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domingo, abril 13, 2008

Ave Candeias (IV): mais sobre os primeiros curtas

Mais sobre os primeiros curtas

Tambaú, o primeiro curta de Candeias, é um trabalho de iniciação na técnica cinematográfica, com um valor mais de registro do que de introdução à típica filmografia de Candeias. Entre as características que Candeias vai desenvolver em seus trabalhos posteriores, podemos identificar um olhar para os mais humildes sem compaixão e o desejo de abraçar uma geografia física.

Rodovias é de fato o principal curta da “fase institucional” de Candeias, onde ele encontra seu estilo e sua estética particular. Por trás do esqueleto de filme didático sobre as conquistas do Governo Carvalho Campos, há pontos principais a serem ressaltados: o primeiro, como disse, é a antecipação do cinema do percurso, da cartografia seca da estrada e dos caminhões (a estrada nunca é vista nua, mas sempre com caminhões ou carros que a cruzam, que a fazem existir – a estrada não existe somente em sua composição física, mas em permitir um percurso, um trajeto) que antecipam Aopção. O segundo é o estranho prólogo, que mostra anônimos que estão por trás da construção dessas estradas, e que têm suas vidas facilitadas por ela.

Ensino Industrial e Polícia Feminina são dois curtas estranhos, anômalos, atípicos da filmografia de Candeias. São trabalhos de descoberta, provavelmente do que ele NÃO iria fazer. Mas ainda assim mantém o seu interesse, pela forma ambígua com que Candeias trabalha o misto entre ficção e documentário, que, de uma certa forma, já antecipa algumas das preocupações de Candeias. Nesse aspecto, são interessantes as filmagens “nos locais de trabalho”, e ambos os filmes têm como mote o trabalho como propulsor de uma dignidade humana.

Em Polícia Feminina, de 1960, Candeias faz um curta claramente ficcional, mas que usa como base as atividades das policiais femininas, e sua “técnica” que envolve mais a psicologia que a brutalidade. Mais do que descrever sua rotina de operação, Candeias prefere focalizar o aspecto humano, compondo um drama singelo de uma policial que encontra um menino que havia fugido de casa. A sobriedade da encenação lembra o cinema industrial paulista e em muito vai se afastar do estilo seco e despojado típico do cinema de Candeias. O uso do som e dos diálogos, a iluminação nos interiores, a direção de atores, o humanismo didático até chegam a nos colocar em dúvida sobre a efetiva participação de Candeias nesse projeto, e desde já, o coloca numa espécie de ilha dentro da filmografia do diretor.

Ensino Industrial já é um documentário típico, mas com uma estrutura ficcional, uma busca de fugir do estilo chapado do institucional típico de Rodovias, Marcha para o Oeste e os demais institucionais. O ponto de vista aqui é de uma avó, que vê o seu neto – de uma outra geração – crescer, estudar e entrar numa espécie de escola de aprendizes (o antecedente de uma escola técnica do ensino secundário), onde terá sua qualificação para ingressar no mercado de trabalho e ganhar a vida (ou seja, é mais um institucional do Governo Carvalho Pinto). A delicadeza bem-humorada com que é feita essa narração em off da velha, a sutileza como a narrativa insere o conflito entre gerações como espelho de uma perspectiva de progresso e a habilidade da montagem em imprimir um ritmo particular nesse equilíbrio entre o que é “narrado” e o que é “visto” ressaltam uma habilidade narrativa e uma leveza que surpreendem quem espera o típico cinema de Candeias. Outro destaque são as cenas na escola de aprendizes.

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