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Cinecasulofilia

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segunda-feira, março 30, 2009

Hitori musuko

Filho Único
De Yasujiro Ozu
MAM sab 16hs
*** ½

A cada dia que passa eu tenho mais dificuldade de falar sobre cinema, ainda mais em se tratando de um filme do mestre Yasujiro Ozu, em que o principal não é dito, é um cinema de enorme complexidade por trás de sua aparência equilibrada e centrada. Filho Único é o primeiro filme sonoro de Ozu, feito em 1936, e comprova que Ozu já tinha completo domínio do que queria filmar e como fazê-lo, seja a partir do olhar absolutamente singular do tema da família, seja através de uma escrita cinematográfica absolutamente ímpar. É incrível vermos que em 1936, em seu primeiro filme sonoro, Ozu já tinha total consciência de sua singularidade dentro do cinema japonês. Segundo, que se trata de talvez o filme mais pessimista do diretor, um olhar sombrio sobre o Japão que então se encaminhava para a maior tragédia de sua história (é um filme profético): é impressionante como Ozu cruza com maestria essa história individual com (indiretamente) a coletiva, sem nunca parecer esquemático ou determinista.

A narrativa é um primor: uma mãe se sacrifica ao máximo para que seu filho possa estudar na capital Tóquio para “ser alguém”, e vários anos depois ela vai visitá-lo. Ele, no entanto, não se tornou o que ele próprio esperava de si: é um simples “professor de escola noturna”, ganhando pouco e vivendo na periferia. Há uma cena em que o filho leva a mãe para passear, e na paisagem só se vêem as quatro chaminés que incineram lixo. Realmente Tóquio tem muito lixo, como se fabrica lixo em Tóquio! Eles se sentam ao chão, e o filho diz à mãe que ela deve estar decepcionada com ele (isso nos lembra “a vida é mesmo uma grande decepção, não?”), pois ele não se tornou aquilo que ela tanto havia se sacrificado. O filme tem uma tentativa de reedificação moral (ele é um grande homem, ainda que não tenha status social ou econômico), mas o que fica de fato é esse enorme vazio das coisas, esse final inacreditavelmente triste quando a mãe volta para sua cidade natal (Filho Único pode ser visto como um falso filme de viagem, o que me lembra do meu trabalho) e diz à sua amiga como é Tóquio ou o que se tornou o seu filho, e completa que agora ela está pronta para morrer.

Como se não bastasse, há outra linda cena, um comentário irônico: o filho leva à mãe ao cinema para ver o cinema sonoro, um filme em alemão em que um homem persegue uma mulher pelo mato, numa cena de insinuações sexuais, com uma câmera em travelling. Ou seja, o oposto do cinema do Ozu (vejam a modernidade!). A mãe dorme, entediada com “a nova invenção da humanidade” (o cinema sonoro). Essa metalinguagem surge como uma ironia rara no cinema de Ozu, como mais que um comentário, uma declaração de princípios sobre a base do seu cinema, um postulado ético que Ozu irá abraçar não só nesse filme, mas em todos os demais por mais de três décadas.

Filho Único é decisivamente um dos grandes filmes da filmografia de Ozu.

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