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Cinecasulofilia

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quarta-feira, junho 27, 2007

Une Vie

 

Une Vie

Alexandre Astruc

Emule, dom 24

***

 

Esse final de semana vi Une Vie, de Alexandre Astruc. Sempre tive curiosidade de ver um filme desse realizador francês que é mais conhecido como teórico (seu famoso texto sobre a “câmera-caneta”) do que como realizador. Através do emule tive acesso a esse estranho filme. Muita coisa eu não peguei, já que vi o filme em francês sem legendas, mas mesmo assim o filme é muito impressionante. Aparentemente o filme é mais um exemplar do “cinema francês de qualidade”, uma adaptação literária com mão pesada e tons corretos. Mas pouco e pouco o olhar cinematográfico de Astruc se impõe. Na verdade já o faz desde o início, com um brilhante uso da cor e com planos longos que não raras vezes nos lembram do cinema de Max Ophuls. A história de traição a princípio não nos traz muito interesse, mas o tom ambíguo, um certo clima sensual e misterioso ao mesmo tempo, um olhar lúgubre, sempre triste, um ritmo solene mas profundamente observador. Grande filme esse do Astruc. O marido trai a mulher com uma, com outra; há um filho, que faz com que o casal se reaproxime, para depois se afastar: o que fazer? Delirante, perfeccionista, quase como uma valsa fúnebre, Astruc, com um total domínio da linguagem, acompanha essa decadência moral dessa mulher de uma forma que sabemos que uma tragédia iminente se aproxima. Mas sem deixar de ser profundamente respeitoso e apaixonado. Afinal, é possível se entregar às paixões desse mundo sem causar um enorme estrago especialmente a nós mesmos?

Separações, Feminices, Carreiras: três trabalhos simples, menores, mas apaixonantes de Domingos Oliveira. Três filmes coerentes, o desenvolvimento de uma filmografia de mais de trinta anos: o trabalho com o digital, o cinema de atores (atrizes), a crônica de costumes da classe média carioca. Um cinema um tanto desleixado com a dramaturgia mas que até isso revela tanto de sua visão de cinema e de mundo. Três filmes que, por trás da comédia, se revelam filmes tristes, filmes que sopram um certo desencanto com um cinema e com um Brasil, mas que permanecem tentando, pensando em como isso se reflete nas relações pessoais. Entre os três (não vi Amores) um certo caminho de desencanto, que cada vez mais vai se aprofundando. Desde a fissura da relação de Separações (como o próprio título afirma), passando pelo “filme possível” (a impossibilidade de se fazer o que se gostaria) e a metalinguagem de Feminices, até o desabafo verborrágico de Carreiras. Um caminho em que o drama fica cada vez mais claro por trás da comédia.

sexta-feira, junho 22, 2007

 

Não por Acaso e Cão Sem Dono: dois belos filmes paulistas, que quebram esse lado rancoroso e carrancudo do cinema paulista para apostar na generosidade e no papel do encontro. São dois filmes que mostram personagens endurecidos que abrem seu coração para uma possibilidade de afeto. Pode-se pensar que não são filmes paulistas (Barcinski é carioca e Cão Sem Dono é todo filmado no Sul), mas não importa: “esse” cinema paulista está dando de dez a zero no cinema carioca.

(Bis) Carreiras

Texto publicado nesse blog, uma reflexão sobre Carreiras, de Domingos Oliveira, visto no Festival do Rio em setembro de 2005. Quase dois anos depois, o filme é lançado comercialmente (vejam que maluquice). Reli o texto, e achei bem atual do que ando sentindo hoje. Fiquei até com vontade de rever o filme.....rs

 

http://cinecasulofilia.blogspot.com/2005/09/carreiras.html

segunda-feira, junho 18, 2007

Texto sobre meu video

Caros,

No link abaixo vai um texto publicado sobre meu último vídeo: DIÁRIO DE UMA PROSTITUTA.

Por enquanto eu ainda estou sendo discreto em relação a ele, mas aguardem surpresas!

 

http://www.viapolitica.com.br/cinema_view.php?id_cinema=56

 

 

 

quinta-feira, junho 14, 2007

Cão Sem Dono

Cão Sem Dono

de Beto Brant

Odeon seg 11 21hs

** ½

 

(o cinema como um “conviver com as pessoas”, e não um “esperar as conseqüências de suas ações”)

 

Cão Sem Dono comprova que Beto Brant é hoje o cineasta brasileiro que mais tem o que dizer. Depois de um projeto duro e rigoroso como Crime Delicado, nada melhor que um filme despojado e jovem como Cão Sem Dono. Mudar apenas para continuar o mesmo, porque é incrível como, apesar das enormes diferenças, no fundo Cão Sem Dono é um projeto em continuidade com o cinema de Brant, mas é uma continuidade diferente do “cinema de sempre”, dos caminhos que se espera do chamado “cinema de autor”. Com Crime Delicado e Cão Sem Dono, Beto Brant comprova a sua maturidade, a sua coragem para mudar de rumos, exatamente para manter a coerência da sua proposta de buscar sua linguagem pessoal. Além disso, Cão Sem Dono é um dos raros filmes brasileiros que sentimos estar antenados com uma idéia de cinema contemporâneo, que não “parou no tempo”. Mas ao mesmo tempo é um filme completamente despreocupado com as grifes do cinema de autor e das preocupações de inserção no panorama dos festivais internacionais.

 

Tanto é assim que uma das maiores virtudes do filme é a busca por uma linguagem jovem, e aqui resgatamos o que dizíamos sobre Proibido Proibir. Enquanto este tem uma linguagem velha, didática, Cão Sem Dono é um filme  - este sim - de alma jovem, que procura mergulhar no sentimento dessa juventude, de sentir esses passos, de viver com eles. É claro que o mais correto é dizer que Cão Sem Dono é sobre e para jovens com uma faixa etária um pouco acima (não estão na universidade, mas acabaram de sair dela), mas de qualquer forma é um filme jovem, e sua referência de juventude está tbem muito nas relações com o cinema de Jorge Furtado (e nisso é muito sintomático que o filme tenha sido feito no Sul, e tbem fora dos grandes  centros). Só que enquanto Furtado ainda usa o cinema de high-school americano como referência, aqui Beto Brant tem um olhar mais próximo ao cinema contemporâneo, por usar uma narrativa livre, por confundir o espectador quanto às motivações dos personagens, por abrir um enorme espaço para o improviso e para os planos longos, e (especialmente) por um trabalho muito singular de fotografia e câmera, que, de um lado, dialoga com uma espécie de cinema documental e que, por outro, confere uma liberdade que nos aproxima muito mais dessa experiência de viver com os personagens (mais do que “acompanhar suas ações”).

 

Por outro lado, Cão Sem Dono em alguns momentos nos parece irregular e mal costurado, mas em outros nos fascina com seqüências de verdadeiro e intenso cinema. E no fundo é muito bacana essa tentativa despojada de Brant. Duas coisas me incomodaram em muito: o excessivo número de fades (recurso de narrativa clássica para passagem de tempo quando aqui não era o caso), e o final, falso, com clima de fábula, que fecha abruptamente o filme e tira um pouco da sua poesia.

 

Mas em alguns momentos é muito fascinante a liberdade de Brant em como o filme abraça essa possibilidade de viver desses jovens, e a gente fica pensando como o cinema pode acompanhar uma vida, viver com as pessoas, mais do que meramente esperar as conseqüências de suas ações. Isso me dá muitas idéias, me estimula muito, embora as coisas que eu queira fazer vão em outra direção. De qualquer forma, uma experiência muito positiva.

 

Não Por Acaso

Não Por Acaso

de Philippe Barcinski

São Luiz 4 qua 13 19:20

* ½

 

Não Por Acaso era um dos filmes que eu tinha maior expectativa, desde que acompanhei, há bastante tempo o desenrolar do projeto, e tive acesso a uma versão do roteiro, aqui onde trabalho. Barcinski é um dos mais talentosos curta-metragistas da nova geração, e por ocasião da Mostra do Filme Livre, escrevi um trabalho sobre a sua filmografia, tentando defender que Barcinski não é simplesmente um formalista mas que seus trabalhos apresentavam um diálogo entre razão e emoção, que por trás dos jogos formais de grande rigor existia um coração que pulsava. E o que estava em jogo no roteiro era exatamente isso: era como se Barcinski fizesse uma espécie de resposta aos críticos que diziam que seus trabalhos são muito formalistas e que seu estilo não serviria para um longa. Seu projeto era uma espécie de resposta a isso, uma espécie de reação de uma humildade profunda mas sem abrir mão de uma proposta de cinema pessoal que ele vinha desenvolvendo nos seus trabalhos anteriores. De um lado, um longa “com vários curtas dentro”, com uma narrativa fragmentada em histórias paralelas que inesperadamente se cruzam a partir de um acidente de carro (como em Amores Brutos). De outro (e isso é o que eu achava mais emocionante), um trabalho sobre pessoas que, a partir de acontecimentos de um “acaso”, acabam pondo em cheque suas convicções racionalistas, e com isso se abrem para o mundo. Ou seja, o acaso provoca uma falência de um  sentido racionalista, como no primeiro episódio do Decálogo do Kieslowski. As relações entre acaso-destino e entre racionalismo-intuição me fizeram associar o projeto ao cinema do Kieslowski e isso na época me impressionou muito. Como se esse longa fosse na verdade o próprio processo para o Barcinski de quebra desse lado formalista e de entrada num mergulho de um cinema de atmosfera e de personagens, de dramaturgia, de carne e osso. Da mesma forma, o que me chamou muito a atenção é que o projeto de Não Por Acaso é tudo o que eu sempre acreditei que deve ser um “primeiro filme”: uma espécie de colocar-se à prova, de ser uma declaração de princípios do que se espera do cinema, e de até que ponto se está apto para fazer isso ou não. Por tudo isso, as expectativas em torno do filme eram as maiores possíveis.

 

Mas aos poucos eu fui percebendo que o filme não aconteceu, ou não aconteceu como inicialmente se previa. Primeiro, a não-seleção em Cannes, e sua passagem muito discreta pelo circuito dos festivais, a que a filmografia do Barcinski está bem acostumada.

 

Mas fui eu lá para ver o filme, só depois de ele ter estreado comercialmente, com uma ansiedade do tamanho do mundo. E me deu uma grande tristeza ao final da projeção. Pois se Não Por Acaso não é um filme ruim (ao contrário, ele está bem acima da média dos filmes ficcionais que estão sendo feitos no Brasil), por outro lado me passou a impressão de ser um projeto abortado, de ser um retrato pálido de tudo o que estava em jogo para Barcinski no filme. E creio que muito dessa “palidez” se reveste no eterno conflito entre arte e indústria, entre mercado e festivais. Para fazer um filme que “tivesse um apelo maior”, Barcinski simplesmente fugiu das características da sua filmografia e fez um filme sem alma, sem sangue. Imagino que as pressões da O2 e da Globo Filmes tenham contaminado o projeto de forma a tirar dele sua possibilidade de expressão e poesia. E lamentei muito que o Barcinski não tivesse a possibilidade de enfrentar isso e superar essas dificuldades e buscar a sua linguagem pessoal, que está quase que adormecida no filme. Até porque claramente o filme é bastante pessoal, mas isso foi se esmaecendo até a versão final do filme, que é quase sem tez. O grande exemplo disso é o uso da música, que já foi muito comentado, o quanto é ruim, vulgar, sem inspiração.

 

O grande avanço de Barcinski foi fazer um filme afetuoso, intimista, sobre esses personagens que, tendo que reagir diante de uma morte, acabam encontrando um mundo, uma nova possibilidade. Fez um filme sóbrio, sem grandes estardalhaços sobre o tema, um filme simples. Um filme de atores, em especial Leonardo Medeiros e Rodrigo Santoro, ambos muito bem, em especial Santoro, que compõe um jogador de sinuca sem os estereótipos da “malandragem” que seriam típicas do jogador, e ao mesmo tempo compõe um personagem avesso aos maneirismos do galãzinho jovem. Corpo, olhar, intenções, trabalhadas de forma simples mas muito funcional. Por outro lado, as mulheres não estão tão bem: Sabatella está péssima, e a outra menina namorada do Santoro que morre é totalmente sem expressão.

 

Por outro lado, em termos da artesania do filme, esperava muito mais, já que os curtas de Barcinski sempre se destacaram pelo esmero visual. Nisso Não Por Acaso é meio relaxado, especialmente quando pensamos nesse lado obsessivo pela racionalidade dos dois personagens principais. Isso, que no roteiro era levado às últimas conseqüências, no filme ganha um contorno tímido, mas que ainda assim são as melhores partes do filme (as jogadas na sinuca, o mapa de trânsito, etc.). Mas no geral, a fotografia e a decupagem não revelam aquele rigor típico dos filmes do Barcinski e que aqui seria interessante para acentuar esse lado racionalista e frio dos personagens, que aos poucos vai se quebrando (esse seria o encanto do filme em termos visuais...)

 

Um ponto que se destaca no filme é como Barcinski filma a cidade de São Paulo, como essa geografia física é elemento constante no filme, e de uma forma criativa, em como a cidade caótica é vista com um certo olhar de poesia pelo diretor. Ora, se é preciso extrair poesia do fundo de seus personagens obsessivos pela racionalidade, o mesmo pode ser pensado para a cidade de São Paulo. Aparentemente “formalista” e “racionalista”, a cidade tbem desvela por trás de suas veias de aço, seu coração humano e sensível. A relação entre a geografia urbana e íntima, entre as superfícies e o interior, da cidade e das pessoas, dá um tom afetivo ao filme, até porque Barcinski escolhe sempre os meios-tons, e não carrega no melodrama, o que é sempre acertado.

 

Simpático, cheio de boas intenções (o papel do acaso, a morte como encontro, a crise da racionalidade, a geografia urbana), Não Por Acaso revela um cineasta talentoso, mas que entregou seu projeto para a necessidade de “falar menos para mais pessoas”. Esperamos, sinceramente, que Barcinski, com as lições do que não funcionou, aposte na sua linguagem particular, porque certamente é um cineasta que tem o que dizer. Mas precisa dizer isso da sua forma, e não de uma forma outra. A busca de Barcinski por um cinema afetivo e íntimo, dada a sua trajetória, é comovente, mas é preciso fazer isso sem perder sua linguagem rigorosa e particular. É preciso ter ternura sempre mas sem perder o rigor.

 

 

segunda-feira, junho 11, 2007

Paris Hilton presa

Do outro lado do mundo, nos Estados Unidos, temos o lado oposto mas que confirma a regra. A notícia da (primeira) entrevista de Paris Hilton, direto do Centro de Detenção Regional de Lynwood, é a mesma entrevista da japonesa Riyo Mori. A entrevista foi transmitida em rede nacional, para milhões de pessoas. Parece um trecho tirado do filme Assassinos por Natureza, quando pensamos na exposição de mídia, ou ainda, parece que estamos no Brasil, quando se fala dos privilégios a certos detentos. Mas não: estamos na quintessência da civilização do século XXI, no coração da nação americana. A estrela Paris Hilton é presa, mas recebe tratamento de superstar. Agora, ela descobriu sua paz espiritual na prisão, ainda que sua pele esteja um pouco ressecada. Deus deu a ela uma nova chance, a de explorar uma nova faceta, que irá lhe render vultosos frutos: livros de auto-ajuda e a inserção no mercado espiritual, dias após o escândalo da Igreja Renascer. As pessoas são a sua imagem, e mesmo que a pele esteja um pouco ressecada, essa pode ser uma oportunidade de se metamorfosear, permanecendo o mesmo. E assim gira a roda da vida e das coisas, como se fosse um trecho do início de La Ronde, ou qualquer opereta de Max Ophüls (só pra dizer que falamos um pouco de cinema...)

 

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2007/06/11/296099395.asp

 

 

Miss Universo

 

O discurso da japonesa Riyo Mori após sua vitória no concurso de Miss Universo revela o que existe nas entrelinhas: não uma tentativa de “congraçamento”, ao mostrar para o Ocidente a beleza do Outro, do oriental, mas sim uma tentativa de “achatamento”, ou ainda, de ocidentalização. Quase como uma americana, Riyo Mori fala sobre poder, sobre preparação, sobre os artifícios e estratégias para atingir o seu objetivo. Fala de autoconfiança e de autoridade. A vitória de Mori traz para o Japão a possibilidade de uma febre de negócios, de um modelo de beleza: padrões – não só de beleza e de negócios mas especialmente de mídias – que, são, claro, padrões ocidentais. É o neo-mercantilismo das aparências, das futilidades, da necessidade de a mulher ser reconhecida pela sensualidade e pelo desejo. Mas agora não mais cabe a sensualidade das gueixas e dos ritos ancestrais nipônicos: é preciso uma estratégia de preparação para o business, para a projeção internacional. É preciso ser mais objetivo, pois a fila anda.

 

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2007/06/11/296098554.asp

 

 

sexta-feira, junho 01, 2007

mais videozinhos

 

Comecei a realizar uma série de videozinhos inspirados no trabalho de Abbas Kiarostami e nos vídeos de Marcellus L. O primeiro é um referência ao trabalho do mineiro de a man. a road. A river. já pelo título: a woman. an airport. an escalator. É um trabalho que tem tintas formalistas mas na verdade tem uma forte busca por uma transcendência, pelo que há “além da imagem”. É isso o que está em jogo nesssa “série”: a tentativa de realizar filmes de plano único, com uma câmera parada e um (relativo) movimento interno. Uma simetria, um materialismo mas também um movimento do espírito.

 

Em a bag in the wind, o segundo, já existe uma simetria intensa, até maior do que o primeiro, e por isso acho mais bem sucedido, em seu minimalismo, em sua concisão e nas possibilidades de pensarmos além da imagem, o que me remete ao primeiro episódio do Kiarostami no Five.

 

 

Comentei o A Leste de Bucareste na época de sua exibição no Festival do Rio do ano passado. Ele agora está em cartaz no Rio e é uma ótima oportunidade para ficarmos atentos ao cinema romeno, que com o prêmio em Cannes está agora na crista da onda. O Link do meu texto neste blog vai aí:

 

http://cinecasulofilia.blogspot.com/2006/10/fest-rio-8.html