.comment-link {margin-left:.6em;}

Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quinta-feira, julho 31, 2008

curtas BH (I)

Bom, resolvi assumir a não-linearidade das minhas impressões de viagem... segue agora um curta bastante singelo que vi no Festival de BH...

Encanto
de Julia de Simone

Ao chegar em BH, em minhas costumeiras caminhadas pelo centro da cidade, conheci o Mercado Central. Entre as dezenas de barracas de especiarias e comidas típicas, havia um setor que me intrigou: um conjunto de gaiolas em que pássaros e outros animais se aglomeravam, mediante os olhos atentos dos curiosos, especialmente as crianças, que lotavam o lugar. A forma como aqueles animais expostos se tornava quase que um espetáculo me angustiou em cheio.

Talvez esse sentimento tenha me influenciado quando, justamente no dia seguinte, assisti a exibição de ENCANTO, curta carioca de Julia de Simone, projeto de final de um curso de pós-graduação em documentário realizado pela diretora em Barcelona. Julia me confessou que achou a experiência de viver em Barcelona um tanto fria, já que os catalães têm um sentimento de exclusão em relação à Espanha e mesmo à cultura espanhola, e são pessoas de um trato distante e frio.

O curta de Julia também não deixa de ser sobre isso, um olhar estrangeiro sobre um processo outro, mas acaba podendo desvelar outras mais diversas leituras. Encanto apresenta uma espécie de clube onde criadores de pássaros apreciam o canto de seus filhotes. Praticamente sem diálogos, Julia segue os princípios do cinema de observação, com uma câmera rigorosa fixada em um tripé e praticamente imóvel. Essa opção traz um inevitável distanciamento em relação ao que está sendo filmado, e essa distância desse olhar estrangeiro nos oferece inúmeras leituras: a primeira é que Encanto não é um filme sobre criadores de pássaros, e sim um filme sobre a liberdade.

Num filme sobre pássaros, seria inevitável que fosse um trabalho sobre o som, mas mais do que isso, Encanto é um trabalho sobre o olhar, o olhar obsessivo dos homens (em geral bastante idosos) para os pássaros, presos em suas gaiolas. É um filme triste, melancólico: o olhar dos velhos sugere um enorme sentimento de solidão, e apesar do encanto desse olhar, a comunicação entre eles e os pássaros continua improvável, indecifrável. É como se os velhos tentassem sorver um pouco do mistério da beleza desse canto, que ainda assim permanece indecrifrável. Essa profunda solidão dos velhos e sua morosidade, entre as tarefas rotineiras do lugar, não deixam de oferecer um contraste com o jeito lépido dos pássaros, na manifestação da beleza do seu cantar. Ou seja, é como, mesmo dentro de suas gaiolas, os pássaros fossem mais livres que os seus donos, que aprisionam uma beleza que não possuem enquanto aguardam a hora de morrer.

Há uma cena bonita que resume a questão: um dos senhores anuncia o falecimento de um dos sócios, e pede um minuto de silêncio. Os demais obedecem, menos os pássaros, que continuam cantando como sempre. Nesse momento, Encanto se revela um filme sobre a linguagem, ou melhor sobre os limites da linguagem, inclusive a cinematográfica. Encanto nos “encanta” especialmente porque ele é um documentário que se concentra no que não é dito, no que não conseguimos ver (ou ouvir).

A elegância e a delicadeza do olhar de Julia só são quebradas por uma cartela ao final do curta, excessivamente didática, mas nada que tire a singeleza desse pequeno trabalho sobre o olhar e o som, sobre uma ética de um olhar estrangeiro, sobre a intimidade de um olhar distante, sobre o abismo do mundo dos pássaros e dos seus donos, sobre a impossível tarefa do homem em viver em liberdade.

Dois dias depois retornei ao Mercado Municipal. Meu olhar sobre aqueles bichanos estava totalmente modificado. A esta hora, Julia já estava de volta ao Rio de Janeiro, provavelmente correndo, falando exasperada ao telefone, em sua tarefa rotineira de produzir uma série de uma grande produtora para um grande canal internacional. Encanto também não deixa de ser sobre o absurdo de tudo isso.

quarta-feira, julho 30, 2008

(Uma Visita ao Ceará - parte II)

extraordinária foto que diz muito sobre o que é o "cinema contemporâneo cearense"!

(não que ele seja o Pedrinho, mas é o que a foto diz por meio dele).
(notem a sutileza do vazio das três cadeiras brancas)
(notem o rigor da oposição de cores [a tela branca quase imperceptível contra o marrom e o negro da sala], o domínio das linhas horizontais quebradas pela figura do Pedrinho na vertical - além da fissura do móvel, que acaba estabelecendo uma simetria que acentua a solidão)
(notem a maestria do enquadramento, levemente angulado, na medida exata)
(notem o olhar determinado do Pedrinho em contraste com a sua postura corporal tensa: concentração e imaginação)
(o pensador de rodin à moda cearense: o equilíbrio no tronco versus o desequilíbrio das pernas - o interruptor de luz acentua a falta de simetria dos membros...)
(notem o tom mágico e cinematográfico da foto, porque ela também é toda sobre um contracampo invisível... o que há nesse contracampo?: o público, os dilemas interiores do artista, uma casa vazia,...)

(tirada do blog do CineCaolho, não tem créditos)


a nova crítica

Um texto elucidativo sobre características da "nova crítica" de cinema no Brasil.
Pelo menos aqui no Rio de Janeiro. Eita lugarzinho escroto para se (con)viver de cinema.
Eu sempre paguei um preço (altíssimo) por lutar pela integridade do meu olhar: o isolamento. Mas esse isolamento garante um distanciamento, reafirma a independência deste blog, o seu "descompromisso".
Digo "descompromisso" de forma saudável, no sentido de não estar “compromissado” com as redes de poder e as intrigas.
É muito lamentável ver, vez ou outra, pessoas que nem me conhecem fazerem fofocas ou piadinhas com o meu nome. Ou ainda, o que é pior, usarem a forma como eu me exponho nos meus filmes para me agredir, para me atingir pessoalmente de forma covarde e leviana.
Mas eu sigo caminhando. Sei que não percorro os caminhos mais fáceis, mas é a forma que acho justa para percorrê-lo. As conquistas deste ano têm me estimulado.

Enquanto isso, as máscaras estão caindo...
(não digo isso sobre uma pessoa em especial, digo as máscaras todas, as que vêm caindo e as que ainda estão por cair…)

Eis alguns links, que só tive acesso agora, na minha volta...

http://passarim.zip.net/arch2008-07-01_2008-07-31.html#2008_07-09_07_25_26-130700331-0

http://passarim.zip.net/arch2008-07-01_2008-07-31.html#2008_07-27_17_55_32-130700331-0

crítica CJS

Primeira crítica sobre o CARTA DE UM JOVEM SUICIDA, publicada no site do Filmes Polvo:
http://www.filmespolvo.com.br/site/eventos/cobertura/265

Cobertura Filmes Polvo 10 Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte
(em 25-07-08)

CB-1: Competitiva Brasileira 1

Com os filmes: Peiote, Carta de um jovem suicida, Casa de Máquinas, Os filmes que não fiz e Amarar


Carta de um jovem suicida
por Mariana Souto

Filmando inteiramente em plano-seqüência, Marcelo Ikeda parece ter encontrado em Carta de um jovem suicida uma possibilidade de exercício cinematográfico, mas sem perder de vista seu ponto essencial, a dor da mãe que se transforma – e transforma a casa – a partir da perda do filho.

No curta, transparece a sensibilidade de Ikeda diante do tema, sua vontade de filmar de perto e pacientemente um momento difícil na vida de uma pessoa. Nesse sentido, o plano-seqüência cumpre uma função de mínima intervenção para propiciar o registro da emoção da forma mais natural possível, sem cortes, sem edição. A câmera aguarda a personagem lendo a carta no seu tempo, esperando a virada da página, um suspiro, a contração do corpo. A escrita da carta é prosaica e às vezes parece que falta ao rapaz um motivo que justifique, de fato, sua ação. Mas o motivo é a própria falta de sentido, a mediocridade que vê a sua volta e que se apodera de si mesmo. Mais importante do que a carta é o impacto dela na mãe, o que justifica o fato de assistirmos a ela e suas sutis reações por tanto tempo, ininterruptamente. Não por acaso ouvimos a voz da mãe ao ler o texto, e não a do próprio garoto, autor daquelas linhas.

Contudo, ao mesmo tempo em que o plano-seqüência joga todas as atenções à mulher, acompanhando-a calmamente, chama também atenção para si mesmo, o plano-seqüência. Ikeda utiliza alguns truques recorrentes quando se opta por este recurso, como a mudança de cenografia e de luz em um local temporariamente fora da amplitude de visão das lentes. Exemplo recente de tal procedimento é Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro, onde, o que está em foco parece ser, antes de tudo, a magia do cinema e suas mirabolâncias. É inevitável, durante o filme, imaginar a equipe correndo loucamente para transformar o cenário enquanto a ação se desenrola a alguns metros dali, o que talvez distraia o espectador do suposto resultado pensado quando se escolhe filmar em plano-seqüência – a não-intervenção, o realismo e a imersão em determinado contexto.

Mas Marcelo Ikeda passeia entre o realismo e o intervencionismo, entre a devoção a seu objeto – a mulher – e a devoção ao dispositivo. A condensação do tempo entre as paredes da casa, que é um elemento de sua participação dentro do filme que muitas vezes parece dominado pela mãe, isola aquela atmosfera do mundo. Começamos pela maçaneta, entramos no universo do filme, fechamos as cortinas e estamos lá, no mundo mental da mulher ao lidar com a perda, com a falta que tanto preenche o espaço. E terminamos novamente com a mesma maçaneta, que nos joga para fora desse mesmo mundo, do qual não há mais nada para se ver.

PRAIA DO FUTURO

Cinema do futuro, ilha do presente


Não deixa de ser curioso o título de PRAIA DO FUTURO para o longa que consagra a consciência do despertar de uma nova geração no cinema cearense. É a partir do desejo pelo futuro, pelo que a vista (e os olhos) não conseguem alcançar, pelo que está além do quadro, que se organiza cada um dos episódios de PRAIA DO FUTURO. Ou seja, por um desejo de esperança, por uma vontade tamanha de tornar o cinema algo menos esquemático, mais vivo, curioso, estranho, movediço, indefinível. Se esse desejo é vivido de forma singular por cada um dos realizadores, ele é, por outro lado, parte de um desejo coletivo, parte de um caminhar, que vem agora fornecer seu primeiro produto definitivo. O primeiro elemento de PRAIA DO FUTURO é portanto o da consciência desse sonho: é possível dizer que no Ceará vem surgindo um movimento, uma geração que pensa, cresce, filma e vive juntos, cuja raiz está na presença de pioneiros como Alexandre Veras e Armando Praça, que passa pela estratégica posição de Ivo Lopes Araújo, pelo “êxodo urbano” e pelo conhecimento do cinema contemporâneo dos Irmãos Pretti, e encontrou sua reverberação nos (infelizmente finados) cursos do Instituto Dragão do Mar e na primeira turma da Escola do Audiovisual.

Ali surgiu um cinema do futuro cuja principal raiz é o diálogo com o presente. De um lado, todo um sentimento de distância em relação a uma cidade e a um cinema brasileiro: distância das representações usuais do Nordeste, reminiscentes seja do cinema novo seja das releituras do cinema brasileiro da retomada; distância física do cinema do eixo Rio-São Paulo e das leis de incentivo; distância do cinema politiqueiro, da necessidade de engajamento institucional para auto-promoção. Distantes de tudo, mas perto do mundo, perto de si mesmos. Para essa geração, as distâncias se tornaram relativas: é possível dizer que o Ceará é mais próximo de Taiwan do que do Rio de Janeiro, ou ainda, é mais próximo de BH do que de Recife. Essa ausência é contrabalançada por um sentimento de pertencimento, a um cinema do mundo, a um cinema de hoje. Distância dos “ruídos de sempre”, aproximação do cinema contemporâneo. A internet propiciou um enorme canal de proximidade com o mundo, com a libertação da dependência do circuito de festivais ou do próprio circuito comercial para se ter contato com “o melhor cinema do mundo”: o próximo filme do Pedro Costa está logo ali, ao alcance do mouse, e ele paradoxalmente parece mais próximo de quase tudo o que vem sendo feito no cinema brasileiro.

A partir desse diálogo com o cinema contemporâneo, o cinema do futuro se traduz em um cinema do presente. Uma espécie de ilha, isolada geográfica e politicamente, onde surgiu veio fértil para que uma geração pudesse se expressar. Mas como é possível que uma idéia de liberdade possa se manifestar em um grupo a não ser pela possibilidade da diferença, pela manifestação das suas singularidades? Por isso, nada mais coerente que um filme de episódios, cuja fragmentação é o retrato da multiplicidade de olhares e de influências distintas. Mas por trás dessa fragmentação, é possível identificar uma certa identidade na diferença, que se estabelece através de um processo de diálogo e de troca: não é à toa que o diretor de um dos episódios apareça como montador de outro, e assim sucessivamente, de forma que as equipes todas se revelem uma só.

Unidade que também surge de uma certeza, de que todos (ou quase todos) respiram os ares de um cinema cearense contemporâneo. Por isso, a base do filme está num espaço físico definido – a Praia do Futuro – que estabelece a premissa para o filme. Os episódios, de certa forma, refletem muitos dos elementos citados acima que compõem uma espécie de painel das inquietações do grupo: o cinema feminino e o diálogo com a videoarte (Chama Violeta, de Thaís de Campos, e Mar Morto, de Mariana Smith), a sensação de estrangeiro (em episódios tão distintos quanto o choque entre a imagem panorâmica e voz íntima de Eu Errei, Você Errou, de Wanessa Malta, e a alegoria do excesso como diálogo com a ficção científica de Valores Imaginários, de Ricardo Pretti), o mar como situação-limite (Aprenda a Nadar, de Salomão Santanna, e Vídeo 2008, de Pablo Assumpção), o cinema sensorial que flerta com o narcisismo (p.f, de Fred Benevides), o despojamento e a intimidade do “cinema caseiro” de Castelo de Areia, de Guto Parente e Thaís Dahas, a negação dos típicos elementos nordestinos e o cinema dos espaços (Pequena Grande História, de Luiz Pretti), a sensação de imobilidade e o cinema gráfico (as fotos de Depois do Fim, de Ythallo Rodrigues), a metalinguagem como sinal de encontro e a mistura de texturas (A Linha da Pipa, de Themis Memória), o desencontro como símbolo de um não-pertencimento em A Pedra, de Rúbia Mércia, ou o cinema (justo) de espaço e tempo, imagem e som de Onde o Tempo Se Perdeu, de Ivo Lopes Araújo. Elementos que não estão isolados, mas perpassam os episódios, estando também, em maior ou menor grau, presentes aqui ou acolá, garantindo uma espécie de diálogo subterrâneo entre eles.

Por isso, de certa forma, buscar definir o que seja o filme PRAIA DO FUTURO como um todo acaba se revelando, ao final de todo esse processo, uma tarefa um tanto despropositada. Porque sua essência é nitidamente fugidia, como uma ilha misteriosa, em que cada um dos espectadores pode se aventurar por um recanto particular, que deve ser percorrida sem bússola, sem mapa, sem relógio (uma boa sugestão é que a ordem dos episódios pudesse ser randômica, diferente a cada exibição…): deve-se ter a consciência que ao ver PRAIA DO FUTURO o espectador nunca procure se encontrar e sim deve se deixar perder. Pois não é essa a verdadeira lição do cinema contemporâneo?

de volta

Caros,
Venho de umas longas férias, entre três eventos de cinema, entre o Espírito Santo, Ceará e Minas Gerais. Três lugares, três eventos totalmente diferentes. Por ali cruzei por espaços e cruzei por pessoas totalmente diferentes. Mais devo escrever sobre todo esse vendaval, que me encheu de alegria. Espero poder escrever também sobre Luzes da Cidade e Era Uma Vez, os únicos dois filmes que consegui ver no meio de tudo isso.

Mas primeiro – primeiro de tudo – quero reproduzir aqui o primeiro texto escrito sobre o PRAIA DO FUTURO, o longa-metragem coletivo da nova geração de Fortaleza. Para mim, presenciar tudo isso foi um momento inesquecível. Pode parecer pretensão, mas eu me senti um pouquinho parte disso também. Tudo na paz e na harmonia, até porque não teve transmissão no pay-per-view, porque eu ganhei a luta por W.O.

Estar em Fortaleza me faz alimentar os olhos, a alma e também o coração.

Depois quero escrever um pouco sobre a estréia do CARTA DE UM JOVEM SUICIDA no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, que me encheu de orgulho. Quero falar sobre o evento e também sobre um curta chamado ENCANTO, que, ainda que certamente não tenha sido o melhor curta do evento, foi para mim o mais singelo e inspirador. E também sobre as questões que percorrem as linhas limítrofes do chamado “cinema ambiental” no Festival de Caparaó, onde exibi o DOMINGO NO PARQUE.

sábado, julho 12, 2008

Não há nenhuma palavra que me associe mais ao modo burguês de ser do que o “tédio”. Uma coisa é a “angústia”, outra coisa completamente diferente é o “tédio”, assim como uma coisa é a “consciência da gratuidade da vida” e outra é “viver conscientemente de modo gratuito”. O “tédio” está associado à superfície das coisas, a “angústia”, a um sentimento profundo, a um profundo conhecimento de si mesmo, enquanto o “tédio”, ao contrário, é um estranhamento diante do mundo e diante de si mesmo. A angústia me remete ao modo de ser oriental, ao expressionismo alemão, a um certo período marcado no tempo pelo existencialismo; o tédio me lembra de um certo trejeito americano ou ainda do pós-modernismo. O tédio é blasé; a angústia, serena humildade. O risco diante do cinema de Sofia Coppola, diante de uma obra-prima como Encontros e Desencontros é exatamente o de que essa angústia descambe em mero tédio. O que de antemão não o faz melhor ou pior, mas apenas está relacionado a como se vê o mundo, e qual o papel do cinema - ou ainda, da arte - diante dele.

post à la Kafka

(um primeiro post com manifesta influência de minha atentíssima leitura de Carta ao Pai, do Kafka - explicando, já à maneira de Kafka: as frases habilmente sinuosas, esticadas quase até o seu limite, o rigor da construção formal, a metalinguagem, a tendência à exemplificação através da enumeração, as questões existenciais sobre si mesmo, a necessidade de ir fundo, bem além das superfícies, a retórica ao mesmo tempo formal e íntima, a sutilmente fina ironia, a extrema precisão, o asfixiante final de cada parágrafo.)

As pessoas que vêem este blog justamente como um site de crítica não percebem o seu sentido primordial: o de ser, para falar nos meus termos, justamente um diário. Aqui não me importa falar dos filmes que estrearam nas salas de cinema, falar das novas tendências do cinema contemporâneo, da particularidade do cinema japonês, ou coisas do tipo, ou melhor, só me importa falar de tudo isso na mesma medida em que me obriga a falar de mim mesmo. Assim sendo, este blog, muito mais modesto do que aparenta, simplesmente é sobre meus amigos, sobre meu trabalho, sobre meus sonhos juvenis, sobre a minha forma de ver – ainda que desajeitadamente – o mundo e as pessoas, ou seja, é no fundo sobre o próprio processo de criação, é “um filme em processo de ser feito”, como diria Godard – e isso vai para o Rosemberg e para o Moacy Cirne, que uma vez me cobrou o fato de eu nunca ter citado Godard neste blog. Até que ponto este exercício pode ser de alguma valia a alguém que não seja a mim mesmo passa a ser a primeira consequência natural dessa decisão de escrever deste jeito, mas essa questão, embora não caiba a mim exatamente a forma mais adequada de respondê-la, não invalida de antemão a sua existência, ou pelo menos me parece mais confortável pensar assim, para eu possa continuar respirando sem enlouquecer ou simplesmente continuar respirando.