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Cinecasulofilia

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sexta-feira, março 30, 2007

Reflexões sobre os novos tempos

Entre as atribuições do meu trabalho do dia-a-dia (i.e do meu ganha-pão), eu acabo cruzando com informações sobre as transformações teconológicas que estão na pauta do momento, a WEB 2.0, as novas plataformas, os conteúdos para celular, os possíveis impactos da TV digital, Wi-Max, IPTV, e todas essas outras sopas de letrinha. Muito se fala desse cenário de convergência digital, de inteligência criativa, da progressiva flexibilidade com que o consumidor (palavra do momento) acessa a informação e diferentes conteúdos, e de uma crescente interatividade. Nesse cenário, entram em crise os meios tradicionais de acesso ao conteúdo, as “mídias estáticas”, sem flexibilidade e sem interatividade, leia-se (para o que nos interessa aqui) cinema, homevideo e TV.

 

Mas dentro desse cenário de euforia, de novas formas de acessar, produzir e disponibilizar conteúdo, o que as pessoas têm a dizer sobre o mundo, sobre as coisas? A pulverização da produção acaba se associando a uma produção e um consumo fast food (que na verdade é uma junk food). Se abrirmos um YouTube da vida durante trinta minutos, veremos que os conetúdos mais acessados são os dos pequenos filmetes absolutamente fúteis e descartáveis.

 

Há quem afirme também que as novas plataformas permitirão o desenvolvimento de certos nichos, e a produção mais sofisticadas também encontrará seu espaço de escoamento (assim como há o Youtube há por outro lado o ubu; o que realmente é acessado no emule são os filmes pornôs, mas quem procura os filmes mudos do Ozu também vai encnotrá-los lá).

 

É a visão do indivíduo pós-moderno, entre a euforia de ser o que se quer numa sala de bate-papo e acessar informações de diferentes formas e a depressão de não saber o que escolher e se ver como apenas um bit no meio de transações virtuais extremamente fugazes e superficiais.

 

Como o cinema tradicional pode se posicionar em relação a isso? Consolidando suas marcas, numa tentativa de minimização do risco (ou seja, tentando adiar o inevitável), com os grandes blockbusters da vida, ou se aproximando cada vez mais dos games e da realidade virtual.

 

Por outro lado, ainda há um cinema que permanecerá cada vez mais à margem da margem: esses filmes de um certo cinema autoral que transformaram minha vida e que são em geral objeto desse site. Uma saída será a simbiose desse cinema com as artes plásticas: Apichatpong, Claire Denis, etc. Um cinema “jovem” que aponta para novas possibilidades de interação com um espaço outro que não seja necessariamente a sala de cinema e que possa se adaptar a uma forma de projeção que não seja necessariamente linear.

 

Os outros filmes tendem a ter problemas, tendem a ser vistos como “filmes antigos”. O problema é que são esses os filmes que me mantêm vivo e são esses os filmes que sonho um dia poder fazer.

 

segunda-feira, março 26, 2007

Santiago

Santiago

De João Salles

É Tudo verdade, Odeon sex 23 21:30

*** ½

 

O que é um filme? Qual é a função, qual o papel de um filme, ainda mais quando se pensa num documentário? Ora, é falar sobre o outro, mas também evidentemente falar de si, falar sobre si. Em Santiago, a grande idéia de João Salles é que um filme pode ser um pedido de desculpas. Um pedido de desculpas sincero e honesto, dadas as impossibilidades do cinema, que são muito maiores que as suas possibilidades.

 

Santiago é por outro lado, cinema contemporâneo, filme sobre seu próprio processo de criação, filme dentro do filme, ou melhor, uma reflexão sobre o processo próprio de se fazer um filme, um filme sobre si mesmo. Sobre si mesmo no sentido de ser um filme sobre um filme e também no sentido de ser um filme de um autor falando de si mesmo. Como pessoa e como filme. É um filme que desconstrói o tempo todo a validade de seu discurso, e quanto mais o faz, mais ganha força e vida.

 

Em 1986 João Salles foi fazer um documentário sobre o mordomo da casa dos seus pais. Vendo o material cerca de 17 anos depois, viu que era péssimo, que não daria um filme. Exatamente por isso fez esse filme, chamado Santiago. Um filme sobre o porquê desse filme não ter dado certo, um filme sobre o porquê de o cinema documental ser uma grande mentira, um filme sobre o porquê desse documentarista ser um grande hipócrita mas ao mesmo tempo um filme que ao desconstruir tudo isso, promove uma resposta positiva: é também um filme sobre Santiago, esse mordomo, a partir do que não foi dito, mesmo que ele não tenha tido direito a ter voz.

 

Quem tem voz no filme o tempo todo é o diretor, João Salles. O filme é sobre ele, mais que sobre Santiago. É uma espécie de autobiografia. Mas seu interesse para o público reside exatamente nisso, nessa coragem de se olhar de frente e assumir os próprios erros (conforme a linda expressão da Consuelo Lins) e por afirmar que num documentário existe tanto de mentira quanto de verdade.

 

O que é lindo em Santiago é que esse pedido de desculpas é extremamente carinhoso e revestido de enorme singeleza, elegância e quão delicado o diretor arquiteta sua construção. Inclusive com um certo humor. Esse tom quase miraculoso que percorre o filme, amarrado por uma voz off em que cada palavra parece a mais exata. É um dos filmes mais cuidadosos e delicados dos últimos tempos do cinema brasileiro. Um filme ousado, criativo, que mostra o lado perverso e desumano do cinema. Esse personagem não tem voz, porque o diretor não o queria ouvir. Queria imprimir todas as opiniões que já tinha na cabeça antes de fazer o filme, e não teve a inclinação de deixar-se surpreender, de ver o que esse homem teria a dizer. Era como se ele já soubesse de tudo e teria que dirigir seu personagem para ele lhe falar exatamente aquilo que já sabia sobre ele.

 

A consciência desse fracasso próprio é revelada no filme a partir de um tom austero, reforçado pela fotografia em preto-e-branco e pelo ritmo lento, contemplativo. Um certo humor, e uma inesperada poesia brotam do filme, que muitas vezes é comovente.

 

No final, João Salles diz que a relação entre ele e Santiago não era a do documentarista diante de seu personagem, mas continuava a ser a do patrão e do mordomo da casa. Com esse olhar arguto, Santiago revela-se um filme político. Ficamos matutando: até que ponto não se revela um filme sobre a hipocrisia do cinema brasileiro em falar do outro e das questões sociais? Até que ponto a relação de João Salles com Santiago não é um espelho da relação de um cinema brasileiro com seu país, ou a nossa própria relação diante do nosso país? Coisas que mostram que de “egotrip” e “alienação” o filme não tem nem um pouco. Ao contrário, ele se insere numa questão instigante dos limites do documentário brasileiro como símbolo de verdade ou de representação fidedigna de uma realidade, da qual o cineasta não pertence e nem pretende pertencer quando se encerra o filme.

Sabiaguaba

Dos Irmãos Pretti

***

 

Uma das maiores notícias dos últimos dias foi a seleção de Sabiaguaba para a competitiva do Festival de Oberhausen. Inédito no Brasil, o novo trabalho de Luiz e Ricardo Pretti comprova que no Brasil o que é divulgado e o que dá certo é a opulência da produção (e da fotografia) ou o tom “Zorra Total”, mas que nos festivais internacionais há de fato a possibilidade de divulgação de um cinema que busque novas propostas de linguagem. O caminho então é esse.

 

Sabiaguaba é uma continuação e uma ruptura com os trabalhos anteriores dos Irmãos Pretti. Por um lado, a linguagem descontínua, o cinema de referências, a narrativa de tempos mortos e espaços fragmentados, a produção simples e os diretores como atores continuam lá. Mas aqui, desta vez, esse mesmo olhar parece renovado. Daí a dificuldade de se falar de Sabiaguaba.

 

Em primeiro lugar, Sabiaguaba é um filme sobre não ser, sobre não estar lá, ou sobre uma ausência. Sobre ser estrangeiro. Dois irmãos gêmeos brancos perdidos num vilarejo do Nordeste, como se fosse uma comédia de equívocos. Eles procuram por pessoas que não estão lá, e esperam algo acontecer.

 

Mas no intervalo entre essa espera e essa ausência existe a vida, e as coisas continuam. Uma certa melancolia, um certo cansaço, uma ironia carinhosa em relação a essa falta de possibilidades, de perspectivas. Mais dias em branco.

 

Em Sabiaguaba há uma visão crítica do turista, do estrangeiro que está num Nordeste outro e não pode ter nada dali. Quase como o cinema do Jarmusch que fala de pessoas que viajam aparentemente em busca de novidades mas que no fundo continuam fazendo as mesmas coisas que faziam em casa. Um filme que mostra esse percurso confuso, esguio. Um filme de processo, em que o próprio processo de se estar nesse percurso é o resultado em si. Um filme atrasado em relação às coisas, já começando pela montagem, antecipada sempre em 14 frames (ou coisa do tipo). Um filme que revela, indiretamente, uma enorme maturidade ao compor uma profunda crítica em relação aos rumos que esses próprios realizadores resolveram dar à sua vida.

 

Deslocamento de um espaço físico e íntimo. Ausência de uma geografia, das pessoas do local e de si mesmo. Enfim, um cinema que olha essa solidão imensa como grande matéria-prima do mundo, mais do que ainda a ser moldada, que está para ser descoberta a cada instante. Mas o que me encanta em Sabiaguaba é que, diferentemente de um Estética da Solidão, agora parece ser possível dar um abraço carinhoso e um sorriso de canto de boca em tudo isso, nessa grande “screwball comedy” que é a nossa vida. Sem perder a ternura, mas acima de tudo sem perder o rigor.

quatro filmes brasileiros

O cheiro do ralo, de Heitor Dahlia *

Santiago, de João Salles *** ½

Pro dia nascer feliz, de João Jardim *

Os Doze Trabalhos, de Ricardo Elias 0 ½

 

Overdose de filmes brasileiros: quatro filmes nos últimos quatro dias. Um grande, grande filme, chamado Santiago, um filme que me marcou profundamente. E mais três filmes fracos, insatisfatórios. O Cheiro do Ralo, do qual já falei bastante por aqui, é um filme “bem feito”, sedutor, mas reacionário, cínico, um cinema que executa bem a sua proposta mas eu não gosto mesmo da proposta em si, do que se quer dizer com o filme e a forma como se diz, mas fica claro que o diretor tem uma proposta de cinema e de mundo. Bem abaixo disso estão dois filmes que me surpreenderam negativamente, pois haviam recebido elogios em outros lugares, e os dois filmes me pareceram muito insatisfatórios.

 

Pro dia nascer feliz é tudo o que eu não espero que um documentário seja, é o oposto de Santiago. Isto é, é um doc que poderia passar num canal desses de TV por assinatura, mas é um exagero passar no cinema. Um filme “bem feito”, que tem um certo “trabalho de pesquisa”, que tem uma “preocupação com o Brasil”, essas coisas todas cheias de aspas, mas que no final me pareceu um tanto primário.

 

O filme pretende ser um painel da educação básica no Brasil e um painel do sentimento dos adolescentes dentro do sistema escolar. Acontece que por causa dessa proposta de painel o filme acaba sendo muito superficial, e acaba se prendendo a alguns rótulos que me parecem muito redutores. Um jovem de cada perfil: uma menina do Nordeste, um da Baixada Fluminense, outra da periferia de São Paulo, outra da classe alta paulista. E daí que cada um se torna um “personagem representativo do seu perfil”. Ou seja, essas pessoas não têm vida, eles “representam” perfis diferentes da população brasileira. As situações vividas pelas pessoas não são mostradas, as pessoas simplesmente dizem o que está acontecendo com elas. De modo que no final de um filme como esse, você sai sem saber nada do Brasil, nada da educação, nada dos jovens e nada de cada uma daquelas pessoas em si. Não tem um corte definido, não tem um olhar: é tudo muito primário. Uma pena, porque mais do que a questão educacional, ouvir esses jovens, suas aspirações, suas dificuldades é sempre muito instigante, e o jovem em geral tem muito pouca voz no cinema e na vida brasileira. Quando os jovens falam sobre si, o filme cresce, porque ali tem uma vida, um desejo, um olhar. Mas aí o filme corta e o diretor quer fazer montagem paralela pra dizer que no Nordeste tem uma menina que mesmo nas condições mais adversas consegue ser uma poetisa e é super inteligente, etc, etc. Aí quebra a relação..................

 

Mas o choque maior foi com Os Doze Trabalhos. Existe uma certa complacência com o trabalho do Ricardo Elias nos dois filmes, neste e no anterior De Passagem. O De Passagem era um filme fraco mas que apontava para algumas possibilidades e então várias pessoas resolveram apostar porque aquele era um primeiro filme. Bacana. Mas nesse Os Doze Trabalhos ele investe no que deu errado no filme anterior e parece não ter avançado onde se precisava, fazendo um filme bem fraco. Primeiro, é um filme muito básico quanto ao conhecimento de uma gramática cinematográfica. Soluções de decupagem constrangedoras, dificuldade de dar ritmo ao filme, de criar situações dramáticas que não sejam resolvidas apenas pelo roteiro e pelo diálogo, essas coisas básicas que mostram se uma pessoa é um diretor de cinema ou um roteirista que dirigiu um filme. O filme é muito mal resolvido e além disso tem um roteiro muito primário. Um garoto sai da Febem e arruma emprego de motoboy para não voltar ao vício. O filme é fica do lado do garoto (claro) só que o filme é muito preconceituoso: todas as pessoas que o garoto vai fazer a entrega  são vistas de um ponto de vista pejorativo ou depreciativo, com todos os estereótipos mais fáceis possíveis (a mãe fútil que fala ao telefone mas é abandonada pela filha, a outra mãe cujo filho só liga pra pedir dinheiro, o arquiteto rico mas drogado,etc, etc.). Esse olhar social para as minorias acaba sendo mero verniz, desculpa esfarrapada para ganhar edital: não há um olhar para essa realidade e para as dificuldades desse motoboy. O filme tbem fracassa profundamente da possibilidade de ser um filme sobre o percurso: percurso físico do garoto para as entregas que se confunde com um percurso humano, de descoberta. O filme tbem fracassa na possibilidade de ser um percurso por uma geografia de São Paulo, já que o garoto faz entregas o filme todo. E podemos nos alongar, se fosse o caso. Uma cena constrangedora é quando o menino vai buscar o anel com a ex-noiva de seu primo. Uma dramaturgia tosca, transformações de novela mexicana, quebra de eixo, luz e direção de arte de mau gosto, diálogos sofríveis, etc. Uma pena, mas depois de Os Doze Trabalhos não dá mais para apostar em Ricardo Elias como promessa. Um primeiro filme, vá lá, mas como segundo filme é uma enorme decepção.

 

Mas o que eu quero falar mesmo é sobre um filme chamado Santiago.

 

sexta-feira, março 23, 2007

O Cheiro do Ralo

O Cheiro do Ralo

De Heitor Dahlia

*

Odeon, qui 23 mar 21:30

 

Se por um lado o segundo longa de Heitor Dahlia após o fracasso (estético, de mídia, de público) de Nina mostra uma evolução do diretor e esclarece sua proposta de cinema, por outro ele aprofunda as deficiências do filme anterior. Dahlia parece querer promover quase uma espécie de síntese de um certo cinema paulista na forma como apresenta sua visão de cinema e de mundo, muito próximo ao olhar de certos filmes da O2. Um olhar que dialoga também com um certo cinema “independente” americano, ou ainda com as reminiscências ou com os estereótipos desse cinema (de Todd Solondz, Daren Arronofsky e simpatizantes). Por isso temos a sensação de que ao mesmo tempo que é um “filme tardio” (por se inserir tardiamente nessa vertente), é também um filme que mostra um processo, um percurso desse diretor dentro de um cinema brasileiro, de uma possível inserção num certo gueto da tentativa de um cinema “independente” brasileiro de uma proposta mais moderna mas que no fundo se revela profundamente conservadora.

 

*  *  *

 

Dito isto, Nina e Lourenço são meio-irmãos: personagens excluídos, solitários, reflexos de uma sociedade urbana em sua rotina massacrante. Dahlia não quer se apiedar dos personagens e usa estratégias quase opostas: seus protagonistas também fazem ações condenáveis e são oportunistas. Há em comum uma revolta com o mundo e consigo mesmo, mas de que forma esse inconformismo provoca um impulso para a ação, um desejo de transformação da ordem das coisas, de superação dos limites e desafios? Nenhuma, pois “a vida é dura”.

 

*  *  *

 

Um desejo em comer uma bunda. Pagar para comer uma bunda que se ama, pois é mais fácil pagar do que dialogar, ouvir, trocar. Não há troca possível em O Cheiro do Ralo mas ao mesmo tempo um pouco das pessoas fica com Lourenço. Um olho, uma perna mecânica, objetos sem valor. É preferível pagar a conquistar, porque ouvir, falar é muito difícil. É muito difícil e desgastante dar esse mergulho no mundo, esse abraço nessa realidade que nunca é da forma como a gente planeja e como a gente gostaria. Mas pagar é a solução? O risco é esse: tornar-se frio diante das coisas que se ama, tratar o amor como uma grande mercadoria, como moeda de troca. Até porque na compra, você também tem que barganhar, pechinchar, fingir que algo custa barato quando na verdade você pagaria muito mais caro por isso.

 

O amor como uma mercadoria, ou melhor, como mais uma mercadoria. Comprar o mundo, as pessoas, as coisas, aquilo que se ama para não ter que se envolver com as coisas, para não se expor. Para não se sujar com a vida. Mas uma hora ou outra a coisa acaba fedendo, como o ralo do filme. Não adianta querermos fugir: a vida é feita de pessoas e não dá para sair na chuva sem se molhar. É preciso coragem para curar as feridas e viver dadas as cicatrizes. Não dá para fugir de si mesmo. É preciso se olhar de frente.

 

*  *  *

 

Mas como o cinema de Heitor Dahlia lida com isso? De forma rasa, tola, superficial. Como um drama que não dá certo (o jantar em que Lourenço diz que não quer mais se casar) ou como uma comédia rasteira (os chavões das pessoas exóticas que vão lá trocar seus objetos, o estereótipo da drogada e do segurança, etc.). De que forma Dahlia abraça as contradições do seu personagem, de que forma ele mergulha nas feridas desse humano? Às vezes até o faz, mas em geral fica ao final da sessão de O Cheiro do Ralo um enorme desconforto, em parte pelo filme em parte pelo tom dado pela direção. É como se Dahlia fosse um espelho, alter-ego de seu próprio personagem: da sua incapacidade de lidar com o esgoto, de se prender à essência das coisas e resistir ao cinema das aparências (efeitos, piadas fáceis, esquetes de roteiro, música com clima, jump cuts estilosos, etc.), surge um cinema descosturado, imaturo, fútil, completamente deslumbrado diante de uma colcha de ilusões.

 

*  *  *

 

Que a vida é dura não temos dúvida. O que é preciso é fazer um cinema que diga isso para um espelho olhando-se de frente.

Mestre Kielowski

Está começando o É Tudo Verdade, que apresenta esse ano uma retrospectiva dos documentários do Kieslowski, antes de ele ingressar na ficção (quase todos antes). Eu baixei todos pelo emule mas ainda não vi, e talvez aproveite para ver. Tem também documentários raros sobre o Kieslowski que vão passar. Eu queria falar bastante sobre isso, mas o tempo urge, corre, voa. Da importância dessa Mostra e da necessidade de assistir a ela, nesse momento para mim, de tentar redescobrir aquela origem de tudo, isto é, a origem daquele que fez descobrir em mim a origem de tudo. De entender como ele chegou aos seus projetos de ficção a partir do documentário. Talvez eu escreva sobre isso depois, com mais calma. De qualquer forma, esse fato não poderia passar sem pelo menos uma nota aqui. Saudades.

 

sexta-feira, março 16, 2007

Belle Toujours

De Manoel de Oliveira

E-mule qui 15 março 2007

*** ½

 

a gente ouve algumas coisas sobre o que seja envelhecer. o manoel de oliveira pega tudo isso e joga na lata do lixo. a gente tambem ouve coisas sobre o papel dos remakes e das marcas numa perspectiva de redução do risco num cinema industrial. o manoel de oliveira pega tudo isso e joga na lata do lixo. a lata do lixo fica cheia. ele pega e descontrói todos os lugares-comuns em torno desses conceitos (o envelhecer, o cinema industrial) não com uma fúria e com um discurso inflamado mas com um enorme senso de ironia e generosidade, como uma grande piada. mas sem abrir mão de uma coisa, talvez mais essencial de tudo isso: O RIGOR. Belle Toujours é um filme sobre o cinema e o processo de criação, sobre o desejo e a virilidade, sobre o papel da representação, sobre os nossos sonhos, perversões e fantasias, mas também é um filme de um cineasta que insiste em dar uma risada na cara da morte não por deboche ou desdém mas é porque assim as coisas parecem ser. Catherine Deneuve não pôde fazer o papel por estar envolvida em uma produção milionária. Oliveira deu uma resposta que é uma síntese sobre o que está em jogo no filme: "lamento, mas eu não posso mais esperar". Com 98 anos, Oliveira não é o menino Tarantino atrás de suas estripulias ou o pervertido Sternberg atrás de seus fetiches. Na maturidade, Oliveira dá um abraço no mundo, um abraço que não é um de rotina mas também sem o drama de um abraço de despedida. Um filme que dá um enorme tapa com luvas de pelica naqueles que conspiram contra ter prazer aos noventa.

segunda-feira, março 12, 2007

mINHA VIAGEM À fORTALEZA (5)

Sábado à Noite

De Ivo Lopes Araújo

DVD 3 mar 10hs

** ½

 

Esse exemplar do DOCTV vindo do Ceará entra nessa mesma linhagem de produções que vim comentando um tempo atrás, sobre o Acidente, fantástico filme da Teia, de BH. Um filme que quebra todas as expectativas que temos sobre um possível “documentário para a TV”, ou seja, uma proposta moderna, instigante, um trabalho de ponta com o que se vem pensando em termos de linguagem.

 

Sábado à Noite, filme de Ivo Lopes Araújo, é um documentário livre, com imagens de um sábado à noite pelas ruas de Fortaleza. Ele surpreende primeiro pelo que ele não é. É, como já dissemos, um “anti-doc-para-TV”, no sentido de recusar o tom didático sobre o tema e a ênfase em entrevistas. Apresenta também, uma visão completamente distante do estereótipo do Nordeste que temos contato através do cinema brasileiro. Apesar de Fortaleza estar o tempo todo no filme, num certo sentido, o filme poderia ter sido realizado em qualquer outra metrópole brasileira. Aqui, estamos diante de uma Fortaleza urbana, longe do discurso de um Nordeste rural ou da exploração da miséria. Além disso, é um “anti-Sábado à Noite”, pois tudo aquilo que a princípio poderíamos esperar de um sábado à noite não está lá (as festas, a diversão, a alegria, a surpresa, o encanto, a vida).

 

Mas então o que está no filme de Ivo? Estão a cidade, os carros, as coisas e (às vezes) as pessoas que passam e que ficam. A cidade em preto-e-branco em seus planos estáticos e alongados. O percurso, de carro, ônibus ou van. Há um enorme sentimento e uma enorme tristeza em pertencer àquela cidade. Há um olhar íntimo mas ao mesmo tempo um olhar distante de tudo aquilo. Há uma enorme solidão num sábado preto-e-branco em que o esperado encontro nunca acontece.

 

É como se todo o filme fosse uma tentativa de encontro que nunca acontece. Um encontro em última instância desse realizador com a sua cidade, ou ainda, desse realizador consigo mesmo, com suas origens. E aí ficamos pensando nos curtas anteriores do Ivo, filmados no Rio, em que toda uma nostalgia da volta para o interior, para o Nordeste, é tão desejada. Mas quando se volta, o que há?

 

Parece haver uma cidade que é quase igual ao Rio, uma distância de tudo e uma solidão quase iguais ao que havia no Rio. Essa cidade que passa e que ao mesmo tempo fica. É então quase como o mote de Desertum e Em Casa: ao voltar, somos outros e essa casa é outra, então que tudo permanece o mesmo, seja na casa em que nascemos, na casa de hoje ou em Buenos Aires.

 

Mas é interessante vermos como Sábado à Noite, assim como o Acidente, e assim como (modéstia a parte) o Desertum, problematizam o status de representação da imagem e do registro documental. Uma imagem em câmera parada que funciona como registro é ao mesmo tempo reavaliada de forma altamente subjetiva. Em última instância, por trás do “cinema de registro” desses filmes há um forte componente de subjetividade, porque no fundo é o registro desse olhar e desse sentimento dos realizadores que estão por trás de tudo.

 

Há um fiapo de narrativa, um “discurso do acaso” que permeia Sábado à Noite, mas no fundo no fundo nada é por acaso: nesse sábado à noite o realizador encontra exatamente aquilo o que ele já esperava. Ou seja, não encontra nada. Sábado à Noite é um percurso pela noite e ruas de Fortaleza à procura de um encontro. Encontro que nunca se realiza até o final do dia, quando num relance de poesia e de ironia, a câmera fica com os pombos, elemento-síntese dessa mistura de liberdade e solidão que o filme tanto procura.

sábado, março 10, 2007

mINHA VIAGEM À fORTALEZA (4)


Dez é um filme do Kiarostami que dá continuidade a sua busca por uma
depuração de estilo, pela busca de um estilo que ao contrario das
estripulias visuais, quer uma economia, um minimalismo, um "menos" ao invés
de um "mais".
Mas menos para mais, claro. Um campo-contracampo dentro de um carro. O
quadro dentro do quadro. Interior ou exterior?
Um carro no transito. TRansito, uma ideia de percurso, muito cara ao cinema
do Kiarostami.
Aqui não há um discurso propriamente dito, apenas fragmentos de uma
realidade que so conhecemos a partir do discursar, a partir do que cada um
dos personagens diz. I.e nunca vamos saber se a mãe realmente negligencia a
familia ou se o o filho é machista, etc. É claro que não faz sentido
tentarmos ver quem tem a razão, mas apenas temos esses fragmentos da
realidade, e se achamos isto ou aquilo, se nos identificamos mais com um ou
com outro, vai tbem muito pela nossa propria visao de mundo, mais do que a
do filme.
Um IRã que foge do estereótipo do Irã rural que sempre conhecemos a partir
dos filmes iranianos. De uma certa forma, DEz poderia ter sido passado em
qualquer metrópole, apesar de o Irã estar muito presente no filme. Mas ao
mesmo tempo não, é um Irã atípico.
Um cinema digital. O papel da improvisação. A duração do plano. A voz off e
o fora de quadro.

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mINHA VIAGEM À fORTALEZA (3)

Rosetta é uma grande porrada, um dos enormes filmes do cinema contemporâneo,
e graças a Deus que o Cronemberg teve a coragem de descobrir esse filme em
Cannes e dar a projeção para o cinema dos irmãos Dardenne porque eles são
foda.
Outro filme sobre o desemprego mas aqui é "bem vindos ao cinema
contemporâneo", não tem discurso de vitimização e a representação não é mais
ingênua, aqui é muito mais complexo tanto o papel da representação quanto a
natureza (psicológica) de quem é essa menina.
Quem é essa menina? O filme é um grande mergulho nessa menina, mas ao final
ela continua enigmática, indecifrável, porque tem atitudes contraditórias,
não sabe o que quer, é confusa, não nos é linear. A linguagem tbem não é
ingênua, uma articulação madura e ambígua entre os limites do documentário e
da ficção, com uma camera asfixiante que nos dá uma enorme sentido de
urgência a esta história.
E um filme cruel mas profundamente humano e sensível, porque todo o filme é
um percurso para uma possibilidade de Rosetta finalmente se abrir ao mundo,
porque fechar-se diante de tudo não é saída de nada, a solidão total só
piora as coisas. E ao final parace que há uma certa esperança, parece que
pela primeira vez houve a possibilidade de aquela menina vislumbrar que o
mundo pode ser outra coisa se tivermos a coragem de nos abrir para o que der
ou vier.
Bonito isso, uma via-crúcis para uma possibilidade ainda que pequena de
redenção.
Ah e Rosette é o mouchette do cinema contemporaneo, com varios paralelos.

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acredita-se estar livre de perigo.

mINHA VIAGEM À fORTALEZA (1)

Rever Ladrões de Bicicleta depois de tanto tempo foi como que tentar reencontrar um sentimento perdido, tentar recuperar aquele momento mágico que é descobrir um grande filme que faz mudaqr você mesmo e faz mudar a sua vida. O rpoblema é que tanto tempo depois, você não sabe mais se o filme é aquilo mesmo que tanto te marcou ou se aquele sentimento na verdade é parte de você mesmo que acabou se inprimindo sobre o filme. De modo que rever um
filme desse porte é sempre um grande mergulho de nostalgia e ao mesmo tempo uma enorme inquietude, uma espécie de estranha máquina do tempo a partir de um filme que está ali com os mesmos fotogramas e diálogos a partir de um olhar móvel, de um eu móvel, de uma vida outra.
Mas ali estava eu diante de dezenas de pessoas a rever Ladrões de Bicicleta e tentar redescobrir aquele sentimento que me fez descobir o cinema como única alternativa de diálogo com a vida e com as coisas, quando já quase havia desistido de tudo, e havia encontrado ali uma possibilidade, um caminho, que vim a abraçar.
E ali estava o filme mas o que era o filme? o que poderia ser dito sobre o filme? Vi que na verdade em termos de linguagem e de abordagem dessa "realidade social", Ladrões de Bicicleta é um filme bastante velho, que envelheceu, por ter um discurso didático, por fazer essa romântica poesia da miséria", por colocar música o tempo todo para dar "drama" ao filme, etc. Mas ao mesmo tempo é claro como é um filme corajoso e num certo sentido bastante a frente do seu tempo, e como ainda hoje, quase sessenta anos após sua estréia, a repercussão e a influência do filme no cinema ainda são muito fortes e marcantes e presentes (vide o cinema de um Ken Loach). Ao mesmo tempo vi como é claro que de Sica faz um cinema humano, simples, singelo, sensível. Como o drama de Antonio Ricci é o drama da história da humanidade, o drama de estarmos diante de "um abismo de meio metro" entre nós e a felicidade, e como as coisas materiais nos envolvem de forma decisiva diante de um sentimento de mundo, e como isso é inevitável e irreversível. E como o filme faz um discurso ético sobre essa "decadência moral" e o papel da família nisso, e como não podemos estar sozinhos para resistirmos a tudo isso. Para mim tbem ficou claro como é um enorme filme sobre a solidão como natureza humana: todo o filme é uma enorme deambulação, um enorme passeio por Roma, e nisso é um filme enormemente contemporâneo. É quase como Corrida sem Fim mas a pé, e falado muito porque é italiano. Esse caminhar, caminhar, caminhar, caminhar, diante de si, a procura de justiça (é tbem um filme kafkiano), e como a sociedade, as instituições, as pessoas não conseguem responder a esse apelo por justiça, paz, equilíbrio e companhia. Como essa geografia física de Roma fala tanto no filme, fala mais até do que o protagonista, ou ainda, como a protagonista do filme é a cidade de Roma. Ainda como essa deambulação acaba cruzando com uma visão labiríntica dessa geografia física, e como o discurso racional e o irracional, as alucinações, os delírios acabam cruzando sutilmente essa narrativa tipicamente realista, dando um tom levemente estranho ao filme (esp na seq em que o pai pensa que o filho caiu na água, que achei a grande seq do filme). E tbem nesse doce, triste e fantástico final, em que fiquei meditando até que ponto ele era "otimista" ou pessimista", porque apesar de tudo, há uma redenção moral com o perdão do filho e o reforço dos laços da família (o filho apertando a mão do pai).

De qualquer forma, foi um enorme, enorme prazer, rever essa obra-prima do
cinema e da vida chamada Ladrões de Bicicleta.

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mINHA VIAGEM À fORTALEZA (2)

Nuvens Passageiras (Drifting Clouds), filme do Kaurismaki inédito no Brasil
que já comentei por aqui, também aborda a questão do desemprego tal como
Ladrões de Bicicletas, mas aqui não é a classe pobre italiana do pós-guerra,
e sim a classe média da Finlândia dos anos 90 prestes a entrar na Comunidade
Européia, essa classe média que está perdendo o seu padrão de vida, e tenta
desesperadamente recompor isso.
Mas a grande lição do Kaurismaki em termos de um "realismo da representação
social" é que não é preciso ser realista na mise-en-scene para conscientizar
as pessoas sobre um drama social que existe na realidade. Ou seja, se o
cinema conta uma história, faz um filme de ficção, ele já está encenando,
então não é preciso ser realista, é mais honesto dizer que é uma
representação "falsa" mas que tem inúmeros paralelos com a nossa vida.
O decor tem cores fortes, é todo filmado em estúdio, com atores em
representação totalmente não-realista (sem expressão facial e corporal),
etc, etc. I.e totalmente diferente do neo-realismo. Além disso tem um certo
humor, um humor atípico, estranho, quase um humor negro. Mas é um cinema
carinhoso, que tem um olhar e uma preocupação para essa realidade social que
vai além do filme.
Pensei tbem se é um filme "otimista" ou pessimista", já que, o final pode
ser entendido como um final falso, quase como A Última Gargalhada, já que de
repente o restauramente fica cheio e todo mundo se dá bem. Mas será mesmo?

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A cada dia que passa eu vou percebendo cada vez mais que se o cinema pode
ainda nos dizer alguma coisa ele precisa aprender as lições de WALDEN, e
cada vez mais sinto como o cinema de Jonas Mekas nos traz coisas sobre a
natureza do mundo e do cinema, contra essa natureza falsa da representação e
contra essa natureza falsa que a nossa vida cada vez mais está se tornando.
Nessa época de loucas e fugazes transformações tecnológicas, e que cada vez
mais o domínio do capital e as estruturas de poder é que ditam as regras do
mundo, o cinema de Jonas Mekas, e especialmente o WALDEN, nos diz que é
possível caminhar se voltarmos em direção às origens, e no caso do cinema,
com um abraço carinhoso no cinema de Lumière. Cinema dos sentidos, cinema da
vida, cinema infantil, cinema intelentual, cinema do espírito, cinema da
imagem, o cinema de Jonas Mekas é um doce percurso pelas possibilidades da
imaginação, pelas possibilidades de encantamento com o que há de mais
simples na vida, contra essa parafernália tecnológica para sinalizar que o
papel do cinema é essencialmente um papel do encontro, e não da imposição de
um discurso e de uma representação. Cinema caseiro porque usa a tecnologia a
favor do filme, e não contra o filme e a vida. Diário de memórias, filme
caseiro, prosa poética desse enorme mergulho que é vida, que não podemos
resumir senão sentir, Jonas Mekas gênio, mestre, aprendiz. Obrigado Jonas
Mekas.

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quarta-feira, março 07, 2007

Tinha escrito o texto mas esquecido de postar, então agora vai...

 

Porto da Minha Infância

De Manoel de Oliveira

DVD

** ½

 

Porto da Minha Infância tem um objetivo aparentemente modesto: é quase um filme de encomenda, proposto pelo produtor Paulo Branco a Manoel de Oliveira por ocasião do evento Porto 2001 – Capital Européia da Cultura. Como a cidade estava quase inteiramente em obras, Oliveira optou por fazer um retrato afetivo da cidade que o diretor tem em suas memórias, ou seja, um Porto íntimo, mais que um Porto objetivo. Além disso, foi a oportunidade de Oliveira resgatar suas origens, já que seu primeiro filme, Douro, Fauna Fluvial também era um documentário sobre a cidade. Mas o estilo de cinema de Oliveira é claramente perceptível: a busca por um cinema clássico, de grande elegância formal, os planos longos, o campo-contracampo, a voz off e a preferência pela palavra, o extremo rigor do uso dos elementos de linguagem. A cidade do Porto ontem e a cidade do Porto hoje: duas cidades e a mesma cidade. Dois cinemas e o mesmo cinema. A origem e o presente. Com grande simplicidade mas com grande singeleza, Oliveira vê o Porto de ontem a partir de um olhar presente. Essa nostalgia é então contrabalançada por uma vontade de viver. É como diz o mestre Paulinho da Viola “Eu não vivo no passado; é o passado que vive em mim.”. Esse tema da revisitação a partir de hoje ganha aspecto especial (quase um plano-síntese) no final quando Oliveira mostra o pioneiro do cinema português filmando a saída dos operários das fábricas no Porto de hoje. Por trás disso, a câmera de Oliveira “recria essa recriação” (ou ainda, por trás da câmera do pioneiro português, há a câmera de Oliveira). A voz em off e as seqüências encenadas nem todas têm o mesmo brilho mas a marca de Oliveira está sempre no filme.

segunda-feira, março 05, 2007

sou um poeta

que não sabe viver

o que cria

 

o mundo é cinza

a página, branca.