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Cinecasulofilia

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quinta-feira, agosto 07, 2008

Era Uma Vez

Era Uma Vez
De Breno Silveira
Diamond Mall (Belo Horizonte) 28 jul 13:20
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(era uma vez um cinema brasileiro...)

Depois da enorme repercussão de um filme de encomenda como Dois Filhos de Francisco, a grande chance de Breno Silveira dirigir afinal seu primeiro longa-metragem, vem então seu “trabalho pessoal”, mais “elaborado”, mais “delicado”, sua “declaração de princípios” sobre o cinema. Ou seja, depois de um “trabalho menor”, Breno Silveira tem – com toda a tranqüilidade necessária – a oportunidade de mostrar ser um cineasta acima das conveniências, acima dos acasos.

Dois Filhos de Francisco – para além de todos os problemas – é um trabalho com alguns méritos em relação à artesania, em relação a resolver de forma precisa alguns problemas de espaço e ritmo, a se debruçar de uma forma simples sobre todo um universo, e na medida em que em seu projeto posterior Breno Silveira poderia desenvolver melhor um universo em que “pudesse estar mais à vontade”, as possibilidades de um novo trabalho não poderiam ser desprezíveis. O que fazer depois de toda a fumaça de Dois Filhos de Francisco?

Com Era uma Vez, paradoxalmente, Breno Silveira fez tudo isso e fez o avesso de tudo isso. Tento me explicar. Numa certa medida, o fracasso de Era Uma Vez, seja no seu olhar para o cinema e para a vida (a “declaração de princípios” do que se busca) seja no processo mesmo da artesania (é incrível como o mote do OLHAR da menina rica da janela para o menino pobre do quiosque em frente, e vice-versa, é tão mal trabalhado no filme – ficamos pensando na beleza de um Não Amarás, por exemplo...), comprova que no fundo Breno Silveira está longe de ser um autor, um diretor com “questões”. Por outro lado, o intimismo de Era Uma Vez, seu mote do choque de realidades sociais, é sim uma profunda declaração de princípios, e o seu fracasso o faz um dos filmes mais exemplares do cinema brasileiro recente. “Exemplar” no sentido de ser um exemplo quase paradigmático das fissuras e dos dilemas do cinema brasileiro de hoje.

O filme de mercado e o filme de autor.
A menina rica e o menino pobre.
Realismo e artifício.
Cidade Partida.

Era Uma Vez fala de uma invisibilidade. A menina rica não percebe o menino pobre. Ele passa a ser visível, ele passa a ser de carne e osso PARA ELA ao longo do filme, cada vez mais. À medida que isso vai acontecendo, a menina passa a ser “menos alienada”, ela passa a ver uma realidade que lhe era invisível. (Esse “tema” é bonito e muito interessante). Mas “acontece” que o desvelamento dessa realidade “acontece” através de uma história de amor cheia de todos os clichês, e “acontece” que essa descoberta dessa realidade “acontece” – através da imagem – por meio de uma fotografia publicitária que faz com que o espectador nunca na verdade descubra efetivamente essa mesma realidade que o filme quer nos apresentar. Ou seja, é um mergulho higiênico, uma descoberta cheia de senões, não se quer realmente ir a fundo na descoberta desse “outro mundo” nem da dificuldade desse casal de ficar junto. Ora, porque no final das contas, Era Uma Vez, já pelo título, se apresenta como “um conto de fadas”.

Esse paradoxo é o ponto nevrálgico do cinema brasileiro de hoje.

A menina rica (bela, belíssima, de uma beleza quase imprópria) descobre esse sentimento verdadeiro, ingênuo e primitivo do mundo do menino pobre. (Descobre em parte, como já dissemos). Esse desejo do diretor em descobrir (em parte) esse mundo é profundamente verdadeiro, mas ao mesmo tempo profundamente, profundamente falso. Porque não podemos descobrir o outro sem abrir mão de algo de nós mesmos. E o grande problema de Era Uma Vez é que o diretor não parecia ser capaz de abrir mão do que era preciso para abraçar uma possibilidade verdadeira dessas duas pessoas conversarem, se tocarem, de uma forma que fosse de fato verdadeira. Por isso, apesar de muito sintomático, Era Uma Vez é um enorme muro de lamentações, porque verdadeiramente ergue – em termos da imagem e da linguagem – muito mais preconceitos sobre esses dois mundos do que contribui para dirimi-los. Não chega a ser nocivo, porque incrivelmente soa verdadeiro, mas é simplesmente falso, falso, falso, sem vida. Uma pena.

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