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Cinecasulofilia

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segunda-feira, janeiro 29, 2007

10 curtas brasileiros recentes que viraram a minha cabeça

10 curtas brasileiros recentes que viraram a minha cabeça :
(sem ordem de preferência)

Esses não são os melhores curtas dos últimos dez anos. São apenas filmes que viraram a minha cabeça, que não me deixaram dormir naquela noite após a exibição, que me transformaram numa outra pessoa após tê-los visto. São curtas de amigos ou conhecidos que me mostraram novas possibilidades para o audiovisual, que me ofereceram soluções para algumas questões estéticas sobre o cinema ou para algumas questões existenciais sobre a vida, o que no final das contas acaba dando no mesmo. São dez curtas brasileiros recentes que nunca mais sairão de mim, como se fosse uma tatuagem no meu corpo. Para o bem e para o mal. Ei-los:

1 - Licor de Arbusto, de Rafael Prata Duarte
Rafael foi humilhado naquele Festival Universitário, porque ninguém poderia esperar um filme como esse: uma ilha, um cometa, uma obra imperfeita, maldita. Ele teria que ser pisoteado e torturado pelo filme; ele não poderia escapar ileso, por sua audácia. Licor de Arbusto, estranho como o próprio título, é um filme sobre a fragilidade, sobre uma enorme busca por um cinema que não cabe nem na tela nem dentro de nós, e que nos deixa com muito mais perguntas que respostas.

2 - Amador, de Luiz Pretti
A primeira vez que vi um filme dos Irmãos Pretti (foi em Estética da Solidão) eu descobri um mundo, eu vi a possibilidade de fazer trabalhos intimistas com os recursos que eram possíveis. Era um cinema impossível com o que era possível. Em Amador todo o cinema dos gêmeos está lá: os planos extremamente alongados, essa visão do enorme vazio das coisas, essa dificuldade de dizermos uma palavra uns aos outros, esse enorme rigor com o quadro e com o tempo e esse eterno relaxamento com as aparências, porque o que importa, sempre, é a essência das coisas, mas ela é sempre fugidia e imperfeita. O título, extraordinário, é uma declaração de princípios sobre tudo o que está em jogo: o cinema amador, o amor e a dor. O filme, de cortante simplicidade, revela esse enorme abismo de meio metro entre a vida, a criação, o outro e a liberdade plena.

3 - Enquadros, de Ivo Lopes Araújo
O cinema do Ivo é sempre recheado por um abismo, por uma distância de uma geografia física e pela distância de uma geografia íntima. Em Enquadros, essa falta de um mundo é associada com o processo de criação. Interior e exterior, rotina e improviso, luz e sombras, planos fixos e fusões, planos gerais e planos próximos: sem nenhuma palavra, Ivo percorre um estado de coisas do artista que vai além do descritivo para tocar uma metafísica do mundo, sempre a partir dessa doce distância em que realiza seus trabalhos sobre a solidão humana.

4 - O Livro, de Aleques Eiterer
Incompreendido e pouco lembrado, este curta de Aleques tem uma historiazinha quase banal: um livro passa de mão em mão, dos jovens aos velhos. Mas a visão de mundo de Aleques joga a narrativa pro alto: lento, cíclico, fatalista, em preto-e-branco, toda a tristeza do mundo leva O Livro para o seu misterioso final, uma verdadeira obra-prima: os planos vazios, em que não há mais nada, nem livro nem pessoas nem vida, só o cinema talvez como testemunha mórbida do fim de tudo.

5 - Ação e Dispersão, de Cesar Migliorin
Subversivo, irônico, provocador, Ação e Dispersão é um enigma, obra de várias camadas e significações, que se multiplicam, que se dobram sobre si mesmas, que se interpolam: de um lado, filme-manifesto sobre um cinema brasileiro; mas de outro, por trás desse verniz sarcástico, revela-se um retrato profundamente afetivo sobre o vazio de uma viagem, sobre a inutilidade da peregrinação humana e a fugacidade da memória

6 - O Lençol Branco, de Marco Dutra e Juliana Rojas
Doloroso, quase cruel, esse retrato extremamente cuidadoso e observador sobre a rotina de uma mãe logo após a perda de seu bebê recém-nascido se transforma aos poucos numa crônica familiar e num conto gótico de terror. Sua atmosfera sinistra é construída com um mínimo de elementos: basicamente a partir da maestria da direção e da decupagem, numa sinfonia de tempos, olhares e meios-gestos sempre exatos e sempre enigmáticos, como a própria natureza humana.

7 - Nascente, de Helvecio Marins Jr
Nascente representa o cinema de BH, que é hoje o melhor cinema do mundo, um cinema que abraça um diálogo entre as artes plásticas e o audiovisual, que abraça um país sem paternalismo ou sem apologia da miséria, que abraça um cinema dos sentidos e das novas possibilidades de frescor da narrativa. Delicado, intimista, poético, Nascente é o que de melhor a Teia e o novo cinema mineiro tem feito por esses tempos.

8 - Guerras, de Luiz Rosemberg Filho
O cinema de hoje dialoga com o de ontem, ou ainda, o cinema de ontem é o cinema de sempre, caso não se pare no tempo, caso ainda se queira dizer com a mesma intensidade de sempre. O veterano Luiz Rosemberg Filho realiza um vídeo artesanal de grande impacto emocional, resgatando a força da palavra e do monólogo, combinando imagens de arquivo com jogos de luz e sombras, combinando a desilusão do terror do mundo capitalista com a paixão pelo ato de criar e de viver.

9 - Quem Navega no Mar Sempre Encontra um Lugar, de Dellani Lima
O filme zen de Dellani Lima é mais um exemplar do cinema mineiro: um cinema de observação, deslumbrado pelas possibilidades da imagem e do registro como forma de iluminação. Um pouco atípico de seu trabalho posterior, Quem Navega no Mar é um filme de percurso: percurso dos animais, percurso da câmera, percurso do olhar, percurso da alma que, de um lugar a outro, se encontra por se perder, se acha porque existe como percurso, observando-se a si mesma como um enorme espelho por onde passam todas as coisas.

10 - Coleira de Abutre, de Walter Fernandes Jr.
Irreverente, fragmentado, provocador, o cinema de Walter Fernandes é o da crônica carioca farsesca, é o cinema marginal debochado, é a desconstrução da possibilidade do discurso. Quase surrealista, Coleira de Abutre provocou uma enorme interrogação no Festival Universitário quando exibido pela primeira vez, mas marcou um conjunto de pessoas que passou a admirar sua anarquia e seu inconformismo.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Babel

Babel

De Alejandro González Iñarritu

São Luiz 3 qua 20:50

**

 

O modelo da narrativa clássica sempre buscou ser “um cinema da homogeneidade” que atraísse as mais diversas pessoas, de diferentes origens étnicas, classes sociais, formações pessoais, etc. É o velho dilema da cultura de massa: somos iguais na diferença, mas cada vez mais iguais, com necessidades e carências. A invisibilidade da narrativa é mero recurso para um cinema que guia o olhar e o desejo, que o reprime quando quer, e o liberta de acordo com suas conveniências. Ao mesmo tempo, nada há de mais universal do que o jardim da nossa casa, do que um casal e seus filhos. É assim que se “domestica o exótico” e se “pasteuriza o estrangeiro”. Daí os estereótipos, os preconceitos, em suma os “clichês”.

 

Por outro lado, é preciso mudar para que se continue o mesmo. É preciso que a narrativa clássica levemente se molde à multiplicidade e à histeria da velocidade contemporânea, e ao mesmo tempo é preciso ser mais particular para ser mais geral.

 

A proposta de Iñarritu em Babel é essa: quatro núcleos de personagens em quatro continentes. Quatro famílias: uma família marroquina, uma família americana, uma família japonesa, uma família mexicana. Quatro histórias que se ligam por um acidente.

 

Babel poderia se chamar Acidente. Mas acidental é tudo o que Babel não é.

 

Como um verdadeiro demiurgo, Iñarritu (e Ariaga) vai costurando essas tramas de forma paralela, criando uma tensão crescente, que sobe em espiral. Os tempos e as histórias não necessariamente se fecham, mas deixam pontas soltas, sem necessariamente se encaixar. Mexicano típico, Iñarritu sofre de um profundo fatalismo e, quase numa inspiração mística, faz uma parábola do mundo como um paraíso perdido, como uma confortante bolha de sabão que está sempre prestes a implodir. Com isso, assinala fundo a fragilidade do homem, a miséria da condição humana, a busca pela redenção que nunca vem. É uma espiral de decadência física e emocional, mas nunca moral. Melancólico, com meios tons, sem grandes piruetas visuais como em seus filmes anteriores, Babel é o mais maduro (e mais pretensioso) trabalho da dupla (roteirista e diretor), e o que talvez melhor espelhe sua visão de cinema e de mundo. É um cinema político no sentido de articular uma “micropolítica” (a importância da família) com uma “macropolítica” (os países), em que as famílias do terceiro mundo sempre vão acabar pior (as famílias que acabam unidas são a japonesa e a americana) por causa de uma pressão da política do primeiro mundo, e nisso há uma crítica de Iñarritu ao processo de “colonização” como excludente. Mas ao mesmo tempo, por trás dessa crítica politicamente correta, há um cinema conservador, em que o mal, a dor e a morte circundam tudo, e mais cedo ou mais tarde, VOCÊ vai saber disso. Conservador, porque moralista, porque diante disso, não há uma possibilidade de um cinema verdadeiramente subversivo, mas de “abrandamento” das diferenças e das expressões particulares. Ou seja, é na verdade o protótipo de “um cinema globalizado”.

 

Mas há um charme particular nesse espelho de um desencantamento, nessa peregrinação inútil, nesse discurso da miséria do homem, quando o filme foge do psicológico e deixa espaço para um certo tempo, um certo respiro para os personagens. Em especial a estroboscópica cena da boite, ou mesmo quando Brad Pitt levanta sua esposa para fazer xixi, ou quando o menino americano pega uma galinha.

 

Fico pensando em por exemplo como um Kieslowski trata questões quase semelhantes às de Iñarritu, mas de uma perspectiva completamente diferente. Para Kieslowski, o que interessava era o toque, o vento, um ou outro objeto, era o espaço, essas coisas. Em Iñarritu há questões grandes demais para o cinema, sem que tudo não caia num certo esquematismo. Ao mesmo tempo, sou um dos poucos que acha que as histórias não necessariamente se fecharem é algo bom, porque na vida as coisas não montam mesmo.

 

A questão do corpo no episódio japonês é algo que venho pensando. Ao mesmo tempo gosto e ao mesmo tempo acho terrível. A forma como essa menina se relaciona com seu corpo.

 

p.s.: a sessão de cinema foi uma das mais terríveis dos últimos tempos. O cinema completamente lotado de pessoas que riam na hora dos tiros, além do fato que eu sentei do lado de um cara obeso que ocupava duas cadeiras e que começou a feder e comecei a passar muito mal... enfim...

quarta-feira, janeiro 24, 2007

O Passageiro

De Flávio R. Tambellini

Odeon ter 23 jan

**

 

Se eu conseguir me livrar do meu trabalho de burocrata e da minha carapaça de cágado, eu espero um dia poder fazer cinema, cinema de verdade, um cinema que é feito de gente, com gente e para gente. Os meus filmes até agora foram o oposto disso (com exceção de O POSTO): não tem gente, não são com gente e não são para as pessoas. É como a diferença entre a masturbação e o sexo: meus trabalhos são uma verdadeira punheta. Num certo sentido não há nada de errado nisso: em primeiro lugar, porque algumas vezes a masturbação é melhor do que o sexo, mas isso não é elogio à masturbação, e sim porque o sexo não foi bem feito. Em segundo, porque, na adolescência, a masturbação é elemento fundamental para a descoberta da sexualidade e especialmente do corpo. Assim, os meus vídeos são exercícios masturbatórios, para que eu conheça, descubra os limites do meu corpo. Mas é preciso que, num dado momento, eu me liberte disso, e essa libertação só é possível com o contato com o outro. É a velha história de Não Amarás: é só com o outro, é só com gente que esse movimento pode ser possível.

 

Eu me lembrei disso vendo O Passageiro, segundo longa do Flávio Tambellini, que mostra um amadurecimento absurdo em relação a seu filme anterior. Há algumas, aliás várias, coisas que me chamaram a atenção nesse filme, e que se não fazem dele um grande filme, fazem digno de uma grande nota (ou melhor, de uma nota grande). O primeiro é que um filme brasileiro é sempre um filme brasileiro, e que eu nunca teria dado a atenção que estou dando para o filme se ele fosse americano ou argentino. Ele é um filme brasileiro, é um filme carioca, é um filme sobre mim. O segundo é que ele é um filme de atores, e se se quer fazer um cinema que fale dos sentimentos das pessoas e da crise das pessoas e de toda essa maldita dificuldade que é acordar e ter que se levantar da cama, não se pode fazer isso sem um abraço muito carinhoso num cinema de atores, em respirar essa possibilidade de se surpreender e de viver com os atores.

 

O terceiro é que O Passageiro é um filme sobre a adolescência, essa fase maldita muito mal compreendida na vida, no cinema e especialmente no cinema brasileiro. E então que, por ser um filme sobre a adolescência, o roteiro e a mise-en-scene do filme foram me fazendo recordar: a dificuldade que é conviver com as pessoas no colégio, que é ir para as festas e ver as pessoas se divertindo, que é voltar no dia seguinte para casa, que é ser mais novo do que seus companheiros de um grupo, que é essa timidez em dar um passo a frente porque não se sabe o que quer, que é essa dificuldade de gostar de quem não gosta de você, ou seja, essas coisas que fazem a adolescência ser essa fase terrível que geralmente queremos esquecer.

 

E daí que O Passageiro começa sendo um filme sobre duas coisas. Um filme sobre um “conflito de classe”, sobre um garoto que não quer ter a vida frívola dos seus pais e procura recusar sua origem social. E segundo, sobre uma descoberta da sexualidade, sobre um menino que quer superar a timidez e ter a sua primeira transa. Mas daí que tudo isso vai se modificando. Classe social – família – sexualidade acaba se tornando uma tríade que se entrelaça. O menino se vê seduzido pela amante do pai banqueiro, que ele odeia e depois descobre que ele foi um mecânico, que montou sua fortuna do zero.

 

E lá pro meio do filme O Passageiro se revela como um acerto de contas com um pai morto. Esse pai vai sendo humanizado depois de morto. E isso é acompanhado com um rito de passagem para a fase adulta, até o típico final do rito de passagem: a (primeira) transa.

 

Quando o filme se interessa pelos entrechos narrativos, pelo batom na bolsa de fulana, ou pelos flashbacks explicativos, eu meio perco o interesse pelo filme. Mas o quando o filme se concentra nessa crise do menino tentando ser alguém, ele ganha um novo fôlego. A melhor cena do filme é quando ele conversa com sua melhor amiga, sobre algumas pedras, ou ainda no quarto dela, quando ele finalmente se abre. É quando o ranço da narrativa clássica e do esquematismo que o filme toca parece romper para uma possibilidade de o filme respirar de forma humana e sincera esse mito de Édipo, essa dificuldade de ter que enfrentar os nossos limites.

 

Por fim, é uma pena que o filme tenha sido tão mal lançado e o que está acontecendo no cinema brasileiro tem que ser pensado, porque vários filmes médios, que dariam tranquilamente 100 mil espectadores não conseguem fazer nem 10% disso!!! Por que, mesmo com Cota de Tela, O Passageiro não consegue ser exibido num Cinemark, num Nova América, e tem que estrear no Espaço Unibanco, onde teria que estar passando o novo filme da Naomi Kawase, e não O Passageiro??!!! Ora, não se trata de um filme cabeça, etc, é um filme médio, de gosto para o público, talvez um pouco longo para os padrões comerciais, mas plenamente aceitável diante das bombas que vemos no cinema.

 

Um epílogo: O Passageiro resgata uma tradição de um cinema carioca urbano relativamente intimista, coisa que está cada vez mais rara. É um filme pessoal, mas é filme de mercado, não de festival. Não tem a futilidade do atual cinema carioca nem a exploração da miséria nem a pretensão de ser algo mais do que é: um honesto abraço de um filho em um pai.

 

terça-feira, janeiro 23, 2007

 

 

Ontem, quando acordei, você não estava mais aqui.

Fazia frio, as cortinas balançavam.

Havia um copo quebrado no chão. As coisas, ligeiramente fora do lugar.

Por todo lugar, havia pegadas, rastros, sinais do dia de ontem.

 

Mais um dia de seca. Não havia água nas torneiras e a geladeira continuava vazia.

Perguntei por você, mas ninguém me respondia.

Colecionei recados, livros de receita, sinais de trânsito e outros objetos afins.

Foi quando uma imensa nuvem se formou logo acima da sapateira.

Sentado, fitei a nuvem imóvel como se algo pudesse acontecer.

 

Quando cansei, abri a janela e tomei um pouco de ar.

Um cinema invisível

 

A curadoria da Mostra do Filme Livre acabou. O saldo acaba sendo o cansaço. Fiquei pensando, nesse estudo que venho fazendo sobre algumas questões do cinema contemporâneo, no que eu tenho visto na Mostra que se encaixa nesse perfil. Quem é que no Brasil tem uma proposta de um trabalho de investigação conceitual, estética, uma investigação dos limites da imagem, dos códigos de linguagem?

 

Poucos, muito poucos. E esses poucos estão longe, longe dos festivais de cinema brasileiros, estão longe dos noticiários sobre o cinema brasileiro, estão longe dos elogios dos críticos e das páginas dos jornais e das nets. Esse cinema é um cinema invisível. E na MFL vai continuar sendo invisível porque passam 300 filmes e não se tem nenhuma cobertura ou atenção crítica sobre o evento. Neguinho (que ainda se diz sério) prefere cobrir a Curta Cinema que a Mostra do Filme Livre...

 

Tem os textos sobre os indicados, que dão alguma luz, algum registro sobre esse cinema invisível. Algo poderia ser falado sobre esses realizadores que estão ali trabalhando uma questão, uma proposta, mas que muitas vezes num só filme a gente não consegue ter a dimensão desse processo, perdido no meio de outros 300.

 

Mas o que de melhor se vê hoje em termos de linguagem audiovisual no país vem de BH. É uma barbada. Os piores são do RJ e RS. É muito engraçado que dois festivais “livres” do país sejam sediados no RS, porque o cinema de lá nada tem de livre ou criativo, fora algumas exceções. No RJ, em 90% reina a terrível superficialidade do modo de vida do carioca.

 

Mas em BH não. Há um cinema que se funde com as artes plásticas, há uma proposta de um frescor do olhar, há uma busca por uma poesia que vai além do filme. E tem bastante gente, uns mais outros menos conhecidos. Tem o cinema da Teia, que é o melhor cinema do Brasil.  Tem toda uma galera à margem que faz um cinema de verdade.

 

Eu também escrevi um texto para o catálogo falando sobre a curadoria da Mostra. É um texto que eu gostei muito, porque, ao invés de colocar esse meu certo desânimo (como eu queria fazer), eu preferi colocar o que representa para mim “um filme livre”. E também quis fugir do blá-bla-blá teórico como faço todo ano, que o filme livre não existe, etc. Bom, depois eu posto o texto aqui.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Hoje, depois de uma conversa, eu fiquei com vontade de colocar o que representou ter feito O POSTO para mim, este que foi meu primeiro curta em película.
Para mim O POSTO foi a única coisa na minha vida em que eu procurei fazer o meu melhor, em que eu me empenhei de verdade para fazer uma coisa em que eu realmente acreditava e que queria ver pronta.
Essa foi a única coisa que creio ser de alguma importância que fiz em toda minha vida.
O filme teve várias dificuldades, e depois de quase quatro anos, ele ficou pronto. Não fez diferença alguma.
As inimizades que criei com o filme foram muito maiores que as novas amizades.
As pessoas que sempre quiseram me prejudicar aproveitaram para me humilhar através do filme.
A resposta que tive com o filme foi até positiva, mas o fato é que se esse curta não fosse feito não faria a menor diferença.

Mas ao mesmo tempo isso não tem muita importância.
Esse curta é ao mesmo tempo uma das poucas coisas das quais me orgulho em minha vida.
Creio que é um trabalho digno, honesto, que apresenta com maturidade o que eu acho da vida e do cinema.
Coloca de forma sincera minhas influências como gente e como aspirante a artista.

Daí que o trabalho de criação é essa coisa mesmo, uma bolha de sabão, um castelo de areia.
Quem sabe um dia alguém na Polônia cruze com o filme e descubra alguma coisa, assim como aconteceu comigo?
Acho que é assim mesmo, não devemos buscar reconhecimento. Apenas fazer o que deve ser feito com a consciência do dever cumprido, e com o senso de responsabilidade do que deve ser feito.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Pintar ou fazer amor

De Arnaud e Jean-Marie Larrieu

Cine Santa, dom 14hs

* ½

 

Uma estranha falsa comédia dos irmãos Larrieu, exibida em competição em Cannes (um pequeno exagero). Estranha porque durante quase 40 minutos de filme ficamos entediados com uma narrativa convencional sobre um casal burguês (Sabine Azéma e Daniel Auteuil, ambos corretos) que resolve entrar na terceira idade saindo da cidade para morar no campo. Encantam-se com o clima bucólico e gastam mais tempo de sua vida frívola tentando respirar um ar mais fresco. Mas aí cada vez mais o filme vai ficando estranho. Não tanto no enquadramento e mise-en-scene, francamente convencionais, mas já o faz pela fotografia soturna, em interiores escuros, nitidamente subexpostos, que dá a essa paisagem bucólica um clima misterioso, levemente ameaçador. Interessante porque Auteuil é um meteorologista e Sergi Lopez faz o papel de um prefeito que é cego (??!!). É quando acontece um incêndio no meio do filme. Truque convencional de roteiro, esse incêndio incendeia o filme, o vira pelo avesso. É então que o filme se revela uma comédia irônica, farsesca, sobre as hipocrisias da sociedade conservadora e burguesa francesa. Pintar ou fazer amor vira um filme sobre o swing. Quase um O Quatrilho francês. Ainda que convencional (ficamos pensando o que os diretores fariam se fossem italianos...), o filme acaba surpreendendo. Com um final bonito, preciso, exato, acaba sendo um exame simples (às vezes simplório) sobre a possibilidade de se viver com liberdade, afastando tabus ou preconceitos, ainda que tardiamente. A forma elegante e irônica como os irmãos diretores franceses conduzem o filme tem o seu charme em alguns momentos mas a verdade é que o filme acaba ficando no meio do caminho de seu pressuposto subversivo. De qualquer forma, não é totalmente dispensável.

domingo, janeiro 14, 2007

Hong Sang-Soo

Ah, antes que eu me esqueça:

Hong Sang-Soo

Mulher na praia **
Conto de cinema ** 1/2
A mulher é o futuro do homem ** 1/2
A virgem desnudada por seus celibatários ***
O poder da província Kangwon **

(só faltam Turning Gate e The Day a Pig Fell Into the Well )

ainda não tirei uma conclusão sobre a filmografia do Hong-Sang Soo. Interessante, mas não me arrebatou por completo. Precisaria rever, mas tenho outras prioridades.
São filmes complexos, ardilosos, de estrutura. Complexos porque fogem do estereótipo do cinema de arte. Ardilosos porque falam do engano através do engano. Pensamos diversas vezes que um filme é sobre uma coisa e quando percebemos é sobre outra. De estrutura porque tem diversos paralelismos, situações que se repetem e se invertem. Dentro de um filme e entre os filmes.
Parecem com os filmes do Rohmer. É isso o que vem na minha cabeça de imediato.
Filmes sobre relações amorosas, onde os personagens muito dizem mas parece que nada dizem uns aos outros.
E quando pensamos no cinema e na cultural oriental, essa coisa do "dizer" e "não-dizer" acaba tomando outras proporções.
Filmes também sobre o fazer cinematográfico, sobre a ficção, sobre o ato de criação.
Tem também aqueles "zoom in" absolutamente estranhos e instigantes.
É tbem cinema contemporâneo, antenado, na forma como compõe jogos formais que extendem os limites da narrativa convencional, sem deixar de lado o viver e a dramaturgia dos personagens.
Um Ozu jovem mas menos conservador e mais melancolico. Não há família. Crise da Geração dos 30 anos sem grandes ideais.

sábado, janeiro 13, 2007

estou aqui
bem certo ao longe
perto demais

mas ali estou
longe de tudo aqui
lo que me pert
ence não mais

terça-feira, janeiro 09, 2007

10 melhores filmes 2006

Talvez eu mude alguma coisa, mas pra não perder o costume, segue uma rápida lista dos melhores de 2006

(como sempre, o que eu acho HOJE, dados os filmes QUE EU VI, e entre os lançados comercialmente nos cinemas cariocas em 2006)

 

 

Os 10 melhores filmes de 2006

 

 

1 - Amantes Constantes (Les Amants réguliers), de Philippe Garrel (França, 2004).

 

2 - A Criança (L’Enfant), de Luc e Jean-Pierre Dardenne (Bélgica/França, 2005).

 

3 - Reis e Rainha (Rois et reine), de Arnaud Desplechin (França, 2004).

 

4 - O Sabor da Melancia (Tian bian yi duo yun), de Tsai Ming-liang (Taiwan/França, 2005).

 

5 - Crime Delicado, de Beto Brant (Brasil, 2005).

 

6 - Dália Negra (The Black Dahlia), de Brian De Palma (EUA/Alemanha, 2006).

 

7 - O Novo Mundo (The New World), de Terence Malick (EUA, 2005).

 

8 - Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira (Portugal, 2005).

 

9 - Ponto Final – Match Point (Match Point),de Woody Allen (Inglaterra/EUA/Luxemburgo, 2005).

 

10 - Família Rodante (Familia Rodante), de Pablo Trapero (Argentina, 2004).