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sábado, maio 31, 2008

O Poeta e a Bailarina

O Poeta e a Bailarina, nova produção de André Scucato e Cristina Pinheiro, já começa a nos surpreender tendo em vista o perfil dos projetos anteriores realizados pelo Cinema de Poesia. Desta vez, ao invés do cinema francamente experimental da dupla, apresentam um curta com um formato tipicamente narrativo. Dialogam com a história do cinema, ao compor uma comédia burlesca claramente inspirada no cinema silencioso, em especial o cinema de Chaplin, cuja referência explícita já surge na primeira sequência do curta, em que o “poeta”, um dos protagonistas do curta, lê um de seus livros. Dessa forma, dão continuidade ao projeto do cinema de poesia, ao buscar o diálogo com o cinema francamente poético de Charles Chaplin. Além disso, é preciso ressaltar que o cinema de poesia já havia dialogado com a história do cinema, o período silencioso e às relações entre poesia e cinema num projeto anterior, Je Suis Jean Cocteau. Mas enquanto o anterior buscava um diálogo poético através de trechos de obras do próprio Cocteau, aproximando-se de um documentário de invenção, desta vez o diálogo incide através de uma releitura do cinema silencioso investigando sua herança no mundo contemporâneo por meio de imagens próprias.

Sim, pois a grande particularidade de O Poeta e a Bailarina está em não simplesmente emular uma mise en scène do slapstick ou do cinema chapliniano, meramente reproduzindo os trejeitos estéticos desse cinema como forma de um resgate nostálgico a um cinema outro. A sutileza do novo projeto está nos aparentes paradoxos de sua encenação. Se de um lado as premissas básicas do cinema do slapstick se reproduzem (o cinema burlesco, a velocidade acelerada, a ingenuidade dos personagens, o preto-e-branco com “riscos” na tela, os intertítulos com cartelas pomposas, a caracterização da trilha musical, etc.), por outro, o entrecho da busca do poeta e da bailarina pelo local onde finalmente irão se encontrar pessoalmente é sempre passado nos dias de hoje, pelo desejo da inflexão desse passado numa contemporaneidade. Ou seja, é como se apenas o poeta e a bailarina vivessem nesse mundo burlesco, sendo que os demais elementos externos são francamente contemporâneos: são as roupas despojadas dos demais figurantes em contraste com a maquiagem e o figurino estilizados dos protagonistas; é a importância das locações (um salão de beleza, uma academia de ginástica, uma floricultura, etc.), que são sempre atuais; são os veículos de transporte (um carro, uma moto) que entram em pleno contraste com a dificuldade de locomoção dos personagens. Dessa forma, a própria mise en scène do curta cria um contraste entre “o mundo do cinema slapstick” em que os protagonistas estão mergulhados e “o mundo de hoje” em que estão os demais figurantes.

Esse contraste apresenta diversas facetas (entre o homem e a mulher, entre o cinema de ontem e o de hoje, entre a comédia e o drama, ou em última instância entre a mise en scène realista e a estilizada), mas a grande habilidade do filme está em expô-las muitas vezes dentro do próprio plano. Dois exemplos são típicos. O primeiro ocorre quando a bailarina interpela um transeunte sobre o endereço escrito num pedaço de papel. Esse transeunte é de fato uma pessoa que passava ao acaso no momento da filmagem, inserindo um inesperado tom documental a um filme essencialmente burlesco. O transeunte anda em velocidade normal enquanto a bailarina tem um passo apressado típico do aceleramento das comédias burlescas. O segundo ocorre na floricultura, entre o vendedor e o poeta. Essa sequência é filmada num hábil plano-sequência, em que no mesmo plano vemos o movimento comum da Avenida Pasteur (com carros e pessoas circulando) e a velocidade acelerada e as reações estilizadas do poeta.

No entanto, esse contraste, mais que mero recurso estilístico, aponta para a principal caracterísitica do curta: é como se o mundo de hoje não respondesse ao desejo puro dos protagonistas em viver num mundo mais ingênuo e romântico, que se apresenta de forma francamente idealizada. As flores, o carnaval, o circo não oferecem possibilidades de encontro mas, ao contrário, de distração para o poeta; assim como as futilidades do mundo contemporâneo - um salão de beleza (o cabelo), uma academia de ginástica (a boa forma), uma fotografia (a aparência física) – tentam aproximar a bailarina das superficialidades do relacionamento humano de hoje. Distraídos pela diversidade de opções do mundo contemporâneo e ingênuos para perseguir o seu próprio caminho, cruzam com pessoas que não os ajudam a se encontrar, mas sim contribuem para o seu distanciamento. Por isso cada vez mais o curta sugere um clima melancólico, em que a estética do slapstick se aproxima da visão ingênua e romântica dos protagonistas que entram em choque com um mundo cada vez mais materialista. Por isso nada mais coerente que seu final solitário: o desencontro (na verdade mais um novo desencontro) entre o poeta e a bailarina revela na verdade uma nova faceta: a do processo de criação, que surge como alternativa para as impossibilidades de encontro com o mundo, como retiro de um mundo desumano e materialista. Assim como a bailarina oferece sua dança, e o poeta, a sua poesia, André Scucato e Cristina Pinheiro nos oferecem seu curta, a obra do seu processo de criação particular que, de outro lado, em diversas medidas funciona como dança (o balé coreográfico do deslocamento dos personagens) e como poesia (o sentimento romântico de deslocamento de um mundo).

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