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Cinecasulofilia

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segunda-feira, agosto 13, 2007

Filmes - Primeiro Semestre

Mesmo com muito atraso, segue uma relação dos filmes vistos no primeiro semestre. Fiz algumas correções de “notas”...

A conclusão é que ando vendo muito menos filmes que há dez anos atrás. Ou seja, ainda há esperança para a minha doença crônica.

 

 

Brasileiros Recentes:

Acidente, de Cao Guimarães e Pablo Lobato ****

Santiago, de João Salles *** ½

Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo ** ½

Cão Sem Dono, de Beto Brant ** ½

O Passageiro, de Flávio R. Tambellini **

Carreiras, de Domingos Oliveira **

Descaminhos, de diversos diretores **

Não Por Acaso, de Philippe Barcinski * ½

O Baixio das Bestas, de Cláudio Assis *

O cheiro do ralo, de Heitor Dahlia *

Pro dia nascer feliz, de João Jardim *

Proibido Proibir, de Jorge Duran *

Os Doze Trabalhos, de Ricardo Elias 0 ½

A Grande Família, de Maurício Farias 0 ½

 

Estrangeiros – Cinema :

O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro ***

A Leste de Bucareste, de Corneliu Porumboiu **

Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood **

Pintar ou fazer amor, de Arnaud e Jean-Marie Larrieu **

Babel, de Alejandro González Iñarritu * ½

Inferno, de Danis Tanovic 0 ½

 

E-Mule/DVD “Recentes”:

Belle Toujours, de Manoel de Oliveira *** ½

Last Days, de Gus Van Sant ***

A virgem desnudada por seus celibatários, de Hong Sang-Soo ***

Inocência Selvagem, de Philippe Garrel ***

A mulher é o futuro do homem, de Hong Sang-Soo ** ½

Porto da Minha Infância, de Manoel de Oliveira ** ½

Conto de cinema, de Hong Sang-Soo ** ½

Mulher na praia, de Hong Sang-Soo **

O poder da província Kangwon, de Hong Sang-Soo **

 

E-Mule/DVD “Antigos”:

O Filme de Nick, de Wim Wenders ***

Une Vie, de Alexandre Astruc ***

De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio ***

 

Mostras/Cinemateca:

Os Sem Esperança, de Miklos Jancso ****

O engano, de Mário Fiorani 0

 

Revisão :

Rosetta, dos Irmãos Dardenne ****

Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica *** ½

Serras da Desordem, de Andrea Tonacci *** ½

Dez, de Abbas Kiarostami ***

Nuvens Passageiras, de Mika Kaurismaki **

 

Filmes pendentes

Um Ramo, de Juliana Rojas e Marco Dutra **

Tapete Vermelho, de Luiz Alberto Pereira * ½

Em Busca da Vida, de Jia Zhang-Ke ***

 

entrevista com Dellani Lima em 2004

Uma coisa que há muito tempo eu queria postar nesse blog é uma entrevista feita comigo pelo Dellani Lima, quando, na época, eu não o conhecia. Hoje o conheço um pouco mais, pelos seus trabalhos e em encontros esporádicos. A entrevista foi feita em 2004, e por isso ao mesmo tempo em que está desatualizada, permanece muito atual para mim. Ela não foi publicada, e ainda tive um pequeno desentendimento com outra pessoa por causa dela. Bom, queria postar aqui não para “massagear meu ego” mas principalmente porque as respostas me satisfizeram em muito, e mostram com muita precisão o que penso sobre o audiovisual.

 

 

2.  COMO INICIOU SEU CONTATO COM O AUDIOVISUAL;

Comecei inicialmente vendo filmes, acima de tudo sou um grande cinéfilo. O contato propriamente dito com o meio cinematográfico se deu com minha entrada no curso de cinema da UFF.

 

3.  QUE TIPO DE PROJETO AUDIOVISUAL ANSEIA;

É muito difícil dizer qual é o tipo de projeto que se busca: a princípio estou aberto ao maior escopo possível de experiências. Hoje, poderia dizer, se isso for possível, que busco um cinema da ética, que trabalhe a linguagem mas não esqueça o Homem, sua solidão e seu espaço no mundo em que vive.

 

4.  SUAS REFERÊNCIAS ESTÉTICAS;

Minhas referências estéticas são os filmes e os cineastas de que gosto. Para sempre, Kieslowski, a quem devo meu desejo de fazer cinema. Atualmente, os primeiros curtas de Wim Wenders, e os filmes de Manoel de Oliveira, Jonas Mekas, Yasujiro Ozu, Andrei Tarkovsky. Hoje, dois filmes não me saem da cabeça: Le Trou e O Sol do Marmeleiro.

 

5.  SOBRE BITOLAS OU SOBRE O HÍBRIDO DA VELHAS E NOVAS TECNOLOGIAS: PRODUÇÃO X DISTRIBUIÇÃO X EXIBIÇÃO;

As novas tecnologias sempre oferecem uma nova oportunidade ao realizador: é preciso, no entanto, que ele saiba distinguir os modismos, que ele aproveite o que há de melhor e que assuma seus pontos desfavoráveis.

 

6.  QUAIS AS MAIORES DIFICULDADES ENFRENTADAS PARA A REALIZAÇÃO DE SEUS PROJETOS;

Sem dúvida, recursos, sempre são o principal fator. Mas há que se pensar os canais de exibição do cinema alternativo: meus pequenos vídeos ainda foram muito, muito pouco exibidos.

 

7.  COMO VÊ O ATUAL PANORAMA DO CINEMA NO BRASIL E NO MUNDO;

O cinema brasileiro passa por grandes mudanças, mas ainda se depara ante a questão de sempre: entre o artesanal e o industrial, pendendo ora para um lado ora para outro da balança. Talvez nesse momento o pêndulo tenda para o industrial, mas é justamente nesta hora que o cinema artesanal deve marcar sua presença e sua relevância.

 

8.  INFLUÊNCIAS DE OUTRAS ARTES OU MANIFESTAÇÕES CULTURAIS EM SEUS PROJETOS

(ver 14)

 

9.  O QUE ACHA DO CIRCUITO DE FESTIVAIS BRASILEIROS

Os festivais de cinema brasileiro em geral ainda continuam muito restritos para obras que realmente busquem um trabalho inovador e mais ousado em termos de linguagem. São poucos os festivais e mostras brasileiros que realmente buscam um olhar renovado. Isso não se verifica apenas no Brasil, mas em festivais de todo o mundo, inclusive os de grande porte.

 

10.  EXISTE CINEMA INDEPENDENTE NO BRASIL?;

Cheguei a escrever um texto sobre o tema, disponível no site CurtaoCurta. Acho que nenhum cinema ou arte no mundo é absolutamente independente. No que se refere ao Brasil, é ainda mais grave, fora a cinematografia norte-americana e indiana, como se pode falar de um cinema independente? Creio que em última instância tudo dependa de como se define a “independência” no cinema. O “cinema independente” não deixa de ser uma utopia.

 

11.  COMO SÃO REALIZADOS SEUS PROJETOS;

Atualmente, meus projetos são feitos de forma bastante particular. Em alguns deles (Casulo, Alvorecer, Entremeio), cheguei a trabalhar absolutamente sozinho, da pré-produção, filmagens e finalização.

 

12.  SOBRE A INTERNET [REDE X DISTRIBUIÇÃO X INFORMAÇÕES X UPGRADE];

A internet permitiu uma pequena revolução em relação à circulação de informações. É impressionante a oportunidade para se conhecer pessoas, reforçar contatos em comum e disseminar informações. Como crítico de cinema, é impressionante a liberdade de expressão e as redes que se formam com a chance de ter um texto publicado na internet, quando, antes de sua criação, seria muito mais improvável.

 

13.  SOBRE CRIAR COLETIVAMENTE;

Não acredito que a criação seja coletiva. A criação é individual: parte do indivíduo. Numa equipe numerosa, o diretor tem exatamente a função de harmonizar as diferentes criações em torno de um objeto comum, de um projeto comum. Mas acho que isso não implica que a criação seja coletiva.

 

14.  OUTRAS MANIFESTAÇÕES E SUAS INTERAÇÕES COM O AUDIOVISUAL;

A partir do momento em que se vive o cinema, tudo acaba se tornando audiovisual. Aprendemos com os mestres que cinema é literatura (Manoel de Oliveira, Rohmer), é arquitetura (Straub, Lang), é pictórico (Tarkovsky, Murnau, Mizoguchi), é espírito (Bresson, Dreyer), é ressureição (Dovzhenko, Rossellini), é vida (Mekas, Ozu, Kieslowski).

 

15.   SOBRE TENDÊNCIAS POLÍTICAS QUE PERMEIAM SUA PRODUÇÃO OU ESTÉTICA: MOVIMENTOS SUBVERSIVOS X CONTRA-CULTURA X PÓS-PUNK X SOCIABILIDADE ELETRÔNICA;

Meu cinema não é exatamente político no sentido estrito da palavra. Acredito que a política que permeia meus projetos fílmicos é a política da imagem, a política da linguagem. Acho dois filmes tão distantes quanto Prenda-me se for capaz ou O Pântano muito mais políticos que os últimos filmes de Ken Loach, por exemplo.

 

16.  A RESPEITO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA;

A formação acadêmica no caso do cineasta pode ser importante, mas não é o único meio de que se dispõe. O cineasta deve ter o conhecimento e a disciplina, que as escolas de cinema podem lhe oferecer. Mas sua “formação” passa muito além de uma formação meramente acadêmica: a formação para o verdadeiro cineasta é acima de tudo uma formação do espírito ou do olhar.

 

17.  EXISTE OU PROCURA-SE UMA INDÚSTRIA AUDIOVISUAL NO BRASIL?;

É uma pergunta difícil que não tem resposta. Eu diria que durante toda a história do cinema brasileiro tentamos em vão responder esta pergunta. Falando no audiovisual como um todo, é claro que existe um “mercado” (termo talvez melhor que uma “indústria”) mas ainda incipiente: ele pode se desenvolver muito mais, tanto em termos de volume quanto em termos criativos.

 

18.  SOBRE INCENTIVOS CULTURAIS PÚBLICOS E PRIVADOS X OUTRAS ALTERNATIVAS;

Não se faz cinema em nenhum lugar do mundo sem um anteparo do Estado, e isso é um processo político, ideológico e histórico. Por outro lado, também não se faz cinema sem mercado, principalmente num país das dimensões territoriais e econômicas do Brasil. Negligenciar um ou outro lado é tolice: o ideal é buscar um equilíbrio. O incentivo público é necessário, o que não pode é que tanto Xuxa Abracadabra quanto Filme de Amor busquem seus recursos no mesmo guichê.

 

19.  E O QUADRO SÓCIO-ECONÔMICO DO PAÍS E SUAS REAÇÕES?;

 

 

20.  COMO IMAGINA O CINEMA OU O AUDIOVISUAL DOS PRÓXIMOS ANOS?;

Creio que o cinema atualmente passa por uma entressafra, por uma espécie de crise. Os grandes realizadores da atualidade (Tsai, Oliveira) são os que vêem a crise como sinal de oportunidade.

 

21.  SOBRE O ELENCO E O TRABALHO COM OS ATORES

Atualmente venho me debruçando cada vez mais sobre o trabalho do ator, apesar de ter muito pouca experiência ou intimidade com o assunto. Isso porque para mim cada vez mais o cinema é dramaturgia, e não há dramaturgia sem um elemento humano em cena. As possibilidades do ator em cena são infinitas, as programadas e as não-programadas. Saber lidar com o ator é como cultivar uma pequena planta, é como criar um filho, cuja repercussão última acaba sendo absolutamente incontrolável. Creio que o diretor deve ser uma espécie de mestre para o ator, orientando-o para que este busque as respostas e a melhor expressão do personagem, para que satisfaça o ator, e não o diretor. Se o ator estiver no espírito do filme, absorver as orientações do mestre e trabalhar com afinco na busca da verdade do personagem, ele terá maiores probabilidades de incorporá-lo da forma mais adequada. O diretor deve orientar, mas a resposta deve partir do próprio ator. Por outro lado, o diretor deve inspirar o respeito e a confiança do ator. É pelo menos como procuro seguir.

 

22.  COMO CONSIDERA A ÚLTIMA SAFRA DE REALIZAÇÕES AUDIOVISUAIS NO BRASIL;

Não tenho visto muitos filmes brasileiros que tenham me marcado, que tenham me emocionado, e tenho visto praticamente todos os filmes brasileiros lançados comercialmente. Lembro-me agora apenas de dois casos: Filme de Amor e Edifício Master.

 

23.  SOBRE A DRAMATURGIA DE SEUS PROJETOS [COMO SÃO REALIZADOS OS ROTEIROS]

Atualmente meus projetos passam por uma crise de expressão, pelas impossibilidades da linguagem. Tento trabalhar meus pequenos vídeos em cima de variações de recursos expressivos que me interessam: de um lado, o plano fixo, as naturezas mortas, os tempos de espera, os silêncios; de outro, a dificuldade de expressar os sentimentos, a circularidade da rotina, a miserabilidade da condição humana. Creio que esses pequenos exercícios poderão me auxiliar em projetos mais ambiciosos, quando for chegada a hora.

 

24.  QUEM SÃO OS OUTROS NOVOS REALIZADORES OU COLETIVOS DE SEU INTERESSE E QUE PRODUZEM OBRAS DE RELEVÂNCIA PARA O DESENVOLVIMENTO DO AUDIOVISUAL NO PAÍS?

É difícil falar de obras de relevância, o conceito de “relevância” para mim é muito esguio, muito falacioso... Como disse antes, os dois filmes nacionais recentemente que me marcaram foram Filme de Amor e Edifício Master. Entre os estrangeiros, este ano pude ver filmes que ficarão comigo como Encontros e Desencontros, Intervenção Divina e A Vila.

 

25.  A RELAÇÃO DE TODAS AS SUAS OBRAS OU AS PRICIPAIS QUE DESEJAR

Depois da Noite (1999, 14´)

Casulo (2000, 8´)

Alvorecer (2001, 8´)

Entremeio (2001, 10´)

Spencer, ontem, hoje e sempre (2002, 10´)

Tesouro do Samba (2003, 10´)

Canção de Amor (2004, 10´)

Cinediário (2004, 22´)

 

26.  CASO QUEIRA MANIFESTAR OUTRAS QUESTÕES SOBRE O AUDIOVISUAL OU OUTRO ASSUNTO O ESPAÇO É ABERTO

 

O Mentiroso

O Mentiroso

De Tom Shadyac

Globo, sab 11 ago 16hs

* ½

 

Como diria Visconti no início de O Leopardo “As coisas precisam mudar para que elas continuem as mesmas”, e o cinema hollywoodiano soube interpretar o significado dessa frase com muita precisão. Dos melodramas moralistas típicos da geração grifitthiana até os arroubos pós-modernos de As Panteras, o cinema americano é o mesmo: é preciso remodelar-se para manter seu espírito de sempre. É também por isso que o cinema americano nos fascina e nos aterroriza e frequentemente nos envolve em uma relação de amor e ódio: ele nos seduz para nos conquistar pelo estômago ou pelo coração, o que no fundo dá no mesmo.

 

* * *


Os primeiros planos de O Mentiroso já deixam claro que o filme é uma crítica ferina ao American Way of Life. A professora pergunta aos alunos qual é a profissão do pai. Um dos meninos diz que seu pai é um mentiroso. “Mas o que ele faz?” “Ele veste terno, vai ao tribunal, responder perguntas para um juiz” “Já sei, ele é um advogado”

 

Mas o que torna o filme uma crítica ao modelo americano nem é tanto pelo lado do Direito, ou da Justiça, mas na forma como o filme incide sobre o eterno dilema entre “ter uma carreira” ou “ter uma família”. A preocupação do personagem de Jim Carrey em ter fama, dinheiro e ascender profissionalmente o afasta de seu filho. Separou-se de sua esposa, e ela está prestes a ir para outra cidade com um novo companheiro.

 

Rapidamente, o filme coloca sua questão básica: esse homem deve decidir entre os negócios ou a família. Os dois são vistos como concorrentes, e ele deve fazer uma opção. E o momento é este, antes que seja tarde demais: ele já perdeu a esposa, está prestes a perder o filho.

 

Mas aí o filme entra com um elemento novo, pois é uma comédia, e não um drama familiar. Entra em cena uma espécie de realismo mágico. No seu aniversário (que o pai não consegue ir por causa do trabalho), o menino faz um pedido: que o pai não minta por um único dia.

 

Com isso, o pai entra em mil enrascadas, especialmente no tribunal. No cinema de gênero americano, O Mentiroso é hábil por combinar, por trás do gênero comédia, elementos de outros gêneros, como o drama familiar e o filme de tribunal. Com isso, consegue um equilíbrio entre ser um “filme masculino” e um “filme feminino”. Os homens se divertem com as peripécias de Jim Carrey; as mulheres torcem para que esse pai resolva ficar com o filho.

 

Mas falamos do realismo mágico. Não é possível viver falando a verdade sempre, o tempo todo. Principalmente no cinema. Principalmente no cinema americano.

 

Ao mesmo tempo, o pai não pode perder a ação nem o filho. Não pode mentir mas não pode ser um derrotado. Como fazer isso?

 

Isso não importa aqui: o filme avança rápido para o seu final, o roteirista consegue driblar algumas incongruências, e resolve todas essas questões, pois, afinal, é preciso criticar o regime para que ele fique ainda mais sólido, para que possamos faturar em cima das nossas desgraças e nossos paradoxos.

 

O pai não mente, mas ainda assim ele deve conseguir ser fiel à sua profissão, a seus clientes, a si mesmo e à sua família. No final, é possível conciliar o sucesso profissional com o sucesso pessoal; é possível ter uma família sendo um homem de sucesso, se houver um equilíbrio, um meio-termo. Ou seja, é o supra-sumo do velho e bom cinema ético americano. Ou seja, do cinema griffithiano.

 

O realismo mágico tem um papel fundamental nisso. As coisas parecem normais mas não estão, porque houve esse “pedido mágico” do menino que foi aceito. É como no cinema: as coisas parecem como na vida real, mas não são. Mas podem ser, se você quiser. A vida real pode ser como no cinema. Basta você acreditar e agir assim. Esse é o velho e bom cinema ético americano.

 

No final, há uma cena bonita, a melhor do filme. Um ano depois, o menino faz um novo aniversário. É a única cena em que o pai não está de terno, o que mostra toda uma mudança de comportamento (lembramos como o menino definiu o pai logo no início do filme “ele veste terno”). Assim que o menino faz o pedido, as luzes se apagam, simbolizando um novo “realismo mágico”. Quando se acendem, os pais estão se beijando. Eles perguntam ao filho se o pedido foi para que os dois voltassem a ficar juntos. O menino responde que não, ele pediu um brinquedo. Claro, agora o realismo mágico não é mais necessário, e o filme faz esse percuso simples do cinema para a vida, fazendo dessa “screwball comedy” uma parábola moral sobre a grandeza da verdade e a importância da família.

 

Spielberg deve ter dado piruetas na cadeira do cinema.

 

Medos Privados em Lugares Públicos

Medos Privados em Lugares Públicos

De Alain Resnais

Espaço Unibanco 2

**

 

Falar desse filme do Resnais não é tarefas das mais fáceis, pois o filme é um enigma, em diversos aspectos, ainda mais porque o faço um bom tempo após tê-lo visto, coisa que detesto fazer. Então aqui vai um esboço de tudo: é um filme em primeiro lugar extremamente traiçoeiro, porque a essância do filme é extamente essa: como as superfícies das coisas nos trazem idéias ilusórias, e como a representação faz parte nisso.

 

Aqui, com seus 84 anos, Resnais faz um filme aparentemente mais convencional, menos de invenção, e mais próximo das comédias francesas menos sofisticadas e mais simples. Lembramos do Resnais de Hiroshima, de Marienbad, e de tantos outros, da importância da voz off, da memória e do contexto político. Mas isso tudo não deixa de ser bobagem: não se deve fazer do artista um prisioneiro da sua própria criação.

 

Coeurs (título singelo escolhido por Resnais que já contrasta com o título do romance, que a trdução brasileira preferiu) já mostra a opção pela contenção: esses personagens tem mais a esconder do que revelar. Vivem num castelo de cartas pela forma como se relacionam uns com os outros e especialmente consigo mesmos. Todo o filme se passa em ambientes fechados mas cujo entorno nos fala tanto desses personagens (não é a toa que o filme foi feito em scope). Na superfície são pessoas comuns, sem grandes sonhos ou fantasias. Por dentro, guardam um desejo oculto. É como um reflexo da própria estética de Resnais.

 

A elegância e o rigor da mise-en-scene nos fazem parecer num tempo e num espaço em suspenso (a neve nos remete ainda mais a isso), e que contribui para essa natureza enigmática do filme. Um profundo senso de solidão atravessa esses corpos e esses espaços vazios entre esses corpos. As narrativas paralelas que se cruzam com organicidade e com elegância, sem os esquemas forçados à la Inarritu. Um olhar sobre o mundo contemporâneo, sobre a vida das pessoas hoje. Um olhar sobre o cinema de hoje, envolto na necessidade do mercado, no esgotamento de um certo “cinema autoral” e da necessidade dele.

 

Por trás do clima de comédia, Resnais é duro com a gente, sempre fica uma sensação de “tarde demais”. Esses cenários lúgubres, em que os personagens se aprisionam (afinal, neva lá fora, sempre está muito frio), parecem como num filme de Kaurismaki. Os personagens se encontram, se esbarram, mas permanecem indecifráveis.

 

No final, um grande sentimento de solidão: é como se nossas máscaras nos tornassem cada vez mais distantes de nós mesmos e dos outros. E Resnais faz isso através de um cinema que usa as armadilhas da representação para nos dizer mais sobre isso. Mas esse é o paradoxo: se por um lado faz a crítica da solidão, por outro, utiliza-se das próprias máscaras que critica. Não chega a ser cínico, mas de uma certa forma o tom de Resnais não deixou de me incomodar. É isso.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Saneamento Básico

Saneamento Básico

De Jorge Furtado

Odeon 22 julho 18hs

*

 

Os três primeiros filmes de Jorge Furtado tinham um princípio básico: a tentativa de articulação entre um cinema de contato com o público e uma certa referência de cinefilia. E faziam isso a partir de um “cinema jovem”, calcado num ponto: a dificuldade de expressar os sentimentos para a pessoa que se ama. Em O Homem que copiava, a idéia do artifício, da construção cinematográfica estava toda lá, mas nos outros dois filmes isso também aparecia nas entrelinhas.

 

Mas aqui em Saneamento Básico a idéia é diferente: o “cinema jovem” não deixa de estar presente nesse tal enfoque da comédia besteirol (o filme é uma chanchada do século xxi, como se fosse uma atualização de um filme do Carlos Manga), mas dessa vez o tom é o da farsa, sem que necessariamente nos identifiquemos com um dos personagens (e daí talvez resida sua menor repercussão de público). O tom da afetividade diminui, mas os personagens não deixam de ser ingênuos ou seduzidos pelo estado das coisas.

 

O tema aqui é a metalinguagem, o cinema, ou seja, é um filme sobre um filme sendo feito. E mais ainda, um filme sobre o Brasil, sobre o cinema brasileiro, e isso é muito forte e presente no filme. A cidadezinha do interior tem dinheiro para fazer um vídeo mas não tem para o saneamento básico. As pessoas começam a fazer o filme para salvar a cidade e no final querem apenas salvar o filme, se promover pessoalmente e ficar bem na fita. Isso fala tudo sobre o Brasil e o cinema brasileiro. Desde “Mulheres à Vista” não há um olhar tão contundente sobre essa paixão mórbida que é o ato de fazer cinema, como as vaidades são uma feitiçaria, encantam e seduzem os pobres ingênuos, e o papel do Estado em tudo isso. Mas sem ser demagógico: ao contrário, o filme é uma crítica nada ingênua sobre a tentativa de descentralização de recursos culturais bancada pelo MinC a partir da gritaria geral dos produtores culturais fora do eixo do Sudeste. Quando “O Monstro do Fosso” é exibido para a platéia numa escola, e o personagem de Lázaro Ramos diz que “agradece ao prefeito por permitir fazer cultura sem precisar ir para Porto Alegre” a porrada é grande, porque de cultura, de arte, é óbvio que “O Monstro do Fosso” (ou seria “da fossa”?...rsrs) não tem nada.

 

Mas esse aspecto – crítico, atual e extremamente relevante – é basicamente um argumento de roteiro. E em seguida vem então como o diretor desenvolveu isso na tela. E é nisso que Saneamento Básico mais desaponta. Em seu quarto longa-metragem, Furtado tem uma direção quase televisiva: planos médios, personagens gritando, soluções grosseiras, etc. Alguém pode até dizer que ele faz um paralelo disso com a própria situação do filme (há uma cena clara em que, discutindo o roteiro, fala-se sobre um plano ponto-de-vista, e a câmera de Furtado faz um ponto-de-vista, etc.), mas é forçar a barra, ou ainda, defesa fácil. No fundo, o que se vê é uma certa acomodação de Furtado em relação à construção dessa gramática do filme. Se Meu Tio Matou um Cara era cheio de meios-olhares, aqui nada é implícito, tudo é o mais explícito possível, começando pela discussão entre os personagens, uma gritaria sem fim, que lembra os recursos dos novelões da sete da Globo (que em geral são terríveis de ruins).

 

O que não dá para entender são os críticos (novamente) quererem dizer que o filme é uma obra-prima e que é um retorno à linguagem do Ilha das Flores. Francamente...

 

Interessante por ser uma mudança, triste por esse desleixo da direção, ficamos com uma dúvida ao final de Saneamento Básico sobre o projeto de cinema de Jorge Furtado. Vejamos o próximo.