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Cinecasulofilia

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sexta-feira, maio 16, 2008

reflexões de sexta à noite

Hoje, ao sair do meu calvário de quarenta horas semanais, me lembrei de uma história do meu tempo de catecismo: um dos orientadores do Grupo Jovem dizia que a felicidade só pode ser obtida em companhia de alguém, em conjunto. Eu, que sempre assistia aos encontros absolutamente calado, não consegui me conter, e afirmei entusiasticamente que aquilo não era verdade necessariamente: era possível ser feliz sozinho. Claro, pois para mim, viver entre outras pessoas quase sempre era motivo de dor, e me parecia então que a solução era trancar-se no quarto, onde, ali sim, era possível que a vida fosse minimamente suportável.

Mas eu estava errado. A solução não é a solidão, não é isolar-se totalmente do mundo.

Venho pensando nisto porque não é à toa que grande parte dos meus trabalhos mostram uma única pessoa presa em sua própria casa. Ali há uma idéia de solidão profunda, mas há a construção de uma possibilidade de equilíbrio. Mas não é essa a forma mais adequada para se falar da solidão. Porque para as pessoas que não vivem isso, essa claustrofobia parece distante, hermética, meramente formal.

A melhor forma para se falar da solidão num sentido mais amplo é falando da perda. É mostrar alguém com muitas pessoas à sua volta, mas que se vê completamente só. É falar de uma pessoa que se percebe solitária, e não que é solitária. Falar, por exemplo, de uma pessoa extremamente popular que, passo a passo, vai perdendo, um a um, os seus pilares, até ficar sozinho. Assim estaremos falando sobre a solidão, pois as pessoas vão sentir o que é a solidão, porque a perda é algo que todos conseguimos entender.

Por isso, para mim, um dos grandes filmes que falam sobre a solidão se chama O BRAVO GUERREIRO. Ainda quero escrever mais sobre este filme, que devo revê-lo mais uma vez ainda neste mês, pois passará no MAM. Eu me dei conta que o principal tema do filme talvez seja a solidão e, no caso do filme, a solidão do poder.

* * *

Outro tema que me é correlato é a consciência da tragicidade da existência. Um argumento que há muito tempo tenho na cabeça e que gostaria de desenvolver (num curta, num conto) (mas que sei que provavelmente não conseguirei fazer) é de um cara que possui uma má formação nos pulmões, de forma que quando ele inspira, dói no peito. Isso para mim seria uma piada sobre o ato de viver (respirar dói). No entanto, ele não tem muita percepção disso, pois toda a vida lhe doeu dessa forma, ou ainda que ele tenha a percepção, ele já se acostumou com essa dor.

Mas um dia misteriosamente acontece uma bênção: seu peito pára de doer. Ele passa a fazer diversas atividades que antes lhe eram impossíveis devido à dor. Ele agradece aos céus pela bênção que é o milagre de poder respirar sem dor.

Mas um mês mais tarde subitamente a dor volta a lhe afligir, e tudo fica como antes. Ele fica rancoroso e taciturno, e passa a blasfemar contra Deus por lhe ter dado uma vida tão miserável.

Ele então percebe que seu peito ter deixado de doer foi a maior desgraça de sua vida. Muito melhor seria se seu peito doesse a vida toda, ao invés de ter ficado um mês sem doer, pois só assim ele passou a perceber que a vida poderia ser vivida sem dor. Só assim ele passou a ter consciência de que essa dor não é algo natural, mas que pode ser remediado. Só então ele percebe que sofreu, ou ainda, que poderia não ter sofrido.

Só então ele percebe que sua vida poderia ter sido outra.

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