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Cinecasulofilia

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domingo, outubro 21, 2007

O GRÃO

O grão
De Petrus Cariry
DVD
** ½

O grão, primeiro longa-metragem de Petrus Cariry, que tem sua primeira exibição no Brasil nesta semana na Mostra de São Paulo, deve ser visto no contexto da posição do diretor dentro do cinema cearense. Antes de completar 30 anos, após a boa repercussão de seus curta-metragens nos festivais brasileiros, Petrus parte para o primeiro longa ocupando uma posição singular no cenário do cinema cearense: por um lado, está ligado à “nova geração do cinema cearense”, que busca repensar a abordagem dos “temas nordestinos” a partir de um diálogo com um cinema de linguagem, atento ao que se vem discutindo em termos de um cinema contemporâneo, especialmente pela íntima participação de Ivo Lopes Araújo, diretor de fotografia e câmera do filme. Por outro, como filho de Rosemberg Cariry, um dos mais estabelecidos cineastas cearenses da “antiga geração”, possui uma estrutura de produção que alavanca seus trabalhos. Essa espécie de dilema coloca Petrus numa posição privilegiada, garantindo uma certa independência em relação a ambos os grupos, guardando uma enorme expectativa em relação ao potencial dos seus futuros trabalhos.

O grão é um filme sobre o fim, sobre a morte, sobre a paralisia das coisas, num vilarejo no interior do Ceará. Drama intimista, o filme combina duas camadas: a vida simples de uma família local através de seus dramas familiares (a pecuária de subsistência do marido, o tear aretesanal da esposa, a filha que quer se casar e mudar-se dali, o filho caçula, ainda menino, e sua avó idosa, prestes a falecer) e uma outra camada, a da fábula, através da história que a avó conta ao menino. Contando assim, o leitor pode imaginar um típico drama rural, que retrata um Nordeste interior e idílico, mas a intenção de Petrus é outra: a de desmistificar esse Nordeste romântico. São diversas as estratégias de distanciar o espectador do tom dramático que a obra potencialmente nos oferece. Nesse sentido, O Grão é o antípoda do recente Mutum, passado no interior de Minas Gerais, mas que, apesar do diferente contexto geográfico, tem inúmeros paralelos com O grão, por também ser um drama familiar intimista num vilarejo local, que explora a relação entre os membros da família e seu contato com a morte. Enquanto Mutum vai romantizar esse ambiente rural, fazendo o espactador se identificar com o ponto de vista do menino e através de um câmera livre que dialoga com o cinema documental, O Grão promove um distanciamento, através de uma estética árida, em que não se busca a identificação do espectador com nenhum dos personagens em cena, e através de uma câmera na maior parte do temo fixa, que nos remete à imobilidade do local. Evitando contar a narrativa do ponto de vista do menino, mas buscando um olhar onisciente e distante, O grão não busca nossa comoção ou compaixão, como a típica postura do cinema brasileiro quando fala de personagens nordestinos, mas promove uma investigação rigorosa do vazio dessa “terra de ninguém”, terra seca cuja aridez se transforma em estética, na composição dos espaços e especialmente dos tempos. O grão é um filme de entremeios, um longo e doloroso tempo de espera, uma espécie de ritual fúnebre de passagem da vida para a morte, simbolizado pela morte da avó. É como se a vida fosse um longo tempo de espera para a morte. Por isso, O Grão é um belo primeiro filme, se visto como uma singela declaração de princípios do que o autor busca no cinema, através de uma linguagem particular. É um filme sobre a inércia da vida como um caminho fúnebre diante da inevitabilidade da morte.

O grão desenvolve vários pequenos entrechos de interesse, mas não busca desenvolver dramaticamente esses pequenos arcos para que eles se integrem, como a narrativa clássica. Sua intenção é, ao contrário, mostrar o isolamento e a incomunicabilidade da família. A história que a avó conta ao neto não interage dramaticamente com a trama, ou mesmo provoca uma transformação nos rumos da narrativa, ou mesmo modifica os modos de pensar e agir do menino. Passivo, o menino ouve a história da avó com uma curiosidade distante, e o estranho contracampo da reação do menino (um dos raros contracampos do filme) mostra esse distanciamento entre o mundo da avó e do neto, ainda que esses mundos se aproximem pela paralisia do rumo das coisas.

O estranhamento ao final da exibição de O Grão é exatamente esse, já que o filme não justifica psicologicamente os personagens, nem descreve os elos entre essa família através de ações integradas de seus membros. São apenas corpos que transitam pelos exteriores em busca de trabalho ou que descansam ou esperam dentro de suas casas. A bela paisagem natural não oferece um encontro idílico ou mesmo alternativa de integração: funciona mais como desejo figurativo desses personagens de mundo outro de liberdade ou esperança que eles não conseguem alcançar ou tocar, ainda que esteja diante dos seus olhos. Eles contemplam a natureza de forma fria e distante, como se fossem espectadores de suas proprias vidas.

Esse rigor particular também se deve muito ao extraordinário trabalho de fotografia e câmera de Ivo Lopes Araújo, que já havia trabalhado com o diretor no curta Dos Restos e Das Solidões. E, de fato, O Grão, parece ser um prolongamento da pesquisa estética desenvolvida por ambos nesse curta. Mas aqui a aposta parece ser mais radical: ao invés de steadicam e da referência documental, em O Grão há os planos fixos e o silêncio.


Por outro lado, em alguns pontos, Petrus ainda permanece ligado a recursos de um cinema mais clássico, em especial o uso da música e o tom de voz adocicado da avó quebram o tom austero e rigoroso que dá ao filme esse tom tão peculiar. Resquícios de um certo modo de produção também conferem ao filme não raras vezes um tom excessivamente formalista. Esse parece ser o dilema de Petrus daqui para frente: para compor um certo tipo de cinema, ainda é preciso deixar algumas coisas para trás, é preciso radicalizar ainda mais. Mas de qualquer forma, em se tratando de um primeiro filme, O Grão possui muito mais virtudes, já que mostra um diretor que possui um olhar e uma estética que, se desenvolvidas, podem gerar trabalhos de grande relevância. Ainda assim, é outro fruto concreto de novos rumos para o cinema cearense.

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1 Comments:

Blogger Wendell Borges said...

Onde conseguiu comprar o DVD deste filme? Já fiz várias pesquisas na internet, mas não encontro os filmes de Petrus Cariry e também tenho dificuldades de encontrar os filmes do pai dele, Rosemberg Cariry.

10:09 PM, junho 17, 2011  

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