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Cinecasulofilia

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domingo, fevereiro 03, 2008

El Sur

El Sur
De Victor Erice
**

El Sur está mais próximo do “espírito” de O espírito da colmeia do que de O Sol do Marmeleiro. Dessa forma, pode-se dizer que O Sol é uma espécie de filme atípico da filmografia de Erice, na forma extremamente contemporânea como combina ficção e documentário e na reflexão madura sobre o ato de criação. Em comum com O espírito da Colmeia, El Sur é uma fábula, filme histórico e que possui um ponto de vista quase todo jovem-infantil. É também um filme sobre a descoberta de um mundo, ou ainda em como esse mundo (recém-)descoberto pelos jovens está em descompasso com o mundo herdado pelos seus pais. Essa espécie de “acerto de contas com a paternidade” é o aspecto mais interessante de El Sur, e que também nos remete ao filme anterior de Erice, de modo que podemos dizer que, mesmo dez anos depois, Erice quis continuar os temas de base de seu filme anterior. Em seguida, devemos dizer que é preciso analisar El Sur com cautela, já que se trata de um filme inacabado. O roteiro proposto pelo diretor ao produtor não foi filmado na íntegra, mas as filmagens foram interrompidas, exatamente no fim de primeira parte, quando a jovem protagonista do filme resolve ir ao sul, após a morte do pai. Como a viagem fecha uma determinada narrativa do filme, o produtor considerou o filme concluído, interrompeu as filmagens e lançou o filme assim, sendo que a segunda parte nunca foi filmada. Por isso muitos dos ganchos e motivações de El Sur existem porque seriam desenvolvidos na segunda parte. Sabendo disso, entendemos muitos dos recursos do filme, e preenchemos várias das nossas frustrações.

De qualquer forma, só o fato de que essas lacunas seriam preenchidas todas nos revela muito dos propósitos de El Sur e do cinema de Erice. Ou seja, eu, que comecei vendo o cinema de Erice por seu lado “atípico”, acabo frustrado, porque El Sur é bem diferente de O Sol do Marmeleiro. El Sur é no fundo uma grande produção do cinema de arte europeu para falar para um certo público, mas ainda amplo. O requinte da produção, o uso da música, da narração e de certas passagens de tempo me soam demasiado acadêmicas, principalmente em se pensando na obra-prima de maturidade que é O Sol. Ainda assim, a habilidade de Erice em compor climas, sua visão tenra do universo da juventude, e a delicadeza com que Erice lapida, costura cada plano, cada palavra e cada transição tornam evidente de que se trata de um trabalho invulgar. Mas muito mais o produto de um artesão do que do mestre de O Sol.

Ainda há algumas coisas a serem observadas sobre o ponto de vista dessa jovem, algumas cenas muito bonitas que falam desse abismo entre o mundo que ela está descobrindo à medida que cresce e o mundo que seus pais lhe revelam. Ou ainda, um abismo, uma dificuldade de comunicação entre essa jovem e seu pai. Ou ainda, uma enorme tristeza, um enorme vazio do mundo das coisas que não consegue ser explicado mas apenas sentido. Tem uma cena em que a menina se esconde debaixo da cama, que é a síntese do que Erice vem tentando dizer. Ou ainda, a bela sequência final, em que pai e filha sentam-se num café e trocam algumas palavras mas mal se comunicam. Essa distância entre gerações, gêneros, tempos e locais geográficos é a marca de El Sur. Parece que a segunda parte seria uma tentativa de síntese, de encontro desses rastros perdidos, já que a menina iria para o Sul, conhecer um pouco mais do mundo, do tempo e das condições em que seu pai cresceu, e com isso, iria descobrir mais a si mesma. Mas do que nos resta de El Sur, ou seja, o que foi concluído, fica um filme sóbrio, elegante e acadêmico sobre a tristeza do mundo e sobre a distância entre pais e filhos. Pensando no que Ozu já falou sobre o tema, ficamos com um sorriso de canto de boca.

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