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Cinecasulofilia

0 - fuja! * - razoável ** - bom *** - muito bom, recomendado **** - obra-prima!

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Barwy ochronne

Mimetismo
de Krzysztof Zanussi
CCBB 17 qui 19:30
**

Como sempre vou escrever meia dúzia de linhas tortas e rápidas sobre esse raríssimo filme do Zanussi, exibido na Mostra de Cinema Polonês no CCBB (aliás, bela iniciativa...). A tradução foi “Mimetismo”, mas eu prefiro “Camuflagem”, que é como o filme é conhecido internacionalmente. O filme, dos anos setenta, é um murro de mão fechada no regime comunista polonês. Mas com aquele humor sarcástico tipicamente polonês. Eu só havia visto um único filme do Zanussi, que já comentei aqui duas vezes por ter o melhor título da história do cinema “a vida é uma doença sexualmente transmissível”. Este “Camuflagem” se passa numa espécie de “colônia de férias” em que um grupo de estudantes de diferentes universidades se encontram para participar de um Congresso, em que será escolhido o melhor trabalho apresentado. O filme gira em torno de um jovem professor (idealista) e um velho professor, que é seu chefe (cínico), que esperam a chegada do vice-reitor (politiqueiro) para distribuir os prêmios. O filme então é sobre política e poder, mas no fundo é sobre “a perda da inocência” ou sobre as “ilusões perdidas”. O jovem professor descobre um mundo (um ritual de aprendizagem, quase como nos romances alemães do século XVI) através do outro professor, cínico e desiludido com o sistema educacional polonês. Mas ficamos com uma sensação de que na verdade o problema não é a Polônia, ou não é exatamente o comunismo, e sim no fundo o problema são as pessoas, o poder, a ilusão, a hipocrisia e tudo o que gira em torno disso. Zanussi apresenta esse microcosmo através de um filme extremamente falado, falado, falado, mas ao mesmo tempo com uma certa vontade de cinema, e algumas liberdades formais. Por exemplo, os primeiros cinco minutos do filme já são um mergulho no acampamento, sem fazer a menor questão de apresentar os personagens. Da mesma forma, a câmera é observadora, discreta, ligeiramente documental, com câmeras na mão que dão ao filme um aspecto mais relaxado. O final tem um certo exagero que me incomoda (a quase morte) mas a ironia mordaz, os diálogos ágeis, a visão ácida sobre a vida e sobre as pessoas, esse cinismo quase niilista parecem ser uma constante do cinema de Zanussi. Seu “cinema da inquietação moral” não tem as repercussões metafísicas ou existenciais do seu “xará” Kieslowski. O que parece ficar da vida e das pessoas é essa acidez e essa consciência do fim das ilusões e da necessidade da hipocrisia para continuarmos sobrevivendo em grupo.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Gomorra

Gomorra
De Matteo Garrone
Estação Botafogo 1 qui 21hs
** ½

Para variar, não vou conseguir escrever nada mais elaborado sobre Gomorra. Minha sina, e a sina desse blog é essa: a de nunca conseguir escrever como gostaria. Aliás, uma sina da vida: a impossibilidade de se fazer as coisas com um mínimo de calma, com maior qualidade, com mais coerência. Mas nisso minto, volto atrás: é exatamente assim que esse blog afirma a sua coerência, ainda que essa coerência seja atabalhoada, que seja implícita – e não explícita – ainda que ela não seja formal e elaborada formalmente, ainda que ela aparentemente (mas só aparentemente) entre em conflito com a própria forma como faço os meus próprios filmes caseiros, com um bom tempo de maturação e com muito critério para separar com muito cuidado o que tenho apreço.

Mas enfim este texto corrido é para falar o que acho de Gomorra, e não para tentar me explicar porque esse texto não é como gostaria que fosse, ou como minha vida não é como gostaria que fosse, porque, ainda assim, ele (o texto) e ela (minha vida) o são, e o são dessa forma, e são de uma forma bastante coerente.

Bom, o fato é que, ainda que o filme demore bastante a engrenar, e ainda que eu não tivesse a menor expectativa, e ainda que eu tenha me aborrecido ao entrar no Estação (infelizmente cada vez mais eu saúdo a concorrência do Arteplex...), Gomorra é um filme interessante, que vale a pena ser visto. Gomorra me surpreendeu porque ao invés do retrato de sempre das mazelas da máfia, etc, o filme propõe uma radiografia bastante madura e contundente sobre a deterioração de um estado de coisas, e daí que o filme é muito mais que um retrato sobre a máfia, mas sim sobre a caótica situação da Itália como um todo. O filme tem um olhar para essa estrutura social italiana deteriorada, já expressa a partir de um uso expressivo das locações, em locais abandonados, caindo aos pedaços, etc. Tem um momento muito significativo em que, após um extermínio num quartinho, a câmera, em plano-sequência, acompanha o único sobrevivente que sai desse local subterrâneo e sobe uma pequena ladeira onde se integra com o caos urbano (o trânsito e a cidade).

Caos italiano, filme kafkiano, em que o olhar para as instituições se dá a partir da relação entre as pessoas, em como esse caos se reflete no dia-a-dia das relações pessoais, em como isso se repercute nos “negócios” e na família, nas futuras gerações sem perspectiva, mas sem vitimização ou discurso da miséria (não é Ken Loach, por exemplo). Com isso, a Itália de Gomorra nos lembra do Brasil, seja pela influência do submundo, seja pelo despreparo das instituições oficiais em reparar essas distorções absurdas.

Mas se nos lembra do Brasil, Gomorra é tudo o que Cidade de Deus (ou mesmo Tropa de Elite) não é. Pois o filme de Matteo Garrone, ao transpor o dia-a-dia desse submundo através da adaptação de um livro baseado em fatos reais para o mundo de regras próprias da ficção, não busca primeiramente a promoção do espetáculo da barbárie, ou em seduzir o espectador pela agilidade das cenas de ação. Gomorra retrata toda essa realidade através de um distanciamento, a partir de narrativas paralelas mas que não necessariamente se encontram (como nos jogos formalistas de roteiro como os filmes de Inarritu e companhia). Esse distanciamento faz com que o espectador perceba claramente que o filme assume uma postura crítica em relação a esse estado de coisas, e não que incite o espectador a mergulhar nos maravilhamentos sedutores do cinema de gênero. Isso faz com que Gomorra seja um filme seco, que tenha um alcance menos amplo em termos de público mas se torne um retrato contundente e que eticamente não seja tosco como a tão festejada dupla de brasileiros.

Gomorra faz isso através de um cinema arrojado, de planos alongados, com câmera na mão e uma estética que dialoga com um sentido de urgência caro ao documentário, mas sem os cacoetes dos filmes de ficção que tentam a todo o custo emular os recursos documentais como um fetiche (exemplo máximo é o terrível Domingo Sangrento, de Paul Greengrass). O elenco em atuações uniformes, intensas, sem espalhafatos como todo o filme. Cinema político em sua essência, mas sem panfletarismos, lembra um pouco Salvatore Giuliano na sua urgência, na sua vontade de cinema, na sua precisão. E impressiona por ser uma radiografia madura de uma Itália desorganizada. Não é só o Brasil que é “cronicamente inviável”.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Alex Viany: o crítico versus o cineasta

Sol Sobre a Lama, de Alex Viany *
Rua Sem Sol, de Alex Viany *
Ana, de Alex Viany ***


A importante e imperdível mostra no MAM sobre Alex Viany para mim coloca uma questão primeira: a relação entre a crítica e o cinema, no caso um crítico que também é cineasta. Como os filmes desse diretor se relacionam com as idéias desenvolvidas nos seus textos críticos? Isso é um tema (para mim pelo menos) extremamente interessante e bastante atual (é só lembrarmos por exemplo que Eduardo Valente acabou de apresentar seu primeiro longa). Então pensamos: até que ponto o diretor é coerente com suas idéias colocadas como crítico?

Vendo os três filmes de Viany em conjunto, somados ao Agulha no Palheiro, que já tinha visto anteriormente, apesar de ter dele uma lembrança fugidia, a impressão é infelizmente negativa. Em seus escritos, em especial no histórico livro Introdução ao Cinema Brasileiro, e também na sua participação nos Congressos do Cinema Brasileiro, nos anos cinqüenta, Viany defende uma certa idéia de um “cinema independente brasileiro”. Acontece que, nos seus filmes, ele praticamente joga por água abaixo qualquer idéia mais coerente de um caminho razoável para o cinema brasileiro.

Nesse ponto, Agulha no Palheiro é mais coerente, como um filme popular, de modo de produção barato mas com uma certa possibilidade de dialogar com um público mais amplo. De outro lado, Ana é um filme de ritmo mais contemplativo, que demonstra as virtudes de Viany como diretor tendo um bom roteiro a mão (os três longas têm roteiros, digamos, um tanto sofríveis). Episódio do longa Rosa dos Ventos, organizado por Joris Ivens, Ana, o episódio brasileiro dirigido por Viany com roteiro de Alberto Cavalcante, mostra um conjunto de pobres trabalhadores indo de caminhão para São Paulo na esperança de uma vida melhor. Cinema de inclinação humana sem grandes estardalhaços melodramáticos e sem se render ao espetáculo ou ao popularesco – as tendências a que Viany sempre se rendia. O ápice desse média é sem dúvida a inesquecível cena do parto na beira da estrada: a decupagem precisa, o ritmo lento, marcado pelo sol a pino do sertão, o som seco, a abordagem concisa, nos lembra até o estilo de Vidas Secas, já que esse episódio é de 1955.

Rua Sem Sol é um projeto de encomenda que Viany aceitou dirigir em substituição a Mario Del Rio, que chegou a dirigir as primeiras cenas do filme, passadas numa delegacia. É um grande melodrama que conta a história de uma mulher que se prostitui (na verdade vira dançarina de um cabaré) para cuidar da irmã cega doente, depois que elas ficam pobres (desamparadas) com a morte do pai. É estranho porque o roteiro – bastante frágil – combina vários estilos: o melodrama feminino “meu mundo caiu”, o lado policial (o filme é narrado em flashback no depoimento da mulher na delegacia depois que é presa, há uma tímida exploração de um submundo com o dono do cabaré, etc.) e um lado meio humorístico, com a presença de um amigo do pai das duas irmãs, que é um compositor popular (é o lado “agulha no palheiro” do filme). Essa combinação estranha até que é bem articulada por Viany, e o filme também conta com boa atuação de Glauce Rocha. Há um plano digno de nota: ao sair do cabaré, perambulando pelas ruas quase de manhã, Glauce Rocha dá de cara com esse amigo do pai dela. Nessa surpresa há um momento estranho: uma câmera na mão e um corte rápido para o mar. Esse breve plano do mar foi uma coisa que me marcou muito nesse filme. No entanto a fragilidade do roteiro em muito compromete o filme, ainda que a direção sóbria de Viany indiscutivelmente contribua para salvar o filme do total desastre. Mas ainda assim fica a questão por que Viany resolveu aceitar o convite para dirigir o filme. Por fim, ainda fica a sensação de que, com um filme de “inclinações morais” antiquado como esse, Viany estava muito mais do lado do “grupo paulista” (Khouri e Biáfora, por exemplo) do que daqueles que batalhavam de fato por um cinema criativo e de invenção brasileiro.

Depois de Rua Sem Sol, nada melhor que Sol Sobre a Lama. Já pelo título percebe-se que tratam-se de dois trabalhos antípodas. Do melodrama conservador moralista, Viany agora vai dialogar com o “cinema baiano”, com o “pré-cinema novo”, num roteiro com tendências esquerdistas e políticas bastante evidentes. O filme fala dos trabalhadores do porto na Bahia, revoltados com o desleixo das autoridades em relação à limpeza e com condições extremamente precárias do local, ainda que cobrando altos impostos, e tentam se insurgir contra as forças locais. O argumento é bastante “revolucionário”, mas Viany foi muito criticado por dois motivos: primeiro que o roteiro desenvolvido por ele e Palma Netto (também produtor) incita a uma tentativa conciliadora, um apaziguamento do conflito, condenando os trabalhadores que partem para a violência e, no final, propondo uma aliança com o prefeito local e a morte do líder da insurreição. Segundo, por promover um “cinema espetáculo”: ao invés de buscar um estilo “neo-realista”, Viany contrói a vila dos trabalhadores de forma falsa, sem vida, e enche o filme de gruas e grandes cenas de ação, buscando o espetáculo, num filme de grande orçamento e em cores. Resulta num filme confuso, mais longo do que deveria (e ainda assim Viany brigou com o produtor, chegando a entrar na justiça para que retirassem seu nome dos créditos de direção, já que o produtor remontou o filme à sua revelia...) e conceitualmente absolutamente equivocado. Equivocado em relação a um projeto para o cinema brasileiro, mostrando que no fundo Viany acabou seduzido pelo poder e por Hollywood, que ele conheceu bem como correspondente da revista Cruzeiro. Por outro lado, o filme não é propriamente um desastre, pois Viany combina no filme elementos cinematográficos que o interessam, como o início tipicamente influenciado pelo cinema japonês e as cenas de ação, bastante bem filmadas.

Se os dois filmes, como obras cinematográficas, são interessantes, apesar de não serem particularmente bem-sucedidos, de um lado apontam para conceitos de cinema quase opostos, e ainda assim distantes do caminho trilhado, por exemplo, pelo cinema novo. Mas o que mais assusta ao vê-los é como eles se afastam da coerência das propostas de Viany para um cinema brasileiro, defendido ao longo de suas críticas e de seus textos.

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Será que os filmes de Viany permanecem atuais?

Un conte de Noël

Um Conto de Natal
de Arnauld Depleschin
Estação Botafogo 2 sab 21:15
**


Terei que escrever rápido sobre Um Conto de Natal, do Depleschin, diretor que respeito muito por seu filme anterior, de que gosto muito, o Reis e Rainha, que abordei aqui. Esse Um Conto de Natal reforça as qualidades de Depleschin como um contador de histórias sobre a família, por não se render aos chamados “cacoetes autoriais do cinema contemporâneo”, e no seu estilo de “grande ansiedade”, em abordar um conjunto de situações, pessoas, frases e acontecimentos meio que atabalhoadamente, de uma única vez. Isso no caso de Depleschin é uma virtude e, apesar das mais de duas horas de duração desses dois filmes, fica uma sensação de que realmente muita coisa aconteceu e que ainda houve muita coisa que não foi dita pelo diretor sobre aquelas pessoas e situações. Nessa ânsia de falar é que entra o personagem do Mathieu Amalric, composto de forma brilhante por esse grande ator francês. Amalric é um louco meio filho da puta mas que a narrativa, mal ou bem gira em torno dele, ele é o personagem com o qual o diretor gostaria que o espectador se identificasse, ainda que notadamente ele faça atitudes nada elogiáveis. É nessa corda-bamba que se equilibra o cinema de Depleschin. Esteticamente, Depleschin compõe um cinema narrativo interessante, fragmentado, com uma vontade de linguagem bem particular, desde o começo com uma espécie de lanterna mágica, mesclando episódios, dias, etc., saltando entre os personagens, entre as situações com grande desenvoltura, indo da comédia ao drama, mesclando vários estilos, ritmos e abordagens. Ao mesmo tempo também não se pode deixar de dizer que ao final desse Um Conto de Natal fica uma certa sensação de diluição dos temas trabalhados em Reis e Rainha: o amor e ódio ao tema da família, o apreço a personagens desequilibrados, um pai (uma mãe) que odeia um filho, um matriarca que está prestes e morrer, conflito entre gerações, etc. Depleschin não aprofunda dramaticamente os temas colocados em Reis e Rainha: me pareceu que ele só os coloca de uma outra forma, mas sem acrescentar, ainda que não tenha perdido o seu interesse. O grande mosaico de personagens faz também que a narrativa inevitavelmente se dilua um pouco, e o drama desses personagens acabe não sendo aprofundado ou desenvolvido. A trama gira em torno de uma matriarca (Catherine Deneuve) que descobre que tem uma doença rara e precisa de um transplante de medula para não morrer. A família tem que descobrir um doador possível, e aproveita-se isso para reunir num Natal toda a família. Será a primeira vez que todos estarão reunidos após a separação de dois irmãos (Amalric e Anne Consigny) por causa de um processo e de uma dívida. Nesses dias de Natal, a família lava a roupa suja e tem diversos tipos de situações, em geral, de um lado com Amalric e sua namorada judia, de outro, a irmã (Consigny) com o marido e o filho que saiu do hospital. De outro lado, Chiara Mastronianni descobre que outro homem sem ser seu marido a amava, mas que “deixou” que ela se casasse com o outro. Amalric é o único dos filhos que pode ser doador: a mãe lamenta, porque nunca gostou dele, mas tem que aceitar essa ironia do destino. Enfim, todo o elenco está formidável, o que mostra que Depleschin é um belo diretor de atores. Em especial, além do talento incrível de Amalric, para mim se destaca o jovem Emile Berling, que faz o papel do adolescente recém-saído do hospital, que também se descobre doador. Um papel de contenção, desenvolvido de forma discreta, mas bastante contundente.

- o obituário de Moniz Vianna não citou uma de suas atividades mais interessantes e menos exploradas: a de diretor do INC. Eu, que sonhava um dia conseguir fazer uma entrevista com ele a respeito, terei que deixar, digamos, para uma outra oportunidade...


- a Casulo Filmes já está no Google Maps... cliquem e divirtam-se...

domingo, fevereiro 01, 2009

Acredite se quiser mas tive a honra de ser indicado ao grande premio vivo do cinema brasileiro ...
http://oglobo.globo.com/blogs/cineclube/post.asp?t=indicados-ao-premio-vivo-de-cinema-brasileiro&cod_post=156408