.comment-link {margin-left:.6em;}

Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

sábado, outubro 25, 2008

autoretrato e o movimento

Caros,
estou aqui em Fortaleza participando da Bienal de Danca, no Encontro Terceira Margem.
Esta sendo bem interessante para pensar as relacoes entre danca, corpo e imagem.
Num dos debates, li um breve texto em que faco breves reflexoes sobre o movimento, relacionado ao cinema que venho buscando. O texto tem tres 'movimentos': uma tese, uma antitese, e uma sintese. Eis o texto:

1)
No meu curta “Auto-Retrato do Artista Durante a Gestação”, no longo plano final que encerra o video, há três movimentos. O primeiro é o de me despir e tomar banho; o segundo, o de me olhar no espelho; o terceiro, de me sentar e aguardar. Esse plano, de mais de três minutos com câmera fixa, em geral choca, irrita e incomoda as pessoas, que julgam ser uma “exposição egocêntrica”, “lentidão desnecessária”, “caseiro, precário demais”. O primeiro movimento, de “expor-me nu”, “tomando um banho” talvez seja a expressão mais genuína e mais corajosa dos movimentos pretendidos pelo meu cinema. Exposição difícil, dolorosa, contrária à minha natureza da parcimônia e da discrição. Exposição difícil mas necessária, posto que o cinema nada mais é que “depuração”, “despojamento”, “desnudamento”. É curioso como as pessoas reclamam que este é um plano “muito sem ação”, “muito lento”, “entediante”, em que “nada acontece de relevante”, porque para mim nesse plano de três minutos de câmera estática, há todo um arco de movimento extremamente obtuso e grave.

Isto me leva a refletir sobre a natureza do movimento no cinema e na vida. As pessoas reclamam que o plano final do “auto-retrato” é “sem movimento”, “sem ação”, porque elas acham que “um filme movimentado” é um filme do Batman, em que o protagonista super-herói escala prédios, salva pessoas, corre e voa pelas ruas, arquiteta planos, faz malabarismos, ou seja, tira o nosso fôlego pela quantidade de tarefas que executa ao longo do filme. É curioso mas ao final da sessão eu geralmente me queixo que nesse tipo de filme não houve nenhuma ação, nenhum movimento. É como quando uma pessoa comenta comigo que hoje fez muitas coisas, “consertou seu celular que estava quebrado, conseguiu resolver aquela pendência no banco relativa àquele cheque que não tinha sido depositado, trocou a bolsa na loja pois com uma semana de uso ela tinha descosturado na alça, avisou à companhia de gás que a conta veio errada pois o marcador comum do prédio tinha apontado outro número”, e eu replico “nossa, você ficou todo o dia correndo sem sair do lugar?”. Cada vez mais o mundo de hoje nos empurra para um conjunto maior de tarefas, e no final das contas percebemos que não fizemos nada, não saímos do lugar. Durante dias, meses, anos, vidas a fio.

As pessoas em geral reclamam do meu cinema porque ele não tem movimento, porque os planos são muito longos e nada de importante acontece. Porque quando elas saem de casa para ir ao cinema elas querem que algo de importante aconteça nos filmes, que muita coisa aconteça. Em geral não percebem que nos filmes que vêem nada acontece de verdade. Acontece muita coisa, mas no fundo no fundo nada acontece. Como talvez ocorra na própria vida delas e que elas não se dão conta.

Acredito que nesse plano final do auto-retrato haja um longo, expressivo e grave movimento. Assim como acredito que o cinema do Straub seja um cinema sobre o movimento. Straub falou a coisa mais bonita que já ouvi sobre o cinema “saber filmar a revolução também é saber filmar o som do vento que balança a copa das árvores”. Ou seja, o que interessa a Straub é o movimento.

2)
Por outro lado, o movimento não existe.

De fato, Zenão tinha razão. Zenão elaborou um paradoxo fantástico, uma espécie de aporia contra o movimento. Zenão disse que o velocista Aquiles nunca iria alcançar uma tartaruga, uma vez que esta saísse na frente. Isso porque, como a tartaruga está a frente de Aquiles um espaço de “x” metros, enquanto Aquiles percorre esse espaço “x”, a tartaruga se locomoveu um espaço “y”, permanecendo à frente de Aquiles. Enquanto Aquiles percorre “y”, a tartaruga, por sua vez, já percorreu “z”, e assim em diante, de modo que a tartaruga sempre estará à frente de Aquiles.

Evidentemente, de forma empírica, conseguimos perceber intuitivamente que é óbvio que, em condições normais, Aquiles ultrapassará a tartaruga, mas através desse paradoxo, Zenão consegue mostrar como o movimento é coisa vã, ilusória, traiçoeira.

Para Zenão, o movimento não existe. A única coisa que existe é um Ser único e indivisível. Mas Zenão foi genial porque comprovou não somente isso, mas também que a linguagem não existe, ou melhor, que não faz sentido. O que veio a influenciar os filósofos contemporâneos como Husserl e até mesmo Wittgenstein.

A linguagem e o movimento são coisas que não existem, mas o cinema pode nos convencer que talvez elas possam ter algum sentido.

3)
Não é muito fácil para um cineasta eleata viver no Rio de Janeiro.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Fest Rio

Noite e Dia
de Hong Sang-Soo

Depois desse breve texto aqui, volto a refletir sobre um filme do coreano Hong Sang-Soo, após assistir Noite e Dia neste Festival do Rio. Sempre comparam a filmografia de Sang-Soo com a Rohmer, e de fato há vários pontos em comum (o cinema falsamente baseado em personagens ou aparentemente prosaico que esconde uma sofisticação formal, a divisão em cartelas, os personagens que pensam tanto sobre as suas relações que acabam deixando passá-las, o cruzamento entre decupagem e acaso, etc, etc.) mas pensando bem me parece hoje que o cinema de Sang-Soo tem muito mais a ver com o cinema do Truffaut que o de Rohmer. Os filmes de Rohmer, assim como os de Sang-Soo (e assim como os de Ozu mas em outra medida), se parecem uns com os outros, mas a diferença é que os filmes de Rohmer não o fazem DELIBERADAMENTE, como parece ser o caso com Sang-Soo. A cada filme se estimula uma relação com os anteriores, de modo a “esticar a corda” das relações de estrutura formais típicas dos filmes do coreano, baseados em “dobras sobre a narrativa”, inflexões, simetrias, relações, entre os personagens e entre as situações dentro do filme (aliás, como o próprio título “noite e dia” deixa mais à vista que os anteriores”).

A questão é que, pelo menos para mim, “parecer-se com Truffaut” trata-se de tudo menos de um elogio. E que o cinema de Rohmer pode ser tudo menos “joguinhos formais para entreter burgueses”. E que o cinema oriental é tudo menos “entreter-se com as futilidades dos relacionamentos humanos e rir-se das frivolidades do cotidiano”.


Minha Mágica
de Eric Khoo
**


Minha Mágica do Eric Khoo, é um filme estranho. Não vi os outros filmes do diretor, nem mesmo “Be with me”, que tenho guardado em casa mas ainda não tive a oportunidade de ver. O que é estranho é que ele trabalha com uma dualidade: de um lado, uma historiazinha absolutamente banal, que tende ao melodrama, com recursos dos mais desgastados (um pai pobre que faz os maiores sacrifícios para dar uma vida mais digna ao filho); de outro, um cinema de invenção formal e bastante radical (um cinema “nada agradável aos olhos”: a fotografia que não se rende à plasticidade, o sofrimento físico, a proposta de um cinema “cru”). Esse choque faz com que “Minha Mágica” tenha um certo tom muito particular, o que por si só já desperta uma curiosidade para o filme: de um lado, um filme realista, uma abordagem crua para o drama dos dessassistidos; de outro, um filme onírico (a mágica), de invenção. A delicadeza e o grotesco; a dor e a gentileza; um filme violento e emocionante, e por aí vai. É um filme ambíguo sobre um pai “que não sente mais dor”, que passou por coisas na vida que o tornaram a tal ponto insensível ao mundo que nada mais o afeta. Mas uma frase do seu filho o fez repensar isso. O final do filme, bastante particular, une essas duas pontas como uma reflexão sobre o próprio processo do cinema, resgatando o tom simbólico típico da cultura oriental, típico (me parece) de Singapura: uma cortina fechando em câmera lenta, representação do espetáculo de despedida como ritual de entrada para o mundo da morte, anunciação do espírito e lacuna de vigília, estado de torpor, entre o sono e o despertar da consciência. Estranho libelo de compaixão, mas falso quase na medida certa: sujo, incongruente (as mãozinhas em câmera lenta). Khoo parece querer valorizar e ao mesmo tempo destruir um certo apelo do cinema de gênero e do melodrama na estrutura do seu filme. Mas de qualquer forma, é inegável que o efeito contribui para um amaciamento do impacto da sua brutalidade crua, instintiva. Um filme imperfeito, mas que desperta várias reflexões.

Wonderful Town
De Aditya Assarat
* ½

E ainda tem o filme do Assarat, um filme daqueles que é difícil tecer comentários sobre ele, porque há diversas sutilezas envolvidas. Wonderful Town a princípio é um drama banal sem grandes novidades (um arquiteto vai inspecionar uma grande construção imobiliária numa cidade interiorana, destruída pelo tsunami, e se apaixona por uma das donas do pequeno hotel onde se hospeda), mas por trás disso há todo um sentimento de cinema que merece a nossa atenção: há toda uma vontade de imersão extremamente discreta e extremamente delicada num espaço físico em contraste com a vida caótica dos grandes centros urbanos que o cinema de Assarat abraça através do relacionamento do casal principal e através de um ambíguo abraço num espaço físico. A forma delicada que a direção abraça essa narrativa sem grandes novidades desperta uma certa curiosidade para o filme que, pela delicadeza e pelo gosto dos pequenos momentos e dos campos, lembra muito de leve o cinema do também tailandês Apichatpong. Mas quando a história começa a se desenvolver com bandidos, denúncia à exploração imobiliária, suspense e viradas, o filme perde o seu tom, acabando de uma forma um tanto desgastada. De qualquer forma, alguns momentos de delicadeza nos fazem ficar curioso em relação ao próximo trabalho de Assarat, ainda que este não tenha um saldo satisfatório.