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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

quinta-feira, setembro 25, 2008

(FESTRIO 1) LIVERPOOL

Liverpool
de Lisandro Alonso


Liverpool é o quarto longa-metragem do argentino Lisandro Alonso e o primeiro a ser exibido no Rio de Janeiro. Fantasma, o longa anterior de Alonso, fecha uma espécie de trilogia. Coloca – para si mesmo, para o espectador – uma questão: para onde caminhar?

Caminhar sem sair do lugar, mudar para continuar o mesmo, reacomodar – práticas típicas do comportamento zen.

Liverpool possui muitas semelhanças com o cinema anterior de Alonso. Fala, assim como Los Muertos, de um processo de busca às origens, de retorno a uma espécie de porto seguro interiorano para, lá chegando, descobrir que essa remota origem de tudo está definitivamente perdida, arruinada.

Esse caminho de busca no cinema de Alonso está refletido por um cinema que busca um espaço físico, uma geografia remota como uma cartografia de um íntimo perdido. É o barco que pára num porto para em alguns dias voltar a prosseguir viagem.

Esse espaço físico, no entanto, não é mostrado como no cinema de Reygadas, em que existe todo um deslumbramento meio que barroco com os espaços em espansão, com a natureza grandiosa que quase esmaga o Homem (vide o primeiro – e o último – planos de Luz Silenciosa). Em Alonso, a geografia física – protagonista – é espelho de uma fissura, é fator de silêncio.

Já em Fantasma estava claro que o grande mote do cinema de Alonso é o silêncio.

Esse silêncio – silêncio de um mundo – nos faz a quase todo momento acompanhar esse personagem sem saber ao certo quem ele é, o que ele procura. Como típico cinema contemporâneo, rompendo os movimentos de identificação, de psicologização, e de explicitação das motivações. Por outro lado, produzindo um cinema feito de tempo e de espaço: calçando um sapato, comendo um jantar, subindo na garupa de um caminhão.

Mas é preciso observar além, refletir sobre o papel do cinema, sobre o que são feitas as coisas. Há uma sutil mas importante mudança de mise-en-scene de Liverpool para seus trabalhos anteriores. Os planos longos, os tempos vazios, os movimentos de câmera que acompanham de longe o movimento dos atores, planos com pouca profundidade de campo, etc, que espelham uma busca por uma narrativa mais serena. Liverpool é um trabalho de depuração estilística em relação aos seus filmes anteriores. Nesse sentido, é um trabalho de maturidade.

Ao final, o cinema de Alonso tem um desfecho que, ao meu ver, é um tanto mais esperançoso que seus filmes anteriores, mais pessimistas. É como se Alonso tivesse feito um filme dos Irmãos Dardenne.

Liverpool está para o cinema de Alonso assim como A Criança está para o cinema dos Dardenne.


Por outro lado, Liverpool demonstra uma enorme acomodação no cinema de Alonso, revela que Alonso parece estar se deixando aprisionar pela enorme sedução do Festival de Cannes.

Liverpool aponta para frente e para trás. Resta ver em seu quinto filme para que lado afinal ele vem caminhando.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Festival do Rio

Festival do Rio
Putz... o tormento continua....

Essa escala de ordem de preferência reflete apenas as minhas preferências pessoais e tentam privilegiar os filmes que não devem estrear comercialmente. Há alguns (Trapero, Martel, Rohmer e em menor escala Kitano, Miyazaki, Sokurov) que devem estrear mas não quero arriscar. Há também outros meios alternativos de acesso aos filmes que podem facilitar (you know what I mean...). Não contam as retrospectivas, que ainda não foram informadas. Nem as “Première Brasil” (que este ano estão bem fracas...). Curiosamente (ou não) o filme mais aguardado por mim em todo o festival é o novo do Lisandro Alonso. Aliás, será a primeira exibição de um filme do diretor em terras fluminenses. Guerin creio que nem preciso comentar. O filme português do Miguel Gomes parece que é bem estranho e bem singular. E Aoyama, o que dizer! Ave Aoyama! E K Kurosawa, que vim estudando recentemente... e mais um Garrel.. e, por incrível que pareça, eu quero muito ver esse filme do Escalante, e tem tbem o novo do Fendrik... bom, no final das contas, sempre há coisa boa pra se ver no Festival do Rio...


FILMES OBRIGATÓRIOS
(CATEGORIA “A”):

- 'Liverpool', de Lisandro Alonso
- 'En La Ciudad de Sylvia', de José Luis Guerin
- 'Aquele querido mês de agosto', de Miguel Gomes
- Sad Vacation (Saddo Bakeshon), Shinji Aoyama (Japão)
- 'La Frontière de L'Aube', de Philippe Garrel
- Tokyo Sonata (Tokyo Sonata), Kiyoshi Kurosawa (Japão)


FILMES QUE TENHO MUITA CURIOSIDADE
(CATEGORIA “B”):

- 'Los Bastardos', de Amat Escalante
- 'Four Nights with Anna', de Jerzy Skolimowski
- 'La mujer sin Cabeza', de Lucrecia Martel
- 'Les Amours d'Astrée et de Céladon' (The romance of Astrea and Celadon), de Eric Rohmer (França)
- 'Wu Yong' (Useless), de Jia Zhang-Ke(China)
- 'La leonera', de Pablo Trapero
- Sukiyaki Western Django (Sukiyaki Western Django), Takashi Miike (Japão)
- 'La Sangre Brota',de Pablo Fendrik
- The Rebirth (Ai no Yokan), Masahiro Kobayashi (Japão)


FILMES QUE DEVO VER:
(CATEGORIA “C”):

- 'Bam gua nat' (Night and Day), de Hong Sang-soo (Coréia do Sul)
- 'Miryang' (Secret Sunshine), de LeeChang-Dong (Coréia do Sul)
- 'Alexandra' (Alexandra), de Alexander Sokurov (Rússia)- 'Sanguepazzo' (Wild Blood), de Marco Tullio Giordana (Itália)
- 'Wonderful Town', de Aditya Assarat
- 'Delta' (Delta), de Kornél Mundruczó(Hungria)
- Ponyo on the Cliff by the Sea (Gake no ue no Poniyo), Hayao Miyazaki (Japão)
- Achilles and the Tortoise Akires to Kame, Takeshi Kitano (Japão)
- 'Heya fawda' (Chaos), de Youssef Chahine, Khaled Youssef (França)
- 'La Rabia', de Albertina Carri

segunda-feira, setembro 15, 2008

nascer e florescer

Em homenagem ao 'Mistério do Samba' a letra da obra-prima "Nascer e Florescer" de Manacéa.
É um "samba zen", aplicação perfeita da filosofia zen aos morros cariocas. A melodia tem enormes sutilezas, quebras rítmicas, que desconstroem totalmente o que pode parecer um certo "didatismo moralista". O refrão final é espetacular.

Não tenho ambição neste mundo, não
Mas sou rico da graça de Deus
Tenho em minha vida um amor de valor
É o meu tesouro encantador

Sei que reclamas em vão
Porque não tens a compreensão
Que o mundo é bom
Para quem sabe viver
E se conforma com o que Deus lhe dá

A nossa vida é nascer e florescer
Para mais tarde morrer

O Mistério do Samba

O Mistério do Samba
de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda
* ½

A amiga Cris Arruda fez uma observação que resume à perfeição o que é o filme: ele poderia se chamar “Tudo Azul” ao invés de “O Mistério do Samba”. Essa observação nos traz um conjunto de questões: i) o fato de o filme se concentrar na Velha Guarda da Portela, ao invés de buscar uma abrangência maior sobre o universo do samba; ii) como o filme não possui nenhuma vinculação com a obra de referência do Hermano Vianna (no sentido da investigação) para, ao invés disso, buscar uma “leve crônica musical” de um grupo de pessoas; mas essencialmente aponta para o fato de o filme parecer uma espécie de material promocional do CD produzido por Marisa Monte com gravações da Velha Guarda da Portela, chamado Tudo Azul.

Tanto é assim que além da própria Marisa Monte servir como uma espécie de “cicerone”, ponte entre o espectador e os sambistas, o repertório musical ouvido no filme é quase todo fruto do próprio CD Tudo Azul. Da mesma forma, as “participações especiais” de Zeca Pagodinho e Paulinho da Viola, e até mesmo a presença marcante de Monarco, todas elas são as que exatamente estão contidas no CD.

Isso tudo pode não desmerecer o filme em si, mas conhecer esse fato nos faz repensar sua lógica de produção, o sentido da sua existência. Quase como uma peça promocional de um CD lançado há quase dez anos, O Mistério do Samba acaba sempre ficando refém do seu extraordinário repertório (em especial as canções de Manacéa, como a obra-prima “Nascer e Florescer”). No início, com imagens fixas e uma voz-off que parece querer buscar o olhar “pitoresco” e “posado” com que geralmente o samba é retratado, busca-se uma falsa sofisticação de imagem que no fundo é totalmente vazia. Mas a partir da metade do filme, há uma certa intimidade, valorizando as músicas e as rodas de samba, e então o filme inegavelmente cresce. Como sempre, o público reage melhor aos “causos pitorescos” (a mulher que jogava pedra no marido, o compositor que mandou “as piranhas lavarem a louça”, etc.). Mas por trás desse anedotário raso, há também comentários interessantes (Argemiro e o samba sobre a garrafa e o sentido da solidão, a importância das pastoras, Tia Eunice falando sobre o miudinho, etc).

É preciso fazer ver que o filme possui um certo recorte em relação a como a própria Velha Guarda da Portela é mostrada, com a ausência desde de membros antológicos (por exemplo Candeia) como de pessoas de hoje que dão visibilidade à VGP mas que o projeto optou por não mostrar (por exemplo Cristina Buarque).

O Mistério do Samba mostra o samba in natura.

segunda-feira, setembro 08, 2008

"off on" topic

Texto interessante sobre "pra que serve um blog?"
http://wnews.uol.com.br/site/colunas/materia.php?id_secao=1&id_conteudo=569

sábado, setembro 06, 2008


6 - mesmo nos interiores, a câmera de Otheguy é em geral respsitosa, distante, evocando um profundo sentimento de solidão. A plasticidade da imagem permanece.


7 - a biblioteca, mostrada com enorme rigor, com um enquadramento frontal.


8 - contraste entre interior e exterior: rigor e solidão.


9 - o olhar voyeurístico de La León, desta vez num mesmo plano: uma espécie de um plano-síntese sobre a natureza dos Homens e das coisas.






1-5: o extraordinário sentido plástico e o rigor de La León em cinco externas

La León

La León
De Santhiago Otheguy
** ½


La León é um típico exemplar do recente cinema argentino, de enorme apuro formal. Longa-metragem de estréia de Santhiago Otheguy, é nitidamente influenciado pelo cinema de Lisandro Alonso, na importância em que o espaço físico exerce na condução do filme, numa narrativa que fica em segundo plano em relação à construção de climas, com grandes elipses, no foco num personagem principal que se relaciona de forma brutal com a natureza em torno, a escolha de pessoas do próprio local sem prévia experiência na atuação para representar os personagens, na quase escassez de palavras, pelo enorme apuro plástico, pelo cinema de tempos, silêncios e de ênfase na solidão. Embora um certo aspecto documental possa ser percebido devido à observação delicada da rotina dos habitantes do lugar (em especial a exploração de madeira), o uso do preto-e-branco reforça a intenção de Otheguy de se afastar de uma abordagem realista no olhar para esse espaço físico (a região do Delta, na Bacia do Paraná). Isso reforça a intenção de Othguy de compor um cinema plástico, de estonteante beleza fotográfica. Combinado a isso, há um trabalho sutil de som, como não podia ser diferente, já que Othguy também é formado em música. Essa beleza, de um lado, oprime o filme, mas de outro, traz um enorme rigor, que traduz um olhar extremamente particular e refinado do diretor para esse dia-a-dia da região. A beleza plástica da fotografia em HD que estiliza o olhar sobre uma região um tanto pobre nos faz associar ao recente O Grão, brilhantemente fotografado por Ivo Lopes Araújo (ver aqui).

Em termos de decupagem, há uma particularidade em La León: de um lado, o filme se baseia em um grande número de grandes planos gerais, que enfatizam a importância do espaço físico em relação ao filme, especialmente o rio, cujo percurso domina o filme. De outro, closes, em especial nos dois personagens principais. Oteguy corta sem receio do grande plano geral para o big close. A questão do olhar é central ao filme, e o diretor trabalha de forma inventiva com esse recurso, seja em campo-contracampo, seja num mesmo plano, como na cena em que o barqueiro olha Alvaro pelo espelho no banheiro após um jogo de futebol.

La León, mais que um filme sobre a região do Delta, é um filme sobre a natureza, sobre como a natureza dos Homens se afeiçoa à natureza do local, e como essa natureza se manifesta, não conseguindo ser reprimida. Um sentimento profundo de solidão e o lento fluxo do rumo das coisas (como o movimento contínuo de um rio) acaba provocando uma natureza instintiva, adormecida nos Homens.

Exemplar típico de um “cinema contemporâneo”, em La León às vezes cai num certo exagero, num certo esteticismo: planos longos, narrativa excessivamente fragmentada, personagens obscuros, fotografia estilizada, e daí em diante. Mas mesmo por trás de seus excessos, La León como filme de estréia, é um grande espanto, e revela que Santhiago Otheguy merece ser observado de fato como um grande talento do cinema argentino. E, por fim, é um privilégio que esse filme tenha sido lançado comercialmente no Brasil, graças à Moviemobz, ainda que numa cópia digital que não faz totalmente jus à estupenda fotografia do filme e na bizonha salinha do Estação Botafogo 3.

o "evento" Paissandu

Entre os dias 29 e 31 de agosto, anunciou-se o fechamento do Estação Paissandu. Um verdadeiro rebuliço foi criado pelo Jornal O Globo, já que o cinema é evidentemente um dos mais tradicionais da cidade. Formou-se então um “evento”: durante todo o final de semana, foram exibidos clássicos do cinema a R$1. Ótimo, a princípio, se não tivesse se transformado num “espetáculo”, numa “casa de horrores”: jovens fazendo poses para fotos, estudantes de cinema com várias câmeras para fazer documentários, candidata a vereadora distribuindo santinhos, etc. Ou seja, o fechamento do Paissandu, patrocinado pelo O Globo, virou “o evento” do final de semana, e as pessoas que iam lá para presenciar esse “espetáculo da despedida” estavam interessadas em tudo, menos no cinema, menos no filme que ia ser exibido. Esse era o mero detalhe, era o que justificava o circo, a festa, a agitação, o evento, o espetáculo. Game over.

No meio de todo o circo, acabei vendo apenas quatro filmes, embora tivesse me programado para ver muitos mais. Tive coragem para arriscar a famosa superpoltrona da primeira fileira do cinema, e foi um espetáculo: foi uma das maiores experiências ver Le Feu Follet na última sessão do Paissandu nessa superpoltrona. Mesmo diante de todo o circo.

Bom, queria escrever com mais detalhes, mas vou conseguir apenas rascunhar algumas coisas sobre os filmes que (re)vi no Paissandu.

L´Atalante
De Jean Vigo
*** ½

Esse pequeno filme do Jean Vigo é muito à frente do seu tempo. Vigo, já no início dos anos trinta, compreendeu muito bem qual é a essência do cinema. A partir de um material vagabundo, de parco interesse, transformou L’Atalante num cântico de amor à vida, de enorme expressividade, um dos trabalhos de maior liberdade que eu já vi no cinema. Simples, pobre, roto, L’Atalante tem um tom ambíguo, uma combinação estranha (i.e extremamente particular) de um realismo meio brutal com um lirismo fantástico, ou, por outro lado, de uma simplicidade rústica e de uma sofisticação formal ímpares. Uma decupagem estranha, com alguns ângulos de câmera extremamente inventivos, supostamente influenciados pelo cinema vanguardista francês dos anos vinte, e com saltos de montagem e de eixo (embora isso possa ser devido ao atribulado processo de montagem do filme, que praticamente não foi concluído por Vigo e pelas outras versões do produtor para que o filme conseguisse ser lançado…). Uma atuação impagável de Michel Simon como o Tio Jules, que é um resumo do filme (apesar de um pouco careteira). Uma cena inesquecível: o contato da esposa do capitão (Dita Parlo) com o quarto onde dorme Tio Jules, ou seja, com o seu mundo, com seu passado, com seu corpo tatuado, com sua vida, com suas esperanças e desejos. Um aposento pequeno, sujo, mas enormemente íntimo, que a câmera de Vigo abraça com enorme senso de afetividade. Outra cena acontece no bar em Paris em que o capitão e a esposa vão tomar algo, e um vendedor ambulante começa a se insinuar para a esposa do capitão, e Vigo resolve de forma extremamente simples e eficiente a cena com dezenas de figurantes. O filme possui um misto de uma alegria esfuziante mas também de uma certa melancolia, uma síntese da vida no mar daquela “família improvisada”. Belo filme.


O Desprezo
De Jean-Luc Godard
*** ½

Fascinante a experiência de rever O Desprezo na tela em cinemascope no Paissandu. O Desprezo é sem dúvida o filme mais acabado do Godard, uma espécie de um duro testamento de uma filmografia, ainda que estivesse no início de um caminhar. O brilhantismo técnico, a complexidade do roteiro, em especial como aborda as interseções entre um relacionamento amoroso e o profissional, ou seja, o amor e o dinheiro, o sexo e o poder, o cinema e a prostituição, tornam O Desprezo um dos grandes marcos da história do cinema. O Desprezo é um filme sobre um filme sendo feito (metalinguagem) mas não é só isso, ou não fica só nisso. Um produtor milionário (Jack Palance) contrata um roteirista (Michel Piccoli) para alterar o filme que está sendo dirigido por Fritz Lang. O roteirista traz sua exuberante mulher (Brigitte Bardot) e aí tudo começa: cinema, poder, amor, sexo, dinheiro, sonhos, prostituição. Minha leitura é que Bardot deixa de amar Piccoli (ou melhor, passa a sentir desprezo por ele) por se sentir usada num plano inconsciente de Piccoli de se promover no cinema, “oferecendo” sua esposa para o produtor. A forma ambígua como Godard trata este tema se aprofunda numa sequência no apartamento do casal, que nos remete à longa sequência de Acossado, mas agora modificada. De outra parte, há o cinema: Fritz Lang, com uma participação notável, faz uma espécie de contraponto ao produtor “bom vivant”. O que talvez seja o primeiro filme de Godard de grande proidução é por um lado a prova de que Godard é um mestre do cinema no sentido de um domínio plástico e técnico, e por outro uma crítica à futilidade que envolve o cinema de grande produção.

Há algo nesse filme que me incomoda bastante em relação à forma como Godard aborda o drama de um relacionamento amoroso, com uma certa futilidade. Várias coisas me lembraram de um relacionamento passado, talvez por isso uma certa implicância. Algo na composição dos personagens (cada qual representando o seu “papel” ao invés de ter uma natureza mais pessoal, mais própria) também me incomoda em muito, em especial o produtor. Mas é um filme da década de sessenta, não é cinema contemporâneo, e não há como não dizer que O Desprezo é praticamente uma obra-prima, de um rigor, profundidade e complexidade indiscutíveis. Basta comparar a sobriedade da visão de Godard com o processo do cinema com a trivialidade de Truffaut no A Noite Americana.


Parade
De Jacques Tati
** ½

O cinema de Tati sempre foi um tanto avesso às classificações, mas nesse que foi seu último filme, Tati foi num certo sentido mais além, simplificando para complexificar. Ainda que não tenha a sofisticação formal de um Playtime, Parade é um filme em que nos perguntamos o tempo todo qual é a natureza do cinema. Parade é complexo, porque por um lado parece um documentário sobre uma apresentação circense, composta de esquetes, filmado com mais de uma câmera, em vídeo, exatamente como um programa de TV. Ou seja, por um lado, a referência do “teatro filmado” dos anos dez: o cinema como um registro de uma apresentação num palco que se desdobra diante da câmera que apenas observa. De outro, a TV, o vídeo, mais de uma câmera. Mas por trás disso, há o cinema de Tati, há, é claro, a presença do som, há um enorme desabafo que o cinema precisa retroceder para poder avançar. Esse recado fica claro quando o próprio Tati faz uma pantomima: com absolutamente nada, a platéia ri, o cinema se faz diante de nós.

Parade é complexo: é um filme não apenas de um espetáculo que de desdobra diante de nós. É também isso (as esquetes, a pantomima, o som, o cinema como circo, a leve melancolia, o cinema não como roteiro mas como um conjunto de gags que se desdobram, etc). Mas por outro lado, é um filme sobre o contracampo, sobre a reação da platéia, e não é à toa que em alguns momentos, a platéia interaja com o espetáculo, transformando os dois em uma coisa só. Documentário ou ficção, já que é claro que as pessoas da platéia que interagem com o espetáculo foram previamente combinadas? E, por fim, há o fim, um recurso de enorme poder lírico, uma discurso de despedida de Tati, recurso simples mas de enorme alcance em que diz que enquanto duas crianças ainda puderem se encantar, o circo nunca vai acabar. O circo, ou seja, a pantomima, ou seja, o cinema retrógrado, teatral e televisivo de Tati. Um viva!


Trinta Anos Esta Noite
De Louis Malle
***

A verdade é que este filme do Malle envelheceu um pouco visto de hoje, mas vendo-o parece indiscutível sua repercussão dentro dos anos sessenta e especialmente aqui no Brasil, para a geração do cinema novo, quando pensamos em diversos filmes da chamada segunda fase (de O Desafio até O Bravo Guerreiro). Maurice Ronet percorre bares, visita antigos amigos, tenta recuperar para o presente os rastros perdidos de um passado um tanto distante, de uma vida em que ele não se encaixa mais. A antiga euforia se revelou passageira, e agora há um profundo vazio espiritual e um agudo sentido de solidão. Ele se sente ridicularizado pelos “antigos amigos” mas também não quer levar uma vida medíocre, com um emprego medíocre e uma esposa medíocre. Tem sonhos grandes mas se sente pequeno demais para poder continuar com eles. Delicado (o início é a parte que eu mais admiro, especialmente quando pensamos o que virá depois) e íntimo, Le Feu Follet não cai no melodrama da “vida perdida” ou da “condenação do passado”. E como marca de um cinema moderno, tem na perambulação do seu personagem-central e na importância das locações em externa um modelo de forma de se fazer cinema que impressiona ainda hoje.

terça-feira, setembro 02, 2008

A árvore e a girafa

O Raphael Fonseca escreveu um texto importante sobre “o discurso curatorial da Mostra do Filme Livre” (veja aqui). Digo importante porque ele foi talvez o único que tenha se debruçado sobre o que a mostra se propõe a fazer a partir dos textos escritos no catálogo sobre o que seria um filme livre. O texto é muito bem escrito e instigante, e Raphael foi muito generoso, em especial com os meus textos que, sem dúvida, modéstia à parte, marcam a base conceitual em torno do qual a mostra se estruturou e que torço para que consiga se manter após o meu afastamento. O Raphael tem uma posição privilegiada para escrever o texto, com uma proximidade dos curadores e da produção da mostra, e ao mesmo tempo um certo distanciamento do processo em si da curadoria. Essa sua posição relativa ele aproveitou muito bem. E me fez ver que os textos que escrevi na Mostra (em especial os de 2004, 2005 e 2006) formam um esboço bastante consistente para as propostas da Mostra. No entanto, o texto que ainda mais gosto é o de 2007, pois, no que sabia ser o meu último ano de Mostra, ao invés de escrever um texto raivoso ou indignado, resolvi fazer um texto de enorme sensibilidade pessoal, uma semente de esperança em relação ao que a Mostra procurou plantar nesses anos. Como último legado, ao invés de um texto “teórico”, resolvi fazer um texto “prático”, uma metalinguagem: um texto que procura ser livre sobre uma mostra que procura ser livre.


Os principais conceitos são:
- filme livre como possibilidade da diferença, como possibilidade de fazer um filme que não seja televisão, hollywood, publicidade ou videoclipe;
- filme livre como uma “idéia em construção”, que não se pode definir, pois ao definir, estamos rotulando, e portanto tirando a liberdade de ser do filme;
- filme livre como uma utopia, como um desejo de liberdade plena que é naturalmente impossível;
- filme livre como uma busca, cujo processo é mais importante que o resultado final;
- filme livre como um sonho, como possibilidade de chegar até “você” e assim não querer mais morrer


Textos:

Mostra do Filme Livre 2004

Mostra do Filme Livre 2005

Mostra do Filme Livre 2006

Mostra do Filme Livre 2007

Sobre as pesquisas e o nosso futuro

As pesquisas são ridículas. Duas delas, publicadas recentemente, falam as maiores “abobrices” sobre porque as pessoas não vão mais ao cinema, e olha que são pesquisas milionárias. Teve uma outra pesquisa (veja aqui) – que atraiu muito o meu interesse – que buscava medir o índice de felicidade presente e futura (daqui a cinco anos) das pessoas de países diferentes. Pois – pasmem – o brasileiro é o povo mais confiante em como estará sua situação daqui a cinco anos: fica em primeiro lugar na lista em relação a outros 131 países. O Brasil é o país do futuro!

Mas nessas pesquisas sempre há algo interessante. Uma delas é um fato lógico quando pensamos em termos matemáticos, mas que tem um sentido mais profundo: é a constatação de que conforme as pessoas vão se tornando mais velhas, menor a nota que dão para o índice de felicidade futura. Mas além disso, há uma outra coisa, que é o que no fundo eu quero aqui destacar. O site que divulgou a pesquisa no Brasil abriu uma enquete que pergunta ao leitor o que falta para que ele seja feliz. Um deles respondeu que ele apenas gostaria que, antes de mudar o mundo, as pessoas começassem mudando a sua própria casa.

Essa resposta me emocionou em muito.

The Happening

Fim dos Tempos
De M. Night Shyamalan
** ½


Visionário, apaixonado, enigmático, o cinema de M. Night Shyamalan se revela por trás do que esconde: por trás da aparente tranquilidade do Central Park em Nova Iorque há o início do fim. Já pelo título, há um ingrediente fantástico, que há algum tempo eu já vinha citando aqui neste blog: a aproximação do cinema de Shyamalan com o de Spielberg. Fim dos Tempos é quase um filme-gêmeo de Guerra dos Mundos, um filme-gêmeo, um filme-órfão (incompreendido) e ainda assim uma espécie de resposta ao primeiro. São curiosas as relações intrínsecas entre os últimos trabalhos desses dois realizadores tão particulares: em seus últimos trabalhos, Spielberg vem compondo uma radiografia madura por trás do cinema-espetáculo. Em Guerra dos Mundos, como já afirmei aqui, o que mais importa é que uma família passe a se redescobrir, a se re-unir a partir de um evento tão extraordinário. É a luta de um pai que luta contra tudo e contra todos – mesmo contra os seres alienígenas mais aterrorizantes – para manter sua família unida. Fim dos Tempos também não deixa de ser isso: por trás de sua aparência de filme-catástrofe, no fundo é uma história de um casal em crise, casal que se redescobre a partir da necessidade de sobreviver. E é tão isso que não é à toa que Fim dos Tempos tenha o final mais impressionantemente humano da filmografia de Shyamalan – e digo isso apostando que o filme acaba de fato no abraço do casal, e tudo o que vem depois, simplesmente desapareça das nossas memórias.

Com uma certa ironia, inclusive com os códigos desgastados das “justificativas” dos filmes fantásticos, Shyamalan não se importa muito em contextualizar os motivos e as consequências da eclosão de uma espécie de toxina que mata as pessoas. Parece com um filme de Aoyama ou mesmo de Kurosawa: não é que a toxina mate as pessoas, ela simplesmente leva que as próprias pessoas se matem, e isso faz toda, toda a diferença. Quem diria! O jovem gênio dos “roteiros mirabolantes” e dos “finais surpreendentes” não mais se preocupa com isso, chega à sua maturidade: Fim dos Tempos é tudo menos um filme de roteiro (o plot se resume a algumas linhas e com um desenvolvimento absolutamente previsível, sem reviravoltas, ao contrário, é um agudo e progressivo caminhar de desespero até o fim de tudo…), agora tudo é uma questão de como encenar, e, mais ainda, da encenação como um gesto diante do espectador. Fim dos Tempos, em comum com outros trabalhos de Shyamalan, é um filme todo composto de climas: sua essência angustiante está na precisão exata, absurda, como o mundo de equilíbrio está prestes a desmoronar, cada vez mais, o tempo todo!

Fim dos Tempos – o título já nos diz – é a história de um fim, parábola sombria sobre o destino da humanidade, e por isso um filme triste, cuja escalada dos protagonistas está em fugir de algo que não se conhece, refugiando-se cada vez mais para o interior, para o interior, para o interior – e longe das pessoas. Mortes em série, crianças fuziladas sem piedade, corpos caindo do céu: não é agradável assistirmos ao angustiante percurso do filme.

Até o seu final, em que Shyamalan deixa ainda mais claro que seu objetivo é falar da possibilidade de um casal manter-se junto mesmo diante das maiores adversidades. De tão bonito, parece até um filme de Aoyama ou mesmo de Kurosawa: maduro, Shyamalan desistiu de fazer obras-primas, para fazer filmes que são puramente compostos de cinema e que, claro, dêem uma certa alfinetada sobre o modo de ver da materialista sociedade americana. E claro que dêem um abraço carinhoso no cinema de Spielberg, com o qual se filia nunca meramente se reportando, mas dialogando de uma forma ambígua.