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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Tenho diante de mim um desafio: a vida que tenho e a vida que procuro. E isso é bem diferente da “vida real” e da “vida do sonho”. Não se trata disso. Ao contrário, trata-se do planejamento, da previsão e das decisões que se quer para o hoje, para a vida concreta: dobrar para a direita ou para a esquerda, responder ou calar, convidar fulano ou beltrano para jantar, e por aí vai. E então, depois do Carnaval, eu vou precisar decidir, e se eu não decidir estarei decidindo porque aí então a omissão será escolha: é preciso escolher o que se quer. E eu quero tocar a minha vida, ir em busca do meu destino. Se eu terei forças ou coragem para isso, não sei. Precisarei da ajuda dos amigos, da família, da minha companheira, de quem mais gostar de mim e resolver acreditar no que faço. Precisarei me superar. Aqueles que jogam poeira nos meus olhos eu preciso deixar para trás, mas só se isso não significar retroceder. Eu tenho fé que é possível, e o momento é esse. Daqui a pouco, depois do Carnaval, eu quero ter a vontade de fazer o que preciso, com sangue frio e alma quente.

Inocência Selvagem

De Philippe Garrel

DVD jan/2007

***

 

Devo também dizer algo sobre Inocência Selvagem, um filme do Philippe Garrel que peguei no emule, depois do impacto de Amantes Constantes. É outro filme em preto-e-branco, diferente e similar ao Amantes Constantes. Diferente porque é um filme contemporâneo. Igual porque também é sobre a confluência entre os processos de viver e de criar. E também porque tem todo um estilo do Garrel que se impregna pelo filme. Um estilo todo francês: um filme contado com elipses largas e tempos mortos, de modo que estamos sempre atrasados no que está acontecendo e ao mesmo tempo vivendo muito intensamente esses momentos íntimos, que é tudo o que temos. Um estilo que lembra Jia Zhang-Ke e Claire Denis, se isso é possível.

 

Novamente mais um filme sobre o processo de criação, partindo de um pressuposto muito simples e muito complicado. Um diretor de cinema quer fazer um filme que denuncie o tráfico de drogas mas só consegue dinheiro para produzir o filme vindo do próprio tráfico, e ele deve participar disso. Deve ou não? É uma opção. Esse filme (o filme dentro do filme) na verdade é um acerto de contas do diretor com sua ex-mulher, que morreu de overdose. E daí que o filme se mistura com a realidade (ou melhor, o filme dentro do filme se mistura com o filme), porque ele se apaixona pela atriz do filme, ou melhor, resolve convidar para atriz do filme a mulher por quem está apaixonado. E por aí vai.

 

Mas mais interessante que essas teias, essas subtramas e suas relações com a trama, o que torna Inocência Selvagem um filme surpreendente é exatamente a forma como Garrel conta essa história, como esses jogos narrativos sucumbem diante de uma dramaturgia do tempo e do contato entre os personagens. Ainda, faz tudo isso dentro de uma proposta de um cinema contemporâneo, instigante, refletindo sobre a possibilidade de a imagem viver e experimentar a vida de cada personagem.

 

Dessa vez entra o lado sórdido e trágico do cinema, do processo de criação. O cinema, entre o material e o sonho. Ou, dependendo da forma como se vê, o cinema como negação da vida; o autor que se preocupa mais com o filme e fica cego diante do que está acontecendo ao seu redor. O filme tem uma estrutura de uma tragédia grega, na forma como as coisas se repetem se forma um tanto cruel mas necessária (de forma moral). Mas desse ponto de vista, ainda prefiro Coisas Secretas e o cinema de Brisseau, que tem um lado mais sarcástico e irônico. Inocência Selvagem é um belo filme, mas fica como um ensaio diante de Amantes Constantes, um filme que vale uma vida.

 

De Punhos Cerrados

De Marco Bellocchio

DVD jan/2007

***

 

Devo dizer alguma coisa sobre De Punhos Fechados (I Pugni in tasca), do Marco Bellocchio, que eu queria ver já há tantos anos, mas visto o filme, o que dizer? Que é uma puta porrada na “instituição da família”, um filme delirante, um jogo de aparências e de superfícies sobre as vaidades e os jogos de poder que são parte da família e da sociedade. Que é parte desse cinema italiano dos anos sessenta, com uma brutal explosão de energia, com grande irreverência, corajoso para enfrentar os dilemas da conservadora sociedade italiana, cheio de elipses e transformações narrativas. O filme tem problemas de ritmo, especialmente no seu quarto final, mas dane-se tudo isso, porque o equilíbrio, esse lado de “aparar as arestas” está completamente fora de questão. Um tapa na cara, um cruzado de esquerda na hipocrisia da sociedade italiana, uma declaração de princípios de um cinema libertário (quando eles botam fogo nos móveis e coisas da mãe e vendem a casa é uma loucura!). Um lado doce, cruel e perverso da morte, do assassinato. Esse limite entre a loucura, a inocência e o cálculo racional. A morte para poder amar, mas quem é amado não quer amar, quer lucrar a partir do amor do outro, e daí a recusa do amor e os jogos de poder. E por aí vai.

 

Trecho

Trecho

De Helvécio Marins e Clarissa Campolina

***

 

O que é fantástico em Trecho é que, ao vivenciar a trajetória solitária e errante de Libério, o filme é ao mesmo tempo tão errante quanto seu personagem-documentado e ao mesmo tempo não o é. Ele é solitário e errante porque é um mergulho de frente nessa estrada sem fim que é o cinema e a vida; é um filme em que o processo vale mais que o resultado porque é assim mesmo a vida de Libério e a nossa própria vida. Um filme sensorial em que as luzes da estrada, o movimento do corpo de Libério, suas palavras quase mal articuladas em que a fonética fala tanto quanto o sentido dessas palavras, dizem muito mais do que um discurso prévio sobre tudo isso. É um filme em que a narrativa mergulha de encontro ao que quer abraçar, um filme sobre isso, um filme sobre o processo próprio dessa realização, desse cinema, uma declaração de princípios de como o cinema deve ser.

 

Caminhar sem fim, a estrada sem fim, o horizonte. Um caminho, um sonho sem sonho, o processo, o trajeto, a dificuldade e a necessidade do afeto, o dia e a noite, a poesia, o concreto, os carros passando e as flores do caminho. Tudo isso é o cinema de Trecho.

 

Mas ao mesmo tempo Trecho não faz um caminho solitário e errante, porque tudo isso faz parte de um processo imenso, faz parte de uma pesquisa, de um caminho de contuinuidade de um conjunto de filmes do cinema poético mineiro e em especial desse grupo da Teia. Aboio, Nascente, Trecho e Acidente são um filme só, o mesmo processo e ao mesmo tempo vários processos, que dialogam, rimam, se entrelaçam e se metamorfoseiam, como o cinema e a vida.

 

Os membros da Teia são os pré-socráticos do cinema brasileiro contemporâneo: se em Aboio era o ar, em Nascente era a água, em Trecho é a terra, em Acidente é a dôxa. E tudo mais um pouco. São os elementos da natureza e da vida.

 

A Teia é hoje o melhor cinema que se faz no Brasil.

 

ACIDENTE

ACIDENTE

De Cao Guimarães e Pablo Lobato

****

 

Texto que escrevi para o catálogo da Mostra do Filme Livre sobre ACIDENTE, um dos grandes filmes do cinema brasileiro atual, junto com Serras da Desordem, do Tonacci.

Um filme documental feito pelo olhar e para o olhar. Uma proposta de um cinema contemporâneo riquíssimo.Um cinema sem esse papo de discurso didático sobre o Brasil.

Um olhar para um Brasil interior bem distante do olhar didático do cinema novo, sem falar das babaoseiras de um Dois Filhos de Francisco.

Esse sim é o Brasil interior que o cinema pode mostrar com dignidade, sem exploração da miséria ou culto romântico bucólico.

Um Brasil que pulsa em sua poesia e em sua realidade, mas sempre A PARTIR DE UM OLHAR, a partir de UMA verdade, e não DA verdade.

Um cinema do registro, preocupado em apreender mais do que mostrar.

Não quer ensinar, não quer denunciar, não quer explorar – e sim quer aprender, apreender, viver, respirar, tocar, sentir, viver uma possibilidade de um outra Brasil/mundo/cinema.

Se o cinema é uma forma de experimentar as formas de viver, fazer, sentir da vida e do mundo, então acredito que o cinema deva ser como ACIDENTE.

Um filme fantástico.

 

 

“Oriundo de concurso público do DOCTV, a versão longa de “Acidente” é tudo o que não se espera de um documentário feito para televisão. Sem reportagens, sem um olhar didático para o seu tema, o filme percorre 20 cidades pelo interior de Minas à procura de algo que não se apresenta de imediato, mas que temos que descobrir ao longo do filme. Esse percurso vale tanto quanto o encontro, e “Acidente”, com um direto diálogo com outros filmes da Teia (“Nascente”, “Trecho”, “Aboio”) percorre um caminho íntimo entre a poesia e a memória, o imaginário e a realidade de um Brasil desconhecido. Abismo de um país e de um povo quase invisíveis, “Acidente” discute entre os limites de um cinema experimental e documental, entre o cinema de registro e o de invenção, a possibilidade da surpresa e da descoberta, assumindo para o espectador que o documentarista “aprende” mais do que “ensina” sobre seu tema de estudo. Por fim, deve-se observar com atenção que “Acidente” não é totalmente “acidental”: um minucioso trabalho de construção de um olhar, a partir do enquadramento e da montagem, nos reconstrói esse processo de descoberta. Entre o improviso e o rigor, Acidente comprova que o melhor cinema feito no Brasil vem de BH e particularmente da Teia.”

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Felicidades Palestina é um filme bonito. Ontem foi a segunda vez que o vi e cada vez mais o filme fica comigo. É o registro de uma festa de aniversário de uma velhinha que completa 69 anos. É um filme caseiro, quase à moda de Jonas Mekas, só que sem o ritmo acelerado e a fugacidade do instante. É um filme muito simples, mas um registro humano, uma mostra das pequenas possibilidades do cinema, ou seja, é tudo o que o cinema pode ser. Penso que o maior mérito, além do diretor Alexandre Milagres, e da própria vovó Palestina, é do Dellani Lima,
que, ao ser pedido para selecionar cerca de 10 curtas que pudessem mostrar sua visão de mundo e sua visão de cinema, escolheu esse trabalho. Os preparativos para a festa, os convidados chegando, as pessoas dançando uma valsa, o bolo de aniversário e os parabens. Parabens Palestina!

Não tenho um conceito formado sobre Brutalmente as superfícies, novo trabalho do Cesar Migliorin. Resta dizer que ele continua seu tom provocador e irreverente, aquele seu típico cinismo, mas aqui sem aquela articulação do discurso, aquela objetividade também tão cara ao seu trabalho. Brutalmente é um filme sobre as aparências da linguagem, um falso filme, um falso discurso, que, como os trabalhos anteriores, esconde uma verdade, oculta mais do que diz, por meio das superfícies, dos cacoetes e das supostas piadinhas que distraem as pessoas dos verdadeiros objetivos de Migliorin. Mas ainda prefiro os outros.

Gostei do Maso.BR, novo trabalho do Pedro Lobito nas oficinas do Recine. A idéia, provocativa, não é muito original: hino do Brasil ao fundo e imagens de arquivo da putaria que é esse nosso país. Faltou alguma articulação de ritmo com a montagem que pontuasse as passagens do hino e criasse uma espécie de clímax ao final. Mas a ousadia crítica, a irreverência, a seleção das imagens de arquivo, fazem desse trabalho um nível acima das irreverências do cinema alternativo carioca, cada vez pior.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Ozualdo Candeias

Candeias se foi. Curioso ter passado no Jornal Nacional, porque foi um cineasta maldito, à margem dos marginais, pouquíssimo conhecido. Para mim, um dos maiores cineastas brasileiros. Ou melhor, sendo mais preciso, foi o cineasta brasileiro que mais me marcou pessoalmente, especialmente com dois filmes  - A Margem e Aopção (junto mesmo, o “a” como partícula de negação). Depois, quero falar mais sobre Candeias. Ele foi muito mal compreendido, visto como primitivo, mas seu cinema nada tem de primitivo, e sim de selvagem, cru, brutal. Os planos-ponto-de-vista em A Margem já mostram um total domínio da gramática cinematográfica. A Margem é um filme muito bonito, de pessoas que lutam por um poesia mesmo que o mundo não responda a isso, não importa, por isso é um filme absolutamente subversivo e libertário. É um filme místico e mágico, supostamente ingênuo mas muito maduro. Para mim é um modelo do cinema brasileiro possível, porque é um filme que fala demais sobre o Brasil. Já Aopção é um dos filmes mais duros do cinema brasileiro. Um filme doloroso. É quase o contrário de A Margem: um filme sobre um país que não deu certo, sobre um processo massacrante, uma via-crúcis do ser que acaba em miséria, em desgraça, em exclusão. Eu escrevi sobre Candeias, tentei organizar uma Mostra sobre ele, mas o Puppo chegou primeiro e fez muito melhor do que eu teria feito, porque entre outras coisas eu faço outras coisas da minha vida. Enfim depois eu falo mais. Agora vou ver Copacabana Mon Amour.

 

Antônia ser lançado com 130 cópias é um exagero. Num bolão aqui no trabalho, chutei 480 mil espectadores. O filme é bom, acho que vou retomar algumas coisas a mais sobre ele, embora eu já tenha escrito quase tudo mas não sei se fui claro. Apesar de eu não gostar dele como pessoa, o crítico do Globo escreveu uma coisa bonita sobre o filme: a possibilidade da criação num mundo opressor. Retomo isso nos próximos dias, se os blocos da folia permitirem.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Faltam para escrever:

Inocência Selvagem, de Phillipe Garrel ***

De punhos cerrados, de Marco Bellocchio ***

 

 

A Grande Família

A Grande Família

De Maurício Farias

Palácio 2 qua 7

0 ½

 

Recentemente tenho pensado muito num filme japonês chamado Suzaku, que se concentra na questão da família, em como uma família no interior do Japão precisa se separar para permanecer junta, como o tempo e o espaço refletem a necessidade de mudança e de continuidade de uma forma de ver (e viver) o mundo e as coisas. Aí em seguida eu entro no Palácio 2 para ver A Grande Família, que parece ser o hit nacional de 2006, e entro numa espécie de circo dos horrores. Porque o filme é tudo o que Suzaku não é, é toda a boçalidade da vida nossa de cada dia: filho xingando o pai, pai batendo no filho, marido corneando a mulher, piadas grosseiras e vulgares, a visão mais superficial possível do cinema e da vida.

 

Dito isto, o que traz algum interesse para esse projeto é uma leve tentativa de dar algum formato mais dinâmico para o filme no roteiro, contando três possibilidades de uma história, como se fosse Feitiço do Tempo ou ainda Amores Possíveis. Tem uma certa leveza, porque no fundo tudo dá quase no mesmo com pequenas variações, então a gente deve viver a vida sem os famosos “se...”, porque no fundo a gente tem que se assumir como é, e assim é a melhor coisa. Tem também o lance do final, que tem uma circularidade que dá um certo charme à narrativa (eu adoro finais circulares) porque mostra que as coisas se repetem, e no fundo as questões da família e do relacionamento envolvem as mesmas questões, que são as questões de toda família e de todo relacionamento.

 

Quanto à realização do filme, há muito tempo eu não via um projeto tão desastrado: uma enorme dificuldade da decupar e dar algum ritmo a essa comédia. O que teria tudo para ser uma típica screwball comedy tem um ritmo lento, especialmente na primeira parte do filme. Problemas de montagem e de ritmo claros. Sem falar na fotografia: o filme é muito mal iluminado e o transfer ficou muito comprometido. Os atores não estão bem, muito careteiros, principalmente o Marco Nanini, quase irreconhecível. Mais o mais grave é a dificuldade de enquadrar, de decupar, de dar um ritmo ao filme, o que mostra que, para um segundo filme, Maurício Farias está muito mal. Os campo-contracampos mais fora de contexto que já vi em muito tempo. Enfim, vida que segue.

O Labirinto do Fauno

O Labirinto do Fauno

De Guillermo del Toro

Odeon qui 8

***

 

Se na campanha presidencial, Cristóvam Buarque disse que o caminho para a revolução é o da educação, Guillermo del Toro responderia que o caminho é a fantasia. O Labirinto do Fauno é assim: um filme estranho, maldito mas ao mesmo tempo ambicioso, grande, de perfeito acabamento. O que poderia parecer um filme infantil, um conto de fadas (uma História Sem Fim) acaba se tornando um filme de guerra, um filme sobre a revolução espanhola, sobre a queda da ditadura franquista. Lindo filme. Um filme sobre a necessidade de resistência, sobre a necessidade de sobreviver junto ao lado perverso do mundo, sobre a possibilidade da fantasia e da invenção num mundo desumano, sobre a possibilidade da subversão a partir do poder de fabular. Um filme delicado sobre uma menina que descobre a si mesma entre uma realidade pervertida. Mas é preciso lutar. O que é impressionante em O Labirinto do Fauno é que é um filme sobre a revolução, sobre a resistência, e ao mesmo tempo é um filme infantil. Claro! E daí pensamos nas baboseiras do “olhar da criança” no meio de uma realidade doentia ou de guerra (alguém lembrou de O Ano que Meus Pais Saíram de Férias?). Del Toro não quer negar a crueza do nosso mundo mas ao mesmo tempo apontar uma possibilidade para a inocência. E que isso é possível e não é sinônimo de alienação. De Toro filma de forma mágica, delicada, com um grande carinho por esse universo do cinema fantástico com nuances muito bem articuladas de ritmo. Um belo filme. Depois tento escrever com mais calma.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

O Globo - MFL

Hoje O Globo deu uma matéria sobre a Mostra do Filme Livre. O Rodrigo Fonseca pegou uma declaração do Guilherme.

 

“— Um filme livre é aquele que é feito por iniciativa própria, sem depender de investimento estatal e sem precisar do Ministério da Cultura ou da Petrobras. O problema é que esses curtas e longas raramente encontram espaço de divulgação.

 

Daí esta mostra existir — diz Guilherme Withaker, curador do evento”

 

Acho essa declaração bastante infeliz, discordo radicalmente. O inimigo não é o MinC nem a Petrobras. Ao contrário, eles dão condições para que “os filmes livres” floresçam, porque nenhuma flor pode desabrochar sem ser podada e sem uma proteção contra o sol rascante. Eu não concordo que o Estado seja inimigo da liberdade. O discurso não tem que ser esse, o inimigo não é esse, são outros. O pior é o meu nome ser envolvido nesse tipo de debate, ainda mais a essas alturas do campeonato.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Mostra do Filme Livre

Mais uma Mostra do Filme Livre começa a partir de hoje no CCBB/RJ. Dessa vez, (graças a Deus) não teve dezenas de textos meus. Mas precisava escrever um texto sobre o trabalho de curadoria, do meu ponto de vista. Primeiro, não queria escrever as coisas de sempre, que o filme verdadeiramente livre é uma utopia, etc. Depois, pensei em fazer uma espécie de “manifesto”, de texto-irônico contra a futilidade, a superficialidade e a hipocrisia do “cinema alternativo carioca”, em como as pessoas no fundo querem poder e querem aparecer, da mesma forma que o mainstream. Mas desisti. Porque, apesar de todos os pesares, eu ainda acredito no espaço que a Mostra tem para ocupar e aposto como sua realização é muito mais séria que 90% dos Festivais brasileiros. Então, como sempre, escrevi um texto sobre mim, que mostra os desafios para frente que eu vislumbro, o mundo que eu desejo e preciso viver. Um texto supostamente livre sobre uma mostra supostamente livre.

 

 

Um filme livre

 

Ontem, por volta da hora do almoço, misteriosamente me lembrei de que na noite anterior eu havia tido um sonho. Sonhei com uma nuvem branca que se dissipava pelos céus, e que, quando eu já havia me esquecido dela, ela voltava a se recompor. Surgia, de novo, da mesma forma que antes, para subitamente desaparecer, e então novamente aparecer. E assim em diante, sucessivamente. Esse sonho era na verdade sobre o meu olhar. Essa nuvem, objeto do meu sonho, ou ainda, objeto do meu olhar enquanto sonho, na verdade nunca aparecia ou se dissipava por completo. Era o efeito da distância e do tempo entre a retina e o ponto de observação, um efeito da sucessão das camadas atmosféricas ou mero produto de miragem, dos contínuos tons de branco sobre o branco que enganam ou distraem os olhares. Entre essa nuvem e meu olho, havia, enfim, um abismo de coisas, um abismo perpétuo mas ao mesmo tempo indizível. Essa distância era a distância de um pensamento, de um passo, mas que na verdade era um passo na imensidão.

 

Nesse meu sonho não havia pedaços de concreto, não havia relatórios de gestão, não havia laptops nem contas de fim de mês. Não havia nada a não ser o meu olhar, a nuvem branca e a imensidão. Não havia nada a não ser o próprio sonho e a possibilidade de sonhar. Nada a não ser o meu próprio olhar, a não ser eu mesmo.

 

Quando me lembrei desse sonho comecei a chorar. As lágrimas inundaram os cômodos da casa, transbordaram até a rua e alagaram as cercanias. Até que elas chegaram até você. Você veio voando por sobre o rio das coisas e me trouxe um lenço, com o qual enxuguei minhas cicatrizes e tudo voltou ao normal. O sol despontou, as ruas secaram, os vizinhos se abraçaram e as pessoas até voltaram a sorrir. Então eu percebi que aquela nuvem branca era você, e não precisei mais sonhar. Pois a nuvem branca estava agora ao meu lado e, mesmo que ela se dissipasse, era preciso acreditar que subitamente ela voltaria a aparecer.

 

Foi nesse instante em que decidi que não queria mais morrer.