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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sábado, janeiro 19, 2008

os 11 melhores filmes da historia do cinema segundo "mim" neste início de 2008:

1 - Walden - Jonas Mekas
2 – Gertrud - Carl Th. Dreyer
3 - Mouchette - Robert Bresson
4 - Crônica de Anna Magdalena Bach – Jean-Marie Straub e Danielle Huillet
5 - Tokyo monogatari - Yasujiro Ozu
6 - Jeanne Dielman - Chantal Akerman
7 – Persona - Ingmar Bergman
8 – Terra - Alexander Dovzhenko
9 - A Dupla Vida de Veronique – Krzysztof Kieslowski
10 - O Sol do Marmeleiro - Victor Erice
11 - Le Trou - Jacques Becker

Atualização relâmpago

Bom, antes de embarcar para Tiradentes, vou colocar aqui resenhas rápidas sobre os filmes vistos nos últimos dias, pois não sei se conseguirei fazê-lo na volta, em meio à correria dos preparativos do Carnaval. Quiçá eu mande notícias dos filmes vistos em Tiradentes, numa subversiva cobertura não-oficial.

Barão Olavo, o horrível
De Júlio Bressane
Caixa Cultural, Mostra Helena Ignez
* ½

Para ver Barão Olavo é preciso ter em mente seu contexto histórico de experiências de Belair de Julio Bressane e Rogério Sgangerla sobre quebra de narrativa e novas concepções de dramaturgia. Filme feito em esquetes de apelo cômico, com base no improviso e no deboche. E um diálogo ambíguo com o cinema de gênero. O terror ou o terrir (prelúdio ao Ivan Cardoso mas outra coisa). Ou, se preferirem, um filme sobre o Brasil de 1970: crítica (deboche) à estrutura patriarcal, crítica (deboche) à família (um anti-filme de Ozu). Barão Olavo ou General Olavo: poderoso, patético… terrrível. Provavelmente filmado na casa do Eliseu Visconti em Teresópolis (a mesma de Lobisomen). Curioso quando os personagens saem da casa e dialogam com o povo, alertando sobre os perigos do Barão: improviso, câmera na mão, “o que é o povo afinal?” No entanto, não é tão bem-sucedido quando Sem Essa Aranha e especialmente Memórias de um Estrangulador de Loiras. Mas é um filme curioso dado seu “contexto histórico”…

Ermo
de Salomão Santanna
DVD
**

Gostaria de falar com mais calma sobre esse primeiro longa em vídeo do cearense Salomão Santanna, que ficou conhecido no “circuitinho alternativo” carioca por conta de um vídeo chamado A Curva. Ao contrário de A Curva, Salomão, desta vez, não trabalha com imagens de arquivo: ele vai às ruas para filmar imagens de um terminal de ônibus em Fortaleza. Nesse seu olhar para uma Fortaleza urbana, com um cinema árduo nada convencional que se aproxima das artes plásticas, com uma idéia de caos e especialmente do trânsito, Ermo deve ser diretamente associado a Sábado à Noite, o belo estranho DOCTV de Ivo Lopes Araújo que causou grande polêmica por lá. As pessoas e os ônibus. Sons duros, não trabalhados. Planos longos, decupagem austera. Ao mesmo tempo, alguns elementos próprios: um pastor religioso, a idéia de ir às últimas consequências em um cinema de registro. Mas aqui já há um trabalho de “manipulação”: enquadramento e montagem (claro) mas também mudanças de cor e especialmente de foco. O trabalho do foco, entre o primeiro plano e o fundo, é uma das principais questões de linguagem do filme. Ainda que um trabalho em construção, Ermo nos desperta para a relevância do cinema cearense, que vem fazendo trabalhos em direta sintonia com o cinema contemporâneo.

Três filmes de Ozu
Putz… escrever rapidamente sobre três filmes de Ozu é dose, mas como a essência desse blog é essa, no meio da minha febre, é isso o que dá para dizer ao revê-los:
CUIDADO: TEM VÁRIOS SPOILERS SOBRE A HISTÓRIA.

Outono Tardio (LAte Autumn), de Yazujiro Ozu *** ½
Três tios querem arrumar um marido para a filha de um amigo morto, mas ela não quer se casare para não deixar a mãe sozinha. Os três patetas bolam um plano para casar a mãe da menina. Resta saber se ela quer.
No fim da carreira, Ozu ficou mais bem-humorado, vide esse Outono Tardio e o Bom Dia. Conhecendo a filmografia de Ozu, não seria exagero chamar esse filme de uma “screwball comedy”, uma comédia de equívocos. Mas ao mesmo tempo tem todo o cinema do Ozu de uma “exatidão” e de uma “precisão” impressionantes, sem nunca parecer formalista. Eu queria depois falar com mais cuidado desse final, um final muito impressionante, que me fez voltar ao final do Tokyo Story e a minha leitura da leitura do Bernardet sobre a leitura do João Moreira Salles sobre o filme do Ozu no final do Santiago (ufa…): o sorriso de canto de boca de Setsuko Hara. Aqui nesse filme há de novo. Os últimos seis planos são uma pérola: a filha vai casar e a mãe vai ficar sozinha. A mãe dobra um casaco e começa a “pensar em algo” com o semblante sério (é isso o que eu queria (e não consegui) no instante do meu filme do suicida quando o filho “ressuscita”…). Corta para a casa vazia. Volta para um plano mais fechado da mãe, só que dessa vez com um “leve sorriso de canto de boca”. Outro plano da casa vazia. Plano do corredor externo vazio. FIM. Por que esse sorriso de canto de boca? Hipóteses kierkegaardianas: 1) a solidão é assim mesmo mas ela vai ficar bem; 2) felicidade com o futuro da filha casada; 3) perdida nas memórias do passado com o marido; ou 4) “ vida é mesmo uma grande decepção, não?”. Não sabemos. O filme acaba. Que sorriso é esse?
Há outras sequencias fantasticas, não vou conseguir descrever.

Crepúsculo em Tóquio (Tokyo twilight) **
Um filme um tanto estranho de Ozu, extremamente soturno, com “plot demais” para ser um filme típico de Ozu. Pai com duas filhas: a mais velha que voltou para a casa do pai deixando o marido; e a mais nova, queacabou grávida e fez um aborto clandestino quando o “pai da criança” deu no pé. A mais nova quer descobrir porque a mãe abandonou a família, e acaba descobrindo que sua mãe trabalha numa casa de mahjong ali perto. Desesperada, ela vai até lá, pressionar a mãe para que lhe diga quem é o seu verdadeiro pai, porque ela não pode ser filha daquele que a criou, porque ela é diferente dele e ela o odeia. A mãe fala que claro que ela é filha de quem a criou. A garota se mata. A mãe vai para outra cidade; a filha mais velha volta para o marido. Acaba o pai saindo para ir trabalhar.
Filme sombrio, o tempo todo de noite e com muito frio, só que o plot é mais melodramático que um Ozu típico. Tem cenas interessantes, mas como um todo não é dos melhores de Ozu.

Começo de Primavera (Early Spring), de Yasujiro Ozu **
Setsuko Hara tem 28 anos e precisa casar. Seu chefe arruma um solteirão de 40 anos. A família pressiona para que ela case com ele, pois ele tem grana. Ela prefere um vizinho pobre, viúvo, com um filho. 144 minutos, arrastado que só (mais do que os Ozu de sempre). Tem coisas interessantes: uma delas é a habilidade como o Ozu enquadra a família se movimentando dentro do quadro, e como os diálogos mostram que as mulheres são “modernas e decididas”. Outra são os movimentos de câmera estranhos de quadros vazios, sem relação com ponto-de-vista ou dramaturgia, fora os que acompanham personagens caminhando. Lá pelos 30´de filme tem os dois primeiros planos com movimentos de câmera, que o Ozu vai abolir de vez um pouco mais tarde em sua filmografia.

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domingo, janeiro 13, 2008

Saliva

Convenhamos: o tão elogiado Saliva, curta do Esmir Filho que participou do Festival de Cannes, tem um gosto irreprimível de “cinema publicitário”. Eu também fiquei muito impressionado com o ‘making of’ do filme, com a estrutura que ele teve para filmar. O desejo de uma menina em beijar: suas dúvidas, seus receios, etc. Sonho, fantasia, realidade. Tudo bem. Um certo realismo mágico. Um certo cinema sensorial. Jump cuts, elipses, uma certa indefinição de tempo. Tudo bem. Um cinema extremamente plástico. Tudo bem. A questão é que tudo está “tudo bem” demais: não há risco, não há desejo, não há um olhar. Preferi bem mais o Alguma Coisa Assim: este Saliva, já achei um certo passo atrás. Ah, o melhor do filme é a menina que está excelente!

novos trabalhos dos Irmãos Pretti

Para mim o bom filme é aquele que me alimenta a criar. Aquele em que a gente sai da sala de exibição doido para faqzer alguma coisa. Por isso, cada filme dos Irmãos Pretti para mim é como uma dádiva, em que a minha proximidade com esses trabalhos me faz despertar coisas adormecidas dentro de mim.

Em Azul, Luiz Pretti divide pela primeira vez a direção com alguém que não seja seu irmão gêmeo. No caso, Themis Memória, também atriz do curta. A roupa é um espelho do corpo, e o corpo, um espelho da alma. Então em que medida vestir-se (ou despir-se) é viver, morrer, ressuscitar, mudar e continuar o mesmo? E quando amamos, como “vestimos” o contato do outro, de modo que se torne mais de nós mesmos? A pele do outro e a nossa roupa. Nossa pele e a roupa do outro. Despir-se de nossa roupa e vestir a pele do outro. E assim sucessivamente. Ao mesmo tempo, vestir e despir são movimentos. Movimentos do corpo e movimentos da alma, dependendo de como se vê. A pele e o corpo. A pele e a roupa. Eu e o outro. A vida e o cinema. Dois e um. Dois em um.


Depois, há um trabalho mais ambicioso, o novo longa dos Irmãos Pretti: “o desejo é mais forte que a morte”. De novo, um trabalho extremamente rigoroso, de tempos alongados, com um certo diálogo com tudo o que os gêmeos vêm fazendo, em especial o seu média Sonata das Sombras. Além de um diálogo claro com o cinema de Pedro Costa (em especial a luz de Juventude em Marcha), outras referências são claras, desde Apichatpong, até João Cesar Monteiro, Fassbinder, Gus van Sant, o cinema expressionista (e suas variantes como O Homem que Ri e He who gets slapped), e até na minha delirante cabeça Shinji Aoyama, Jacques Nolot e Naomi Kawase. Um trabalho grande, de grande força interior, que ainda estou em fase de absorver, um filme sobre como é doloroso e necessário enfrentar a morte, e ir além dela para encontrar a nós mesmos. Mas o que me interessa em particular nem é o clima de fábula romântica nem a possibilidade de mergulho nessa floresta, mas sim o cinema da primeira parte do filme: esse grande vazio interior, com planos extremamente longos, um rigor absurdo e um enorme sentimento de como é difícil viver diante da falta de sentido da vida e de nossa impotência para lidar com isso com humor e leveza.

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Meu nome não é Johnny

Bom, eu já vi o filme há um certo tempo, no ano passado, numa pré-estréia. Mas depois do episódio do Caminho das Nuvens, eu aprendi a só escrever sobre qualquer filme após seu lançamento comercial. Mas já passou o tempo, então vou escrever algo meio para constar.

* * *

Eis o cinema comercial brasileiro. Não é melhor ou pior que qualquer cinema comercial do mundo. A gente pode tentar comparar A bússola de ouro, Conversas com meu jardineiro e Meu nome não é Johnny, mas no final vai dar tudo na mesma. Na verdade é claro que não dá na mesma, mas no fundo no fundo acaba sendo o mesmo filme, a mesma coisa.

A minha frustração com Meu nome não é Johnny é que ele poderia ser um bom filme. Poderia mesmo. Na minha visão, o filme poderia ser uma fábula sobre a ingenuidade do poder, sobre a falta de sentido do dinheiro, sobre a bobagem de querermos viver a vida sem regras, como se isso fosse um sinal de liberdade, quando no fundo é um sinal de aprisionamento. Na linha, por exemplo, do que Spielberg fez com Prenda-me se for capaz, que eu acho um grande filme. A frase-chave de Meu nome não é Johnny é quando um cara diz que seu sonho é ganhar um milhão de dólares e o Selton Mello retruca “e o meu é torrar um milhão de dólares”. Claro, por que o que adianta ganhar um milhão de dólares? Mas por outro lado, o que significa gastar um milhão de dólares? Selton Mello vai descobrindo que essas possibilidades são armadilhas, são uma grande ilusão, e o filme poderia ser esse percurso de encontro consigo mesmo.

Bobagem, porque esse é o filme que eu gostaria de ver, não o filme que eu vi. Meu nome não é Johnny não se interessa por nada disso, ele procura o que as pessoas querem ver: uma abordagem leve e superficial da vida de ‘bon vivant’ desse jovem. Ou seja, nada de mergulho no submundo das drogas ou do tráfico, ou do preço pago nesse percurso. Um exemplo disso é como as cenas na prisão e no manicômio são “light”, ou ainda, como o personagem não sofre nenhuma “bad trip” mesmo quando pára de usar drogas. Etc, etc, etc.

O filme procura ser uma mistura de Cazuza, Carandiru e Bicho de Sete Cabeças. Ou seja, já deu pra imaginar o que o filme é, né?

Já vai ter gente dizendo que o filme é uma denúncia para a classe média do perigo que são as drogas, que é um retrato sociológico de como os jovens são corrompidos por uma estrutura de poder da máfia das drogas, etc, etc, etc (vide a capa da época). Tem gente que acredita, tem gente que gosta.

Nas questões técnicas: roteiro, fotografia, montagem, arte, direção… xiiii…. Pelo menos tem o Selton Mello, ele é muito bom. Bom, é isso. Tem coisas que eu poderia falar mais, tipo “que manicômio bonitinho”, “que fotografia cleanzinha”, etc, mas fico por aqui.