.comment-link {margin-left:.6em;}

Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, abril 08, 2008

reflexões sobre o grito do final do DESERTUM

Acho que agora (só agora) eu consigo entender o que significa aquele grito absurdo no final do DESERTUM. Eu grito para dentro, não para fora. É isso: esse desejo de gritar que é reprimido, e no fundo é reprimido apenas por mim mesmo. Eu deveria olhar para a câmera e gritar, mexendo os braços e as pernas. Mas não, eu grito para dentro; eu permaneço imóvel. O grito mudo mostra essa extrema dificuldade de quebrar com tudo, com o silêncio, com esse dispositivo sereno, que revela um falso equilíbrio que na verdade não existe, quando no fundo está tudo desmoronando. Por trás da arquitetura sólida desses três filmes, eu sinto que tudo está desmoronando. As paredes do prédio estão novinhas em folha, mas na verdade está tudo desmoronando. (É pela mesma razão que foi tão importante para mim que no CARTA DE UM JOVEM SUICIDA o apartamento estivesse totalmente organizado quando do suicídio do filho). (Ou ainda: se prestarmos atenção, o dispositivo do CASULO e DEPOIS DA NOITE, meus dois primeiros vídeos “sujos” e com câmera na mão, é o mesmo de ÊXODO e DESERTUM)

Mas por que eu não rompo com tudo, por que eu não tenho a coragem de dar esse passo, de quebrar esse dispositivo, de gritar na cara da câmera? Porque provavelmente eu não quero abrir mão de algumas coisas, de algumas pequenas coisas porque eu as conquistei com um enorme esforço ao longo dessa minha vida. E sei (pelo menos é o que acho) que tentando conseguir algo que provavelmente não alcançarei, posso perder essas poucas, com as quais, mal ou bem, sobrevivo. Mas até quando?

Ou seja, no fundo é porque eu acho que não adianta, que a sociedade e as coisas são repressoras. Mas será que são mesmo, ou é uma forma de acomodação? Não sei. Hoje tenho a impressão de que meus trabalhos são conservadores, mas no fundo eles têm um componente intrínseco de esperança, porque mesmo que não se tenha forças para mudar, percebe-se que se gostaria que as coisas fossem diferentes, e esse já é um começo, ainda que muito tímido.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home