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Cinecasulofilia

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sábado, novembro 15, 2008

174 e Leonera

Última Parada: 174, de Bruno Barreto
Leonera, de Pablo Trapero


Num mesmo dia, acabei vendo Última Parada: 174 no São Luiz, aproveitando a promoção do cinema brasileiro a R$4, e depois corri para ver Leonera numa sessão infezlimente bem vazia (10 pessoas) no Espaço (ex-Unibanco) 2.

O filme do Bruno Barreto apanha uma fórmula e reproduz sem novidades: o cinema brasileiro que fala da favela e do pobre e dos problemas sociais e como isso acaba em desgraça, e que para isso se baseia em fatos reais para criar um universo completamente ficcional.

Leonera, filme de um país vizinho ao Brasil, não deixa de fazer isso, mas faz tudo exatamente diferente disso. Leonera também se utiliza de uma “fórmula de sucesso de um cinema argentino”, e usa um caso individual e sua relação com uma “miséria” para com isso fazer repercutir a decadência das “instituições de um país”. Utiliza também uma relação umbilical com o “real”, mas ao invés de “se basear num história real” e construir em torno disso um universo ficcional totalmente falso, ele inventa uma história ficcional e constrói em torno disso um universo documental bem mais verdadeiro.

Para Trapero, o “real” não está ligado a recriar uma história que aconteceu e ficcionalizar para tornar mais palatável e ter uma alcance mais amplo, mas sim de fazer o espectador respirar no tempo e no espaço, de ensiná-lo a observar esse “real” de uma forma minimamente verdadeira.

Como se essa diferença (esse abismo) não fosse suficiente, há ainda outra tão grande ou importante quanto esta, e que torna Última Parada: 174 e Leonera filmes distintos: o rumo das coisas. Ambos os filmes falam de processos familiares: uma mãe que tenta ficar com um filho, uma mãe que, diante das circunstâncias, vê o seu filho arrancado dela, e tenta lutar para recuperá-lo. A diferença é que em 174 Sandro percebe, ao final, que está sozinho, completamente sozinho. Já em Leonera – e só isso já basta para fazer do filme algo muito bonito – todo o percurso da mãe no filme – e esse percurso se confunde com o seu percurso dentro da prisão – é no sentido de descobrir que “ela não está sozinha”. Leonera é sobre isso: como uma mulher, numa extrema experiência de privação de liberdade (a prisão), só então vem a perceber que “não está sozinha”.

Leonera é um tanto mais comercial, superficial e com alguns cacoetes em relação a El Bonaerense, que continua sendo o melhor trabalho de Trapero. Poderia aqui falar de uma certa influência de Central do Brasil no final, e em detalhes de “cinéfilo tarado”, como o plano final (bastante bonito) que achei parecido ao News From Home, da Chantal Akerman, ou como a fuga da casa é filmada de forma idêntica a O Assaltante, de Pablo Fendrik, que mostra uma comunhão bacana de um cinema argentino jovem, já que os diretores são próximos. Mas tudo isso é firula em relação ao fato principal: enquanto Leonera é um filme sobre a vida, 174 é um filme sobre a morte.

Nessa perspectiva, Leonera poderia ser pensado como uma resposta a Carandiru?

A cultura do artesanato

O artesanato para mim não é importante essencialmente como cultura, como resgate de uma forma específica de moldar algum material, como um processo específico que precisa ser preservado como memória. A não ser que quando falamos em cultura pensamos em uma forma de estar no mundo, como um modo de viver. O dia-a-dia voa, então precisamos almoçar em vinte minutos para depois ir ao banco, consertar a sola do sapato que descolou para depois correr para o trabalho. Em vinte minutos abocanhamos um sanduíche, comemos no fast food. Não comemos, engolimos a comida para sobreviver até a noite. Na preparação dessa comida, evidentemente não há possibilidade de preparo como cultura: a variável mais importante é o tempo, o tempo do fast food.

No cinema é a mesma coisa. Numa novela, num filme blockbuster, não há tempo de cozimento desses materiais, não há tempo de o cozinheiro escolher as matérias-primas da refeição com cuidado num certo mercado. Há um caminhão que chega com os produtos em grande quantidade, negociados pelo preço mais barato, e daí em diante.

Até aí tudo bem, porque concordamos com esse pacto demoníaco para ter o conforto da nossa internet e do ar condicionado com cerveja gelada, e pagamos esse preço absurdo por isso. O problema começa quando o consumidor começa a achar que o junk food é mais elaborado que o artesanato. Essa inversão de valores acontece não somente pela falta de educação, de conhecimentos “gastronômicos”, mas por uma imposição de valores, por uma lavagem cerebral que leva o consumidor a supor que “ao comer junk food” ele se insere em um grupo que é mais “bacana” que outro. E o que as pessoas querem no fundo é se inserir em um grupo que seja o maior e mais homogêneo possível.

Aí o artesanato passa a ser cultura, e eu defendo o artesanato como processo de resistência de uma forma de estar no mundo, e aí o artesanato como cultura vira processo político. No final de Desertum, eu fiquei “costurando” os fades, as fusões, a imagem e o som, esperando o tempo de cozimento desses alimentos. Poder saborear esse tempo de cozimento é como esperar o tempo da colheita numa horta, é como esperar o dia após a noite, é como esperar o verão após o inverno, é como esperar a neblina passar, é como esperar adormecer aquele antigo amor que se foi para surgir outro.