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Cinecasulofilia

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terça-feira, outubro 16, 2007

Pickpocket

Pickpocket

De Robert Bresson

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O que dizer após se rever Pickpocket, obra-prima de Robert Bresson: “ que estranho caminho tive que percorrer para chegar até a ti…”. O mesmo filme e outro filme: a voz-off, os não-atores, o cinema duro, a redenção moral. Pickpocket, precursor de Rosetta, cinema contemporâneo: não importam tanto as motivações psicológicas, os determinismos prévios desse anti-herói, e sim suas ações físicas, o deslocamento de seu corpo, o cinema de decupagem das ações e dos olhares no momento do roubo. O cinema do confinamento de um espaço físico: o quarto do ladrão é como se fosse a sua casa, é como se fosse uma prisão. Pickpocket é uma refilmagem de O Condenado À Morte Escapou: uma tentativa subversiva de este ladrão conhecer a liberdade. O cinema ético, o corolário de Crime e Castigo: a ingênua suspeita de que se pode ser melhor, mais apto, que não se é como os outros. A relação desse ladrão com sua mãe: “você não se importa com ela: “ “não há nada que eu me importe mais, mais até do que a mim mesmo”. O filme em círculo, a captura no hipódromo, a vida como uma corrida de cavalos, como se fosse O Grande Golpe, de Kubrick. Para Bresson não há espaço para a firula, para o ego do cinema (somente filmar ao invés de mostrar que se sabe filmar). O cinema contemporâneo: descrever, e não narrar. Os atores são, e não representam que são. Pickpocket como precursor de Catch me if you can: o papel do policial, “não haverá agora ninguém a te perseguir a não ser você mesmo”. Essência do ser e nada mais importa: quem é esse cara, qual é a sua revolta contra a ordem das coisas que nem mesmo ele sabe qual é. Que mal-estar é esse que não sei descrever mas que entendo em toda a sua extensão, como se fosse comigo mesmo. Um cinema clássico (ético, moral, econômico, preciso) mas anticlássico (sem respostas, herói-ladrão, com elipses que nos desnorteiam, sem motivações psicológicas claras). Um cinema que busca o metafísico através do físico (a decupagem, o dinheiro, os objetos), o expressivo através do não-expressivo, etc. todo esse percurso de setenta minutos até esse final obtuso, absurdo, extraordinariamente duro e lírico, síntese máxima do cinema de Bresson, como se todo o filme, como se toda uma vida valesse por esse movimento de espírito: “ que estranho caminho tive que percorrer para chegar até a ti…”. Obra-prima.

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