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Cinecasulofilia

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segunda-feira, março 31, 2008

Festival do Uruguai

Pessoal,
uma "cobertura" um tanto tosca e parcial dos filmes que vi no Festival do Uruguai. Os três inéditos no Brasil. Quem sabe num Festival do Rio da vida eles sejam exibidos? Ou então no emule? Depois, escrevo mais, há coisas que gostaria de colocar aqui, nesse meu diário de vida, baseado em algumas reflexões nesses meus dias de férias. A volta é a correria de sempre, mas vamos ver se dá pra colocar no papel algumas dessas reflexões. Bom, os filmes ei-los:

Longas
Os Jogadores (Die Spieler), de Sebastian Bieniek *
20:13 Purgatório, de Joaquim Leitão 0
Elevador (Elevator), de George Dorogantu 0


Curtas
Pop foul, de Moon Molson ***
El camino de Ana, de Richard Vasquez **
Voces em el aire, de Ana Gallego 0 1/2
La partida, de Sebastian Perez 0
Chill Out, de Kamikaze Films 0



Os Jogadores (Die Spieler), de Sebastian Bieniek
O filme de estréia do fotógrafo Sebastian Bieniek na verdade é um trabalho de conclusão de curso, fruto de um seminário dado por Bela Tarr em que, ao final, os alunos eram convidados a realizar, com 2000 euros de orçamento, um curta baseado no livro O Jogador, de Dostoievski. O ambicioso Bieniek resolveu aproveitar a oportunidade para dirigir um longa. O curto tempo de preparação e a precariedade de condições já evidenciam as limitações do projeto, já que a tarefa de adaptação do grande livro de Dostoievski não é das mais triviais. Assim sendo, a falta de profundidade (diria mesmo de consistência) na elaboração de roteiro, e a dificuldade de o filme encontrar seu tom adequado (oscila entre o drama e a comédia de uma forma típica da Europa Oriental – talvez influência do país de origem de Bieniek, esse polonês radicado na Alemanha) tornam sua fruição um tanto frustrante. No entanto, um olhar mais atento revela virtudes, que podem ser desenvolvidas em trabalhos posteriores: um enorme desejo por uma vitalidade, que mal pode ser controlada (abundância de jump cuts, mudanças de cor, alterações de ritmo e tom no curso narrativo do filme, etc). Esse desejo no entanto não parece ser pretensioso mas quase juvenil: uma enorme alegria de poder estar filmando e dar vida a esses personagens. Essa pulsão, e as alterações de tom, dão uma leveza que em seus melhores momentos soa encantadora; em outros (na maioria) o filme carece de uma abordagem mais orgânica sobre o percurso dos personagens e do desenvolvimento da narrativa. Mas de qualquer forma e especialmente em se tratando de um primeiro filme, Die Spieler não chega a ser um fracasso total, e nos deixa curioso sobre a possibilidade de Bieniek, também protagonista do filme, prosseguir seu trabalho, com a mesma intensidade mas com menos malabarismos.


Elevador (Elevator), de George Dorogantu
Já falamos aqui que o cinema romeno contemporâneo é provavelmente uma invenção do festival de Cannes, já que os filmes oscilam tanto em termos de temático/estética quanto mesmo de qualidade (coerência) na realização. Elevator, longa romeno filmado em digital, de George Dorogantu, é quase um filme de escola. Realizado em uma situação-limite (dois jovens presos num elevador), o filme testa as possibilidades da dramaturgia em realizar um longa num único cenário. Seu desafio é no entanto difícil e Dorogantu tenta fugir dos clichês, seja de um inevitável ranço teatral seja de um filme todo em planos fechados, mostrando a claustrofobia desse elevador. Acaba não conseguindo, pela repetição e banalidade das situações que envolvem os dois jovens, parecendo mais um exercício frustrado do que um trabalho acabado digno de ser exibido num festival de cinema.

20:13 Purgatório, de Joaquim Leitão
Esta superprodução portuguesa se passa num quartel-general de militares portugueses em Moçambique. O que poderia ser uma investigação histórica sobre os limites do colonialismo português ou humana sobre a condição iminente de guerra vira mero verniz para um arremedo de entrecho novelesco, que acaba fugindo totalmente do contexto histórico para se revelar uma mistura de um filme de suspense (quem matou “X” ou “Y”) e de dramalhão romântico. Desastrado, longo e arrastado, com cenas de ação mal ajambradas, 20:13 Purgatório é dramaturgia barata, folhetim tosco, totalmente avesso ao espírito do melhor cinema português.


Curtas
Pop foul, de Moon Molson
El camino de Ana, de Richard Vasquez
Voces em el aire, de Ana Gallego
La partida, de Sebastian Perez
Chill Out, de Kamikaze Films


O grande destaque das duas sessões de curtas a que assisti foi o curta americano Pop foul, de Moon Molson, projeto de conclusão de curso de audiovisual na Columbia University. O filme é interessante por investigar as repercussões da violência no subúrbio americano no seio de uma família comum. O pai é confundido com outra pessoa e é agredido por um brutamontes da gang local. Faz um pacto com o filho: que ele não conte para sua mãe o que de fato aconteceu. Chegando em casa, a situação acaba ganhando proporções impensadas, e essa dificuldade em enfrentar de frente os problemas cotidianos da violência acaba gerando mais violência, implícita e explícita. A forma com que o curta trabalha essas gradações de forma efetiva (até devido ao seu tempo de duração) é sua grande força, propiciando uma reflexão madura não só sobre os rumos dos Estados Unidos mas ganhando uma proporção maior, sobre a importância da família e do que realmente significa lealdade.

Os curtas uruguaios que eu vi todos bolinha preta, nível a media dos curtas em video universitarios brasileiros.

domingo, março 23, 2008

três filmes

CRÔNICA DE UM INDUSTRIAL merece uma maior reflexão, mas em minha correria na viagem para o Uruguai só vou poder dizer que é uma espécie de canto do cisne do cinema novo. Uma mistura de O Bravo Guerreiro, O Leopardo, Eclipse e o cinema de Godard, mas com o toque pessoal do cinema do Rosemberg. Todas as preocupações de estilo e temática do diretor estão lá: a preocupação social, o filme-ensaio entre a ficção e o documentário, o cinema verborrágico, essa necessidade de falar…mas o que fica é o lamento de um Brasil, de uma geração que não deu certo. “Somos fantasmas, nosso tempo já passou”, diz Renato Coutinho, e o filme é um enorme lamento sobre o paraíso perdido. “Eu traí”, repete o industrial: traiu a esposa, traiu os ideais do pai, traiu no fundo a si mesmo. Mas o que torna Crônica de um Industrial um filme belo é que o filme não é só o retrato de um fracasso, mas é também esse “canto do cisne”, é um mergulho lamurioso mas retratado com enorme beleza e poesia sentida, um enorme sentimento pela liberdade e pela possibilidade de as coisas serem diferentes, de vislumbrar uma poesia nesse mundo sombrio. As belíssimas cenas do barco (já falei em outro texto como esse é um plano-síntese do filme) até o enorme recurso de o industrial se jogar nas águas do mar e se perder. É essa poesia da decadência que aproxima Rosemberg de um cinema italiano (Visconti, Antonioni), mas sem deixar de ser brasileiro. Visto de hoje, trinta anos após sua realização, um filme muito atual sobre os dilemas de um Brasil e (por que não?) sobre os dilemas do cinema brasileiro. Grande filme!

Vou tentar falar algo breve sobre o JUÍZO, filme da Maria Augusta Ramos que me incomodou em muito. É um documentário sobre menores infratores, quase todo passado em cenas de tribunal, em estilo de cinema direto, assim como o JUSTIÇA, seu longa anterior. Acontece que o cinema direto é feito em campo contracampo sugerindo uma continuidade espaço-temporal quando muitas vezes não há, o que abre espaço para uma “manipulação” por parte da cineasta dos elementos de linguagem para apontar algumas coisas, como típico recurso da transparância do cinema clássico. Já escrevi sobre isso no JUSTIÇA, mas no JUÍZO ela foi mais longe (diria longe demais): como não podia ter as imagens dos meninos menores por uma questão legal, MARamos encenou com outros menores não-atores as mesmas situações e amarrou num campo-contracampo simulando como se fosse tudo documentário. Ou seja, o campo é documentário, com os advogados e a juíza “de verdade”, e no contracampo, os meninos “representando seus próprios papéis”. Mas não é Bresson, não é Coutinho, por uma coisa bastante simples: todo esse recurso é feito não para problematizar os limites entre real e ficção, mas para emular, simular, disfarçar, para passar para o espectador “a impressão de ser um documentário”, quando no fundo é tudo processo fabricado, meticulosamente engendrado pela realizadora para emular os recursos de um documentário de cinema direto, quando na verdade há recursos de ficção que desaparecem na tessitura do filme. Há apenas uma cartela no início que explicita o dispositivo, mas ele se torna transparente ao longo do filme, e não é explicitado (por exemplo não há cenas mostrando a diretora ensaiando com os meninos). Com isso, coloco sérias dúvidas sobre a posição ética da realizadora, agravada pela forma enviesada como ela escolhe as cenas do tribunal e especialmente pelo final, fazendo gracinhas com um determinado caso.

Na volta, quero falar mais sobre um belo curta de André Scucato e Cristina Pinheiro, O POETA E A BAILARINA, que estréia terça-feira no Espaço Solar de Botafogo (na General Polidoro) às 21hs. O curta é uma revisitação do cinema mudo, mas, sem deixar de ser nostálgico, não se limita a emular os recursos do cinema silencioso, mas busca revisitar o cinema mudo visto de hoje, com muita habilidade e com grande primor técnico.

quarta-feira, março 19, 2008

as páginas dos dias

Um blogueiro que guardo em grande consideração (tanto que agradeci em meu ÊXODO) mais uma vez queimou os seus escritos, por não mais gostar deles, por achar que eles são bolhas de sabão, ingenuidades, em relação ao que acha agora.

Este fato me deixa absolutamente triste, desconsolado.

Na internet, há textos meus escritos há quase dez anos. Alguns (não poucos) eu os acho hoje infantis, ingênuos, ou mesmo não concordo mais com o que foi escrito. Há um texto hilário de ingenuidade sobre Gente Como a Gente, um filme do Robert Redford, que eu vi diversas vezes, e que na época me dizia muito.

Mas eu não os apago. Eles continuam lá, em algum lugar do hiperespaço. Por que? Porque a vida não tem retake, porque para mim a escrita é como um diário que você nunca pode arrancar as páginas dos dias, porque elas lhe mostram que o que você é hoje, é fruto do que você foi ontem.

Escrever é como um diário de vida, do qual você guarda algumas cicatrizes mas que formam o que você é hoje.

Imaginar a possibilidade de arrancar um página desse meu diário é para mim dor profunda, porque é como se fosse raiz cicatrizada em algum lugar desconhecido.

Por isso, quando visitei o blog deste meu amigo e me deparei com a mensagem de “este blog foi removido”, o fato me deixou absolutamente triste, desconsolado. Porque com ele, mais do que os textos, se vai uma possibilidade de alguém descobrir um processo de busca cuidadosamente talhado ao longo de um certo período. E agora isto se perdeu.

segunda-feira, março 17, 2008

There Will Be Blood

Sangue Negro
De Paul Thomas Anderson
Odeon fev
***


É difícil falar sobre Sangue Negro mais de um mês após tê-lo visto, e há muita coisa a ser dita sobre ele. Um filme de corte clássico, um filme que me lembra o cinema clássico americano de décadas atrás, e no bom sentido. Um filme de enorme sentimento de cinema, seja em relação a abraçar um mundo, uma história, uma vida; seja em relação a apreender um tempo outro; seja em relação a presenciar um espaço físico; seja em relação a compor uma história de contrapartida moral, de significado extremamente crítico, pungente e atual.

Sangue Negro começa de forma impressionante, o que me fez lembrar um filme de Martin Ritt chamado Ver-te-ei no inferno, com suas imagens de um poço e o esforço solitário de um homem, sem palavras, com o impressionante uso do som. Ele afinal descobre petróleo, e se suja do líquido como se fosse sangue (o que nos remete ao belo título em português do filme). É quase como Andrei Rublev, quando o menino descobre que o sino está pronto, mas ao invés da chuva, há o tom austero e negro do petróleo. Não há a redenção do filme do Tarkovsky, até porque o que o filme de Paul Thomas Anderson vai destrinchar é o quanto, por trás do prazer da criação, há de sangue e de miséria na cobiça de um descobrimento de uma América.

Nisso, Sangue Negro vira uma espécie de Greed ou mesmo de Cidadão Kane, na trajetória de ascensão de um magnata do petróleo e o preço pago para a sua “coroação”: a solidão, as cicatrizes, a contrapartida da cobiça a qualquer preço. Com isso, Sangue Negro se revela um filme extremamente atual, que investiga a origem da formação do império americano, em seu regime de empresa familiar, em seu tom conquistador e de exploração alheia.
Em seu terço final, Sangue Negro cai um pouco mas o final não deixa de ter uma semelhança com Cidadão Kane, com o rico magnata preso em seu Rosebud querido. Mas aqui não há o drama, e sim a comédia, mórbida, perversa. Lição tétrica, cruel, mas de qualquer forma adequada à parábola amarga de PTA sobre os rumos do imperialismo americano.

Eastern Promises

Senhores do Crime
De David Cronenberg
*

É certo que Cronenberg ficou conhecido como o cineasta do abjeto e das metamorfoses genéticas, em filmes como A Mosca, Gêmeos ou eXistenZ, mas ao mesmo tempo parece claro que o diretor vem tentando mudar o perfil da sua filmografia sem deixar de buscar suas obsessões de sempre. Se em Spider esse contorno já se via, com a complexidade do lado interior do personagem sendo valorizado pelo não-dito e pelo que é misterioso, em Marcas da Violência o estilo de Cronenberg atingia a maturidade: o que agora importava, mais do que as marcas corporais, eram as “marcas de alma”, era esse monstro que se escondia por trás de uma situação comum, de um cidadão comum.

Em Senhores do Crime, Cronenberg busca um prolongamento desse estilo: o corpo e o sangue ainda se fazem presentes como força motriz, mas o que se busca são as motivações interiores desses personagens, ou o que eles escondem. E isso através de uma mise-en-scene mais sóbria, num maior diálogo com o cinema clássico.

Acontece que em Senhores do Crime, ao contrário de Marcas da Violência, essa busca acaba soando fracassada, especialmente por truques banais de roteiro e por um tom equivocado ao filme e aos personagens. Fico curioso de saber o que um russo acha do filme, porque para mim todos os estereótipos e cacoetes típicos dos mais banais filmes de gangster e da máfia russa são evidentes. A forma como Naomi Watts se aproxima da família mafiosa, o envolvimento de Viggo Mortensen com os mafiosos, a forma como as suspeitas de homossexualismo são jogadas no filme, a trilha sonora convencional, etc, etc.

A melhor sequência do filme sem dúvidas é a da sauna. As tatuagens no corpo como sinal de identificação e a cena da luta, em que essa simbiose entre o lado “animal” e “humano” (que já havia em Marcas da Violência) é associada entre o sangue e a água. Aliás, o sangue, em seguida, será usado como sinal de identificação de um corpo. A ressaltar também as performances de Viggo Mortensen e Armin Mueller-Stahl, mas em se tratando de um filme de Cronenberg, uma história banal, muito abaixo do que se poderia esperar.

domingo, março 16, 2008

apresentação sobre o ÊXODO

Finalmente o ÊXODO teve a sua primeira exibição, na sala de vídeo do CCBB na Mostra do Filme Livre, da mesma forma como havia sido com o DESERTUM, dois anos atrás. Por isso, este blog esteve um pouco abandonado no último mês, já que o filme só ficou pronto na véspera de sua exibição. Fiquei bastante contente com o reusltado, que mostra um caminho de continuidade dos meus “filmes-diário” mas um avanço em algumas direções. Antes da exibição, fiz um pequeno discurso do que representa para mim fazer esse filme, que eu gostaria de transcrever aqui, ligeiramente adaptado, já que eu tenho a mania de repetir muito as palavras quando falo e com a omissão da citação das pessoas e agradecimentos, que acho que aqui não vêm muito ao caso. Ei-lo:

“ (...) A tecnologia digital hoje está possibilitando uma grande transformação na produção de obras audiovisuais. O ÊXODO é na verdade o terceiro longa experimental que eu venho fazendo numa certa linha. Os outros dois foram o EM CASA e o DESERTUM, e agora este é o terceiro filme que eu faço praticamente sozinho, ocupando todas as funções de realização. Claro que para isso eu tive a ajuda de pessoas que foram fundamentais (…) mas no fundo este foi um filme de longa-metragem feito praticamente sozinho. Acho que se é possível falarmos de uma assinatura no cinema, este filme tem uma assinatura, porque, enfim, roteiro, produção, direção, montagem, edição de som, tudo foi feito por uma única pessoa.

Uma reflexão breve que eu gostaria de fazer é que ao mesmo tempo em que este é o terceiro longa que eu faço numa certa linha, sem atores, um documentário totalmente experimental, e até como eu falo no prólogo do filme, este não é um filme para três milhões de espectadores. É um filme para quantos espectadores? 30? 100? 150? Esta é uma exibição que eu consigo fazer do filme, mas quantas outras exibições públicas eu vou poder fazer desse filme? Mais duas? Três? Com 50 pessoas em cada uma, daria 150 pessoas? Então o que representa fazer um filme como esse? Este é um filme que eu tenho muita consciência da sua invisibilidade, este é um filme invisível. Este filme é uma ilha dentro do cinema brasileiro de hoje, dentro do cinema mundial de hoje. Então por que fazer esse filme, o que representa fazer esse filme?

Então para mim fazer o ÊXODO é como descobrir uma ilha. Geralmente quando a gente viaja – e esse filme também fala sobre um processo de viagem – a gente busca os marcos principais da paisagem, busca conhecer os continentes, a Torre Eiffel, Paris, Veneza… mas o mundo é muito grande e pode ter diversas ilhas, que muitas vezes não são povoadas, ilhas completamente desconhecidas. Eu não sei se vale a pena, talvez provavelmente valha mais a pena conhecer os grandes marcos, as grande cidades. Mas talvez eu tenha um espírito de querer me aventurar por essas ilhotas.

O desejo de fazer o ÊXODO é o desejo de tentar percorrer essa ilhota não povoada, que está num lugar completamente distante e longínquo, um lugar invisível, um lugar que 50, 100 pessoas vão conhecer, dentro desse universo infindável de obras audiovisuais que são feitas diariamente, anualmente – e com o digital ainda mais. E eu só espero que essas poucas pessoas que tenham acesso a ele tenham o desejo de se aventurar por um lugar muito pouco conhecido e misterioso.

Este é um trabalho invisível mas eu fico pensando em uma série de outros trabalhos invisíveis que foram descobertos. Eu fico pensando na primeira exibição de um WALDEN, do Jonas Mekas, um diário de 3 horas e 40 minutos. Fico pensando nos primeiros curtas de um Gregory Markopoulos. Fico pensando no MEMÓRIAS DE UM ESTRANGULADOR DE LOIRAS, do Bressane, alguns filmes do Sganzerla feitos na Belair, filmes que foram praticamente invisíveis no seu tempo mas que depois foram descobertos, por uma crítica descompromissada, por pessoas que quiseram se aventurar por lugares não conhecidos.

Assim como o ÊXODO, esta Mostra
[a Mostra do Filme Livre) é um lugar especial de exibição de pequenas ilhas que a gente tem a possibilidade de descobrir. Só nesta Mostra tem um filme como um ERMO, do Salomão Santanna, ou um O SONHO SEGUE SUA BOCA, do Dellani Lima. São filmes que não vão ser exibidos nos festivais de cinema brasileiros, nas TVs privadas ou estatais, são filmes invisíveis, são ilhas que eu tive o prazer de descobrir aqui nesta Mostra, aqui neste espaço.

Bom, é basicamente isto o que eu espero do ÊXODO.”

sábado, março 15, 2008

No Country for Old Men

Onde os Fracos Não Têm Vez
De Ethan e Joel Coen
Estação Paissandu qui 13 21:20
**

Os irmãos Coen sempre ficaram conhecidos por sua galeria de tipos bizarros e seus diálogos ágeis que flertavam com o nonsense. Especialmente a partir de meados dos anos noventa, consagraram-se dentro do cinema independente americano, especialmente com Fargo, com a visão de outsiders que não se encaixavam num sistema. Outra característica era o cinema de referências, com citações explícitas e implícitas a gêneros e a filmes antigos, como na revisitação do cinema de Capra em Na Roda da Fortuna. No entanto, o cinema dos irmãos Coen acabou caindo num certo esteticismo, seja num universo vazio de citações seja através de personagens que não tinham mais o antigo frescor e se tornavam estereótipos, marionetes de autores-títeres encurralados em seu próprio pedestal. O máximo dessa tendência está em E aí meu irmão cadê você?. Mas por trás desse roto esteticismo, havia o projeto do desvelamento uma visão de mundo: uma ironia cáustica em torno de histórias criminais que queria mostrar a inevitabilidade do mal avançar sobre o bem e sobre a ingênua cultura dos bons costumes e das tradições, como já demostrava à perfeição o plano final de Matadores deVelhinhas.

Nesse sentido, Onde os fracos não têm vez é uma continuação do discurso dos irmãos diretores, uma história sobre o avanço do mal sobre o bem, através de um diálogo com os gêneros cinematográficos. O que mais fica claro a partir do estilo dos diretores é que inevitavelmente “o mal”, representando pelo personagem de Javier Bardem, vai ganhar essa parada, mais cedo ou mais tarde. Em paralelo a isso, há a aposentadoria do antigo xerife, representado por Tommy Lee Jones. O destino é representado pela sobriedade e passos calmos de Bardem, como se fosse a morte em um dos filmes de Sjostrom.

Mas o que surpreende em Onde os fracos não têm vez é a habilidade (para não dizer maestria) como os diretores resolvem contar essa história com um maior cuidado no uso da linguagem cinematográfica em relação a seus filmes anteriores. Num brilhante cinemascope, Onde os fracos não têm vez tem um certo diálogo com um cinema contemporâneo, mas não no universo de citações referenciais que sempre foi a marca dos diretores, mas na sabedoria com que os tempos de espera e o espaço físico avançam sobre a história, com recursos que nos fazem lembrar de Marcas da Violência, de Cronemberg, e mesmo filmes mais pessoais como os de Reygadas e Van Sant.

Especial destaque vai para a brilhante sequência em que Josh Brolin descobre o massacre e acha a mala de dinheiro, toda resolvida a partir de campos-contracampos com tempos bem mais largos que a média dos filmes americanos e toda resolvida a partir do olhar, sem diálogos ou motivações.

A perseguição dos bandidos à noite, em que Brolin cai num rio e no fim atira no cachorro é uma mostra da estratégia da mise-en-scene do filme, com um estilo maduro e discreto: a perseguição é feita com planos gerais, sem montagem acelerada ou efeito musical, optando por uma profundidade de campo que quase sempre mostra perseguidor e perseguido dentro do mesmo quadro. Curiosamente, a tranquilidade (frieza) com que Brolin prepara sua arma e atira no animal aumenta nossa ansiedade.

Mais para o meio do filme, a principal questão de linguagem passa a ser o som, especialmente nas duas cenas no hotel. O jogo de estratégias entre a aceleração e a suspensão do tempo para aumentar o suspense só foram trabalhadas dessa forma no cinema recente em algumas sequencias de Kill Bill. O uso do som, brilhante, é quase que uma lição de Le Trou, de Jacques Becker. Enquanto Brolin tenta resgatar a mala do duto de ventilação, ouve o som dos tiros, e a partir daí o extracampo passa a ter função vital no filme. No segundo hotel, a descoberta do identificador, os passos no corredor, o silêncio, tudo é fruto de uma enorme maestria com as possibilidades da linguagem cinematográfica.

Ao final, como já era previsto desde o início, o mal vence o bem. Tudo acaba, e as coisas parecem bem piores que no início. O título já nos anunciava: os velhos tempos já eram. Lembrança dolorosa e triste, repleta de resignação, alguma ironia e um certo senso paranóico, que me parece tipicamente americano. E também com uma explicitação da violência, muitas vezes gratuita, quase como num game.

Entre a tétrica visão de mundo dos diretores e sua habilidade na composição de tempos e espaços, o filme ganha meu respeito pelo segundo motivo, por algumas sequencias que me fascinam, mas como um todo o que fica de Onde os Fracos Não Têm Vez é uma constatação de um enorme vazio e de uma grande tristeza da convivência do mal com o mundo. Até aí tudo bem, mas não dessa forma: não com a ironia ao invés da angústia.


p.s.: a reforma do Paissandu é história pra inglês ver: trocaram a primeira fileira de poltronas e aquele tapete modorrento. E tbem colocaram uma barra no corredor no interior do cinema que facilita os velhinhos. E só. Ah e parece que consertaram a lente cinemascope que estava com descolimada e que tornava impossível assistir um filme em 2:35 lá. Agora não está uma brastemp mas está bem melhor. Por fim, a cópia estava riscada. É dose!

terça-feira, março 04, 2008

ESTRÉIA "ÊXODO" - UM FILME SINGULAR

Caros,
nesta sexta-feira, dia 07 às 19hs, no CCBB/RJ, estréia meu novo longa experimental, ÊXODO.
É um projeto em continuidade com o DESERTUM, no sentido de ser um anti-diário de viagem em que, através de planos longos e estáticos, viajo para um lugar desconhecido e tenho a experiência da viagem através dos lugares físicos e com um nítido distanciamento.
Mas também apresenta algumas mudanças. Algumas, talvez tímidas, mas mudanças importantes em relação ao DESERTUM. É importante dar passos mas eu gosto de dar um passo a cada vez, e sinto que o ÊXODO representa um passo. Um passo pequeno mas exato, preciso. Um passo para uma certa abertura para o mundo e para as pessoas e para o som (a música dos Irmãos Pretti). Um passo em relação a não ter nenhum compromisso com esse trabalho a não ser eu mesmo. Um passo em relação à convicção de que se trata de um filme invisível, mas uma obra com rigor e coerência, uma obra singular.