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Cinecasulofilia

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segunda-feira, maio 26, 2008

câncer

Amigos,
é muito difícil viver e criar ao mesmo tempo. Deveria haver uma vida a ser vivida e outra apenas para que pudéssemos criar e pensar, se fosse possível, porque muitas vezes as duas coisas parecem ser incompatíveis. É claro que de um lado sem viver a criação seria estéril, porque uma coisa é adubo da outra, mas eu me refiro à necessidade de se cumprir as tarefas cotidianas que nos dão (no caso me dão) o nosso sustento. Isso é mais grave quando o processo de criação envolve questões pessoais que tocam em nosso âmago, que nos são dolorosas. Para criar, é preciso tempo. É como cultivar uma planta, só que dentro de nós: é preciso adubar, aparar os galhos, esperar o tempo da colheita. É preciso esse tempo e esse trabalho minucioso para que essa planta surja de uma forma orgânica. O problema é que a vida muitas vezes não nos dá o tempo necessário para cultivar essa planta dentro de nós: ela nasce torta, com galhos defeituosos, isto é, ela não deixa de crescer porque não se cuida dela. Só que, como cresce dentro de nós, no interior da gente, esse crescimento descontrolado gera um grande mal-estar que algumas vezes mal podemos controlar. Daí que esse belo desabrochar pode ser doloroso e difícil. Como um parto. A questão é que não sabemos o que vai nascer de nós: um belo rebento ou virulento monstro.

Amigos,
talvez vocês não imaginem o quanto é difícil viver e criar ao mesmo tempo. Mas é preciso fazê-lo; não há outra forma. E pela vida surgem coisas que nos estimulam: ler um texto como o do Carlos Alberto de Mattos e ver um primeiro filme como HOTEL MONTEREY me sinalizam que nem tudo está perdido. É um incentivo para que eu continue tentando regar esta planta que nasce de dentro de mim e que me leve a acreditar que ela não seja um câncer.

* * *

Os filmes que mais me interessam do Kiyoshi Kurosawa são os que dizem – nas entrelinhas – que a vida é um câncer. Devemos ter cuidado com o que plantamos, pois podemos estar embalando cuidadosamente… um monstro. O que me perturba é que não há um imperativo ético: não importa se se está embalando com carinho ou com afeto, isso não deixará de fazer surgir o monstro. A questão é complexa porque os personagens sofrem de informação imperfeita: isto é, ou não dá para se avaliar se é ou não um monstro (Charisma, Água-Viva), ou quando se descobre é tarde demais (Cure, Pulse). Só que esse câncer não nasce propriamente de uma pessoa, é como se nascesse do ventre do mundo: o mundo tem câncer, e esse câncer se espalha, e não há nada que possa ser feito, a não ser acompanhar o lento agonizar. Por isso acho que todos os filmes de Kurosawa (os que me interessam) têm finais pessimistas, extremamente pessimistas. Ao mesmo tempo, essa negatividade sem um corolário ético me incomoda em muito: há uma certa sedução pela morte, ela é vista inclusive como a possibilidade de uma instância libertadora, de purificação.

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