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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sexta-feira, setembro 29, 2006

O Pornógrafo

De João Callegaro

DVD 26 setembro

** ½

 

 

“A solidão na morte. O começo do fim. As regras mudaram. O jogo é outro. Sozinho contra todos. O erro foi esse: jogar sozinho. Sem parceiros. E essas regras novas complicam tudo.

 

O grande jogo da mentira. Gângsters de escritório; burocratas acomodados. Antigamente era mais fácil: a Thompson resolvia tudo. Rá-ta-ta-ta. Fácil, fácil.

 

Agora eu aprendi as novas regras. O jogo se renova. É preciso aprender as novas regras. Inventar! É preciso! Meu tempo acabou. O prazo se esgota. O fim não tarda. Um erro é suficiente. Uma jogada errada e você perde o lugar. Eu perdi.

 

Senhoras e Senhores, façam o seu jogo! Apostem! Apostem que o jogo continua! Um dia a banca estoura! Quando as regras mudarem, vocês vão se lembrar! Miguel Metralha, o profeta do crime! Miguel Metralha...”

 

*  *  *

 

Eu fui convidado para participar de um debate num programa da TVE sobre O PORNÓGRAFO, filme único do paulista João Callegaro. Não tinha visto o filme, mas resolvi participar, até pela oportunidade de ter um DVD em folha do filme. Em primeiro lugar, fiquei surpreendido porque não achei, numa pesquisa ao velho google, nenhum crítica sobre o filme. Achei um texto ótimo do Inácio Araújo, achei um texto do Jairo Ferreira no São Paulo Shimbum recomendando o filme, mas ambos não chegam a ser textos de análise crítica sobre o filme. O texto do Inácio Araújo nos dá acima de tudo informações, extremamente valiosas sobre o filme: sobre seu fracasso de bilheteria, sobre a decisão de Callegaro em deixar o cinema e ir para a publicidade, a improvisação dos atores, etc.

 

O que mais me surpreendeu em O Pornógrafo (vou direto ao assunto) é o fato de ele ser um filme profético. Realizado em 1970, o filme é pura metalinguagem, uma avaliação direta sobre o cinema da Boca do Lixo paulista e a possibilidade de se fazer no Brasil um cinema de vocação popular.

 

Pois bem, o filme fala do jornalista Miguel Metralha (Stênio Garcia). Ele trabalhava numa revista insossa chamada “Comer Bem”, e decide sair da revista e ir trabalhar no escritório de redação de “revistinhas” de conteúdo erótico. São praticamente quadrinhos, desenhados à mão, e que vão enfrentar a concorrência das revistas fotográficas americanas, os “novos tempos”. Apesar de trabalhar num ramo não muito prestigiado, sem muito reconhecimento, Miguel Metralha trabalha não pelo dinheiro, ao contrário, ele sente um enorme prazer em ser redator das “revistinhas”, sente um enorme orgulho do seu trabalho. Ele então quer imprimir uma marca pessoal, um trabalho criativo, mesmo dentro desse ramo aparentemente vulgar, chulo e desgastado.

 

Ou seja, Miguel Metralha é o cineasta brasileiro na Boca do Lixo. Ele não quer fazer filmes intelectuais (Cinema Novo) nem quer a ingenuidade oficialesca das chanchadas. Ele gosta do submundo. Ele no fundo é um punheteiro que deu certo. E tem orgulho disso.

 

Só que O Pornógrafo foi feito em 1970 e a fase áurea da Boca do Lixo foi de 1972 a 1982. Por isso, é profético. Ou seja, Callegaro já apresenta um percurso da ascensão e crise da Boca do Lixo com imensa maturidade e clareza. E mais: realiza uma proposta de cinema popular, porque O Pornógrafo é feito para as pessoas, para o público. Por isso, até foge do estereótipo do cinema marginal, porque se de um lado, o filme é “avacalhado” e mostra um olhar sobre o submundo, por outro há um cinema narrativo, um roteiro e um mínimo trabalho de produção. O filme então mostra uma avaliação crítica da possibilidade de um cinema de invenção dentro da estrutura de subdesenvolvimento típica da cinematografia nacional, articulada com a própria estética do filme que é mostrar isso de uma forma acessível ao público. Isso é visível quanto Callegaro quase não se concentra sobre o processo de criação em si (o traço, a criação das histórias) e sim no entorno do processo de criação, a estrutura econômica da administração e os jogos de poder necessários à preservação do negócio. E sua falência pelo conservadorismo dos verdadeiros donos da praça. Ou seja, Callegaro apresenta sua proposta para o cinema brasileiro possível.

 

O Pornógrafo é também um filme de cinéfilo, uma declaração apaixonada ao cinema. O filme já começa com uma referência aos filmes de gângster (Edward G. Robinson, Paul Muni, James Cagney, Humphrey Bogart), e o próprio personagem do Stênio Garcia ao mesmo tempo que usa essas imagens como referência vai desconstruir os trejeitos desse tipo de anti-herói. Uma mulher fala frases como “ah, como era verde meu vale!”; Madame Rosália desce uma escada em espiral como se fosse Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses, essas coisas.

 

Mas a maior homenagem ao cinema foi guardada para o final. Há uma perseguição num parque de diversões, e uma seqüência incrível no trem do terror, com um trabalho de montagem do Sylvio Renoldi (o mesmo do Bandido da Luz Vermelha) impressionante. Depois, o mocinho e o algoz vão para a sala dos espelhos, numa cena diretamente tirada de A Dama de Shangai, de Orson Welles. Esse é o clímax do filme.

 

Mas por fim, quero novamente atentar para o tom profético do filme. E daí na penúltima cena do filme (antes do parque de diversões) vem um monólogo de Miguel Metralha, montado numa moto, pouco antes do fim. “As regras mudaram. O jogo é outro. É preciso aprender as novas regras”. Um discurso que comprova a atualidade do discurso de Miguel Metralha. E nas novas ergras que regem o cinema brasileiro (os editais públicos, as leis de incentivo), como pode haver espaço para um Miguel Metralha? Como se devem jogar as regras do jogo?

 

Fest Rio 3

 

A Montanha Sagrada

De Alejandro Jodorowsky

Palácio 2 qua 29 19:30

***

 

Graças a Deus eu não sou um crítico de cinema que precisa escrever uma lauda fazendo uma análise desse filme do místico Jodorowsky. Porque o próprio filme nos surpreende tanto e ao mesmo tempo embarca num processo de desconstruir seu próprio discurso que uma crítica sobre esse filme se torna uma tarefa no mínimo ingrata. Este foi o primeiro filme que vi do Jodorowsky, e primeiro de tudo ficou um deslumbramento com a opulência visual e o domínio técnico do diretor. Um deslumbramento que se transforma numa fascinação pois cada plano nos apronta uma surpresa, nos aponta para um novo mundo que nunca teríamos pensado antes. Um cinema mágico, místico mas ao mesmo tempo realista, político, preocupado com as questões do nosso tempo. Um cinema subversivo, mas uma subversão pela capacidade do sonho, do pensamento, pela possibilidade de fazermos da vida o que bem entendermos, e a compreensão madura desse poder mágico do cinema de nos transportar a cada plano para uma nova possibilidade.

 

Jodorowsky é diretor, roteirista, cenógrafo, autor da trilha sonora e por fim ator desse filme único, singular dentro de qualquer cinematografia. Ficamos pensando como ele arrumou a grana para fazer o filme, já que é um filme caro, com dezenas de figurantes, diversos cenários, locações, direção de arte, com carrinhos, etc, e plasticamente impecável. Às vezes sua opulência nos lembra (por alto) o cinema de Paradjanov.

 

O tom místico de A Montanha Sagrada é claro e nos impressiona. Mas ao longo do filme Jodorowaky faz questão de desmistificar sua própria mística, e não tem medo de colocar em cheque os seus próprios conceitos. O tom de humor fica cada vez mais presente no filme, até chegar num final em que o próprio filme não é levado a sério. Antes ele já havia dito que todas as montanhas sagradas estavam num conjunto de potes de drogas diversas e LSDs. Mas no fim ele mostra que a temível travessia era só artifício de roteiro, e que tudo não passa de um filme, de uma imagem, de mera representação.

 

Ou seja, a montanha sagrada está dentro de nós, dentro do nosso pensamento. O caminho para chegar até ela é que pode ser distinto e nos é um pouquinho iluminado pela loucura libertária e anarquista do cinema de Jodorowsky.

 

Fest Rio 2

Alice

De Marco Martins

Estação Botafogo 2 seg 25

* ½

 

Alice, mais um exemplar da vitalidade no cinema português contemporâneo, é um típico filme de estréia, com os prós e os contras que isso traz consigo. De um lado, é nítido que o diretor possui um olhar e uma paixão para o ofício de cinema, sua energia em realizar um primeiro filme. De outro, também são visíveis suas falhas, uma dificuldade no ritmo, um enredo que tem dificuldades em se sustentar por 105 minutos. Mas as falhas de Alice são vistas mais pela tentativa de acertar, pela tentativa de construir um universo próprio do que pela ausência de uma proposta ou pela timidez da realização. Por isso, a expectativa em torno de um próximo projeto do diretor passa a ser bem positiva.

 

Alice é, acima de tudo, extremamente antenado com uma proposta de cinema contemporâneo, de fusão entre o documentário e a ficção, ou ainda entre o tempo e o espaço físico da obra. Mário, o protagonista do filme, tem sua filha Alice desaparecida, e passa a seguir uma rotina obsessiva para tentar achá-la: distribui panfletos com sua foto pela cidade, coleta imagens com onze câmeras de vídeos espalhadas em locais estratégicos da cidade, etc. Com isso, sua vida passa a ser uma vida outra. E com isso não percebe que, além de perder sua filha, está prestes a perder sua esposa.

 

Mário é quase que um irmão de Tomek, o menino de Não Amarás. Enquanto Tomek vê a vida de sua vizinha Magda pela janela, Mário observa a vida pelas câmeras de vídeo, à procura de uma vida outra que não é a sua.

 

O cinema de Marco Martins é acima de tudo muito respeitoso com o tempo e com o desejo quase insano desse homem em recuperar um passado que não existe mais. Uma busca interminável. E o papel do cinema (do vídeo) e da representação (o teatro) em torno disso.

 

Algumas coisas saem um pouco do tom (o flashback com câmera na mão, especialmente) mas no final fica uma sensação de que Marco Martins está no caminho certo, pelo menos no campo das intenções. O que ele precisa é caprichar um pouquinho mais.

 

quarta-feira, setembro 27, 2006

Enquanto o Festival do Rio passa, com seus filmes já comprados e coquetéis para as celebridades, um filme fica de fora:

Texto obrigatório

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2758,1.shl

 

terça-feira, setembro 26, 2006

Tonacci

Finalmente, foi publicada a nova edição da Revista Etcetera, que contém texto meu sobre toda a filmografia do Tonacci, atualizada com crítica sobre Serras da Desordem, um grande filme:
http://www.revistaetcetera.com.br/20/sumario.htm

sábado, setembro 23, 2006

Festival do Rio

Bom, já que não há saída, comecemos as resenhas sobre os filmes do Festival do Rio...

(FEST RIO 1)

Shanghai Dreams
de Wang Xiaoshuai
São Luiz 3, sex 23 19hs
* ½

Vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes de 2005, Sonhos com Shangai é o que se espera de um filme chinês projetado para o público do cinema de arte internacional: a história (com H maiúsculo) de transformações do regime comunista chinês aparece como pano de fundo para um enredo romântico com tons melodramáticos. Com isso, surgem os clichês desse tipo de cinema: símbolos fáceis, vitimização da protagonista, tempos que estimulam uma afeição/comoção do espectador.

Mas o que por vezes encanta em Sonhos com Shangai é como Wang Xiaoshuai imprime em quase todo o filme, especialmente na sua segunda metade (após a primeira transa da amiga de Qing Hong), uma enorme melancolia, e em como a posição da câmera e os tempos vão respeitar esse percurso da protagonista. O que poderia parecer uma parábola tipicamente moralista (o pai estava certo ao ser rígido com a filha para que ela não perdesse a virgindade, como sua amiga) acaba se tornando um painel ambíguo sobre a dificuldade de crescer e assumir sua verdadeira identidade por um lado (o conflito entre gerações que não existe, a gradual tentativa de humanização desse pai), e por outro, sobre a decadência de um projeto de desenvolvimento chinês e da impossibilidade de diálogo entre essa China interior e uma “nova China” progressista, vinda de Shanghai para “ensinar” aos interioranos o caminho do sucesso. Uma cena simples de roteiro, como o diálogo entre o pai de Qing Hong e seu suposto namorado, numa casa de banhos, acaba tendo uma languidez (os movimentos do pai se enxaguando) e uma ênfase no constrangimento (os corpos nus, a falta de troca dos olhares) que mostram que o projeto de Xiaoshuai, quando vai além de ilustrar os tons fáceis de um cinema de arte internacional, atinge um sentimento de cinema além do convencional.

Esse tom de melancolia é calcado na expressiva atuação de Yuanyuan Gao, com quem o cineasta já havia trabalhado em As Bicicletas de Beijing. Alter-ego do próprio cineasta, ela se revela testemunha muda de um tempo, vítima passiva desse castelo de cartas (como o é numa instância ainda maior seu próprio irmão menor). Mas apesar desses méritos, fica um certo gosto de decepção de Sonhos com Shanghai porque o tom excessivamente correto da história acaba sufocando a sensibilidade do diretor, que perdeu a oportunidade de fazer um filme mais criativo sobre esse painel de transformações.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Estou às vésperas do começo de mais um Festival do Rio. Estou orgulhoso de mim mesmo: graças a Deus, parece que este ano vou bater o meu recorde e finalmente conseguir ver cerca de 20 filmes nesse Festival. Provavelmente será o festival que menos verei filmes nos últimos anos. Parece que só vão passar dois filmes japoneses em todo o festival, e dos orientais, a maioria é de filmes com tendência trash.

Como meus leitores esperam um comentário sensato, recomendo Brisseau, Pedro Costa, Jodorowsky (claro), e talvez Cavalier, Dumont, Lou Ye, Suwa.

O Tempo que Resta

O Tempo que Resta
De François Ozon
Paissandu qui 21 21:15
* ½

(Algumas observações esparsas e confusas sobre o filme)

Nunca fui muito fã do cinema de Ozon

O Tempo que Resta é um filme de entressafra de Ozon: interessante quando pensamos numa filmografia como a francesa, em que o cineasta faz um filme por ano, um filme a cada dois anos. Aí sim, cabe um “filme menor”, um filme de entressafra. O que não é o caso na brasileira, quando se faz um filme a cada dez anos.

Minha mãe me diz que eu sou muito exigente quando eu vejo com ela um capítulo da novela das oito e falo mal de quase todos os atores jovens. Acha um absurdo eu não ter gostado da tal menina que ganhou o concurso do Luciano Huck. Eu digo a ela que por um lado não gosto da idéia que o ator bom é o que, ao invés de atuar, grita; e de outro que não gosto de ator que quer “falar bonitinho”. Aí eu vejo este O Tempo que Resta e vejo uma atuação simples e muito humana de Melvil Poupaud. Procurando na internet, descubro que ele foi nada menos que o ator principal do ótimo Conto de verão do Rohmer. Romain, o personagem de Poupaud, dessobre que tem poucos meses de vida e deixa-se morrer, pois não adianta. Seu personagem vai ter uma transformação com a notícia, mas ao mesmo tempo não quer deixar isso passar para as pessoas. Sem gritar e sem falar bonitinho, Poupaud, com extrema economia de olhares e de gestos, vai desconstruindo fisicamente esse personagem, livrando-se de si mesmo, num trabalho de atuação que me agradou muito.

O próprio mote do filme me lembrou os filmes do Kieslowski, me lembrou o A Liberdade é Azul, que simplesmente é um filme que vai ficar para sempre comigo. Sim, porque com a notícia, Romain quer se livrar de tudo, não quer sofrer, não quer ser vítima e não quer transmitir essa sensação para amigos, parentes e namorado (ele é homossexual). Mas não consegue se livrar de tudo, é claro. Então o filme vai se debruçar sobre esta descoberta humana. Só que Ozon não é Kieslowski, e O Tempo que Resta está muito abaixo da sensação que me passou os filmes do Kieslowski. Mas por quê?

Se por um lado o filme de Ozon tem esse tempo da descoberta e essa inclinação para essa redescoberta do humano que me agradam, por outro o filme do Ozon está repleto dos signos fáceis desse tipo de cinema: o “feel good” da redescoberta e da sensação de morte. A morte não é trazida incômoda para o espectador, ela é adocicada pela trilha sonora, pela linguagem, pelo “cinema de bons costumes” de Ozon.

Clichês de Morangos Silvestres: visita à avó (Jeanne Moreau como avó me lembra de um filme que Katherine Hepburn foi avó numa refilmagem de Tarde Demais para Esquecer, coisas do tipo...), flashbacks do adulto presente se vendo quando criança, reavaliação da vida diante da notícia da morte. Mas sem o frescor do filme do Bergman.

Se por um lado há esses clichês, de outro há cenas bacanas: o sexo a três, a última conversa Romain-Sacha, o fim (à la Morte em Veneza na praia).

Mas no final fica esse gosto de decapção na boca: ainda que não seja inteiramente uma chatice, o tema da “redescoberta de si mesmo e da vida” é visto por Ozon de uma forma desgastada, já vista antes, embora recheado com um cinema de alguma sensibilidade e de observação ao tempo e à linguagem não muito vulgares.

domingo, setembro 17, 2006

Stan Brakhage - 1994 - Black Ice

Como falei antes desse filme do Brakhage, comparando-o com o Sinfonia Diagonal, vai aí o link do youtube...

Harry Smith - Court Metrage n7 (Cocaine)

Vamos ver se eu consigo fazer o link entre Youtube e este blog. O Youtube é uma ferramenta fantástica de pesquisa de obras curtas na net. Ainda que a qualidade do vídeo não seja a ideal, é a oportunidade raríssima de termos contatos com os clássicos dos filmes esquisitos, de todos os tempos. Dei uma vasculhada no livro de referência do P. Adams Sitney sobre o cinema vanguardista, esp o americano, e vou coletando aos poucos as preciosidades aqui no blog.

Harry Smith prosseguiu a linha dos filmes abstratos das vanguardas dos anos vinta, mas acrescentou um esitlo pessoal, egresso de um universo pop. Fez uma série de 1 a 10 que ficou famosa. Talvez a mais conhecida delas seja essa de n.7, que posto aqui para o nosso deleite.

sexta-feira, setembro 15, 2006

A Dama na Água

A Dama na Água

De M. Night Shyamalan

Unibanco Arteplex 2 qui 14 19:30

*

 

O cinema de M. Night Shyamalan sempre me interessou, desde o impacto de O Sexto Sentido, mas cada vez mais fica claro que o diretor se encontra diante de uma encruzilhada. É o eterno dilema: o conflito entre realizar “um filme de M. Night Shyamalan” e ao mesmo tempo “falar pouco para muitas pessoas”, ou fazer um filme para as massas, influenciar um inconsciente coletivo. Os estereótipos em torno do qual a popularidade de Shyamalan foi criada com o grande público estão desgastados e precisam ser superados (o “filme de suspense”, o final surpreendente, etc.). Mas ao mesmo tempo que é isso o que torna a base de sua popularidade, é isso o que atualmente afasta Shyamalan do seu verdadeiro projeto de cinema: descortinar como a nação americana se vê diante de um processo místico e de reavaliação da fé. E como ao mesmo tempo diante disso os personagens errantes passam a redescobrir o valor da vida e descobrem sua verdadeira “missão”.

 

Essa obsessão em torno dos múltiplos sentidos do termo “missão” é que torna cada filme de Shyamalan uma ilha dentro do atual cinema americano e acima de tudo uma experiência emocionante. Mas o que torna este A Dama na Água um retrato dos conflitos do atual cinema de Shyamalan é exatamente esse descompasso (quase constrangedor) entre suas duas “missões”: fazer um cinema autoral e fazer um cinema para as massas. Nessa tentativa de um meio-termo, Shyamalan escorrega: A Dama na Água é ao mesmo tempo o filme de menor bilheteria do diretor desde O Sexto Sentido e o que teve a pior recepção crítica. Entre um e outro, nada consegue: ora pretensioso ora ingênuo (no mau sentido mesmo), acaba sendo quase um pastiche da filmografia de Shyamalan, e, tentando se atualizar, procura fazer um filme menos sério (o tom da comédia às vezes até escrachada) e com tempos menos largos que os anteriores. Quando procura ser metalinguístico, soa pretensioso  – o próprio Shyamalan atuando no papel de um missionário que irá mudar o mundo (oh!), ou ainda o patético crítico de literatura (seria de cinema?) que morre assassinado pela besta porque a vida não é como os paradigmas do texto. Quando procura fazer uma reavaliação dos contos de fadas, acaba sendo ingênuo no mau sentido (por exemplo, o uso da música e os diálogos didáticos).

 

Mas nos poucos momentos em que Shyamalan se entrega ao cinema de decupagem (em especial a asfixiante seqüência do “quase-rapto” da mulher-fada pelos lobos no jardim) e ao seu sentido de missão, A Dama na Água tem uma vida que nos lembra do projeto de Shyamalan. Outra coisa que me comove é a obsessão com que ele revisita os mesmos temas, e os paralelos com seus outros filmes são muito visíveis (a piscina como purificação de Corpo Fechado, a redescoberta da fé de Sinais, o face-a-face com o inimigo e a necessidade de superar o medo de A Vila, etc, etc). “É preciso ter fé que este mundo improvável das ninfas realmente exista.”

 

Mas em geral a impressão que fica do estranho A Dama na Água é de ser um filme de entressafra de Shyamalan, uma experiência em fazer um filme mais leve e de humor que acabou se revelando um pastiche de si mesmo. Sem ritmo, com um roteiro mal articulado e com a parte da artesania da linguagem (composição de planos e tempo) não tão sofisticada, o filme está longe de ser o típico retrato da filmografia do diretor. Para onde exatamente isso o levará é uma questão em aberto: resta-nos saber para que lado da moeda Shyamalan vai pender.

 

quinta-feira, setembro 14, 2006

(Recordando...)

 

Amador

de Luiz e Ricardo Pretti

 

Amador é um vídeo de oito minutos que se passa dentro de uma casa. Existem i) os cômodos dessa casa, ii) o espaço lá fora da casa, sempre fora de quadro; e iii) os corredores. Esse espaço íntimo não se torna, no entanto, acolhedor. No plano que talvez mais represente a proposta do filme, Ricardo caminha pela sala com um bloco de notas à mão. Enquanto ele ziguezagueia entre o primeiro plano e o fundo, está construindo um campo de visão. Sua trajetória descreve um espaço. Seu deslocamento, no entanto, não delimita um percurso dramatúrgico, como no cinema hollywoodiano. Seu deslocamento revela um não-espaço, um não-estar lá. Ao mesmo tempo forma o espaço fílmico, em formação. Enquanto caminha num não-lugar, cria esse espaço fílmico traçando as notas num bloco de papel.

 

Amador

Ama-dor

Amor

Morada

 

Adoram

O Drama

 

Não é que eles não dialoguem com esse mundo externo. Eles o fazem mas de dentro desse casulo (o telefone, a janela). Se o mundo lá fora responde aos chamados deles, nós (os espectadores) não sabemos.

 

Ao final, enfim, a criação. A criação a partir da matéria-prima do filme: o silêncio, a dor, a distância, a fixidez. A partir disso, a criação: a música, o amor, a intimidade, o movimento. Movimento dos músculos e do espírito.

 

Metalinguagem, gênese do processo criativo, morfologia da vida.

 

quarta-feira, setembro 13, 2006

Jia Zhang-Ke

Jia Zhang-Ke ganhou o Festival de Veneza, mesmo não estando entre os favoritos. Bacana, porque está na ponta do que está sendo feito em termos de cinema, diferentemente da balela dos Ken Loachs da vida (ver Cannes).

 

Bacana, porque o projeto de Zhang-Ke é extremamente antenado com o momento em que vivemos hoje. Ou seja, mais do que a questão estética, são filmes extremamente políticos.

 

As transformações da China comunista rumo ao capitalismo são uma síntese do mundo em que vivemos. A velocidade das transformações que paradoxalmente aprofundam as estruturas conservadoras e a concentração de poder. A tentativa de aniquilamento de uma cultura de resistência.

 

E Zhang-Ke fala disso através de um cinema que tem um respeito profundo pelas possibilidades de expressão, de ter um contato orgânico, honesto, verdadeiro com uma realidade. Ver os filmes de Zhang-Ke me lembra algumas frases de como se deve conhecer uma cidade. Uma é passear pela cidade com um guia turístico, que apresenta os lugares turísticos de dentro de um ônibus com ar condicionado. Outra é caminhar pelas ruas da cidade e conversar com as pessoas comuns que moram lá há décadas.

 

O cinema de Zhang-Ke opta pela segunda opção. Tem gente que acha desinteressante, porque o mais bacana seria ir num lugar e conhecer a Estátua da Liberdade, o Pão de Açúcar, essas coisas. Mas o cinema de Zhang-Ke nos permite ter contato com esse cenário de transformações – econômicas, culturais, sociais – de uma forma que não parecia possível para o cinema. Com um senso de observação, contemplação e senso crítico que talvez só seja possível à cultura oriental.

 

Ficamos pensando numa comparação com os filmes de Zhang Yimou. Que lamentável! Este prefere o caminho mais fácil: o falso cinema de denúncia, o estereótipo, a caricatura.

 

Comparar um filme de Zhang-Ke com um filme de Yimou é a mesma coisa que comparar Serras da Desordem com Anjos do Sol, em termos do que falam sobre um Brasil.

 

Cabe a quem vê decidir qual a forma mais conveniente de conhecer uma nova cidade, um novo mundo. Eu já optei pela minha.

 

segunda-feira, setembro 11, 2006

O maior amor do mundo

O maior amor do mundo

De Cacá Diegues

Odeon, qui 24 ago 21hs

**

 

Vou tentar fazer algumas considerações rápidas sobre o filme. Gostaria de falar mais sobre ele, mas isso é o que vai dar para fazer (como sempre).

 

O cinema do Cacá Diegues sempre foi um hiato entre o cinema autoral do cinema novo e o desejo por um cinema popular. Não estou entre os mais pessimistas quanto à validade dos seus produtos.

 

Esse filme tem em comum com Bye Bye Brasil um espírito de consciência do fracasso de um projeto para o Brasil.

 

O estilo de atuação de José Wilker é completamente chupado da não-expressão de Bill Murray nos filmes pós-Rushmore.

 

O maior amor do mundo é como Morangos Silvestres: um professor vem ao Brasil em busca de uma medalha que ao final ele percebe que não serve nada, mas que serve para que ele faça uma reavaliação da sua vida e chegue a conclusão de que ele a desperdiçou com coisas pouco úteis. A menina-mãe que aparece lembra o recursos do filme do Bergman.

 

O estrangeiro que volta ao Brasil e descobre um fracasso me lembra também O Príncipe, do Ugo Giorgetti.

 

Acho interessante comparamos o filme com Brasília 18%: são dois filmes de diretores veteranos que pegam um brasileiro radicado no exterior que volta para o Brasil para ter consciência de seu fracasso pessoal como espelho de um fracasso para o país. Envolvem-se com uma realidade caótica mas não conseguem nem transformá-la nem ao menos se integrar a essa realidade porque estão por demais absortos em seus pensamentos próprios, na busca da sua identidade pessoal e em memórias.

 

O maior amor do mundo acho que é um dos filmes mais honestos sobre o momento que vivemos hoje no Brasil. Se Deus é Brasileiro na época foi alardado como um filme sobre o espírito do novo Governo Lula, O maior amor do mundo é exatamente no espírito do fim do Governo Lula.

 

É um filme um tanto melancólico e triste. Mas o Cacá tenta suavizar um pouco. Aquele lixão é triste mas ao mesmo tempo tem uma certa aura acolhedora. Em torno disso há as qualidades e os problemas do filme.

 

Mas ao mesmo tempo é triste sim.

 

Achei que nos últimos 20 minutos o filme se alonga demais, perde o ritmo.

Não gostei nada do envolvimento do José Wilker com a Taís Araújo (a cena no hospital, etc.)

 

O filme surpreende porque mostra um desejo pelo cinema, de fazer um cinema mais humano e menor, que praticamente estava ausente dos últimos filmes anteriores do Cacá.

 

Como vai ser a performance de público do filme?

 

A MULHER E LA BÊTE

A MULHER E LA BÊTE

de Walerian Borowczyk

Mostra Indie, BH 30 agosto qua 18:45

***

 

Este foi o primeiro filme do polonês Borowczyk que vi, numa cópia 35mm, lá na Mostra Indie de BH, uma oportunidade fantástica para ver esse clássico do cinema subversivo. Já na primeira seqüência sabemos o que esperar do filme: planos próximos dos órgãos genitais de cavalos sendo observados por um homem, excitado com cena. A partir daí, Borowczyk vai fazer um filme bem humorado, de enorme sensibilidade e grande poder crítico. Primeiro porque o filme vai desconstruir o suposto filme histórico, até porque a proposta de Borowczyk é exatamente de demolir o suposto puritanismo dessa aristocracia cada vez mais decadente. O humor é corrosivo, como típico filme polonês, e os elementos surrealistas povoam a tela. Borowczyk ainda faz uma decupagem estranha, criativa, especialmente no enquadramento, em deslocamentos esguios da câmera que sempre nos deixam desconfortáveis dentro desse ambiente.

 

A base do filme é uma espécie de recriação da fábula da bela e a fera, e a da exploração da visceralidade dos instintos no meio de um mundo cada vez mais racional. Ou ainda, o filme é um vigoroso grito de inconformismo contra a caretice dos costumes que reprimem a liberdade individual. Mas no meio disso Borowczyk faz um filme político sobre a decadência de uma aristocracia e, claro também faz política de subversão através da linguagem, que mistura ficção farsesca e animação (gênero em que aliás o diretor iniciou no cinema).

 

Mas o que é desconcertante é como Borowczyk mistura o grotesco e o sublime dentro do seu filme. O filme tem cenas que beiram o sexo explícito com animação (a bela em seus sonhos transa com a fera – um lobo de animação), fartas em ejaculações e coisas do tipo. Mas ao mesmo tempo o filme tem, nos recursos de linguagem, na decupagem, no quadro, recursos extremamente poéticos. Ou seja, mais que condenar o puritanismo, Borowczyk quer apontar um caminho de liberdade, e isso é o que torna esse modesto filme extremamente fascinante. Planos subjetivos da bela em êxtase, cortes para o céu, um tom levemente ingênuo e pueril.

 

Muito bom e interessante como o diretor consegue combinar essas múltiplas facetas – o político, o psicológico, o libertário, o cinema de linguagem, o clima histórico farsesco, o grotesco, a fábula, o surrealismo – com grande habilidade e energia. Ousado, crítico, poético, cinematográfico... um verdadeiro colírio para os olhos.

 

domingo, setembro 10, 2006

(sexto poema sobre as varandas)
(este um pouco mais bem humorado, mas no fundo o mesmo)

6.

Uma borboleta pousou nos meus ombros
E acreditei que fosse um sinal
Abri os olhos
Tirei a couraça de ferro
Que escondia os meus dentes
E contei, uma por uma,
As minhas possibilidades

Foi quando um forte vento invadiu a sacada
E derrubou um pequeno vaso no umbral
Hesitei se era um sinal de reprovação
Ou de incentivo

Sentei-me na velha cadeira de vime
Na porta da entrada da sacada
Até que o tempo passou
O dia virou noite
A friagem borbulhou os dedos dos meus pés
E resolvi fechar as janelas
E esquentar uma sopa

A borboleta foi-se com o vento, com o dia, com a noite
E me deixou a cadeira de vime
A couraça de ferro e a tigela vazias

sexta-feira, setembro 08, 2006

Mais Brakhage

Window water baby moving
De Stan Brakhage, 1959
***½

Curta da primeira fase do cinema de Brakhage, antes do Dog Star Man.
Sinopse: mãe grávida antes e durante o parto.

Eu tenho um carma na minha vida que eu preciso ver todo ano cerca de 500 curtas-metragens para a curadoria de uma mostra. Destes, pelo menos 400 (80%) são péssimos ou ruins. Então quando eu vejo alguns trabalhos reunidos do porte desses do Brakhage dá uma enorme alegria por saber da possibilidade de se fazer cinema verdadeiramente experimental, com nada a não ser uma puta vontade de cinema.

Window water baby moving é um milagre. É um dos trabalhos mais poéticos e mais íntimos que eu vi nos últimos tempos. É um trabalho de enorme complexidade, em relação à dor e à delícia que é estar aqui nesse vale de lágrimas. É um trabalho que não apenas nos faz refletir sobre a natureza do cinema, mas sobre a natureza do mundo, sobre a nossa própria natureza. E o faz sem que ao final tenhamos fôlego de ter qualquer conclusão, pois é um trabalho que nos permite caminhar a partir do que é visto/vivido.

Esse fantástico curta de 10 minutos deve ser visto juntamente com The act of seeing with one’s own eyes porque acho que um complementa o outro. Este mostra um parto; o anterior registra a autópsia de cadáveres. No fundo é parte da mesma vida: onde acaba um, começa o outro.

Há muito para se falar desse filme. Ele começa poético como se fosse um filme feminino da Maya Deren, mas o olhar de cinema de Brakhage vai além da construção desse cinema poético, ele precisa ir mais a fundo para mostrar do que é feito o cinema e do que são feitas as coisas. Ele então vai inverter essa sua referência do filme poético, da sensualidade da grávida para transcender essa questão, para mostrar do que é feito o seu cinema e do que é feita a vida.

Para isso, Brakhage faz uma estética ao mesmo tempo enormemente ética e respeitosa a esse sentimento do parto, ao mesmo tempo enormemente fiel e em continuidade com as questões da sua filmografia enquanto realizador e ao mesmo tempo extremamente crítica seja em relação à composição do filme tradicional seja em composição à própria realização do filme experimental.

Nos filmes de Brakhage não há redenção propriamente dita. Ele faz questão de mostrar as pedras do caminho porque quanto mais se concentra nelas mais parece que seu cinema vai ser ético em coroar esse percurso mais do que mostrar o resultado. É aí que ele se afasta da narrativa clássica, onde os obstáculos só servem para valorizar o herói. Aqui não se trata nem mesmo de obstáculos, trata-se do percurso da vida.

Por fim, penso um pouco nas relações entre esse filme e o tétrico Parteiras da Amazônia. É exatamente onde avança o cinema mágico de Brakhage: não é a poesia da desgraça nem é a desmistificação da poesia do nascimento. Não se trata disso, porque isso é muito pequeno. Brakhage simplesmente faz vida com o cinema e faz cinema com a vida. Não tem moralismo, não tem vitimização, não tem contraponto de discurso porque aqui não cabe: é preciso ir ao que interessa, ao cinema dos sentidos, a esse grande mistério caudaloso, terrível, asfixiante, telúrico que é a nossa vida.

Esse curta também faz o projeto conservador do tempo no curta do Victor Erice – Limeline – virar fichinha... mas essa é outra história, mais complicada.

Por um cinema físico

The act of seeing with one’s own eyes
De Stan Brakhage, 1971
***

Por um cinema físico

Conhecemos mais o trabalho de Brakhage pelo conjunto de filmes abstratos (tipo os hand painted films) ou as fábulas místicas (como Dog Star Man), mas este The act of seeing with one’s own eyes surgiu de uma série de três documentários que Brakhage fez em Pittsburgh no início dos anos setenta. A câmera registra uma autópsia, em cadáveres sendo dissecados por uma junta médica. E só. Aqui não cabe a ironia política de um O Sangue das Bestas, com sua narração arquitetada para ir de encontro ao que as imagens apresentam. Ao contrário, trata-se apenas das imagens. Os corpos existem por si só, como corpos, ou melhor, como conjunto de órgãos que vão sendo multiplicados ali diante de nossos olhos. Não há psicologia, não há vitimização, não há possibilidade de nenhum dos ganchos do cinema clássico (a identificação, a narrativa, etc.). Há apenas o cinema como registro físico de uma realidade, através da qual tomamos contato a partir da visão.

A forma como Brakhage filma as autópsias é de um realismo cru, pouco preocupado com um relato científico ou com a descrição da atuação em si dos médicos. Com planos próximos um tanto perturbadores, Brakhage faz cortes na imagem, assim como os médicos cortam os corpos. Se a princípio Brakhage usa as técnicas do cinema direto, registrando sem interferência, ele acaba compondo um corte profundo nesta mesma realidade, porque o detalhe se torna o todo, exatamente porque estes detalhes são o que não queremos ver, ou ainda o que o cinema tradicional nos oculta. Os corpos não são fetichizados como no cinema clássico. Com isso, The act of seeing faz uma reavaliação de dois dos grandes signos da sociedade midiática contemporânea: o sexo e a violência.

Também não se trata de valorizar o cinema abstrato por meio do grafismo dos cortes dos bisturis ou do propor uma certa epifania no grotesco dos cadáveres (como em Ressurreição, de Arthur Omar). A ética da filmagem de Brakhage busca uma distância ambígua, uma proximidade observadora, ou uma distância invasiva. Aqui quanto mais se busca um cinema meramente físico, descritivo, observacional, mais se revela o espírito de um cinema. Longe da alma desses cadáveres e perto de um modo possível de observar as contradições do mundo e do cinema.

Por um cinema puro

Sinfonia Diagonal
De Vicking Eggeling, 1925
***

Black Ice
De Stan Brakhage, 1994
***½

Muito elogiada no livro de Jean Mitry sobre o cinema experimental, a Sinfonia Diagonal, de Vicking Eggeling, foi a obra que escolhi para inaugurar minha entrada no mundo dos downloads, das bandas largas e dos emules da vida. Terrível ingresso, que me tirará o raro tempo de folga que ainda me resta, porque já estou há dias em frente a este maldito computador, junto a esta tartaruga lunática que é o tal de emule. Junto com ela, para fazer uma dobradinha dos meus estudos de “filmes abstratos”, estou baixando (os outros ainda estão lá na fila...) um filme recente de Stan Brakhage, chamado Black Ice. Entre os dois lá se vão cerca de 70 anos. Muita coisa mudou, e não só no cinema. Mas ver essas duas obras em conjunto nos permite grandes reflexões sobre a natureza do cinema.

Se o cinema é feito de luz e movimento, então Eggeling descobriu a fórmula do cinema. Para este artista sueco, que teve sua origem nas artes plásticas, o cinema deveria ser diferente das demais artes porque tem características próprias. Tudo o que é supérfluo nessa busca pelo essencial da linguagem cinematográfica, Eggeling deixa para trás. Sua Sinfonia Diagonal, portanto, um filme de sete minutos que lhe consumiu quase quatro anos para sua realização, pode ser vista como uma espécie de tratado científico das potencialidades do cinema como expressão artística, ou seja, trabalho de um cientista compenetrado a dissecar a linguagem do cinema em seu leque variado de formas, ritmos, curvas, constrastes e estruturas.Sua inserção no movimento vanguardista da época e seu desejo de que o cinema não fosse mera reprodução do naturalismo herdado da literatura e do teatro são nítidos. A herança do construtivismo e o forte apelo formalista de seu cinema avançam para o primeiro plano, mas, como típico alemão, é possível ir além dessa chave inicial para descobir outra influência: a do expressionismo alemão, com formas que nos lembram escadas, pontes, degraus, e que insistem em fechar-se diante de si mesmas, para dentro de si mesmas, com uma espécie de fatalismo de inspiração cíclica que tanto nos perturba ao ver esse trabalho. Os movimentos de formas, no início simples, se multiplicam, montando-se e desmontando-se como se num jogo de luz e sombras, ou ainda, num jogo de tema e variações. A liberdade com que Eggeling trabalha essas formas, em como combina os surgimentos e desaparecimentos de formas ora côncavas ora convexas, ora retas ora curvas, ao mesmo tempo não oculta sua enorme preocupação com a estrutura do filme como um todo e sua quase obsessão por uma organicidade.

Já Black Ice é um trabalho pouco visto de Stan Brakhage feito setenta anos após o Sinfonia Diagonal, obra de um realizador veterano, que dedicou grande parte de sua vida nesta mesma linha, após seus experimentos com os “hand painted films”. Se Eggeling via sua contribuição como cineasta no campo da pesquisa estética através do conhecimento de uma linguagem, como um tratado científico, para Brakhage, o mesmo cinema de luz e movimento serve como uma metafísica, como uma verdadeira cosmogonia do cinema. Ver Black Ice, a depuração de todo um caminho de depuração estética – e que vai de encontro exatamente a um encantamento do olhar e da resignificação dos sentidos – é como mergulhar na caverna de Platão, é perceber que o cinema ainda pode ser o caminho do novo se nos curvarmos para suas origens. Totalmente sem som (como é a característica dos filmes de Brakhage) entramos numa espécie de montanha russa de indizível significado simbólico, num processo de imersão mítico que nos faz questionar diretamente qual o papel do cinema e dos sentidos na sociedade contemporânea, num mundo capitalista. Como se fosse uma obra de Bach, variações em termos de temas e recursos de fugas, acentuados por sobreimpressões de diferentes ritmos e texturas, se formam em torno de figuras que avançam para o primeiro plano e invadem a retina do espectador. Uma invasão, no entanto, que se revela lírica, e que acaba se opondo ao caminho materialista e construtivista do cinema de Eggeling. Em busca de um cinema puro, Black Ice ainda revela a materialidade desse processo de busca pelo metafísico no extraordinário recurso do início e final, quando variações de cor revelam as pontas de início e de fim do filme.

Estes dois filmes, feitos por realizadores de distintas visões de mundo e formações profissionais, revelam um dos melhores esforços na busca de um cinema puro, que não estivesse contaminado com a prostituição (como disse Bergman), na busca por um cinema de valorização dos sentidos, por um verdadeiro “filme abstrato”. Mesmo uma década depois das vanguardas dos anos vinte, Brakhage nos mostra que esse trabalho continua cada vez mais vivo e atual. E mais: que esse trabalho de vigor artístico não necessariamente se confunde com o formalismo e que vai na direção contrária às manias dos games e dos videoclipes, cada vez mais emm moda, e que cada vez menos nos dizem algo de íntimo e de verdadeiro em termos de linguagem e de vida.

Frase de fim de semana

“A esperança é a última coisa que a natureza deixou ao homem”

Padre Antônio Vieira

terça-feira, setembro 05, 2006

youtube

Agora não tem mais desculpa para não ver os meus filmes esquisitos. Ei-los no youtube, três deles (o tamanho máximo permitido no site é 10min...):

É Hoje
http://www.youtube.com/watch?v=UCKzlhFSpu8

Spencer, Ontem, Hoje e Sempre
http://www.youtube.com/watch?v=jgyBifwT5XM

Alvorecer
http://www.youtube.com/watch?v=FbgYxyuW0SE

domingo, setembro 03, 2006

(pensando comigo mesmo sobre a proposta desse blog...)

As pessoas, quando entram num site sobre cinema, talvez esperem ler coisas reveladoras ou inteligentes, mas a proposta desse blog não é essa. Mais do que falar sobre cinema, ou radiografar o que está acontecendo por aqui em termos de cinema (uma “cobertura”, uma “análise”, uma “radiografia”, etc), esse blog é na verdade um “diário de viagem”, um monólogo (de mim para mim mesmo) de como está sendo a minha vida, porque o cinema e o desejo de criação cruzam a minha vida.

E é por isso que tenho esse desejo de que esse blog também fale sobre essas coisas mais gerais, de que às vezes também tenha poemas sobre as varandas e reflexões sobre meus próprios trabalhos, porque se esse blog tem um objetivo é o fato de pôr em exercício para minhas múltiplas personalidades a possibilidade de alimentar meu processo de criação, de estimular o desejo por essa possibilidade, coisa que o dia-a-dia cada vez mais se esforça em me fazer esmorecer, e que eu – teimoso – reluto em me deixar abater, pela vida, pelas pessoas ou pelas circunstâncias.

Esse blog passa pelo cinema, simplesmente porque minha vida passa pelo cinema, já que eu descobri a vida a partir do cinema, e não descobri o cinema a partir da vida. Hoje, o que me motiva a levantar da cama é esse blog e os meus vídeos esquisitos, porque são coisas em que acredito, de verdade. O que, se não é muito, é tudo o que tenho.

sábado, setembro 02, 2006

em bh

Foi bem boa a estada em BH na Mostra Indie, em que o Dellani Lima selecionou É HOJE, e foi a primeira exibição numa mostra do filme. A curadoria da sessão foi muito interessante, porque havia um diálogo entre os trabalhos, e a idéia do “filme caseiro” como revelador de uma intimidade foi muito forte. O melhor da sessão foi o Danina, do Daniel Carneiro, um afetuoso trabalho de linguagem, livre, criativo, sobre uma criança que interage com a geografia física de um parque. A força do filme caseiro pôde ser sentida no satírico Felicidades Palestina, um aniversário de uma vovó. Talvez o filme meu que mais combinasse com a sessão fosse o NATAL, mas o Dellani, de forma generosa, acolheu o meu pedido para passar o É HOJE, que acho que representa melhor a minha videografia. Acho que a recepção ao filme foi positiva, porque, na tela grande e na sala escura, o filme, que é muito simples, fica muito forte porque é um trabalho intuitivo. Por fim, foi muito bacana fechar a sessão com o AMADOR dos Irmãos Pretti, um trabalho com que tenho a maior afinidade estilística, mas senti que as pessoas detestaram. Nada incomoda mais as pessoas que a falta do humor, a solidão e os tempos mortos. As pessoas querem acreditar que na vida delas o tempo todo estão acontecendo coisas, que existem oportunidades e que se lutarmos as coisas vão mudar para melhor... essas coisas... e o filme diz o contrário....rs... revendo o AMADOR vi um trabalho de preparação para o Dias em Branco, mas o cinema de forte apelo formal e esse seu meticuloso processo de esvaziamento de uma significação própria da imagem, do discurso, estão todos lá.

A Mostra em si é bem bacana, uma oportunidade de o público mineiro conferir filmes mais esquisitos (quase todos longas). A média de idade é bem baixa, e a mostra é toda gratuita. O layout e o formato gráfico de toda a mostra são bem interessantes. As organizadoras (Daniela e Francesca) tbem sao bacanas, pessoas de bem e antenadas com tudo. Na mostra vi tbem o fabuloso A MULHER E LA BETE, do Walerian Borowczyk, que depois vou escrever mais.