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Cinecasulofilia

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sábado, maio 31, 2008

filmes menores


Muito se fala sobre “o clima de terror e de fantástico” do cinema de Kiyoshi Kurosawa. Mas na verdade os filmes do diretor que mais me marcaram são seus filmes atípicos: License to Live e Barren Illusions. Principalmente o segundo, um filme menor, filmado com alunos de uma escola de cinema, quase como uma oficina. Este para mim é o seu principal filme, ou dizendo melhor, é o seu filme que mais me impressionou. Isso é curioso, pois são claramente dois filmes menores em sua filmografia. Vendo Cure ou Pulse, é inevitável o sentimento de que estamos assistindo algo “grande”, dois filmes definitivos na filmografia de um diretor, com notável solidez. Em License to Live e Barren Illusions, não, Kurosawa está fazendo algo que ele não sabe bem o que é, que ele “precisa fazer outros filmes para descobrir”. Barren Illusions, para mim, é um dos grandes filmes do cinema contemporâneo, pois toda essa idéia da “solidão” e da “crise dos relacionamentos humanos” é trabalhada através de um cinema de tempos e espaços (e narrativas) mais amplos, mas sem os cacoetes de estilo típicos de um Tsai (que eu adoro). Há um tom leve, uma sensação de que tudo pode ser mudado, mas o problema é que nada muda, nada consegue caminhar de fato. Mas sempre há essa possibilidade que pulsa no filme, em que chegamos até a acreditar, mas ao mesmo tempo um filme “grávido de um enorme mal estar” (na feliz expressão que ouvi esta semana…). São dois filmes irregulares, mas esse é mesmo o seu charme. Há algo em Barren Illusions que incide no âmago do que venho achando que seja o cinema contemporâneo: um cinema sem cacoetes de estilo, um cinema que abraça essa “gravidez desse mal estar” através de um olhar novo para um tempo e um espaço, um cinema em que a narrativa se bifurca por caminhos desconhecidos, de fratura das relações causa-e-efeito e da psicologia dos personagens. Há também, é claro, um cinema oriental, em que não precisa se resolver as coisas por meio da palavra, mas sim por uma observação do mundo (não uma “revolta” mas sim uma “adaptação” que não se confunde com “acomodação”): os dois personagens pintando a casa, a forma como a funcionária dos correios lida com cada uma das cartas, um “brincar de bola”, a forma como se observa o casal vizinho que briga, etc. Até uma cena perto do final que nos tira do chão: essa necessidade de estarmos vivos e esse desespero mudo da fragilidade de nossa condição no mundo, nossa distância de nós mesmos, nessa impossibilidade de as coisas fazerem sentido, esse abraço carinhoso nessa possibilidade de existirmos. Uma panorâmica extraordinária de 180 graus que mostra um mundo, um desejo, um cinema, uma fuga e um encontro. Um movimento (simples e corajoso) de um filme quase sem movimento: a serenidade de um movimento desesperado, num dos grandes momentos do cinema contemporâneo.
1A e 1B: a fantástica panorâmica de 180 graus em Barren Illusions

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