curta off-MFL

Outubro
de Murilo Hauser
*** ½


O que pode ser um curta-metragem senão uma espécie de declaração de princípios do que se espera da vida e do cinema? O que ele pode ser a não ser um mergulho num sentimento de ser? Em Outubro, Murilo Hauser faz muitas coisas, sugeridas de forma indireta: primeira, um filme sobre jovens; outra, um filme sobre Curitiba. Mas essas duas coisas surgem através do filme, porque a natureza de Outubro é ser um filme sobre como as superfícies fracassam em mostrar a natureza do ser.

“Leva-se muito tempo para ser jovem”. Tudo começa num primeiro plano, um dos mais exatos e perfeitos do curta-metragem brasileiro recente. A câmera começa lá fora e entra no interior desse quarto, repartindo uma intimidade que parece não mais ser possível. A partir daí, morte, ressureição, confissão. Outubro é como o seu próprio título já anuncia, seja por meio de sua sonoridade, um som gutural, valorizado pelas vogais fechadas e pelas consoantes duras, seja por meio da analogia livre e aberta com a narrativa. Ou seja, um filme de contextos abertos e de sons fechados. Através de lentíssimos movimentos de câmera, temos impressões da vida dessa jovem, tentamos entender porque ela se suicidou (o que já é anunciado nesse primeiro plano do filme). E não temos respostas, mas compartilhamos uma sensação de melancolia e desalento.

“Sempre seguir o seu coração”. Por trás do rigor de Outubro, da estética de planos longos, da simetria dos movimentos, um filme sobre viver, ou melhor, sobre não-viver, sobre estar cansado de tudo, sobre não mais suportar ter que se levantar da cama e enfrentar o dia-a-dia. Mas como fazer isso? Como é possível para o cinema, para o filme de curta-metragem, refletir esse desencanto, mas sem deixar uma ternura respeitosa, sem virar exploração da miséria do mundo? As respostas que Outubro nos dá é que isso só é possível a partir de um mergulho, uma mergulho profundo, mas acima de tudo um mergulho respeitoso às possibilidades do cinema e do mundo.

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