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Cinecasulofilia

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sábado, setembro 06, 2008

La León

La León
De Santhiago Otheguy
** ½


La León é um típico exemplar do recente cinema argentino, de enorme apuro formal. Longa-metragem de estréia de Santhiago Otheguy, é nitidamente influenciado pelo cinema de Lisandro Alonso, na importância em que o espaço físico exerce na condução do filme, numa narrativa que fica em segundo plano em relação à construção de climas, com grandes elipses, no foco num personagem principal que se relaciona de forma brutal com a natureza em torno, a escolha de pessoas do próprio local sem prévia experiência na atuação para representar os personagens, na quase escassez de palavras, pelo enorme apuro plástico, pelo cinema de tempos, silêncios e de ênfase na solidão. Embora um certo aspecto documental possa ser percebido devido à observação delicada da rotina dos habitantes do lugar (em especial a exploração de madeira), o uso do preto-e-branco reforça a intenção de Otheguy de se afastar de uma abordagem realista no olhar para esse espaço físico (a região do Delta, na Bacia do Paraná). Isso reforça a intenção de Othguy de compor um cinema plástico, de estonteante beleza fotográfica. Combinado a isso, há um trabalho sutil de som, como não podia ser diferente, já que Othguy também é formado em música. Essa beleza, de um lado, oprime o filme, mas de outro, traz um enorme rigor, que traduz um olhar extremamente particular e refinado do diretor para esse dia-a-dia da região. A beleza plástica da fotografia em HD que estiliza o olhar sobre uma região um tanto pobre nos faz associar ao recente O Grão, brilhantemente fotografado por Ivo Lopes Araújo (ver aqui).

Em termos de decupagem, há uma particularidade em La León: de um lado, o filme se baseia em um grande número de grandes planos gerais, que enfatizam a importância do espaço físico em relação ao filme, especialmente o rio, cujo percurso domina o filme. De outro, closes, em especial nos dois personagens principais. Oteguy corta sem receio do grande plano geral para o big close. A questão do olhar é central ao filme, e o diretor trabalha de forma inventiva com esse recurso, seja em campo-contracampo, seja num mesmo plano, como na cena em que o barqueiro olha Alvaro pelo espelho no banheiro após um jogo de futebol.

La León, mais que um filme sobre a região do Delta, é um filme sobre a natureza, sobre como a natureza dos Homens se afeiçoa à natureza do local, e como essa natureza se manifesta, não conseguindo ser reprimida. Um sentimento profundo de solidão e o lento fluxo do rumo das coisas (como o movimento contínuo de um rio) acaba provocando uma natureza instintiva, adormecida nos Homens.

Exemplar típico de um “cinema contemporâneo”, em La León às vezes cai num certo exagero, num certo esteticismo: planos longos, narrativa excessivamente fragmentada, personagens obscuros, fotografia estilizada, e daí em diante. Mas mesmo por trás de seus excessos, La León como filme de estréia, é um grande espanto, e revela que Santhiago Otheguy merece ser observado de fato como um grande talento do cinema argentino. E, por fim, é um privilégio que esse filme tenha sido lançado comercialmente no Brasil, graças à Moviemobz, ainda que numa cópia digital que não faz totalmente jus à estupenda fotografia do filme e na bizonha salinha do Estação Botafogo 3.

1 Comments:

Blogger Luiz said...

Ikeda,

Muito boa a sua análise do filme. É uma pena que La León não recebeu a atenção que merecia no circuito. E devemos acompanhar os próximos passos sim de Otheguy. Aliás, no próprio blog da Moviemobz saiu uma boa entrevista a respeito dele. Vale ler.
Link: http://mundomobz.blogspot.com/

Um abraço.

4:19 PM, setembro 08, 2008  

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