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terça-feira, outubro 16, 2007

O mundo em duas voltas

O mundo em duas voltas
De David Schurmann
DVD sab 12 14:30
** ½

Fiquei impressionado com o documentário tradicional da viagem ao mundo de barco da família Schurmann filmado por um de seus membros: David Schurmann. Primeiro, pela excelência técnica: fotografia, montagem, ritmo, som, edição de som, efeitos (visuais e sonoros) bastante funcionais que fazem o filme escapar, na medida do possível, do documentário didático. Segundo, porque vai muito além do tema da viagem para quem gosta de navegação (o que não é o meu caso). O filme tem dois motes muito felizes: o primeiro é a de ser um filme íntimo; o segundo, é o de reviver a viagem de Fernão de Magalhães, marinheiro português que fez a primeira viagem ao redor do mundo.

Íntimo porque, acima de tudo, o filme é um presente de um filho para seus pais, já que é filmado por um dos filhos sobre as aventuras dos pais, narradas por estes. Íntimo porque, então, passa a ser um filme sobre uma família que, numa determinada altura dos acontecimentos, cansa do marasmo da vida e parte para um sonho impossível: o de girar em torno do mundo dentro de um barco. Íntimo porque o filme é um diário de viagem, que é a coisa mais caseira e mais íntima que o cinema pode ser (vide Jonas Mekas). Íntimo porque o filme, para falar de liberdade, dessa possibilidade de dar a volta no mundo, usa o confinamento de um espaço físico (um barco, ou ainda, uma casa) como matéria-prima para essa passagem. Isso é o que o filme tem de melhor: a intimidade dessa família dentro desse barco, com o casal anfitrião revezando-se ao contar suas aventuras e desafios em crescer e conviver dentro dessa aventura.

Aventura. Afinal, o que é o cinema? o que é a vida? o que há em comum no cinema e na vida a não ser o fato da possibilidade de ser uma grande aventura? por isso, O Mundo em Duas Voltas é também um filme sobre o ato da criação, sobre a possibilidade de se acreditar num grande sonho, e daí a importância da relação da viagem de Fernão de Magalhães.

Mas antes quero fazer um parênteses para pensar sobre a tecnologia. A mesma tecnologia que nos faz ter uma vida mais agitada e nos afastar da natureza, tornando-nos seres mais sedentários, é a mesma tecnologia que facilita empreendimentos como os da família Schurmann, ou seja, que propicia uma nova relação com a natureza e com o outro. E é a mesma tecnologia que permite registrar essa nova viagem de forma muito diferente que o registro da primeira: através de um escrivão que, de memória, registra os fatos através da escrita e da palavra, ao invés das imagens.

O Mundo em Duas Voltas é portanto também uma reflexão sobre a natureza das imagens e sobre o valor do registro. Para deixar isso claro, a restituição da viagem de Magalhães é feita a partir de desenhos estáticos, que lembram o papel da criação. Pois devemos confiar no escrivão para não questionar a fidedignidade da expedição e das incríveis aventuras de Magalhães.

Chegamos a ele, e a história de Magalhães é incrível. Herói ou ladrão? Traidor da coroa portuguesa, ao procurar o rei da Espanha para realizar o seu plano? Ou apenas não entrou no jogo nacionalista das nações, na busca do seu sonho? Fernão de Magalhães, na busca desse seu sonho impossível, enfrentou terríveis tempestades e motins até chegar a uma ampla planície, até alcanlçar a calmaria do Pacífico. Mas essa calmaria longa é tão cruel quanto a tempestade longa (que metáfora fantástica para a vida!) já que sem vento a nau não poderia evoluir e os marinheiros começaram a morrer, sem água nem comida. E por aí vai (lembramos o fantástico Cristóvão Colombo, do mestre Oliveira).

Ainda que sem maiores pretensões artísticas, O Mundo em Duas Voltas quase sempre nos encanta. O filme cai um pouco quando se torna uma espécie de National Geographic das ilhas do Pacífico e da Ásia, pois aborda os costumes locais com inevitável superficialidade e tons de exotismo anedótico. Mas quando “mergulha” na aventura de ser dessa família em seu dia-a-dia pelos mares é retrato irresistível, humano, coloquial e lúdico. A viagem da família é como o projeto de um filme: uma aventura de ser em que se planeja (o mapa e a bússula são os roteiros) mas que sempre há o cruzamento do inesperado, da surpresa fascinante ou do perigo (especialmente quando se trata de um documentário). Sua excelência técnica (que impressiona, já que os recursos não foram milionários) não oprime a singeleza e a paixão da bela simplicidade de seu projeto: um filme sobre a intimidade de uma família ao acalanto do mar. O mar como vida; a vida como um mar. Por fim, como se não bastasse, o grande lema do marinheiro desde a Odisséia: a importância do retorno e a simbologia do “porto seguro” como lar e como família. Belo filme.

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