabalha de forma implícita com os espaços fora do quadro, com uma câmera que asfixia os personagens dentro desse espaço físico, delimitado pelo enquadramento. Ainda, combina interessantíssimas panorâmicas (o exemplo mais típico são suas tomadas da reação da platéia no teatro, em que muitas vezes ele quebra o campo-contracampo para compor pans circulares) com uma marcante presença da câmera na mão, quando quer colocar um tom tenso e menos pomposo a essa história.

 

Mas se é certo que a forma como Dunmore conta essa história e articula os elementos de linguagem mostra sua consciência do que é ser diretor, o que mais me impressionou em O Libertino é esse fascinantemente repulsivo personagem de Jonnhy Depp, sua leitura desse personagem e sua decadência moral ao longo de todo o filme. O filme mostra como o talento é esmagado pelo sistema, mas não só pelo sistema mas também muito pela própria vaidade pessoal, de modo que é um tema que me interessa em muito, ainda mais no meu momento de AGORA. O personagem de Depp, o tal Conde de Rochester, tem a chance de fazer uma grande obra: apresentar um espetáculo teatral de sua autoria, com carta branca. Mas tem uma reação infantil: atormentado pela possibilidade de “ser patrocinado pelo sistema”, acaba vendo seu talento sucumbir diante de sua vaidade pessoal, de sua arrogância. Acaba apresentando uma peça pornográfica, jogando todas as suas possibilidades pela janela, sem conseguir construir um projeto de contestação. Jonny Depp tem uma relação destrutiva com tudo que o cerca, e é incapaz de transformar sua revolta em qualquer coisa positiva. O Libertino é até “direitista” na sua insistência na decadência pessoal e no triunfo das forças do sistema: no final, quando o desfigurado Conde vai à corte defender o Rei, fica comprovada sua falência: é preciso antes de tudo que a aristocracia sobreviva. Mas é impressionante a forma rica como Depp compõe esse personagem amargurado com a miséria da condição humana, como ele joga fora todas as suas possibilidades simplesmente por ser incapaz de encarar a vida, por ser incapaz de amar, e em como ele se deixa facilmente esmagar pelo sistema também por sua própria vaidade pessoal. Belo e triste filme!

 

 

sexta-feira, julho 14, 2006

extra!

O maior ibope deste humilde blog acho que aconteceu ontem, com uma manchete bombástica que surpreendeu meus ávidos leitores: PÁGINAS DA VIDA! Escrever sobre novela, não, não pode! Os mais exaltados chegaram a dizer “como pode uma pessoa do seu nível escrever sobre novela?” Oh! Minha caixa postal encheu de mensagens de pessoas indignadas: umas disseram que “não viram e não gostaram”; outras que “não viram mas pessoas contaram para elas que não gostaram” (adorei isso...). E tudo isso ainda eu não gostando da novela!! Imagina se tivesse gostado! Que heresia!

 

Imagina se eu falasse que o único programa na TV hoje que eu não perco sob nenhuma hipótese é “Quem foi rei nunca perde a majestade”. Alguém já viu essa pérola? O Sílvio Santos traz “ídolos musicais” do passado para cantarem uma música que os consagrou e – ao vivo – interpretar uma música nova. O público vota e dá a “coroa de prata” para o vencedor do dia, em que se apresentam cinco ídolos (ou ex-ídolos) candidatos. É simplesmente sen-sa-cio-nal ! Vale a pena ver: passa na quarta, logo depois do “ídolos”, que esse sim é uma bomba sem tamanho.

 

Mas essa mensagem é apenas para tranqüilizar os meus leitores de que não pretendo transformar esse blog numa coluna da Revista Contigo! Semana que vem tem Fassbinder e tem – principalmente – Nam June Paik, que estou adiando há semanas para ver na Telemar.

 

Enquanto isso fiquei por um momento com saudades do meu tempo de militar pra ficar com a Ana Paula Arósio... ih, já to voltando ao assunto de novo heheheh

quarta-feira, julho 12, 2006

Páginas da Vida

Com muita atenção (mas uma certa febre) acompanhei os dois primeiros capítulos da nova novela de Manoel Carlos, Páginas da Vida. Pra quem não sabe, gosto das novelas anteriores do autor, porque, se não são nada demais, elas tocam em temas que me interessam, e abordam essa fragilidade das relações entre os seres humanos que, em seus melhores momentos, têm um certo olhar afetuoso para as contradições dos personagens. É o espaço que se tem na teledramaturgia para o humano. Ainda que pouco ou tímido, é algo.

 

O início de Páginas da Vida foi surpreendente e impactante. Uma grande tomada de um coral cantando em pleno Cristo Redentor. Ao som de Cidade Maravilhosa, o Rio perfeito, harmonioso, turístico. Mas quase como um A Doce Vida, há uma aparição estranha, que começa a vir pelo som, quebrando essa harmonia perfeitinha do coral: um helicóptero, acima do Cristo. E esse helicóptero percorre o Rio repleto de favelas, e dentro desse helicóptero há policiais mirando a próxima vítima. E na bela praia de Copacabana (ou seria o Leblon?) mais um arrastão. Um menino foge da polícia pelas ruas e é atropelado por um carro. O carro que vinha atrás bate no da frente. As duas motoristas, mulheres. O policial e o bandido. Um tom meio que mistura Ônibus 174 e Cidade de Deus. Mas de qualquer forma, impressionou.

 

Um belo início.

 

Mas depois, a realidade.

O drama chororô. O melodrama surrado.

Me pareceu que Páginas da Vida é uma diluição das outras novelas do autor, sem a força anterior.

 

E como a direção do Jayme Monjardim é péssima! Porque as novelas do Manoel Carlos precisam ser dirigidas como “crônicas de costumes” e não como melodramas! O tom pesado e cerimonioso da mise-en-scene abafa a novela, que fica lenta, sem ritmo, chata. Como é mal decupada essa novela, de forma grosseira!

 

Tem uma menina brasileira que vive em Amsterdam. É a Fernanda Rodrigues, que é MUITO linda, e está bem por enquanto. As cenas é que são constrangedoras. Vi uma entrevista em que a direção de arte disse que “caprichou” no quarto dela em Amsterdam para poder mostrar um quarto de adolescentes, desarrumado, aquele clima caótico, meio diferente do que se espera do quarto de um ator global (palavras dela). Então vi com muita atenção o quarto da menina, porque esse tema me interessa em muito, o quarto como espaço de vida, o caos e a desorganização do quarto! E o que vejo? Lamentável! A desorganização é milimetricamente planejada: não pode ter uma poeira, nada. É a desorganização padrão Globo de televisão. Poucas vezes vi uma direção de arte tão triste como nesse quarto em Amsterdam!!!

 

A parte do melodrama da novela é muito rala. Notei também que o Manoel Carlos no texto investiu num certo tom meio vulgar com que as pessoas falam de sexo. Todo mundo trai todo mundo e todo mundo fala sacanagem. Meu lado moralista acionou as turbinas, mas a impressão que fica é de um total desencanto do autor em relação a essa realidade do Rio de Janeiro. É a coisa de não dar mais pra mascarar as hipocrisias.

 

E por fim, ao final há entrevistas gravadas de “mulheres comuns” falando dos temas da novela. Lamentável! Pareceu aquele triste final de Domésticas. Fica um clima de “lição de moral” e de que “a vida imita a arte” da forma mais banal, didática e simplista possível.

 

Mas pra que que eu to perdendo o meu tempo falando disso mesmo?

sexta-feira, julho 07, 2006

A Lula e a Baleia

A Lula e a Baleia

De Noah Baumbach

CFB, sex 7 13:30

**

 

O cinema independente norte-americano (se é que ainda existe esse conceito) sempre teve sua vitalidade, porque, à margem das grandes produções, pode ter um olhar mais humano e crítico ao American way of life. Com esse A Lula e a Baleia, Noah Baumbach comprova um certo talento para examinar o impacto da separação de um casal na vida dos dois filhos. As características dos quatro a princípio parecem um tanto esquemáticas (o filho mais novo ao lado da mãe; o filho mais velho ao lado do pai), mas aos poucos Baumbach vai nos despertando a idéia de que seu filme não é tão simplório assim, apesar de continuar sendo simples.

 

O olhar de Baumbach não chega a ser um olhar tão crítico quanto terno. Essa ternura que perpassa esse olhar está muito presente numa câmera e numa luz muito interessantes (o filme tem um look um tanto casual e várias câmeras na mão que dão uma leveza e ao mesmo tempo a luz dá ao filme um tom meio triste “ma non troppo”).

 

Esse pai egoísta que se sufoca no pseudo-fracasso e na dificuldade de dividir as coisas com os outros, mesmo quem ele ama. Essa mãe um tanto ausente, que quer o hoje e o agora. E os dois filhos descobrindo como podem viver no meio de tudo isso, e ambos descobrindo a sexualidade, tema que é tratado (por trás de alguns clichês) de uma forma humana e sincera.

 

A Lula e a Baleia acaba parecendo irregular, mas tem momentos realmente fascinantes, que me tocaram muito. Claro, o filho mais velho acaba sendo a chave do filme, com quem procuramos nos identificar, e um ótimo ator (Jesse Eisenberg), assim como todo o elenco, especialmente Jeff Daniels, fantástico.

 

É meio isso o que consigo falar.

Mascarautor

Estou começando a acreditar (ou pelo menos hoje eu acredito) que o cinema de autor é uma grande impostura. Os diretores dos filmes passam a querer viver no mundo das celebridades, em que o que importa é muito mais o seu ego pessoal do que o filme. E o que importa é (ou deveria ser) sempre o filme. Falsários, corsários, magnatas: os “autores” desfilam pelas passarelas do mundo da fantasia.

 

Mas isso parte de um pressuposto: o de que o cinema é algo além disso, além dessa longa passarela em que se entende um suntuoso tapete vermelho.

 

Então, o que é o cinema?

 

Para mim, o cinema é um espaço em que podemos tirar as nossas máscaras. Porque na nossa vida do dia-a-dia, temos compromissos, temos responsabilidades, temos deveres a cumprir. Ali no cinema podemos ser nós mesmos, sem ter que vestir máscaras para os outros e para nós mesmos. Por isso, quando estou cansado dessa encenação sem fim eu me refugio no cinema!

 

O cinema então funciona como espaço de encontro, do espectador consigo mesmo, onde a sala escura serve como uma espécie de refúgio e de encontro. Por isso, não acho que a experiência do cinema seja uma experiência coletiva! Os filmes são sempre vistos sozinhos!

 

Os filmes que possuem essa experiência são os filmes que gosto de ver, e essencialmente assim são os modestos vídeos que eu procuro fazer.

A Criança

Dos Irmãos Dardenne

Espaço Unibanco 1, qua 5 21:30

*** ½

 

 

A Criança

(ou a vida não tem retake)

 

O word (ou o Final Cut) possui uma propriedade mágica que insere a possibilidade do sonho e da imaginação na fria linguagem do computador: a tecla CTRL-Z. Para quem não está habituado às famosas teclas de atalho, o CTRL-Z é simplesmente o comando de voltar, ou o de “desfazer a ação”. Com isso, seja num texto, seja num recurso de montagem, podemos tentar sem compromisso pois, se não der certo, podemos voltar atrás, e tentar de novo, tentar fazer melhor que antes.

 

Mas é claro que mesmo quem não conhece a linguagem da informática (mas todos que estão lendo este texto o conhecem, por suposto) mas conhece a linguagem do cinema sabe do que estou falando. Porque o paradigma do cinema de ficção, o cinema do “supra-real”, é baseado na montagem e no retake. Tudo é preparado artificialmente para “o plano perfeito”: a luz, o movimento de câmera, o texto dos atores, tudo é tentado várias vezes até que funcione. E na montagem ainda se apara e se refaz mais uma vez essa “imitação da vida”.

 

Mas na vida da gente não tem isso: não tem CTRL-Z nem tem retake. É claro que se a gente diz uma coisa que não gostaria a gente pode tentar reverter esse ato. Mas esse ato nunca deixa de existir. É preciso um outro ato, de intensidade mais forte que o primeiro, ou ainda um conjunto de atos, que possam refazer a impressão do mal-entendido do primeiro ato. Ou seja, se falamos “Eu não queria ter dito isso”, a resposta seguinte é “Mas disse!”, e então temos que dizer muito mais coisas para reparar o dano do impulso, da impetuosidade, do momento.

 

Ou ainda, as repercussões de um momento mal pensado podem durar eternamente, porque podem nunca mais serem desfeitas. Ou mesmo que possam ser reparados (pois tudo pode ser reparado, menos a morte), vai levar muito mais tempo e gerar muita dor-de-cabeça.

 

*  *  *

 

É claro também que quando agimos mal, muitas vezes não agimos mal porque queremos, mas porque agimos sem pensar nas conseqüências, ou porque temos um erro de avaliação devido às circunstâncias, ou mesmo porque nessa nossa luta desesperada para sobreviver e para tentar resolver os nossos problemas, não nos damos conta que para fazê-lo muitas vezes causamos muito mais problemas para os outros. Então como podemos ser honestos em relação a nós mesmos e em relação ao mundo? Ou seja, como podemos viver “dignamente” sem machucar as pessoas?

 

Temos que viver, temos que pagar nossas contas, temos que arrumar dinheiro, temos que sobreviver aos traumas do passado. Mas como fazer isso sem machucar as outras pessoas, que nos rodeiam?

 

Ou ainda, é possível dessa forma viver com liberdade? É possível sermos totalmente livres sem machucar os outros? Ou ainda, podemos ser verdadeiramente livres sem ter nenhum tipo de “responsabilidade” com os outros e com o mundo que nos cerca? Se vivermos sem nenhuma “responsabilidade”, será que estamos sendo livres ou estaremos sendo simplesmente egoístas?

 

Não dá pra fugir do mundo. Não dá também pra imaginar que vivemos num mundo diferente, porque as coisas estão aí, mesmo que não sejam do jeito que a gente quer. Não é o mundo ideal, mas não podemos fugir dele. Talvez o que tenhamos de mais importante no mundo seja o outro, pois sozinhos é que as coisas se tornam ainda mais difíceis mesmo.

 

*  *  *

 

É sobre tudo isso o novo filme dos Irmãos Dardenne, chamado A Criança. Pelo menos como pareceu para mim. Um filme sobre o universo da criação, e sobre as relações entre o cinema e a vida (a vida pode nos dar uma segunda chance mas não se pode apagar o que se fez, temos que arcar com as conseqüências dos nossos atos), é um filme (no fiapo de documentário) sobre um modo de se fazer cinema que busque ser honesto e responsável dentro das possibilidades ainda que não seja o ideal. É um filme sobre viver em sociedade, porque (de novo) temos que arcar com as conseqüências dos nossos atos. É um filme sobre a possibilidade de viver em liberdade. É um filme sobre a possibilidade do reencontro. Ou ainda, um filme sobre a vida e contra a solidão.

 

E um filme, claro, em que o modo como se filma essa história, em como essa “história” é apresentada na tela para nós, nos fala muito, mas muito mesmo, de tudo isso, é parte inseparável de tudo isso. Mas sem que essa forma possa oprimir o filme de tal forma que vire uma caricatura de si mesmo.

 

É um grande filme esse novo filme dos Irmãos Dardenne porque, através de uma experiência asfixiante, e da maestria e da maturidade com que os diretores apresentam um olhar sobre a vida e sobre o seu ofício de fazer cinema, nós os espectadores saímos do cinema um pouco diferentes. E, como sabemos que a vida não tem retake, esse sentimento nunca mais sairá de nós completamente. Podemos perder as roupas, o emprego e um punhado de dinheiro, mas isso não vai sair de nós. Pelo menos pra quem vive o cinema intensamente, e leva isso como forma de sobreviver a nossa vida do dia-a-dia, como eu pelo menos busco fazer, ainda que sem muito brilho ou sucesso.

 

segunda-feira, julho 03, 2006

Essa Copa nos mostrou algumas coisas

Primeiro, que a imagem engana, que a mídia pode não manipular a imagem mas manipula a informação, ou seja, ela filtra o que deve e o que não deve ser mostrado, e de que forma vai ser mostrado. Que enquanto nossos jogadores faziam esse papelão na Copa, o nosso Presidente assinava um decreto que corroborava a concentração da mídia que existe hoje no Brasil. Que enquanto estávamos goleando os japoneses com os nossos reservas estávamos ao mesmo tempo batendo o martelo para implementar o padrão japonês. E ninguém falava nada porque os holofotes estavam nas estrelas do Brasil. As escolas lotadas de criancinhas que choravam porque o Brasil perdeu um jogo mas que não sabem do escândalo de corrupção dos políticos da nossa Pátria.

 

Sobre a seleção:

 

Não é surpresa que o tal de Zé Roberto era sempre eleito o melhor jogador do time. Ora, porque nesse esquema tático do Parreira quem encontra espaço para jogar é o Zé Roberto, ressurreição do Mazinho de 1994, o “futebol enceradeira”, de toque de lado e do falso reboteiro.

 

O esquema tático estava errado porque Adriano e Ronaldo não poderiam jogar juntos, porque o time perde em mobilidade e complica os dois armadores de meio de campo, que são jogadores que têm característica muito mais de finalizadores do que de armadores. Só poderia ser o quadrado mágico se os quatro se deslocassem, não tendo posição fixa.

 

Os times europeus teriam vantagem sobre o Brasil porque eles bloqueiam o meio e deixam os flancos para o Brasil. O time teve dificuldade porque além da falta de movimentação do meio de campo, ainda teve a ausência dos laterais, que por condições físicas não conseguiam mais apoiar, especialmente o Cafu.

 

Além das dificuldades do esquema tático, foi nítida a omissão da comissão técnica em tentar motivar os jogadores, ou ainda, a ausência de um líder que chamasse a responsabilidade para si nos momentos decisivos (ou que cobrasse por exemplo de um Ronaldinho Gaúcho que ele buscasse essa responsabilidade). Como a seleção enfrentou adversários muito fracos, as falhas (visíveis) foram encobertas. Mas diante de um adversário um pouco mais organizado (que foi a França) as falhas – táticas e motivacionais – foram gritantes. Ou seja, Parreira falhou tanto como técnico quanto como “gestor de talentos”.

 

A motivação da “revanche” da final de 1998 contra a França teria que ser utilizada. Mas ficou claro que não o foi no túnel na entrada para o campo, onde os jogadores brasileiros estavam descontraídos, rindo, dando tapinhas nas costas dos jogadores franceses, quando a postura teria que ser outra.

 

Não é verdade que o time perdeu porque o Parreira “gosta de retranca”. Porque o Brasil tanto não soube atacar quanto falhou no aspecto de marcação. Os dois meio-campistas apoiadores avançavam e deixavam um buraco onde o Zé Roberto ficava quase sozinho, porque o Emerson (Gilberto Silva) jogava quase como um terceiro zagueiro. O Brasil “deixava jogar”, porque adotava o sistema de “apenas cercar” os jogadores. Contra Gana, que é um time que se movimenta muito, as falhas foram visíveis, mas a marcação não mudou o esquema, apenas mudou o jogador, que no caso de Emerson e Gilberto Silva é como trocar seis por meia dúzia.

 

O pior foi o Henry, que dias antes falou, sem nenhum pudor, que os brasileiros jogam bola porque não estudam, ou seja, somos um bando de burros e subdesenvolvidos. E o pior é que ele fez o gol e mostrou que tinha razão.

 

Enquanto isso, Zidane, o argelino mais francês do mundo, com sua classe habitual, nada disse, mas comeu a bola. Todo mundo dizia que o Brasil iria aposentar o Zidane, mas na verdade o Zidane é que acabou aposentando meio time do Brasil.

 

Henry, Zidane e os próprios brasileiros comprovaram nesse Copa que vivemos num país de merda. Agora, que venham as eleições!