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Cinecasulofilia

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quinta-feira, novembro 08, 2007

Hukkle

Hukkle
De Gyorgy Palfi
* ½

Exibido na Mostra de Cinema Húngaro no MAM, o primeiro filme de Gyorgy Palfi despertou a atenção em diversos festivais internacionais pelo seu tom particular e sua excelência técnica. Sem nenhum diálogo, Hukkle é uma expressão onomatopéica que se refere ao som de um soluço, emitido por um velho camponês, que serve como uma espécie de leitmotif ao filme. Inventivo, Hukkle trabalha num tom estranho: por um lado, parece uma espécie de “filme etnográfico” sobre uma região campestre e semi-rural, especialmente em seus planos próximos de animais locais. Mas aos poucos, a partir de trinta minutos, o filme vai se revelando como um thriller, em que um policial investiga misteriosas mortes no local. Olhando assim, o leitor poderia achar que se trata de uma espécie de Zoofilia, o filme de Rosinson Devor exibido no Festival do Rio, mas como não poderia deixar de ser para um filme da Europa Oriental, há um certo tom mórbido, um humor negro que envolve o filme. É um filme totalmente ficcional, de base sarcástica e irônica. Esse humor negro dá ao filme um tom bastante inusitado, especialmente em se tratando de um primeiro filme Por outro lado, há uma exuberante fotografia mas que dá ao filme um certo tom publicitário que me incomodou em muito. Com isso, todo o interessante pressuposto do filme acaba se revelando mais um recurso de idas-e-voltas e de um deslumbrante mas totalmente despropositado virtuosismo técnico do que propriamente um trabalho de construção de uma dramaturgia e de um universo original. Mas uma sensação de algo de “estranho no reino da Dinamarca” fica conosco ao final da projeção, especialmente após os bonitos 5 minutos finais, com uma canção cuja letra nos remete a várias coisas e o sugestivo plano final.

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A Caminho das Índias

A Caminho das Índias
De Augusto Sevá e Isa Castro
DVD
** ½

Uma grande surpresa este infelizmente esquecido filme de Augusto Sevá e Isa Castro, a que tive acesso apenas graças a um DVD gentilmente fornecido pelo diretor. Um filme que mescla documentário e ficção ao abordar a chegada de um grupo de paulistas para explorar “as desvirginadas terras de Trancoso”. O 16mm – granulado, sujo, imperfeito no bom sentido – dá uma grande liberdade ao filme, com um trabalho de improvisação dos atores interagindo com os habitantes de Trancoso, de forma bastante livre, em alguns pontos dialogando com o cinema marginal (esp na famosa cena em que Zé Celso faz cocô numa praia...). Os paulistas vêm para explorar mas acabam se perdendo para se encontrar, rendidos às “belezas paradisíacas” do local. A combinação orgânica entre ficção e documentário nos remete ao recurso utilizado em Iracema, uma Transa Amazônica, só que aqui o olhar de Sevá e Castro é mais poético que político. E daí a participação de Zé Celso é fundamental, pois a base de A Caminho das Índias é assumir que esse contato com Trancoso não se dá apenas “de fora para dentro” mas especialmente que ele acontece através do cinema. Ou seja, não é propriamente um olhar de fora para dentro sobre Trancoso mas sim sobre o próprio processo da realização de um filme que olha “de fora para dentro” um lugar (um povo) outro. No entanto, os realizadores vão além: essa relação entre a presença da representação dos “estrangeiros” e dos próprios moradores locais é ainda mais problematizada quando a equipe promove uma exibição pública, na praça de Trancoso, do próprio filme, que está sendo feito! (isso antes de Cabra Marcado e filmes do tipo...) Ou seja, os moradores locais têm acesso à visão do estrangeiro sobre suas próprias vidas durante esse mesmo processo de realização do filme. Todas essas camadas (documentário e ficção, realidade e representação, moradores locais e estrangeiros) em última instância são associadas a uma outra camada: o cinema e a vida. E o mais admirável é que os realizadores buscam não a separação, mas a junção entre essas camadas, de forma que o filme ao final se torna um grande carnaval, congraçamento das diferenças, mas sem deixar de afirmar que no fundo esses estrangeiros vão à Trancoso para extorquir suas riquezas, para depredar. Esse tom de “auto-denúncia” nos associa ao cinema de Sérgio Bianchi, especialmente no início, quando, num barco, ator e morador local interagem sobre uma terra comprada cujas árvores já foram derrubadas. Além disso, esse tom toma novas proporções quando a “descoberta de Trancoso” é associada à própria “descoberta do Brasil” (como o próprio título informa...). Ou seja, a história se repete, a história da colonização e da expropriação, dos mais fortes pelos mais fracos. Ou ainda, representação da representação: o cinema reencenando diante dos moradores de Trancoso a chegada da corte ao Brasil. Alegórico e realista, crítico e poético, carnavalesco e neo-realista, o cinema libertário de A Caminho das Índias merece ser mais conhecido, redescoberto.

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pausa para reflexão

Luiz Pretti, no Cahiers du Ceará, fala uma frase sobre Amantes Constantes que tem ficado comigo nesses últimos dias: “Mas é também um filme sobre a necessidade de realizarmos obras independente (sic) de o mundo querer ou não as obras que temos para oferecer.” A chave aqui é o uso do plural, o que sugere que Luiz fala não só do filme especificamente mas de todo um cinema, que aqui tomo a liberdade de me incluir, mesmo que por um mero devaneio. A frase deve ser vista (ou pelo menos como eu vejo) não no sentido de que buscamos ( e aqui também eu já uso o plural) um cinema além do mundo, de os realizadores estarem “acima das pessoas”, mas no sentido de serem diferentes, e não desanimarem pelo fato de serem diferentes. “Querer”, nesse sentido, é como “estar pronto”. Outra chave ainda é o “temos para oferecer”. Isso é muito bonito. O que “temos para oferecer” é um enorme descompasso em relação ao que o mundo quer ver, em relação ao que o cinema busca ser, mas o que isso importa? No fundo, importa mesmo é o que queremos dizer e o que podemos dizer, e, claro, o rigor, a coerência e a vontade de dizermos da forma adequada.